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Sobrevivente de violência transforma dor em apoio a outras mulheres: 'luto por elas'

Sobrevivente de violência doméstica passa a ajudar outras mulheres a romper o ciclo

G1 — Brasil · 2026-08-16T18:07:03.000Z

Sobrevivente de violência doméstica passa a ajudar outras mulheres a romper o ciclo

Por trás do atendimento de mulheres que chegam ao Centro de Referência da Mulher (CRM), em Leme (SP), está uma profissional que conhece de perto o medo, a vergonha e a dificuldade de pedir ajuda.

Paula Zanchettin, assistente social, também foi vítima de violência doméstica e precisou reconstruir a própria vida depois de anos marcados por agressões e ameaças.

A história começou ainda na juventude, quando Paula sofreu violência sexual após ter uma droga colocada em sua bebida durante uma festa. O episódio foi seguido pelo medo e pelo silêncio por anos, até ela conseguir romper o ciclo.

A assistente social faz parte das histórias contadas pela série especial “Dona Penha”, da EPTV, que marca os 20 anos da Lei Maria da Penha.

“Quando sofria toda violencia domésica não tive rede de apoio, mas elas tinham coragem de vir e buscar apoio. Então isso me deixava mais forte, se elas estão vindo, vou lutar por elas. Hoje eu luto pela defesa das mulheres", disse.

Paula Zanchettin, assistente social, também foi vítima de violência doméstica e hoje ajuda outras mulheres a romper o ciclo

Da sobrevivência ao acolhimento

A experiência de violência extrema acabou dando um novo sentido à trajetória profissional de Paula. Depois de conseguir se afastar do agressor, ela começou a fazer terapia e recebeu a oportunidade de trabalhar justamente com mulheres que enfrentavam situações semelhantes à que ela havia vivido.

A assistente social reconhece nas mulheres que chegam ao serviço sentimentos que também fizeram parte de sua história: medo, insegurança, vergonha e a dificuldade de acreditar que existe uma saída.

Para Paula, poder acompanhar essas mulheres também representa uma forma de ressignificar a própria história. “Poder ajudar elas é bom, é algo como se completasse eu por dentro", disse.

Ela evita transformar a própria experiência em um relato detalhado diante das vítimas, mas faz questão de mostrar que conhece aquela dor e que é possível sobreviver a ela.

“Me dou a liberdade de comentar, não com tantos detalhes, o que aconteceu comigo. Mas pra que elas saibam que eu passei também pelo que elas passaram", comentou.

Vergonha e sofrimento emocional

Paula lembra que o relacionamento abusivo provocou muita vergonha e sofrimento emocional. Ela conta que entrou em uma depressão profunda e passou a carregar sozinha as consequências da violência psicológica, física, além de ameaças.

Quando descobriu que estava grávida, decidiu que não queria se casar. Foi então que o companheiro apontou uma arma para sua cabeça e fez uma ameaça que marcou sua vida:

“Se você não ficar comigo, você não vai ficar com mais ninguém, porque eu vou matar você", relembrou.

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Assistente social Paula Zanchettin está a frente do CRM, em Leme e luta pela defesa das mulheres

Ciclo da violência

Paula conseguiu pedir socorro ao pai e decidiu não permitir mais que o homem se aproximasse. Mas romper não foi simples. Ele pediu perdão, prometeu mudar e, em determinado momento, Paula voltou para o relacionamento. O ciclo recomeçou.

A violência psicológica foi uma das partes mais difíceis de reconhecer. Antes das agressões físicas mais graves, havia humilhações, ameaças e situações que diminuíam sua autoestima.

Para Paula, esse tipo de violência pode ser ainda mais difícil de identificar justamente porque não deixa marcas visíveis.

“A violência que mais machuca a mulher e mata a mulher é a violência psicológica. Eu queria gritar, alguém me abusou, mas eu não consegui passar isso pra ninguém. Porque ela é silenciosa, ela não deixa marcas", disse.

Paula Zanchettin trabalha diariamente com casos de violência doméstica em Leme

Em outro momento, as agressões chegaram ao extremo. Paula foi espancada e perdeu a consciência.“Ele me bateu muito, muito, a ponto de eu desmaiar e ele me levar para o hospital.”

A agressão aconteceu diante da filha. Mesmo com o rosto coberto de hematomas, Paula inicialmente não permitiu que o hospital acionasse a polícia.

Foi somente no dia seguinte, ao se olhar no espelho e perceber a dimensão das lesões, que encontrou forças para denunciar.

“No outro dia, quando eu acordei, eu olhei no espelho, porque o meu rosto estava todo roxo, muito roxo. Aí eu tive coragem", comentou.

Rede de apoio

A falta de uma rede de apoio também dificultou a saída. Paula conta que, quando procurava pessoas próximas, nem sempre era acolhida.

Ao mesmo tempo, ela encontrou pessoas que ajudaram a reconstruir sua vida. Quando decidiu deixar o relacionamento, conseguiu um lugar para morar e contou com a ajuda de familiares e amigas para enfrentar os primeiros dias.

A separação significou abrir mão da estabilidade financeira e começar praticamente do zero. O recomeço foi difícil, mas também representou a possibilidade de recuperar a própria autonomia. Hoje ela é exemplo incansável de luta pela defesas das mulheres da região.

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