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De agressões a abusos sexuais: promotor detalha torturas em clínica após prisão de casal em Portugal

Brasil inicia processo para extraditar advogada e psicólogo presos em Portugal

G1 — Brasil · 2026-08-18T05:00:37.000Z

Brasil inicia processo para extraditar advogada e psicólogo presos em Portugal

Após as prisões de Marluci Cabrera Bellini Henares e Djalma Antônio Henares Júnior em Portugal, o promotor de Justiça Aroldo Costa Filho relembrou detalhes das violações ocorridas em uma clínica de reabilitação de Ribeirão Preto (SP) onde os acusados atuavam.

O representante do Ministério Público, que acompanha o caso desde o início das investigações há 12 anos, descreve um cenário de violência sistemática e humilhações contra internos.

“As pessoas que foram ouvidas e que procuraram o Ministério Público esclareceram vários fatos graves que foram praticados contra elas. Primeiro, agressões físicas, que era a mais comum. Eram agredidas com socos, com pedaços de madeira. Até violentadas sexualmente com outros tipos de instrumentos", afirmou o promotor.

As defesas dos réus foram procuradas, mas não se manifestaram sobre o caso até a última atualização desta notícia.

Marluci Cabrera Bellini Henares e Djalma Antônio Henares Júnior, condenados por tortura em clínica de reabilitação de Ribeirão Preto (SP).

O casal foi preso pela polícia de Portugal em julho de 2026, sendo Djalma, de 56 anos, detido no dia 9 e Marluci, de 49, no dia 17.

As prisões ocorreram cerca de um mês após a condenação definitiva pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), que fixou a pena em 17 anos e seis meses de reclusão.

Com a confirmação da sentença, o Ministério Público de Ribeirão Preto solicitou a extradição dos réus para que cumpram a pena em regime fechado no Brasil.

Além deles, também foi condenado à prisão Angelo Bellini Neto, sobrinho de Djalma que trabalhava na clínica. Ele foi encontrado e preso em Cravinhos (SP).

Clínica de reabilitação de Ribeirão Preto denunciada em 2014 por tortura contra pacientes.

Pedaços de madeira e castigos psicológicos

De acordo com o promotor Aroldo Costa Filho, as investigações, iniciadas em agosto de 2014 após mandados de busca e apreensão, revelaram que os internos eram submetidos a métodos de controle violentos e degradantes.

Além de serem amarrados e jogados em galpões com o chão molhado e ensaboado, os pacientes eram forçados a ingerir medicamentos controlados sem prescrição médica.

Casal condenado por tortura em clínica de reabilitação de Ribeirão Preto é preso em Portugal

MP cumpre mandados em clínica para dependentes suspeita de tortura

“Eles até utilizavam uma expressão chamada 'danoninho', falavam: 'ele vai ter que tomar o danoninho', 'eu tomei o danoninho', que era um medicamento em gotas que era colocado na água e eles eram obrigados a ingerir”, relatou o promotor.

Diligências em clínica de reabilitação em 2014 denunciada por tortura em Ribeirão Preto (SP).

Outra prática descrita envolvia castigos psicológicos, em que internos eram obrigados a ficar sentados olhando para árvores por horas seguidas e, se cochilassem, eram acordados com agressões.

Os relatos das vítimas apontam que os proprietários, Djalma e Marluci, tinham participação ativa nas dinâmicas da clínica, inclusive utilizando câmeras para vigiar os internos 24 horas por dia.

Angelo, um terceiro condenado que atuava como monitor, era apontado como o responsável direto pela execução frequente de agressões físicas, como "mata-leão", socos e pontapés.

O processo na Justiça e a lista da Interpol

O processo contra o casal e outros funcionários da clínica transcorreu por 12 anos. Logo no início das investigações, em 2014, o Ministério Público chegou a solicitar a prisão preventiva dos réus, mas eles deixaram o país de forma legal antes da expedição dos mandados, fixando residência em Portugal.

Durante esse período, Marluci chegou a atuar como professora de zumba na região autônoma de Açores.

A localização do casal só foi possível após colaboração entre o Ministério Público e a Polícia Federal, que identificaram os endereços em território estrangeiro.

Pedaços de madeira apreendidos em clínica de reabilitação denunciada por tortura em Ribeirão Preto em 2014.

Em junho de 2026, com o trânsito em julgado da condenação pelo STJ, os nomes de Marluci e Djalma foram incluídos na Difusão Vermelha da Interpol, o que viabilizou as prisões efetuadas no mês seguinte.

O crime de tortura é considerado hediondo e a dosimetria da pena, segundo o promotor, levou em conta a continuidade dos crimes e o número de vítimas — pelo menos 24 ex-internos foram identificados apenas no dia da operação em 2014.

“A resposta para a sociedade é muito boa. Demorou um pouco, mas a punição veio e veio com rigor”, disse Costa Filho.

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