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Justiça libera nove advogados presos por suspeita de atuar como 'pombo-correio' de facções no Ceará

Operação prende 11 advogados suspeitos de atuar como 'pombo-correio' de facções no Ceará

G1 — Brasil · 2026-08-12T21:13:51.000Z

Operação prende 11 advogados suspeitos de atuar como 'pombo-correio' de facções no Ceará

A Justiça mandou soltar nove advogados que foram presos suspeitos de atuar como mensageiros de facções criminosas. Um grupo de 11 advogados foi durante operação do Ministério Público em junho deste ano.

À época da operação, uma suspeita estava foragida, com domicílio na capital paulista. Não há atualizações se ela foi capturada e não foi divulgado o nome dela.

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Os advogados soltos são:

Cíntia Emanuela Daniel Alves Gonçalves

Raissa Xavier Leitão

Agnelo Alexandre de Souza Amorim

Débora Marny de Aguiar Parente

Francisca Leny Carneiro Correia Montenegro

Ana Flávia Martins Braga da Silva

Carina Brauna Bruno Sales

Maria Jakelyne Albuquerque Almeida

Tancredo de Lima Araújo

O advogado Rennier Martins Vasconcelos já estava solto. A situação do 11º preso não foi divulgada.

A Justiça concedeu a liberdade do grupo e determinou as seguintes medidas cautelares:

Proibição de acesso e frequência a qualquer estabelecimento prisional ou unidade de privação de liberdade do Estado do Ceará

Suspensão do exercício da atividade profissional da advocacia, mantendo-se a restrição já aplicada pela OAB

Proibição de manter contato, por qualquer meio de comunicação, com os demais investigados, corréus e testemunhas da ação penal

Proibição de ausentar-se da comarca de residência sem autorização prévia e expressa da Justiça

Recolhimento domiciliar no período noturno, das 20h às 6h, e nos dias não úteis

Monitoramento eletrônico mediante uso de tornozeleira eletrônica

"Não há justificativa para manter presos profissionais que tiveram o próprio exercício da profissão suspenso. Quando o meio que supostamente viabilizaria a conduta investigada deixa de existir, desaparece também o motivo que sustentava a prisão. A liberdade, nesse caso, não é um favor, é consequência do direito", disse uma nota coletiva assinada pela defesa técnica dos advogados (veja abaixo a nota na íntegra).

Operação do MPCE

Batizada de “Mensageiros do Crime”, a operação identificou uma "rede de comunicação estruturada" que utilizava advogados para transmitir ordens de chefes do crime presos para integrantes das facções, dentro e fora do Ceará.

A ação também cumpriu mandados contra chefes de organizações criminosas e resultou no bloqueio de R$ 20 milhões das contas dos investigados, além da apreensão de bens. Um veículo Range Rover blindado foi apreendido com um dos chefes de facção preso. A operação também apreendeu celulares, notebooks e joias dos demais alvos.

Ao todo, foram expedidos 29 mandados de prisão e 29 de busca e apreensão nos municípios de Fortaleza, Aquiraz, Caucaia, Itatinga, Maracanaú e São Gonçalo do Amarante, além de São Paulo. Segundo o MPCE, 17 mandados de prisão foram cumpridos contra chefes de facção criminosa, sendo que 15 já estavam presos na Unidade Profissional de Segurança Máxima do Estado do Ceará e dois estavam em liberdade.

Captação de áudio em presídio

Operação cumpre 58 mandados contra chefes de facções e advogados que atuavam como mensageiros no Ceará

As investigações tiveram início após decisão do Tribunal de Justiça do Estado, em novembro de 2025, que autorizou a captação de imagens e áudios nos parlatórios do presídio de segurança máxima. A análise do material revelou indícios de que determinados advogados, sob o aparente exercício da assistência jurídica, atuavam em favor de organizações criminosas.

De acordo com o MPCE, conversas registradas entre 8 de dezembro de 2025 e 15 de janeiro de 2026 apontaram um padrão reiterado de condutas criminosas entre detentos e advogados, com uso de linguagem codificada para tratar de assuntos ilícitos.

As comunicações incluíam repasse de ordens e orientações a familiares, outros presos e integrantes em liberdade, com finalidades como reorganização de facções, expansão territorial, cooptação de membros, aquisição de armas e circulação de drogas.

As apurações também indicaram que, mesmo presos, os chefes de facção continuavam exercendo funções relevantes dentro das organizações criminosas. Segundo o Ministério Público, os advogados atuavam como “pombos-correio” ou “advogados de recado”, em conduta que extrapola os limites do exercício profissional e contribui para o fortalecimento das facções.

Os diálogos interceptados ainda mostraram que a maioria dos advogados investigados possui vínculos entre si, com referências mútuas constantes, o que indica a existência de uma rede estruturada e não de atuações isoladas.

Também foi identificado que esses profissionais visitavam os mesmos detentos com frequência elevada e realizavam grande volume de atendimentos, em quantidade considerada incompatível com o padrão regular de assistência jurídica, conforme dados do Sistema Integrado de Gestão Penitenciária.

Veja nota na íntegra da defesa técnica dos advogados soltos:

"A decisão que devolveu a liberdade a nove advogados, na última segunda-feira, representa o reconhecimento de uma verdade que sempre sustentamos: não há justificativa para manter presos profissionais que tiveram o próprio exercício da profissão suspenso. Quando o meio que supostamente viabilizaria a conduta investigada deixa de existir, desaparece também o motivo que sustentava a prisão. A liberdade, nesse caso, não é um favor — é consequência do direito.

O juízo responsável pela decisão reconheceu, de forma técnica e fundamentada, que os advogados presos se encontravam em situação idêntica à daquele que já havia obtido a liberdade. Manter alguns presos e soltar outros, diante das mesmas circunstâncias, seria tratar desigualmente quem está em posição igual. Foi exatamente isso que a decisão evitou, ao estender a todos os advogados o mesmo tratamento jurídico.

Mas é preciso deixar claro: esta é apenas a primeira etapa de uma longa batalha. A liberdade conquistada hoje é o começo, não a chegada. O processo que levou à prisão injusta desses profissionais está repleto de irregularidades — a começar pela forma como foi autorizada a gravação das conversas entre advogados e seus clientes, medida que desrespeitou as garantias legais e as prerrogativas da advocacia.

Todas essas irregularidades serão demonstradas, uma a uma, ao longo da instrução processual. O grande objetivo da defesa não é apenas a liberdade, já conquistada: é a anulação de um processo construído sobre bases frágeis e ilegais. Advogados não podem ser tratados como instrumento de espetáculo punitivo.

Vencemos a primeira batalha. Seguimos firmes, porque esta é apenas a primeira página de uma história que ainda será escrita."

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