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Rafaell Câmara Roque, de 36 anos, contou ter sido sequestrado e levado para uma comunidade, onde participou de um tribunal do crime do PCC
G1 — Brasil · 2026-08-17T20:34:32.000Z
Rafaell Câmara Roque, de 36 anos, contou ter sido sequestrado e levado para uma comunidade, onde participou de um tribunal do crime do PCC
Arquivo pessoal e Ministério Público
O advogado Rafaell Câmara Roque, de 36 anos, foi sequestrado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), passou por um ‘tribunal do crime’ e foi liberado em seguida. Ao g1, ele contou que também já esteve no mundo do crime, vendendo drogas e cometendo furtos, mas mudou de vida, estudou e atua como criminalista há 12 anos.
Natural de Santos, no litoral de São Paulo, Roque contou que, após enfrentar dificuldades familiares e financeiras, foi atraído para a criminalidade aos 15 anos. A mudança de vida veio anos depois, primeiro vendendo roupas e, mais tarde, com o diploma da faculdade de Direito.
“Eu mudei, fui estudar. Então eu sempre ajudei muita gente do crime, porque eu sei o que é ser ignorante e viver dessa maneira. Eu sempre tive empatia por eles, até que eu passei por isso [sequestro] e tive uma visão diferente do mundo do crime", disse.
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Roque relembrou um episódio que considerou determinante na trajetória até o diploma. Segundo ele, às vésperas de completar 18 anos e já tendo abandonado o mundo do crime, foi agredido e humilhado durante uma abordagem da polícia.
Ele contou que, após o episódio, prometeu a amigos e familiares que retornaria à delegacia como “Doutor”.
“No dia que eu fui chamado de Doutor pela primeira vez, eu chorei. Então foi uma sequência de ressignificações de traumas”, destacou Roque.
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Advocacia e fé
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Roque relatou também sobre como a fé mudou sua vida. Ele disse que começou a estudar a Bíblia em 2019, após passar por problemas pessoais e emocionais. Posteriormente, passou a pregar o Evangelho e escreveu o livro “O que quase ninguém entende da Bíblia”.
Ele acrescentou que a fé passou a ser parte central na maneira como interpreta a própria história e também a profissão. Mesmo depois do sequestro, Roque diz que não cogitou abandonar a advocacia criminal por ser uma ferramenta para ajudar pessoas, assim como o Evangelho.
No entanto, segundo ele, o sequestro mudou a percepção sobre o crime organizado, pois tentou recorrer a pessoas para quem já havia prestado assistência jurídica e não recebeu ajuda. Durante seu ‘julgamento’, ele ligou para José Armerindo Santos, que era seu cliente.
“Também por conta disso, eu resolvi enfrentar, bater de frente, denunciar, independente das consequências. Eu era imparcial [sobre advogar para criminosos envolvidos com facções]. Com tudo isso que aconteceu, acabei tomando uma atitude contra eles”, disse.
O episódio também trouxe consequências para a carreira. Roque afirma que não consegue mais atuar na advocacia criminal da mesma maneira, já que teme se deslocar pessoalmente para atender clientes desconhecidos.
Motivação do sequestro
Roque foi sequestrado após ajuizar uma ação contra uma empresa comandada pelo suposto integrante da facção Wagner Rodrigues dos Santos. O objetivo do grupo era forçar o advogado a abandonar o processo e fornecer o endereço do cliente (e ex-sócio de Wagner) que ele representava.
O profissional explicou que entrou com a ação porque seus clientes teriam sido "expulsos" da empresa por Wagner, com quem tinham relação desde a infância. O suspeito teria prometido pagar um valor referente à parcela dos sócios para que eles deixassem o negócio, o que não aconteceu.
O sequestro aconteceu em 11 de junho, na Vila Esperança, em Cubatão (SP). Roque disse que nunca havia conversado com William Nascimento Boaventura (que acabou preso na operação policial), mas foi ao local após ele entrar em contato solicitando um serviço de advocacia.
O objetivo da contratação seria tentar a liberação de uma pessoa que havia sido presa. Em vez de ir a uma delegacia, o profissional foi orientado a encontrar o homem em uma comunidade. "No trajeto, eu percebi que estava numa fria", contou.
Roque foi mantido em cárcere das 19h à 1h da madrugada seguinte e, segundo ele, sofreu tortura psicológica por cerca de 30 pessoas que participaram do “tribunal do crime”, algumas delas por videochamada, inclusive Wagner.
Denúncia e impactos
Apesar de ter cedido inicialmente à condição imposta pelos criminosos, Roque procurou o Ministério Público para denunciar o caso. A investigação foi assumida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).
Mesmo com o receio de sofrer represálias, o advogado decidiu tornar o caso público. “Aprendi com Martin Luther King que o problema do mundo não é o barulho dos maus, mas o silêncio dos bons. Enquanto a gente não abre a boca, os ratos estão fazendo a festa”, afirmou.
Para o profissional, o grupo agiu com injustiça e cerceou sua liberdade, ultrapassando os limites do próprio discurso. O episódio abalou a saúde mental e a rotina de Roque, que passou a desconfiar de ligações de desconhecidos e viu pessoas próximas se afastarem por medo.
"Eu fiquei quinze dias sem dormir. Eu tenho medo, pânico às vezes. Meu psicológico ficou muito abalado [...] Não sabia que eu ia perder tudo que eu perdi [após entrar com a ação]. Perdi a minha paz, a minha liberdade”, lamentou.
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