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Exclusivo: câmeras corporais mostram PMs atirando em motoboy durante operação
G1 — Brasil · 2026-08-14T18:21:13.000Z
Exclusivo: câmeras corporais mostram PMs atirando em motoboy durante operação
A Justiça de São Paulo determinou que os três policiais militares que atiraram contra o motoboy Evandro Alves da Silva durante a Operação Escudo sejam submetidos ao júri popular. O g1 e a GloboNews divulgaram com exclusividade as imagens das câmeras corporais que registraram a ação (veja acima).
O sargento Thiago Freitas da Silva e os soldados Daniel Pereira Noda e Carlos Vinicius Batista Bruno foram pronunciados por tentativa de homicídio qualificado por motivo torpe e recurso que dificultou a defesa da vítima.
O crime ocorreu em 30 de agosto de 2023, quando os PMs invadiram o imóvel alugado por Evandro, usado como ponto de apoio para mototaxistas no Morro José Menino, em Santos, litoral de São Paulo.
A sentença foi proferida da juíza Thais Caroline Brecht Esteves Gouveia na quarta-feira (12).
No dia dos fatos, Evandro estava nu e usava o banheiro quando foi baleado. Mesmo ferido com tiros de calibre 12, ele pulou a janela e caiu de uma altura de 7 metros nos fundos da casa.
Na época, os policiais alegaram que o motoboy estava armado e apreenderam um revólver em cima de uma cama. Contudo, segundo o MP, a versão foi desmentida com a análise das imagens das câmeras corporais.
Pelas imagens, obtidas pela equipe de reportagem, é possível ver que não havia nenhuma arma em cima da cama e, após dois minutos, aparece uma pistola semiautomática cromada. Para a família do motoboy, o armamento foi colocado na cena do crime pelos policiais.
"As provas coligidas revelam significativa divergência quanto à dinâmica dos fatos e às circunstâncias da ação, impondo que a matéria seja submetida ao crivo do Conselho de Sentença, competente para apreciar a versão dos acontecimentos e valorar o conjunto probatório produzido sob o contraditório judicial", afirma a magistrada na decisão.
O g1 tenta localizar a defesa dos agentes denunciados.
🔎 O que foi a Operação Escudo? Realizada na Baixada Santista, a operação começou em julho de 2023, após a morte do PM Patrick Bastos Reis, e resultou na morte de 28 suspeitos em supostos confrontos. A ação foi alvo de denúncias por órgãos de direitos humanos a partir de relatos de moradores sobre execuções, tortura e abordagens policiais violentas.
Motoboy foi baleado por PMs em Santos durante Operação Escudo.
Tentativa de homicídio
Cerca de seis meses antes da ação policial, Evandro teve a ideia de oferecer o serviço de mototáxi no Morro José Menino e alugou um pequeno imóvel — composto por uma sala, uma cozinha e um banheiro — para funcionar como ponto de apoio e descanso para ele e os colegas.
Era neste imóvel que Evandro estava, sozinho e sem roupa, por que iria usar o banheiro, quando três policiais militares do 5° Batalhão de Ações Especiais (Baep) apareceram. A porta do imóvel estava trancada.
A equipe era formada pelos policiais pelo sargento Thiago Freitas da Silva, soldado Daniel Pereira Noda, soldado Carlos Vinicius Batista Bruno e soldado Lucas Matias dos Santos — que permaneceu na viatura.
"Quando eu sentei no vaso, meteram a mão na porta. Eram os policiais. Eles perguntaram: 'Quem que está aí? É o Evandro?' Eu achava que eram os motoboys. Quando eu abri a cortina, o policial estava com a calibre 12 apoiada na janela, e ele me deu um tiro. Eu levantei a mão, e ele disparou e pegou no meu peito", relembrou.
Em pânico, Evandro quebrou uma pequena janela do banheiro e pulou de uma altura de 7 metros. Sangrando e sem roupas, caiu de bruços nos fundos do imóvel.
"Na hora, o ato não foi pensando em fugir. Pensei na minha esposa e na minha filha. Eu pensei: 'Elas não vão me ver no caixão, com caixão lacrado'."
As câmeras mostram os PMs descendo da viatura, tentando forçar a porta e, em seguida, posicionando armas de grosso calibre na janela. Em segundos, efetuaram pelo menos seis disparos. Ao perceberem que Evandro havia pulado da janela, entraram no imóvel.
Enquanto o motoboy agonizava de dor nos fundos da casa sob a mira da arma de um dos PMs, ele suplicava: "Pelo amor de Deus, chefe, me salva, eu não sou bandido, estão me confundindo".
Evandro quebrou a janela e caiu de uma altura de sete metros.
Pelas imagens, um dos agentes chegou a colocar uma luva de plástico e revistou o corpo de Evandro à procura de arma — que não foi encontrada.
O resgate demorou: o Corpo de Bombeiros e o Samu chegaram 30 minutos depois dos disparos. Evandro foi socorrido em estado grave e encaminhado para a Santa Casa de Santos, onde ficou 45 dias internado — sendo 23 deles em coma.
Evandro, de 45 anos, hoje trabalha como motoboy e mototaxista. Ele é casado com a advogada Anna Fernandes Marques há mais de 20 anos, com quem teve três filhos.
Em 2001, ele foi o motorista em um caso de sequestro-relâmpago, que terminou em morte. Foi condenado a 25 anos de prisão. Evandro cumpriu 20 anos em regime fechado e o restante, no aberto.
Denúncia da arma
Às 10h58, a câmera mostra apenas um casaco sobre a cama. Dois minutos depois, a pistola aparece no mesmo local.
A PM apreendeu uma pistola semiautomática cromada, de calibre 7,65 mm, dentro do imóvel usado como ponto de encontro pelos mototaxistas. Por esse motivo, Evandro foi indiciado por porte ilegal de arma.
Contudo, as imagens da câmera corporal de um PM mostra que às 10h58 havia apenas um casaco preto sobre a cama. Dois minutos depois, a pistola aparece no mesmo local, de onde é recolhida por um agente e levada até a viatura.
Em dezembro de 2025, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) arquivou a investigação contra Evandro pelos crimes de resistência e porte ilegal de arma de fogo.
Ao determinar o arquivamento do inquérito contra Evandro, o promotor Fabio Perez Fernandez afirmou que ficou comprovado que ele “não estava armado, nem resistiu de qualquer forma, apenas fugiu da abordagem policial”.
Abordado dois dias antes do crime
Dois dias antes de ser baleado, Evandro contou ter sido surpreendido por policiais do Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep) dentro do imóvel alugado. Na ocasião, ele e um colega cortavam panfletos que seriam distribuídos na comunidade quando a equipe chegou.
Segundo Evandro, dois PMs encapuzados invadiram o local e os colocaram contra a parede. “Na hora, meu corpo amoleceu. Pensei: ‘Já era, vou morrer aqui’. Eles mandaram a gente encostar na parede e começaram a engatilhar as armas. Falaram: ‘Quem dos dois tem passagem?’”, relatou.
O colega admitiu ter uma passagem por tráfico de drogas, enquanto Evandro, com medo de ser executado, omitiu seu histórico criminal.
“Falei que só tinha uma passagem de quando era moleque, com 18 anos. Eu não ia falar toda a verdade, estava com medo de morrer. Eles tiraram foto do meu documento e foram embora”, disse.
Dois dias depois, uma equipe do Baep retornou ao imóvel. Foi nesse momento que a abordagem terminou em tiros e deixou Evandro gravemente ferido. O motoboy acredita que os agentes consultaram seus antecedentes criminais no sistema e por isso voltaram.