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Uma palmeira que no passado era derrubada para a retirada de pouco mais de meio quilo de palmito hoje permanece em pé, produz frutos, gera renda para famílias e ainda contribui para a recuperação da Mata Atlântica.
G1 — Brasil · 2026-08-15T13:02:46.000Z
Uma palmeira que no passado era derrubada para a retirada de pouco mais de meio quilo de palmito hoje permanece em pé, produz frutos, gera renda para famílias e ainda contribui para a recuperação da Mata Atlântica.
A mudança aconteceu em comunidades de Sete Barras, no Vale do Ribeira, região que abriga cerca de 2 milhões de hectares de Mata Atlântica preservada. Um dos símbolos dessa transformação é a palmeira juçara, espécie típica do bioma.
Durante décadas, o principal interesse econômico pela juçara esteve no palmito localizado na extremidade da palmeira. O problema é que a retirada exige o corte da planta. Um exemplar com cerca de dez anos pode fornecer entre 500 e 700 gramas de palmito.
A exploração do palmito nativo quase levou a juçara à extinção. Com mudanças na legislação ambiental e a proibição do corte na década de 1990, comunidades que dependiam da atividade precisaram buscar novas alternativas de renda.
Foi nesse cenário que moradores da comunidade do Guapiruvu começaram a mudar a relação entre produção agrícola e conservação ambiental.
Gilberto Ohta, produtor rural da região, cultivava principalmente banana e utilizava produtos químicos e agrotóxicos. Ao lado de Geraldo Xavier de Oliveira, outro morador da comunidade, ele esteve entre os pioneiros na adoção do conceito de agrofloresta no Guapiruvu.
Gilberto trocou o corte pela preservação da Juçara
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A comunidade também passou a desenvolver um planejamento estratégico baseado na Agenda 21, plano de ação para o desenvolvimento sustentável estabelecido durante a Eco-92, realizada pela Organização das Nações Unidas no Rio de Janeiro.
Segundo Geraldo, naquele período a exploração dos recursos naturais era intensa e envolvia, além das plantações de banana e gengibre, atividades como produção de carvão, retirada de madeira e extração de palmito.
“Chegamos numa hora de fazer a reflexão. A reflexão sai a partir desse plano estratégico. Então, nesse plano estratégico, a gente coloca a questão ambiental e econômica como prioridade.”
Juçara troca o palmito pelos frutos e vira fonte de renda para famílias
A partir dessa organização, os moradores passaram a enxergar a juçara de outra maneira.
“Nós pensamos na juçara como uma saída, como uma solução, até porque a gente tinha um problema social dos palmiteiros.”
A conclusão foi simples: a palmeira em pé poderia ter mais valor econômico e ambiental do que derrubada para a retirada do palmito.
Da retirada do palmito à colheita dos frutos
Com a adoção dos sistemas agroflorestais, a vegetação nativa e a produção passaram a coexistir. Em vez de cortar a palmeira, os produtores começaram a colher os frutos da juçara.
A diferença aparece também nos números apresentados pelos produtores. Enquanto uma palmeira adulta rendia entre 500 e 700 gramas de palmito ao ser cortada, um exemplar pode produzir cerca de 10 quilos de frutos.
A produção permite comercializar tanto a polpa quanto as sementes.
Juliano participa da colheita e é monitor ambiental
“O faturamento de uma árvore dessa aqui, distribuindo na comunidade hoje, nos contempla muito mais economicamente. Imagine a contemplação que nós temos, tanto do ponto de vista econômico como socioambiental. Vale mais em pé do que cortada.”
Dos cerca de 10 quilos de frutos, aproximadamente sete quilos correspondem às sementes. Segundo os produtores, isso pode representar cerca de 7 mil sementes provenientes de uma única palmeira.
Parte desse material volta para a própria Mata Atlântica.
Quase extinta pelo palmito, juçara encontra novo caminho no Vale do Ribeira
Fruto vira polpa e semente volta para a floresta
Depois da colheita, os frutos seguem para o barracão da Cooperágua, a Cooperativa Agropecuária de Produtores Sustentáveis do Guapiruvu.
Primeiro, eles são classificados e selecionados de acordo com tamanho e qualidade. Em seguida, passam pela lavagem e pela máquina responsável pela despolpa. O trabalho é realizado pelos próprios cooperados.
A polpa tem uma característica cor violeta-escura e, depois de retirada, é embalada. Já as sementes que restam do processamento também se transformaram em fonte de renda.
Elas são vendidas para a Fundação Florestal e utilizadas no plantio em áreas de Mata Atlântica. Na época da gravação da reportagem, o quilo da semente era comercializado por cerca de R$ 15.
Para Geraldo, que acompanhou tanto o período de extração do palmito quanto a mudança do modelo de produção, o resultado mostra que a conservação exige planejamento de longo prazo.
“Vinte e cinco anos atrás, nós iniciamos uma coisa que todo mundo achou um pouco absurdo. Porque que ideia trazer da mata? Lá é tão fácil, lá é só você cortar e trazer. Agora você plantar... E não é um resultado rápido.”
“É um resultado que depende de você ter uma meta, alcançar lá muitos anos depois, mas que vale a pena. Então, nós chegamos nesse ponto hoje.”
Cooperativismo abriu novos caminhos
A experiência da comunidade do Guapiruvu também incentivou outras formas de organização dos agricultores familiares.
Uma delas foi a criação da Coopafasb, Cooperativa da Agricultura Familiar de Sete Barras. Segundo o coordenador Marcelo Fukunaga, a iniciativa surgiu em meio aos conflitos relacionados aos parques estaduais, à extração ilegal do palmito juçara e à falta de alternativas econômicas para agricultores e comunidades locais.
“Nossa cooperativa foi pensada e criada por uma necessidade dos pequenos agricultores locais de acessar mercados, mas principalmente acessar políticas públicas.”
Sementes são coletadas e vendidas para reflorestamento da Mata Atlântica
Segundo Marcelo, a cooperativa nasceu com forte ligação com a agroecologia, a diversificação da produção e a sucessão rural.
Além da banana, principal produto agrícola da região, os produtores trabalham com palmito pupunha, chips de banana e cestas de alimentos cultivados sem agrotóxicos, destinadas principalmente à capital paulista.
Para Marcelo, a experiência do Vale do Ribeira mostra que produção de alimentos e preservação da Mata Atlântica podem caminhar juntas.
“O Vale do Ribeira deixa uma grande lição para toda a sociedade. A gente consegue produzir muito alimento para a sociedade, então a gente garante segurança alimentar.”
A permanência dos jovens no território também faz parte desse processo. Entre as alternativas estão a agregação de valor aos produtos, o uso da tecnologia, o turismo e o ecoturismo.
Juliano da Silva Cruz é um desses jovens. Além de participar da colheita dos frutos da juçara, ele se especializou como monitor ambiental e acompanha visitantes em atrativos da região.
Ao longo das trilhas, a própria juçara ajuda a contar a história da transformação vivida pela comunidade.
Juçara gera renda e preserva meio ambiente
A palmeira que antes desaparecia da floresta para virar palmito agora pode produzir frutos ano após ano, alimentar a fauna, gerar sementes para novas plantas e contribuir para a renda das famílias.
“Tudo depende da responsabilidade, da consciência sua. Porque isso aqui não é para ganhar dinheiro. Isso aqui é para você viver. Ter um padrão de vida bom, saber que você está alimentando o meio ambiente, está alimentando os passarinhos, está alimentando toda uma cadeia.”
Do fruto para a cozinha: aprenda a fazer bolo de juçara
Além de ser comercializada, a polpa da juçara também aparece em diferentes receitas preparadas pelos moradores da região.
Jéssica Pereira conta que o ingrediente pode ser usado em pratos doces e salgados, como risotos, panquecas, estrogonofe e geleias. Para o Terra da Gente, ela preparou um bolo de juçara.
Bolo de juçara é iguaria gastornômica
Ingredientes da massa
1 e 1/2 xícara de açúcar
300 ml de polpa de juçara
2 e 1/2 xícaras de farinha de trigo
1 colher de sopa de fermento em pó
Ingredientes da cobertura
300 g de chocolate meio amargo
150 ml de polpa de juçara
Modo de preparo
Bata os ovos com o açúcar por cerca de cinco a sete minutos, até a mistura dobrar de volume e ficar consistente. Acrescente os 300 ml de polpa de juçara e bata novamente. Segundo Jéssica, não é necessário adicionar óleo ou margarina à massa porque a própria polpa contém óleo natural.
Depois, acrescente a farinha e misture com um fouet. Finalize com o fermento. Coloque a massa em uma forma untada com óleo e farinha de trigo e leve ao forno.
Para a cobertura, derreta o chocolate meio amargo e misture os 150 ml de polpa de juçara. Mexa até a mistura engrossar. A cobertura deve ser colocada ainda quente sobre o bolo recém-saído do forno.
Depois, leve o bolo à geladeira por pelo menos meia hora, ou até a cobertura ganhar consistência. Se quiser, a receita pode ser finalizada com granola ou banana.
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