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Como se faz uma Bíblia? Por dentro da gráfica que já produziu 215 milhões de exemplares em 88 idiomas

Como é feita uma Bíblia? Gráfica em SP produz um exemplar a cada 3 segundos

G1 — Brasil · 2026-08-14T07:00:32.000Z

Como é feita uma Bíblia? Gráfica em SP produz um exemplar a cada 3 segundos

A cada três segundos, uma Bíblia sai pronta de uma linha de produção. Em um minuto, são cerca de 20 exemplares. Em uma hora, são cerca de 1,2 mil.

Para manter esse ritmo, 40 máquinas funcionam continuamente e transformam milhares de páginas impressas em livros que vão chegar às mãos de leitores no Brasil e em outros 122 países.

É em Barueri, na Grande São Paulo, que acontece essa operação. Em um galpão de 7.134 metros quadrados, 350 colaboradores trabalham exclusivamente na produção de Bíblias. Por dia, cerca de 30 mil exemplares ficam prontos na unidade.

Segundo a Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), responsável pela gráfica, o espaço é considerado o maior da América Latina dedicado exclusivamente à impressão de Bíblias. Já a maior gráfica do mundo que produz Bíblia fica na costa leste da China.

Em 2024 e 2025, a unidade produziu, em média, 8 milhões de exemplares por ano. Desde a inauguração, já foram 215 milhões de Bíblias produzidas, 30% delas destinadas à exportação.

Um relatório das Sociedades Bíblicas Unidas aponta que o Brasil também liderou, em 2025, a distribuição de Bíblias completas impressas no mundo. Foram 3,37 milhões de exemplares distribuídos no país, à frente de Índia, China, Nigéria e Filipinas.

O g1 visitou a gráfica para mostrar, passo a passo, como uma Bíblia é produzida: da preparação dos arquivos às enormes máquinas de impressão, passando pelo acabamento, até chegar à embalagem e à distribuição.

Tudo começa antes de o papel entrar na máquina

Gráfica que produz Bíblias em Barueri, Grande SP

Antes de chegar às máquinas, a produção de uma Bíblia passa pela etapa de pré-impressão. É nesse momento que os arquivos são preparados para que o conteúdo possa ser reproduzido no papel.

A diagramação depende do tipo de edição e da complexidade do livro. Uma Bíblia com notas, por exemplo, exige um trabalho diferente de uma edição mais simples. Segundo o diretor-presidente da gráfica, reverendo Erní Seibert, essa etapa pode levar semanas ou meses.

"Uma coisa é a diagramação. Essa diagramação depende da complexidade, se tem notas ou não, mas leva entre semanas ou meses. Pode ser alguns meses ou pode ser mais meses, mas é menos de um ano."

Quando se trata de uma tradução que ainda não existe, porém, o processo é muito mais longo. De acordo com Seibert, uma tradução bíblica séria não leva menos de cinco anos. "A tradução sempre é o [processo] mais demorado. Não é uma tradução bíblica séria se levar menos de 5 anos."

O papel precisa ser fino, mas resistente

Depois da preparação do conteúdo, um dos pontos mais importantes é o papel. A gráfica utiliza o chamado "papel-Bíblia", com gramatura de 28 gramas por metro quadrado. É um material mais fino e leve do que o papel offset utilizado em livros comuns, que costuma ter gramatura de 75 ou 90 g/m².

O Brasil não produz esse tipo específico de papel. O papel usado na produção das Bíblias é comprado da Europa e da Ásia. A gráfica importa o produto pincipalmente da Finlândia.

"A celulose que compõe tem que ser de fibra longa, senão ele arrebenta, e isso só o clima frio faz", diz o diretor.

Gráfica que produz Bíblias em Barueri, Grande SP

A gráfica utiliza cerca de 800 quilômetros de papel por dia. Seibert explica que o prazo para que o papel chegue à gráfica também interfere no planejamento da produção. A compra pode levar de dois a quatro meses, considerando a fabricação, o transporte e os procedimentos de entrada no país.

"Eu encomendo o papel e eles, provavelmente, vão fazer isso numa tiragem maior do que esses meus 10 mil livros que eu quero. Então, eu digo: 'São tantas toneladas' até eles fazerem o papel, despacharem, passar pela aduana do país de origem, passar pela aduana brasileira e chegar aqui. Isso leva no mínimo dois meses. Se não tiver nenhuma interrupção de guerra, se tiver navio à disposição, normalmente é de 2 a 4 meses."

Impressão é apenas uma parte do processo

Com o papel disponível e os arquivos preparados, começa a impressão. A gráfica tem 40 máquinas que conseguem produzir cerca de 27 mil páginas por minuto, considerando uma Bíblia média com 18 cadernos de 64 páginas.

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O processo utiliza máquinas rotativas e planas. Na gráfica, são quatro rotativas destinadas à impressão de Bíblias. Mas a impressão não significa que o livro já esteja pronto. Uma Bíblia é formada por diversos cadernos, que depois precisam ser reunidos para formar o bloco de páginas.

"Uma Bíblia é composta por 12 cadernos, 17, depende do tamanho da letra, do tamanho da Bíblia. Então, esses cadernos, quando são impressos, são juntados e formam um bloco."

Cadernos são reunidos e costurados

Caderno passando pelo processo de costura na gráfica que produz Bíblias em Barueri, Grande SP

Depois de impressos, os cadernos passam pelo colecionamento, etapa em que são reunidos na ordem correta. Em seguida, eles são costurados.

A costura é feita por máquinas automáticas com linha. Um caderno é unido ao outro, formando um bloco resistente ao manuseio. A escolha pela costura se dá devido ao peso e à quantidade de páginas da Bíblia.

A gráfica também possui controles para evitar que um caderno seja colocado no lugar errado ou fique faltando. Máquinas fazem a verificação durante o colecionamento, enquanto câmeras acompanham a etapa de costura.

Espessura das páginas

Como o papel é muito fino, um dos desafios é garantir que o conteúdo impresso de um lado não prejudique a leitura do outro. Seibert explica que as linhas precisam ser posicionadas de forma precisa.

"Como esse papel é muito fino, você consegue ver que do outro lado tem alguma coisa impressa, e a impressão vai para o outro lado. Agora, por que você consegue ler aqui sem problemas? Porque uma linha tem que ser impressa exatamente sobre a linha do outro lado."

Além do posicionamento da impressão, outros elementos gráficos ajudam na leitura, como o espaçamento entre as linhas e as margens.

Depois das páginas, vem a montagem

Gráfica que produz Bíblias em Barueri, Grande SP

Com os cadernos impressos, revisados e costurados, começa outra sequência de etapas: colagem da lombada, refile do bloco costurado, corte dourado ou pintura e impressão das bordas, montagem da capa e encadernação.

A encadernação pode variar de acordo com o modelo da Bíblia. Capas com zíper podem exigir trabalho manual, enquanto a encadernação de modelos em brochura e capa dura pode ser feita automaticamente.

Alguns detalhes também são feitos manualmente. É o caso dos índices colados na lateral das páginas para facilitar a localização dos livros.

"Quando você tem uma Bíblia que fecha com zíper, muitas pessoas conhecem isso, é tudo manual. Se você tem uma Bíblia que tem o nome dos livros colados ao lado, para a pessoa achar o livro mais fácil, tudo isso é feito de forma manual."

A capa também faz parte da produção

Capas de Bíblias produzidas em Barueri, na Grande SP

Para o diretor, a capa também tem a função de apresentar ao leitor o tipo de Bíblia que está dentro dela. Ao longo dos anos, diferentes modelos passaram a ser produzidos, com capas coloridas, jeans, modelos voltados para estudo, mulheres e crianças, por exemplo.

"A capa é o primeiro olhar que você lança sobre aquilo. Então, você olha essa capa e diz que é para um momento especial."

Seibert ressalta que a mudança nas capas acompanhou o desenvolvimento das artes gráficas e também os diferentes públicos. Segundo ele, durante muito tempo predominavam capas pretas ou marrons, assim como acontecia com outros livros.

"A gente dizia: a Bíblia pode ter qualquer cor de capa, desde que seja preta. Era uma piada que se fazia, porque a maioria das Bíblias era capa preta. Mas não eram só Bíblias. Todos os livros tinham capa preta ou marrom."

Um exemplo dessa transformação é a Bíblia com capa jeans, criada nos anos 1990. "A Bíblia jeans, essa foi mais ou menos nos anos 90 que a gente inventou, porque nós copiamos a ideia dos hispanos. Eles fizeram, e o jovem amou aquela capa."

Para o diretor, a escolha da capa também precisa considerar a cultura de quem vai receber o livro. "Se a cultura rejeita aquela cor, você pode pôr, e [a pessoa] vai rejeitar a Bíblia."

Nem todas as etapas da capa são feitas ali. Segundo Seibert, modelos que exigem impressão em quatro cores podem ser produzidos em outras gráficas, já que a unidade de Barueri não possui máquinas desse tipo.

Revisão em todos os processos

Gráfica que produz Bíblias em Barueri, Grande SP

E a preocupação com possíveis erros não termina na preparação do arquivo. Todos os processos, da tradução à encadernação, passam por revisões e há um checklist em cada etapa produtiva.

A conferência também é automatizada em parte do processo. Segundo Seibert, programas específicos conseguem identificar problemas como a ausência de palavras ou versículos.

"Vamos começar pelo texto, que tem pontos de revisão no texto. Hoje, isso é tudo feito computadorizado. Então, programas especiais dizem se faltou um versículo, se faltou uma palavra."

Além disso, há controles durante a montagem dos cadernos. "Tem outras revisões de cadernos para ver se estão no lugar. Então, tem uma marca gráfica que faz a leitura cada vez que passa, uma leitura ótica, e diz: está tudo certo."

A gráfica não faz uma inspeção página por página de cada exemplar. O controle ocorre durante as diferentes etapas da produção, com inspeções feitas pelos operadores e por equipamentos que verificam os padrões de qualidade.

Quando um defeito é encontrado, a tentativa é recuperar o exemplar durante o próprio processo. Se isso não for possível, o material é destinado à reciclagem.

Depois de pronta, a Bíblia segue para distribuição

Ao final de todas essas etapas, o livro está pronto para ser embalado e distribuído. A produção da gráfica abastece o Brasil e também outros países. Em 2024 e 2025, a unidade produziu, em média, 8 milhões de exemplares por ano.

Para Seibert, a continuidade da produção está relacionada à forma como diferentes pessoas, em diferentes culturas, se relacionam com o livro.

Da gráfica de Barueri para 122 países

A produção da unidade cresceu desde sua criação. Segundo Seibert, a gráfica foi planejada inicialmente para produzir 2 milhões de Bíblias por ano, mas a capacidade foi rapidamente ampliada pela demanda.

"Como a gente já fazia 1 milhão de Bíblias para o Brasil, ela foi planejada para fazer 2 milhões. A gente achava que ia explodir com 2 milhões em 10, 20 anos, mas em poucos anos já estávamos fazendo 4 milhões."

Hoje, a gráfica produz, em média, 8 milhões de exemplares por ano com previsão de chegar a 9 milhões neste ano.

Bíblia em português e japonês

Desde a fundação, foram produzidas 215 milhões de Bíblias. Cerca de 30% foram destinadas à exportação para outras Sociedades Bíblicas. Os exemplares produzidos em Barueri chegam a 122 países.

Seibert explica que a unidade acabou se tornando um centro de produção para outras Sociedades Bíblicas.

"Nós somos a maior gráfica dedicada a Bíblias. Tem outras gráficas que fazem Bíblias e outros livros, e são maiores que essa gráfica. Mas esse é um centro de produção de Bíblias, Novos Testamentos, e que a gente faz aqui é produzir exclusivamente Bíblias, por isso somos a maior neste ramo."

88 idiomas e Bíblia em braille

A unidade produz Bíblias em 88 línguas e também em braille. O português aparece em primeiro lugar entre os idiomas mais produzidos, seguido pelo espanhol.

Seibert conta que a gráfica também recebe trabalhos em idiomas menos conhecidos e citou como exemplo um Novo Testamento em uma língua falada por uma comunidade indígena no Pará, cuja tiragem foi de 500 exemplares.

Em alguns casos, antes mesmo da impressão é necessário um trabalho linguístico para registrar e estruturar a língua.

Mesmo com aplicativos, Bíblia impressa continua sendo produzida

A produção também passou a conviver com o crescimento das versões digitais. A Sociedade Bíblica do Brasil possui aplicativos, mas, segundo Seibert, o digital não eliminou a procura pela Bíblia impressa.

"O digital afetou de maneira diferente áreas do ser humano. Quer dizer, eu sempre digo, a maior diferença que você pode ver depois do digital nas Bíblias é a mudança do catálogo."

Segundo ele, o comportamento do leitor mudou e aumentou a procura por exemplares com letras maiores. E o digital acabou criando formas diferentes de uso do livro.

"Se você quer fazer uma consulta a um texto bíblico, o que está no Salmo 23, você vai no digital porque é muito mais prático, e o telefone está com você em qualquer lugar. Mas quando a pessoa quer ler a Bíblia, quer fazer uma leitura bíblica, uma leitura devocional, em casa ou com a família ou com o grupo, normalmente as pessoas usam a Bíblia [física]."

Livro mais lido, livro mais distribuído

Para o diretor, a Bíblia continua sendo o livro mais lido e distribuído do mundo porque conhece o ser humano e a alma humana é retratada ali:

"Os problemas humanos estão ali dentro e por isso ela continua sendo lida. Não é um livro que você lê e diz: 'Eu já li esse livro, vou ler outro'. Ela dialoga com o ser humano. Esta é uma das características da Bíblia, por isso que, nos momentos especiais da vida, como no luto, em uma guerra, casamento, formatura, nascimento de uma criança, a pessoa vai na Bíblia e encontra uma palavra que faz sentido."

Impressão de Bíblia em braille

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