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Raro sapo azul da Amazônia vira objeto de desejo está na rota do tráfico internacional
G1 — Campinas e Região · 2026-08-13T13:11:31.000Z
Raro sapo azul da Amazônia vira objeto de desejo está na rota do tráfico internacional
Pequeno, venenoso e com uma coloração azul que chama atenção em meio à floresta. Uma população do sapo-ponta-de-flecha Adelphobates galactonotus, espécie encontrada apenas no Brasil, acabou despertando não apenas o interesse da ciência, mas também de colecionadores de animais exóticos no exterior.
O anfíbio apresenta uma impressionante variedade de cores. Dependendo da população, pode ter o dorso amarelo, laranja, vermelho, azul, marrom e até apresentar outras tonalidades e padrões.
Entre elas está um morfotipo azul encontrado na Amazônia brasileira. A coloração incomum tornou esses animais especialmente desejados no mercado internacional de pets exóticos.
O interesse foi tamanho que exemplares retirados ilegalmente da natureza no Brasil cruzaram o Atlântico, passaram pela Europa e chegaram aos Estados Unidos.
A história só foi interrompida por uma apreensão no Aeroporto Internacional de Miami.
Sapo-Ponta-de-Flecha-da-Amazônia (Adelphobates galactonotus) de cor azul
lucasmrabelo / iNaturalist
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Sapos brasileiros em uma rota internacional
No fim de 2017, uma importação comercial de Adelphobates galactonotus vivos chegou da Europa ao Aeroporto Internacional de Miami, nos Estados Unidos.
Ao inspecionar a carga e a documentação apresentada, agentes do U.S. Fish and Wildlife Service (USFWS), órgão responsável pela proteção da fauna silvestre nos Estados Unidos, encontraram 22 sapos com a coloração azul, além de exemplares vermelhos e alaranjados.
A presença daqueles animais levantou suspeitas.
Segundo o USFWS, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) normalmente autorizava a exportação da espécie apenas para instituições científicas. O órgão norte-americano afirma ainda que os espécimes exportados para fins científicos não eram vivos e que o Brasil nunca havia autorizado a exportação do raro morfotipo azul.
A documentação apresentada, portanto, não explicava como aqueles animais haviam chegado legalmente à Europa.
"É fundamental quebrar o mito do comércio legalizado nesses casos. Muitos colecionadores adquirem esses sapos na Europa ou nos EUA acreditando que são animais nascidos em cativeiro. No entanto, como o Brasil nunca autorizou a exportação do morfotipo azul, qualquer linhagem existente no exterior tem, em princípio, origem na biopirataria e na extração criminosa da nossa natureza", explica o biólogo Romulo Rodrigues.
Coloração da espécies é bem variada
laparte / iNaturalist
Os agentes norte-americanos acionaram o Ibama.
A investigação conjunta concluiu que os sapos haviam sido capturados ilegalmente na natureza no Brasil, traficados para a Europa e posteriormente enviados aos Estados Unidos com documentação falsa, de acordo com relato oficial publicado pelo USFWS.
Os animais foram apreendidos com base na CITES — convenção internacional que regulamenta o comércio de espécies da fauna e da flora — e na legislação norte-americana.
O próprio Ibama registrou posteriormente a operação.
No Relatório de Gestão de 2022, o instituto informa que realizou diferentes ações de combate a crimes ambientais em parceria com o governo dos Estados Unidos e cita, entre elas, a “apreensão de 30 espécimes de Adelphobates galactonotus”.
O relatório não detalha naquele trecho a data, as cores dos animais ou se os 30 exemplares correspondem exatamente à mesma remessa interceptada em Miami. Por isso, os números não devem ser somados como apreensões diferentes.
Do interesse científico ao mercado de animais exóticos
A história do sapo azul havia começado anos antes.
Em 2012, os pesquisadores Marinus Hoogmoed e Teresa Ávila-Pires, do Museu Paraense Emílio Goeldi, publicaram um levantamento detalhado sobre a extraordinária variação de cores de A. galactonotus.
O estudo, publicado na revista científica Phyllomedusa, analisou a distribuição dos diferentes morfotipos na Amazônia brasileira e descreveu populações que variavam do preto ao azul-claro e do vermelho ao laranja, amarelo, creme e branco.
Sapo-Ponta-de-Flecha-da-Amazônia (Adelphobates galactonotus)
aydap / iNaturalist
Entre as populações estudadas estavam sapos azul-claros encontrados na região de Caxiuanã, no Pará.
A informação científica acabou ultrapassando os limites da academia.
Segundo o U.S. Fish and Wildlife Service, poucos meses após a publicação do estudo, exemplares azuis já estavam sendo oferecidos em diferentes países europeus.
No mercado de colecionadores, esses animais passaram a ser conhecidos como “blue galacts”.
O órgão norte-americano afirma que os sapos coloridos são muito procurados no comércio de animais de estimação e que o morfotipo azul tornou-se especialmente cobiçado depois que sua existência ganhou divulgação.
Era justamente essa incompatibilidade que tornava a presença deles no exterior tão suspeita: havia sapos azuis vivos no mercado internacional, embora, segundo o USFWS, o Brasil nunca tivesse autorizado a exportação daquele morfotipo.
"Vivemos um dilema constante na biologia da conservação. Quando publicamos estudos descrevendo a extraordinária biodiversidade da Amazônia, como o morfotipo azul do Adelphobates galactonotus, acabamos fornecendo, sem querer, um 'catálogo de novidades' para o tráfico internacional. Omitir as coordenadas exatas de novas descobertas tornou-se uma triste, porém indispensável, medida de segurança", lamenta Rodrigues.
Comércio internacional é controlado pela CITES
Espécie de cor azul é uma das mais raras
lucasmrabelo / iNaturalist
O Adelphobates galactonotus está incluído no Apêndice II da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (CITES).
A inclusão não significa necessariamente que uma espécie esteja ameaçada de extinção. O objetivo é controlar o comércio internacional para impedir que a exploração se torne uma ameaça à sua sobrevivência.
A base oficial da CITES mostra registros de A. galactonotus circulando internacionalmente ao longo dos anos.
Há, por exemplo, registros de animais vivos declarados em transações entre Alemanha, Holanda e Estados Unidos.
Esses registros, porém, não podem ser classificados automaticamente como tráfico. A base CITES reúne operações declaradas pelos países e pode incluir comércio legal de animais reproduzidos em cativeiro.
O que o caso de Miami demonstrou foi diferente: naquela operação específica, a investigação das autoridades brasileiras e norte-americanas concluiu que os animais haviam sido retirados ilegalmente da natureza no Brasil.
Romulo acrescenta que "ao retirar um sapo desses da natureza para transformá-lo em um mero item de decoração em um terrário estrangeiro, o tráfico rouba milhares de anos de evolução. Cada população isolada carrega uma assinatura genética única, moldada desde o Pleistoceno. Quando removemos esses indivíduos, perdemos peças insubstituíveis da história evolutiva da floresta."
Comércio ilegal chegou às redes sociais no Brasil
O interesse por A. galactonotus também aparece no mercado clandestino dentro do próprio país.
Um estudo de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade de Brasília (UnB), publicado em 2021 na revista Herpetological Conservation and Biology, investigou o comércio ilegal de anfíbios em grupos do Facebook no Brasil entre 2015 e 2020.
Espécie tem várias cores
nereston-nelinho-camargo / iNaturalis
Entre os animais oferecidos estava justamente Adelphobates galactonotus.
Os pesquisadores encontraram dois exemplares anunciados em 2016, cinco em 2019 e quatro em 2020.
Ao todo, portanto, pelo menos 11 indivíduos da espécie apareceram nos anúncios identificados pelo estudo.
Em 2016, os dois animais foram anunciados por valor médio equivalente a US$ 55. Em 2019, os cinco exemplares tinham preço médio de US$ 104, com valores entre US$ 69 e US$ 138. Em 2020, outros quatro apareceram por preço médio de US$ 68.
Os números não representam o tamanho total do tráfico da espécie no Brasil. Eles correspondem somente aos animais encontrados pelos pesquisadores nos grupos monitorados.
Outro estudo sobre comércio ilegal de herpetofauna no Brasil, publicado em 2022 na revista Cuadernos de Herpetología, reforçou a dimensão do problema nas redes sociais. Os pesquisadores analisaram sete grupos do Facebook entre janeiro de 2019 e julho de 2020 e encontraram 548 anúncios feitos por 201 perfis, oferecendo 1.049 animais de 58 espécies de anfíbios e répteis.
A maior parte dos anúncios identificados naquele levantamento tinha origem na Região Sudeste, principalmente no estado de São Paulo.
Ciência evita divulgar localização exata dos animais
O risco do comércio ilegal chegou a influenciar até a forma como cientistas publicam informações sobre esses sapos.
Em um estudo sobre a distribuição e diversificação do gênero Adelphobates, publicado em 2024 nos Anais da Academia Brasileira de Ciências, pesquisadores decidiram não divulgar as coordenadas geográficas das localidades onde os animais haviam sido coletados.
A justificativa apresentada no próprio artigo foi a proteção das espécies, consideradas alvo do comércio ilegal.
O trabalho analisou diferentes espécies do gênero na Amazônia brasileira e reforçou que *A. galactonotus* apresenta ampla diversidade de padrões de coloração ao longo de sua distribuição.
Outro artigo científico, publicado na Zootaxa em 2018, já apontava o comércio ilegal entre as ameaças conhecidas para A. galactonotus, juntamente com a transformação do habitat em regiões do chamado Arco do Desmatamento.
De volta ao Brasil
Depois da apreensão nos Estados Unidos, os sapos precisavam permanecer vivos enquanto a investigação avançava.
O U.S. Fish and Wildlife Service buscou então uma instituição especializada capaz de cuidar dos animais. Eles foram encaminhados ao Disney's Animal Kingdom, na Flórida, onde permaneceram por quase três anos sob cuidados veterinários, com controle de iluminação, umidade e alimentação.
Nem todos os animais envolvidos no tráfico sobreviveram.
Em 2020, 21 sapos foram finalmente repatriados ao Brasil: 19 azuis e dois alaranjados, segundo o U.S. Fish and Wildlife Service.
"A repatriação desses indivíduos ao Brasil é uma vitória gigantesca do ponto de vista diplomático e institucional, mas também serve como um alerta. Ela nos mostra que a rota do tráfico de nossa herpetofauna é altamente sofisticada e que, para cada animal interceptado e devolvido, centenas de outros ainda cruzam nossas fronteiras invisivelmente", diz Romulo.
O destino foi o Zoológico de São Paulo, instituição que já mantinha experiência com a reprodução e conservação de A. galactonotus.
A viagem de volta encerrou uma rota que havia começado ilegalmente na floresta brasileira, atravessado a Europa e terminado nos Estados Unidos.
Mas o caso do pequeno sapo amazônico representa apenas uma parcela de um mercado clandestino muito maior.
Tráfico de vida silvestre alcança 162 países e territórios
O World Wildlife Crime Report 2024, elaborado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), analisou mais de 140 mil registros de apreensões ocorridas entre 2015 e 2021 em 162 países e territórios.
Os registros envolveram comércio ilegal de aproximadamente 4 mil espécies da fauna e da flora.
Cerca de 3.250 delas estavam incluídas nos apêndices da CITES.
Os números ajudam a dimensionar a abrangência do crime, mas não representam tudo o que é retirado ilegalmente da natureza. As estatísticas são baseadas principalmente em apreensões conhecidas pelas autoridades e, portanto, revelam apenas parte de um mercado clandestino.
No Brasil, uma das estimativas mais repetidas sobre o problema aponta que aproximadamente 38 milhões de animais silvestres são retirados da natureza todos os anos pelo tráfico.
O número foi produzido originalmente pela Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas) em seu primeiro relatório nacional, publicado em 2001, e deve ser interpretado com cautela por se tratar de uma estimativa antiga.
No caso dos anfíbios, há ainda uma dificuldade adicional: levantamentos específicos mostram que o comércio ilegal existe, mas dimensionar quantos sapos são retirados anualmente da natureza permanece um desafio.
O caso de A. galactonotus mostra justamente como animais pequenos, fáceis de transportar e valorizados pela aparência podem atravessar fronteiras antes que o tráfico seja identificado.
Conheça o Adelphobates galactonotus
Apesar da história envolvendo tráfico internacional, *Adelphobates galactonotus* não deve ser apresentado como uma espécie globalmente rara apenas por causa do episódio envolvendo os animais azuis.
O anfíbio é endêmico do Brasil, o que significa que sua distribuição natural conhecida está restrita ao território brasileiro.
De acordo com o banco taxonômico Amphibian Species of the World, do Museu Americano de História Natural, a espécie ocorre em florestas de terras baixas associadas aos tributários ao sul do rio Amazonas, do rio Tapajós em direção ao leste até a região da foz do Amazonas.
Estudos científicos ampliam esse retrato e registram sua presença em áreas do Pará, Mato Grosso, Tocantins e Maranhão, incluindo regiões de transição entre a Floresta Amazônica e o Cerrado.
É também o maior representante conhecido do gênero Adelphobates e pode atingir cerca de 4,2 centímetros de comprimento, segundo estudo publicado nos Anais da Academia Brasileira de Ciências.
A vida desse pequeno anfíbio está intimamente ligada ao chão da floresta. Ele é encontrado principalmente entre a serapilheira, camada formada por folhas e outros materiais vegetais acumulados sobre o solo.
Na reprodução, os girinos podem ser transportados individualmente, principalmente pelos machos, e depositados em pequenos reservatórios naturais de água. Entre os locais utilizados estão estruturas vegetais, pecíolos de palmeiras e até ouriços de castanha-do-pará que acumulam água.
Por que existem sapos azuis, amarelos e alaranjados?
A variedade de cores de A. galactonotus é uma de suas características mais extraordinárias.
Um estudo publicado em 2020 na revista científica Heredity mediu a coloração de 111 animais vivos de 20 localidades da Amazônia e analisou dados genéticos de centenas de indivíduos.
Os pesquisadores dividiram os animais analisados em quatro grandes categorias de coloração dorsal: azul, amarelo, laranja e marrom.
Mais curioso ainda: nas localidades estudadas, os pesquisadores não encontraram diferentes categorias de cores convivendo no mesmo ponto. Cada população apresentava sua própria categoria predominante.
Os resultados indicaram que a distribuição das cores está fortemente associada à estrutura geográfica das populações e que processos históricos ocorridos durante o Pleistoceno podem ter contribuído para a diversidade observada atualmente.
Entre as categorias estudadas, os animais azuis apresentaram grande variação tanto na tonalidade quanto nos desenhos do dorso.
É justamente uma dessas formas azuis que, depois de permanecer durante milhares de anos escondida entre as folhas da Amazônia, acabou percorrendo uma trajetória improvável: da floresta brasileira para colecionadores no exterior e, depois de uma operação internacional contra o tráfico de fauna, de volta ao país onde a espécie existe naturalmente.
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