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Eleições em SP: acesso à escola avança, mas educação enfrenta desafio de qualidade em meio à era digital

Hoje, 95% das crianças e adolescentes têm acesso à sala de aula.

G1 — Brasil · 2026-08-13T13:09:33.000Z

Hoje, 95% das crianças e adolescentes têm acesso à sala de aula.

Há cerca de 30 anos, encontrar uma informação podia exigir tempo e paciência. Para descobrir, por exemplo, como era a erupção de um vulcão, era preciso recorrer a enciclopédias e procurar a resposta em meio a milhares de páginas.

Hoje, basta digitar uma pergunta no celular para receber milhares de resultados em poucos segundos — ou pedir uma resposta à inteligência artificial. A forma de buscar conhecimento mudou. E, nas últimas décadas, também mudou o principal desafio da educação brasileira.

No fim da década de 1980, cerca de 40% da população em idade escolar não era atendida. O desafio era ampliar a infraestrutura e garantir que crianças e adolescentes chegassem às salas de aula. Hoje, 95% têm acesso à escola. O desafio passou a ser garantir a qualidade do ensino e a aprendizagem — em um mundo marcado pelo excesso de informação e pelas novas tecnologias.

“O desafio era colocar, criar novas escolas, construir novos prédios, contratar novos professores, colocar essas crianças, esses adolescentes na escola. É um desafio completamente diferente do desafio atual, em que quase a totalidade dessas crianças já estão sendo atendidas na escola, mas a gente tem um desafio imenso da qualidade da educação oferecida, da aprendizagem”, afirma Gabriel Corrêa, diretor de Políticas Públicas do Instituto Todos Pela Educação.

Da falta de informação ao excesso

Se antes encontrar uma informação podia levar horas, hoje o problema é outro: saber o que fazer com a quantidade de conteúdo disponível.

Internet, celulares, redes sociais, vídeos e ferramentas de inteligência artificial colocaram o conhecimento na palma da mão. Ao mesmo tempo, especialistas e educadores alertam para a dificuldade de manter a concentração e para a necessidade de ensinar os estudantes a identificar o que é informação confiável, boato ou desinformação.

“A informação hoje está mais acessível. Mas a que preço? Então, como é que eu sei que a informação que eu estou pesquisando é uma informação fidedigna, é uma informação real? Hoje há muito acesso, muita facilidade, mas a gente não sabe até que ponto as pessoas conseguem aprender essa informação para que ela gere conhecimento”, afirma Adriana Maria de Souza, professora e coordenadora do curso de Biblioteconomia da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

A inteligência artificial é um dos exemplos dessa mudança. Ferramentas capazes de produzir textos e respostas em poucos segundos podem auxiliar os estudos, mas também levantam preocupações sobre o uso automático de conteúdos e o chamado “copia e cola”.

Para especialistas, a escola precisa ajudar o aluno não apenas a encontrar respostas, mas a desenvolver capacidade de análise, interpretação e pensamento crítico.

Professora Adriana Maria de Souza

Formação de professores

Melhorar a aprendizagem também passa pela formação e pela valorização dos profissionais que estão em sala de aula. Gabriel Corrêa afirma que a carreira docente ainda é pouco valorizada, que os cursos de formação inicial apresentam problemas e que a formação continuada dos professores também precisa avançar.

“A gente ainda atrai mal para a profissão docente. É uma profissão pouco valorizada, os cursos de formação para essa profissão são de baixa qualidade no geral e, ao longo da carreira, a formação e o desenvolvimento profissional desses professores ainda também estão aquém do necessário”, explica.

Segundo ele, melhorar a qualidade do ensino passa por investir no corpo docente e na formação dos profissionais.

“A gente precisa olhar para a qualidade do ensino, para a qualidade do corpo docente, para que a gente de fato possa melhorar a aprendizagem dos estudantes no estado de São Paulo e no país”, diz.

Para Ernesto Martins Faria, diretor-fundador do IEDE (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional), é necessário começar o acompanhamento desde os primeiros anos da vida escolar.

Ele defende investimentos na educação infantil e na construção de uma base sólida de aprendizagem, além do monitoramento do desempenho dos alunos e de ações relacionadas a currículo, formação de professores e condições das escolas.

Evasão escolar ainda preocupa

Internet, celulares, redes sociais e ferramentas de inteligência artificial são grande desafio na sala de aula.

Garantir o acesso à escola também não significa que todos os estudantes permanecerão nela até o fim da educação básica.

Dados da rede estadual e do Inep mostram que a evasão escolar diminuiu nas últimas décadas. No fim dos anos 1990, o índice era de cerca de 11%. Hoje, está em torno de 3%. Apesar da redução, o abandono ainda é um problema, principalmente no ensino médio.

Para Gabriel Corrêa, um dos motivos é a dificuldade de os jovens relacionarem o que aprendem na escola com a própria realidade e com o futuro profissional e acadêmico.

“A escola deixou de ser interessante para esses jovens. O jovem não consegue mais conectar o que ele vive na escola com o que ele vê no seu mundo real, na juventude, e com seu futuro profissional, seu futuro acadêmico”, afirma.

Segundo ele, é necessário repensar o currículo e a forma como as aulas são dadas para aumentar o interesse dos estudantes. O especialista também defende maior apoio aos alunos mais pobres, que apresentam taxas mais altas de evasão.

Desafio é garantir equidade

A rede estadual de São Paulo tem cerca de 5,6 mil escolas e atende mais de 3 milhões de alunos. Eles vivem em realidades muito diferentes, o que torna a equidade outro ponto central para melhorar a educação.

Para Ernesto Faria, políticas educacionais precisam considerar as desigualdades e acompanhar as necessidades de cada estudante, independentemente de sua origem ou do local onde vive.

“O desafio é colocar equidade no centro, com políticas que coloquem de fato o olhar para o combate às desigualdades”, afirma.

Segundo ele, é preciso garantir que os estudantes sejam acompanhados e estimulados para desenvolver todo o seu potencial de aprendizagem.

A educação paulista, portanto, enfrenta hoje desafios diferentes daqueles do fim do século passado. Se antes era preciso ampliar a rede para garantir que crianças e adolescentes tivessem acesso à escola, agora é necessário melhorar a qualidade do ensino, combater a evasão e preparar os estudantes para um mundo em que a informação está disponível em poucos segundos.

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