ITATIBA1

Dia do Patrimônio Nacional: 1º cemitério protestante do Brasil surgido em 1811 segue esquecido e aguardando restauração

Primeiro cemitério protestante do Brasil fica em Iperó e surgiu após morte de trabalhador

G1 — Brasil · 2026-08-17T13:03:05.000Z

Primeiro cemitério protestante do Brasil fica em Iperó e surgiu após morte de trabalhador

O primeiro cemitério protestante do Brasil está localizado em Iperó, interior de São Paulo, e criado a partir de um episódio que marcou a história da liberdade religiosa no país, continua esquecido e aguardando restauração.

Em celebração ao Dia Nacional do Patrimônio Histórico, nesta segunda-feira (17), o g1 relembra a história do local, situado no meio da Mata Atlântica, a 130 quilômetros da capital, em uma área de preservação da Floresta Nacional de Ipanema (Flona).

Segundo o historiador e professor Carlos Carvalho Cavalheiro, de Porto Feliz (SP), que também é doutorando em comunicação e cultura pela Uniso, o cemitério foi criado como uma alternativa para estrangeiros da Real Fábrica de Ferro de São João do Ipanema que não podiam ser enterrados em cemitérios católicos.

Primeiro cemitério protestante do país está em Iperó (SP)

A construção foi autorizada por Dom João, em 1811, após a morte de um trabalhador sueco da Real Fábrica de Ferro. A mesma Carta Régia - documento assinado pelo monarca - permitiu que esses grupos realizassem cultos particulares em suas residências.

"O contexto foi o da Fábrica de Ferro que tinha como trabalhadores, inclusive engenheiros e o diretor, pessoas vindas de regiões da Europa protestante: suecos, ingleses, alemães. A morte de um deles e a inexistência da possibilidade de se enterrar em um cemitério católico - pelo Padroado, os cemitérios eram todos administrados pela Igreja - Dom João autorizou a construção do cemitério protestante", explicou Carlos.

O historiador Carlos Carvalho Cavalheiro fala sobre o primeiro cemitério protestante do Brasil

Para Dom João, esses trabalhadores protestantes eram essenciais para o sucesso do empreendimento da Fábrica de Ferro. Foi então que, para não perdê-los, ele flexibilizou as regras.

Enviada ao Marques de Alegrete, capitão general da capitania de São Paulo, a carta de 28 de agosto de 1811 determinou a escolha de uma área para abrigar os restos mortais dos protestantes. Confira um trecho abaixo e a carta na íntegra por meio deste link.

Além de deixar claro que os protestantes teriam um local para o sepultamento, na mesma carta o monarca pede que o trabalho do grupo seja enaltecido, e afirma que o episódio da morte do carpinteiro causou um “horror” na população, que os via como hereges.

“Também vos encarrego a cuidar e que aí se estabeleça, e conserve em boa ordem um terreno, que sirva de cemitério aos ingleses e suecos, e em geral aos que não forem membros da Nossa Santa Religião, permitindo-lhes também que em suas casas particulares, e sem forma de igreja, possam reunir-se para o culto particular, que dirigem ao Ente Supremo, e no qual vigiareis, não possam jamais serem inquietados pelos habitantes do país, o que muito vos é recomendado”, dizia.

Cemitério Protestante localizado na Flona em Iperó (SP)

Quem está enterrado no cemitério?

Segundo o historiador, trabalhadores europeus e protestantes da Fábrica de Ferro estão enterrados no local.

"Alguns nomes ainda permanecem nas cruzes e lápides que sobraram, como Ottilie Hund Neumann, Russini Ed. Adelaide e Jonas Bergmann. Eram pessoas que não tiveram projeção social e, por isso, seus nomes não constam nos livros de História", disse o historiador.

Para Carlos, a existência do cemitério protestante revela o receio que os adeptos de outras religiões tinham em relação ao controle da Igreja Católica, que estava ligada, pelo Padroado, à Coroa.

Lápides do Cemitério Protestante de Iperó (SP)

"O Catolicismo chegou às Américas, no fim do século XV, dentro do contexto da Reforma Protestante, ou seja, com a intenção de ampliar o seu número de fiéis, já que os havia perdido em grande medida na Europa com o surgimento das Igrejas Luterana, Calvinista e Anglicana. Assim, o catolicismo considerava crucial a manutenção do seu poder dentro das terras ibero-americanas".

Com isso, o protestantismo era considerado um "concorrente" dentro da lógica do mercado religioso. Impedir o sepultamento de não-católicos nos cemitérios, segundo o especialista, era uma forma de tentar controlar o crescimento de outras doutrinas religiosas.

Protestantes não tinham autorização para serem enterrados em cemitérios convencionais

Local está em ruínas

O g1 esteve no cemitério protestante há 9 anos e o encontrou em ruínas. Atualmente, o local segue sem qualquer restauração, apenas com serviços de roçagem para diminuir a altura do mato.

Não há um motivo que determine com precisão o esquecimento do local. Mas, de acordo com o historiador, a razão pode ter a ver com o fato de que a maioria das pessoas enterradas ali eram estrangeiras e, possivelmente, não tinham parentes ou descendentes no Brasil.

Primeiro cemitério protestante do Brasil está quase esquecido

"Quando eu o conheci, na década de 1990, guiado pelo professor João Alex Alves, a situação desse cemitério era catastrófica. Não havia nenhuma indicação do cemitério, as cruzes e lápides quase todas derrubadas ou danificadas e o mato o encobria quase completamente. A situação mudou de uns anos para cá, mas não com a capacidade de reverter décadas de abandono e descaso", pontuou.

Conforme o g1 apurou, a roçagem e limpeza do espaço é feita com frequência, uma vez que o espaço costuma receber visitantes. No entanto, não houve nenhuma intervenção de restauro nos últimos nove anos.

Primeiro cemitério protestante do Brasil: G1 visitou local que está em ruínas

Em nota enviada ao g1, a prefeitura de Iperó informou que, o cemitério, assim como todo o sítio histórico da antiga Fábrica de Ferro de Ipanema, que está inserido na área da Flona Ipanema, é patrimônio tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) desde 1964.

O cemitério protestante também é reconhecido como patrimônio histórico pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat), na condição ex officio - decisão tomada por iniciativa própria, sem que ninguém tenha pedido ou exigido.

Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão responsável pela administração da Flona Ipanema, cabe à unidade adotar as medidas necessárias para a preservação, manutenção e eventual restauração do patrimônio histórico existente na área, especialmente dos bens tombados.

Lápide de pedra leva inscrição em italiano no cemitério protestante em Iperó

Initial plugin text

Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí

VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

Leia no Itatiba1 →