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Aguardente, kombucha e nozes: excesso de lichias colhidas na safra são transformadas em produtos variados no interior de SP

Excesso de lichias colhidas na safra são transformadas em produtos no interior de SP

G1 — Brasil · 2026-08-16T11:00:32.000Z

Excesso de lichias colhidas na safra são transformadas em produtos no interior de SP

A lichia, fruta de espécie exótica, costuma chamar a atenção por sua aparência: uma casca vermelha e rugosa envolve a polpa branca e suculenta, que recobre a semente. No Brasil, sua colheita acontece entre dezembro e janeiro. Além do consumo in natura, ela pode ser usada para a produção de doces, geleias e sucos.

Ainda buscando o uso completo do fruto e evitando o desperdício de alimentos, um produtor rural de Itaí (SP) encontrou uma finalidade para as unidades excedentes colhidas durante a safra. Elas viraram produtos variados, como: aguardente, kombucha, nozes, venda da polpa congelada e mais.

Em Itaí, a plantação de lichia se destaca por produzir produtos variados à partir das sobras da fruta

O responsável por repensar a entrega da lichia aos consumidores é o produtor Ricardo Soares de Arruda Pinto, natural de São Paulo (SP) e proprietário de uma fazenda no interior paulista. Ao lado de outros empreendedores, o homem encontrou alternativas secundárias para o aproveitamento do que era colhido em sua propriedade.

“A vida útil da lichia é assim, você colheu, deram cinco dias e ela começa a escurecer a casca. Agora, você tirou a casca, tirou o caroço, congelou em outra congeladora, ela dura dois anos. Antes, a gente misturava essa fruta com esterco e aplicava como adubo, mas era uma perda de dinheiro”, contou Ricardo ao g1.

De acordo com o proprietário, a fazenda em Itaí possui 193,6 hectares

Em 2020, Ricardo percebeu que estava operando com um descarte da lichia acima do esperado. Dessa forma, para evitar a perda alimentícia, surgiu a ideia de começar a trabalhar com a industrialização da fruta. A primeira oportunidade foi a produção de bebida alcoólica, com um parceiro comercial localizado em Torre de Pedra (SP).

Logo depois, o produtor testou outras opções, como o congelamento, a liofilização (processo de desidratação), a noz de lichia e até mesmo a produção de mel a partir da polinização das flores que crescem na árvore da fruta.

“Nós fomos desenvolvendo os aproveitamentos, para pegarmos esse descarte e fazê-lo, inclusive, ser vendido mais caro do que a lichia fresca, que vendemos no final do ano. É caro produzir para depois ser descartada como adubo. Veio a questão da indústria, aproveitando não só nós sozinhos, mas com parcerias”, relembrou Soares.

Além das variações citadas, a Fazenda Coatiara disponibiliza aos interessados um kit com as variedades de lichia plantadas no local. Os produtos estão à venda no site e são entregues para todo o Brasil.

De acordo com o responsável, cerca de 5% das produções são vendidas pelo e-commerce. Em média, entre 30% e 35% das frutas colhidas na safra são exportadas para outros países, como França, Canadá, Alemanha, Inglaterra, República Tcheca e a Itália. Já 60% das lichias são destinadas às redes de supermercados.

Para dar mais detalhes sobre o processo de fabricação da aguardente, a reportagem conversou com o empresário Wilson Roberto de Barros, de 69 anos, que produz cachaça há cerca de 40 anos e é o responsável pela produção da bebida com a fruta, em Torre de Pedra

O responsável pela produção da aguardente de lichia é um morador de Torre de Pedra, no interior paulista

🍷Aguardente de lichia

“Primeiro, não pode ser chamado de cachaça, pois esse é o produto vindo da cana-de-açúcar e, neste caso, o produto vem da lichia e deve ser chamado de aguardente”, esclareceu.

Wilson relembrou que Ricardo o procurou para conversar sobre a situação atual do descarte das lichias colhidas.

“Ele me procurou dizendo que, todos os dias, descartava uma grande quantidade de lichias que não estavam apropriadas para o mercado atacadista, que era o seu foco. Ao invés de descartar, elas foram trazidas para a nossa destilaria e desenvolvemos esse produto”, contou.

À reportagem, o profissional apontou que o processo de produção da bebida não foi fácil devido ao caroço da fruta. Por conta do tamanho, era necessário ter cuidado para que ele não fosse esmagado, pois poderia deixar a aguardente com sabor amargo.

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“O processo de fabricação consiste em moermos a lichia com casca e tudo. O caldo extraído é fermentado por cerca de 18 horas e, depois, destilamos ele em um alambique de cobre. Após a destilação, o produto fica cerca de nove meses descansando e só depois é engarrafado para a embalagem”, explicou.

Para se ter uma ideia, segundo Wilson, para cada garrafa de 500 ml ficar pronta, é necessário o uso de 350 unidades de lichia. Ao todo, foram usadas cerca de quatro toneladas da fruta para acertar o ponto de moenda e preparação do caldo.

“Neste caso, foram usadas para acertarmos os equipamentos e para que saísse um produto de qualidade. Sempre produzimos cachaças e licores, mas aguardente de lichia foi a primeira vez. O aprendizado foi grande”, disse Wilson.

De acordo com o produtor da bebida, o destilado de lichia possui 41% de teor alcoólico

De acordo com o empresário, o destilado de lichia possui 41% de teor alcoólico, estando na média de outras bebidas disponíveis no mercado.

“O resultado foi espetacular, pois é um produto único no mercado e que está concorrendo com os melhores destilados do mundo. Ele tem presença em vários pontos de venda, como hotéis internacionais, empórios e mercados de luxo”, apontou.

🪴O começo do cultivo

Ricardo e Adriana são os responsáveis pela fazenda de lichia em Itaí

A história de Ricardo no trabalho diário com as lichias não é recente. Segundo o produtor, o contato com a lida no campo começou há 39 anos, quando seus pais decidiram comprar uma fazenda em Itaí. Lá, eles começaram com o cultivo do maracujá.

Entre 2006 e 2007, uma doença dizimou os pomares. Apesar de uma nova tentativa de recomeçar com a lida em 2008, a família decidiu passar a responsabilidade do terreno aos filhos. Cerca de três anos depois, Ricardo e sua esposa Adriana Cristina Boni de Arruda Pinto buscaram se aprofundar no cultivo de lichia.

“No começo, a gente não conhecia nada de lichia. Chamou a atenção que era uma fruta de muito valor. Chamamos consultores para analisar a nossa fazenda e ambos falaram que iria bem a lichia”, relatou Ricardo.

Ao serem aconselhados por outro profissional a buscar investir em variedades da fruta, os dois compraram mudas diferentes e começaram a multiplicá-las. Ainda em novembro de 2011, Adriana e Ricardo plantaram os primeiros 1.950 pés de lichia na fazenda com seis variedades diferentes.

Conforme Ricardo, a fazenda possui, ao total, 193,6 hectares. Desses, 113 hectares são ocupados pela plantação de lichia e 39 são destinados para a proteção de reserva legal da mata. O restante do espaço foi separado para uma área de manejo com a fruta e também pastagem.

A primeira colheita realizada por Ricardo ocorreu entre dezembro de 2017 e janeiro de 2018.

“Foi bem difícil achar as mudas das variedades diferentes, mas achamos, compramos e começamos a plantar. Eu separava o que eu tinha conseguido reservar de economia para investir nos plantios e fomos ocupando aos poucos. Ainda estamos plantando e procurando mais variedades”, relembrou.

A fazenda conta com 16 variedades de lichia plantadas, mas apenas nove são comercializadas

Atualmente, a fazenda conta com 16 variedades de lichia plantadas, mas por enquanto, apenas nove são comercializadas. As variedades vêm de países como Austrália, China, Índia, Ilhas Maurício e dos Estados Unidos. Os tipos são:

Ricardo apontou que não é somente a aparência que muda, mas também o sabor, podendo ser mais doce ou cítrica, dependendo da variedade. Obter diferentes tipos da fruta também ajuda a ter opções disponíveis para a comercialização, pois o fruto possui um espaço entre o plantio e a colheita.

Ao g1, o produtor rural de Itaí, que também é graduado em Engenharia Agrícola pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e mestre em Agronomia pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq - USP), explicou como funciona o crescimento e o ciclo de uma plantação de lichia.

🌿A produção de lichia

Entre os produtos estão a lichia congelada e noz feita com o caroço da fruta

Conforme Ricardo, assim como o café e a cana-de-açúcar, a lichia possui uma fase precoce e outra média tardia. Ou seja, há produtores que colhem no final de novembro e outros no começo de dezembro.

“Ela tem produção bianual. A lichia se programa para uma produção grande e, no ano seguinte normalmente, ela tem uma produção pequena porque esgotou as energias no ano de produção grande”, completou.

Ele destacou que, a partir da florada nos pés deste ano, é possível perceber o comportamento da safra. O produtor rural compartilhou que possui esperança em uma colheita vigorosa, apesar do receio com as mudanças climáticas.

“Essa safra deve ser bem grande, se não tivermos nenhuma surpresa. Você sabe que estamos com esse ‘monstro’ aí [El Nino]. Mas, por enquanto, está tudo indo muito bem e vai continuar”, disse.

Conforme o governo do Estado de SP, a fruta originária da China é responsável por mais de 50% da oferta global. Sua produção é considerada de elevada longevidade, em que os pomares bem manejados podem produzir por décadas.

O produtor rural de Itaí também investiu na produção de lichia liofilizada, que é a técnica de congelamento do fruto

“As plantas iniciam a produção comercial a partir do quarto ano e atingem o pico de maturidade entre 9 e 10 anos, produzindo em média 65 quilos por pé na fase adulta, sendo a variedade Bengal a mais difundida na região”, apontou.

Para ajudar no desempenho de produção dos pés de lichia, o produtor mencionou utilizar uma técnica aplicada para a conservação de energia dos pomares, fortalecendo a florada e, consequentemente, o crescimento dos frutos. A tática abordada por Ricardo é a poda dos pés.

“Se a colheita acabou em janeiro, no máximo, começo de fevereiro, estamos entrando no pomar com essa podadora. Ela vai cortando os pés e deixando como se fosse uma cerca viva. Então, ele fica quadrado ou retangular. Os galhos mais velhos só vão dar brotações de galhos novos. Se você vai mantendo a poda, também mantém uma superfície o ano todo”, explicou.

A técnica não ajuda somente no crescimento da planta, mas também é indicada para a realização de uma colheita mais segura no campo. Ricardo apontou que dessa forma, os pés ficam menores e mais fáceis de serem acessados pelos trabalhadores, evitando o uso de escadas e possíveis quedas.

Entre o trabalho, o produtor ainda busca atuar junto de outros profissionais da área. Dessa forma, para Ricardo, surgem oportunidades de expansão produtiva e industrial.

“Está sendo bastante gratificante. No começo, era só uma atividade comercial, mas a ideia progrediu bastante. Acho que até de um lado menos materialista. Começamos a ter sucesso e atrair a curiosidade e atenção na região”, refletiu.

A união entre os produtores de lichia na região de Itaí formou uma rede de apoio e comunicação, buscando até mesmo investimentos na área.

“A gente percebeu que não era uma coisa para ficar entre nós. Estamos em uma região, relativamente, de menor renda per capita do Estado de São Paulo. Faltam opções para você gerar renda, emprego e melhoria social. Daí, a gente falou: ‘por que não deixar crescer?’ Vamos deixar a região crescer como um todo”, comentou.

Desde 2020, os profissionais da área trocam ideias, conhecimentos e experiências em um grupo de mensagens. Ricardo afirmou que todo o “know-how”, ou “como fazer” em português, foi aprendido com outras pessoas e, portanto, devia ser compartilhado.

“Ao invés de: ‘vamos ficar só com esse negócio, não vamos contar para ninguém e ganhar dinheiro sozinho’, a gente faz essa troca de informações e fortalece a todos. Está todo mundo abraçando essa ideia e está sendo muito interessante, muito gratificante”, concluiu.

Os outros produtos variados da lichia é o kombucha e o mel

📍Papel no estado e município

O destaque produtivo não é centrado somente na união entre os profissionais. Em nota ao g1, a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, por meio de dados do Instituto de Economia Agrícola (IEA) e da Diretoria de Assistência Técnica Integral (CATI) informou que Itaí segue consolidada como a maior produtora de lichia do estado e do país, com 170 hectares de área plantada.

“No levantamento estatístico de junho de 2026, a Regional da CATI em Avaré, que engloba Itaí, lidera a produção paulista com 43 mil pés em produção e 1,29 milhão de caixas de cinco quilos, representando 71,95% do total mapeado no trecho e atingindo rendimento médio de 30 caixas por árvore”, apontou.

Em nota, o governo estadual informou que Itaí segue consolidada como a maior produtora de lichia do estado e do país

O estado paulista continua sendo responsável por cerca de 80% da produção nacional da fruta. Indo contra o cenário brasileiro, que apresenta um declínio no cultivo, a secretaria apontou que o interior paulista segue na direção oposta, devido às condições climáticas favoráveis na região de Avaré e Itaí.

Entre os fatores estão o clima frio e seco, sem ocorrências de geadas, e o verão sendo quente e chuvoso.

“Essas características estão associadas também à localização da região próxima ao Trópico de Capricórnio e à altitude, entre aproximadamente 600 e 700 metros acima do nível do mar”, destacou.

A iniciativa citada acima por Ricardo é formada por produtores de Itaí e Paranapanema, a Cadeia Produtiva Local (CPL) da Lichia do Alto Vale do Paranapanema. De acordo com a secretaria, a organização atua no fornecimento de mudas, capacitação técnica e prospecção de mercado.

Ainda segundo a secretaria, a CPL é gerida e administrada pela Associação Comercial, Industrial e Agropecuária de Itaí (ACI). Sendo formada pela diretoria e pelos quatro funcionários da ACI, associados e representantes dos diferentes elos da cadeia.

A lichia, fruta de espécie exótica, chama atenção por sua aparência com uma casca vermelha que envolve a polpa branca

Entre eles estão os produtores de lichia, Prefeitura de Itaí, Sebrae de Ourinhos, CATI Regional de Avaré, Sindicato Rural de Itaí, Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu, agências bancárias, fornecedores de insumos, indústrias e produtores de outros segmentos.

Atualmente, a CPL abrange 18 municípios, sendo: Angatuba, Arandu, Avaré, Barão de Antonina, Cerqueira César, Coronel Macedo, Fartura, Iaras, Itaí, Itaporanga, Manduri, Paranapanema, Piraju, Riversul, Sarutaiá, Taguaí, Taquarituba e Tejupá. Em Itaí, são três produtores de lichia, mas na região abrangida pela cadeia, a estimativa é de pelo menos 13 produtores.

🍽️ ‘Capital da Lichia’

O destaque frutícola deu popularmente a Itaí o título de “Capital Nacional da Lichia”. Essa expressão, segundo a administração municipal, representa a importância alcançada na produção e comercialização da fruta.

A popularidade da fruta também trouxe outras perspectivas à cidade, como a criação do Festival da Lichia, que surgiu como uma das iniciativas planejadas a partir da estruturação da CPL. Sua primeira edição ocorreu nos dias 17 e 18 de janeiro deste ano, quando reuniu a exposição de lichias e derivados, comercialização e degustação da fruta, gastronomia, atrações musicais e atividades para as famílias.

“A lichia representa uma importante oportunidade de diversificação econômica para o município e para toda a região do Alto Vale do Paranapanema. A cadeia produtiva envolve não apenas o produtor rural e a fruta in natura, mas também transporte, mão de obra, insumos, embalagens, comercialização, exportação e a produção de derivados”, citou.

Para a administração pública, o desenvolvimento da lichia deve ocorrer de forma integrada e sustentável, com a qualificação dos produtores, inovação, melhoria da comercialização, agregação de valor, atração de investimentos e fortalecimento do turismo.

*Colaborou sob a supervisão de Stephanie Fonseca

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