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Esquizofrenia: falta de enzima na gestação pode estar ligada à origem da doença, diz Unicamp

Esquizofrenia: falta de enzima na gestação pode estar ligada à origem da doença

G1 — Campinas e Região · 2026-08-16T07:00:41.000Z

Esquizofrenia: falta de enzima na gestação pode estar ligada à origem da doença

Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e de outras instituições brasileiras descobriram que a baixa atividade de uma enzima durante a formação do cérebro pode estar relacionada à origem da esquizofrenia.

O estudo, realizado com células cultivadas em laboratório, foi publicado na revista científica Glial Health Research. A pesquisa não envolveu gestantes nem fetos e, por enquanto, não permite afirmar que a falta da enzima seja uma causa direta do transtorno.

A equipe investigou a fosfoglicerato desidrogenase (PHGDH), enzima que participa da produção de serina. No cérebro, essa substância ajuda os neurônios a se comunicar, crescer e formar conexões.

Para entender o papel no desenvolvimento cerebral, os cientistas reduziram a atividade da PHGDH enquanto células-tronco se transformavam em neurônios e astrócitos, células responsáveis, entre outras funções, por proteger e nutrir o cérebro.

Com a redução da enzima:

📉 a produção de serina diminuiu;

⚡ as células passaram a produzir e utilizar energia de forma diferente;

⚠️ aumentou a morte de neurônios;

🔗 os prolongamentos que conectam uma célula à outra cresceram menos;

🧫 estruturas que simulam o cérebro em formação ficaram menores e menos numerosas.

Após 21 dias, cerca de 30% dos neurônios haviam morrido.

Enzima pode estar ligada à origem da esquizofrenia, diz estudo

Alterações podem começar ainda na gestação

A esquizofrenia geralmente se manifesta na adolescência ou no início da vida adulta. Os pesquisadores, no entanto, trabalham com a hipótese de que as primeiras alterações ocorram muito antes, ainda durante a formação do cérebro no útero.

Essas mudanças afetariam gradualmente a criação das redes de comunicação cerebral. Os sintomas, porém, apareceriam apenas anos depois.

“A conclusão do trabalho é que essa enzima é primordial para o neurodesenvolvimento. Durante a formação do cérebro, ainda na vida intrauterina, ocorrem alterações que fazem com que ele se desenvolva de maneira diferente”, afirmou Daniel Martins-de-Souza, pesquisador da Unicamp e um dos coordenadores do estudo.

A investigação começou com a análise de tecidos cerebrais de pessoas com esquizofrenia, coletados após a morte. Os cientistas encontraram quantidades anormais da PHGDH e de outras proteínas envolvidas na produção e no uso de energia pelas células.

Como alterações semelhantes já haviam sido observadas em pesquisas anteriores, a equipe decidiu investigar mais detalhadamente a função da enzima durante a formação do cérebro.

Os resultados não significam, contudo, que a baixa atividade da PHGDH seja a única origem da esquizofrenia.

“Mapeamos centenas de proteínas alteradas. Esse resultado está em linha com o que mostram os estudos genéticos: não existe um único ‘gene da esquizofrenia’”, disse Martins-de-Souza.

Um estudo anterior do grupo ajuda a mostrar essa complexidade. Nele, os pesquisadores investigaram a hnRNP A1, proteína que participa da formação e da manutenção da bainha de mielina, camada que envolve os neurônios e ajuda na transmissão dos sinais no cérebro.

Segundo Martins-de-Souza, os dois estudos seguem uma linha parecida, mas tratam de processos diferentes. Enquanto a hnRNP A1 está ligada à formação dessa camada protetora, a PHGDH atua mais cedo, durante a própria formação do cérebro.

“O primeiro estudo tem a ver com a formação da bainha de mielina. Já a PHGDH tem um papel mais diretamente ligado ao neurodesenvolvimento, à formação do cérebro”, explicou.

Daniel Martins-de-Souza, pesquisador da Unicamp e coordenador do estudo

Enzima também está presente nos neurônios

Outra descoberta do estudo contraria uma ideia consolidada em parte da literatura científica. Até então, acreditava-se que a PHGDH estivesse concentrada apenas nos astrócitos.

A pesquisa identificou a enzima também nos neurônios em formação.

“Na verdade, vimos que os neurônios também possuem essa enzima. Isso muda, inclusive, o conhecimento descrito nos livros-texto de neurobiologia mais antigos”, afirmou o pesquisador.

Segundo os cientistas, o resultado indica que os neurônios produzem a própria serina e podem sofrer danos diretos quando a atividade da PHGDH diminui.

Estudo ainda não comprova relação de causa

Embora apresente indícios de uma ligação entre a enzima, o desenvolvimento cerebral e a esquizofrenia, o estudo não comprova que a redução da PHGDH provoque, por si só, o transtorno.

Como os experimentos foram realizados in vitro, com células cultivadas em laboratório, eles não reproduzem toda a complexidade de uma gestação humana.

“Temos um forte indício dessa relação, mas ainda não uma comprovação definitiva. Para confirmá-la de fato, seria necessário encontrar uma forma de observar esse processo diretamente no cérebro humano”, explicou Martins-de-Souza.

No futuro, os cientistas querem investigar se a falta dessa enzima também aparece em exames de sangue. Se isso se confirmar, ela poderá funcionar como um sinal de alerta para o risco da doença.

Ainda é cedo para falar em um exame de sangue para diagnóstico de esquizofrenia. No entanto, a descoberta pode ajudar a compreender melhor os mecanismos do transtorno e, no futuro, contribuir para tratamentos mais precisos e com menos efeitos colaterais.

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