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Medidas da gordura abdominal podem ser mais precisas para indicar riscos cardíacos.
G1 — Brasil · 2026-08-12T06:00:10.000Z
Medidas da gordura abdominal podem ser mais precisas para indicar riscos cardíacos.
Michal Jarmoluck para Pixabay
A gordura acumulada na região abdominal pode ajudar a identificar o risco de doenças cardiovasculares de forma mais precisa do que o índice de massa corporal (IMC) sozinho.
Os pesquisadores avaliaram a circunferência da cintura (CC) e a relação cintura-quadril (RCQ), medidas usadas como indicadores indiretos da chamada adiposidade central, e compararam os resultados com as categorias tradicionais de IMC (peso normal, sobrepeso e obesidade).
A conclusão foi que as medidas da região abdominal podem reclassificar o risco cardiovascular de pessoas que, considerando apenas o IMC, seriam colocadas em uma categoria diferente de risco.
Mais que IMC: especialistas propõem reformulação de diagnóstico da obesidade
De acordo com a pesquisadora Zeina A. Dardari, autora principal do estudo, os resultados mostram a importância de se medir a gordura abdominal, mesmo em indivíduos com IMC considerado normal.
"Basear-se exclusivamente no IMC pode levar a uma classificação incorreta do risco cardiovascular em uma ampla gama de desfechos cardiovasculares", analisa a autora.
Cristóbal Morales, responsável pela Unidade de Saúde Metabólica, Diabetes e Obesidade do Hospital Vithas Sevilla e membro da Sociedade Espanhola para o Estudo da Obesidade (SEEDO), não participou do estudo, mas analisa que os achados reforçam os prejuízos já conhecidos da gordura visceral para a saúde.
"O estudo fundamenta a ideia de que não importa o peso total, mas onde está esse peso e, sobretudo, a gordura visceral, que é a que já sabíamos que era mais prejudicial metabolicamente", afirma.
O que o estudo descobriu
Entre as pessoas classificadas como tendo peso normal pelo IMC, 5% apresentavam circunferência da cintura elevada e 18% tinham relação cintura-quadril elevada.
No grupo com sobrepeso, 39% tinham circunferência da cintura elevada e 40% apresentavam relação cintura-quadril elevada.
Já entre as pessoas classificadas como obesas, 9% tinham circunferência da cintura baixa e 45% apresentavam relação cintura-quadril baixa.
Segundo o estudo, entre pessoas com peso normal ou sobrepeso, ter uma circunferência da cintura ou relação cintura-quadril elevadas esteve associado a um risco 15% a 50% maior para a maioria dos desfechos cardiovasculares avaliados.
👉Os pesquisadores analisaram nove problemas cardiovasculares:
Infarto do miocárdio fatal e não fatal
Acidente vascular cerebral (AVC) fatal e não fatal
Doença arterial coronariana
Morte por doença arterial coronariana
Morte por doença cardiovascular
Morte por qualquer causa
"O estudo mostrou que há pacientes sem obesidade, com peso normal ou com sobrepeso, que, com uma gordura abdominal elevada, têm maior risco desses nove eventos cardiovasculares maiores que aparecem no estudo", diz Morales.
Entre as pessoas com obesidade, uma circunferência da cintura baixa não esteve associada a uma diferença significativa de risco em comparação com pessoas de peso normal e cintura baixa – com exceção da mortalidade por todas as causas, que apresentou risco significativamente menor.
Entre as mulheres com obesidade e relação cintura-quadril baixa, porém, o risco permaneceu significativamente maior para todos os desfechos quando comparado ao de mulheres com peso normal e relação cintura-quadril baixa.
Ainda assim, o risco foi menor do que entre mulheres com obesidade e relação cintura-quadril elevada.
Mais que IMC: especialistas propõem reformulação de diagnóstico da obesidade
Por que o IMC pode não contar toda a história
O IMC é calculado a partir da relação entre peso e altura. O problema, segundo os pesquisadores, é que ele avalia a adiposidade total, mas não fornece informações sobre a composição corporal.
A circunferência da cintura e a relação cintura-quadril, por outro lado, são medidas indiretas da concentração de gordura na região central do corpo.
👉No início de 2025, uma publicação da Comissão sobre Obesidade Clínica, formada por 56 especialistas de todo o mundo, na revista científica "The Lancet Diabetes & Endocrinology" já defendia uma grande reformulação no diagnóstico de obesidade, indo além do IMC.
Os especialistas reforçavam justamente o ponto de que é necessário considerar medidas de gordura corporal para evitar classificações incorretas.
Para Andreea Ciudin, endocrinologista e coordenadora da Unidade de Obesidade do Hospital Vall d'Hebron, o estudo mais recente sustenta a importância de acrescentar essas medidas à avaliação do risco cardiovascular, mas não de abandonar o IMC.
"O principal argumento está correto, desde que se refira à adição dos parâmetros antropométricos da cintura para melhorar a avaliação de risco cardiovascular. No momento, não há dados robustos suficientes na literatura que sustentem a substituição do IMC pela RCE (relação cintura-estatura), por exemplo, na avaliação do risco cardiovascular."
Ela também destaca que a circunferência da cintura e a relação cintura-quadril não medem diretamente a quantidade de gordura visceral.
"Além disso, não podemos esquecer que a CC e a RCQ são medidas indiretas de adiposidade central; elas não equivalem a quantificar diretamente a gordura visceral mediante técnicas de imagem."
Medida pode complementar o IMC
Para os especialistas, uma das vantagens das medidas avaliadas no estudo é a facilidade de aplicação na prática clínica.
"Isso tem uma vantagem prática importante: medir a circunferência da cintura é barato e calcular a RCQ é tão rápido quanto o IMC'", afirma Ciudin.
Ela ressalta, porém, que ainda não há dados suficientes para afirmar que reduzir especificamente a relação cintura-estatura, por si só, melhora os desfechos de saúde.
"Ainda faltam dados que nos digam se realmente reduzindo a RCE se consegue melhora em resultados de saúde, pela simples razão de que todo o mundo no manejo da obesidade se centrava em peso e é relativamente recente a incorporação da RCE neste manejo", analisa.
🚨Uma das limitações do estudo, pontuada pelos autores, é que se trata de um estudo observacional. Isto é, não envolve uma intervenção e, somente a partir dele, não é possível estabelecer uma relação de causa e consequência.
Além disso, segundo pesquisadores que não participaram do levantamento, há restrições como:
Falta de informações sobre atividade física, dieta e genética da obesidade.
Medida única da circunferência da cintura e da relação cintura-quadril – o que dificulta saber como essas medidas mudaram durante os anos de acompanhamento e se essa evolução poderia ter influenciado os resultados.
Os autores concluem que a circunferência da cintura e a relação cintura-quadril podem identificar classificações incorretas feitas com base apenas nas categorias tradicionais de IMC.
Além disso, podem ser boas aliadas para acrescentar informações para a avaliação do risco cardiovascular em pessoas com peso normal, sobrepeso ou obesidade.