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Autor de assassinato no Maranhão disse em depoimento que tinha reuniões com governador no Palácio

Pivô de um escândalo que lançou suspeitas sobre autoridades do Maranhão, Gilbson Júnior, condenado por homicídio, afirmou em depoimento que frequentava o Palácio dos Leões, sede do Executivo estadual, para fazer reuniões com o governador…

G1 — Política · 2026-08-18T18:00:08.000Z

Pivô de um escândalo que lançou suspeitas sobre autoridades do Maranhão, Gilbson Júnior, condenado por homicídio, afirmou em depoimento que frequentava o Palácio dos Leões, sede do Executivo estadual, para fazer reuniões com o governador Carlos Brandão (MDB) e seu sobrinho, Daniel Brandão.

"Eu tinha uma vaga [de garagem] no Palácio dos Leões. Eu chegava, entrava, a vaga número 6", disse.

Gilbson Júnior também implicou um desembargador do estado em um suposto pagamento para que ele permanecesse em silêncio (leia mais abaixo).

Gilbson Júnior foi condenado por matar um homem em um centro comercial de São Luís em agosto de 2022. Segundo decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), há indícios de que o homicídio esteja relacionado à divisão de propinas no estado.

Carlos Brandão e Daniel Brandão

O depoimento foi prestado por Gilbson Júnior a uma delegada da Polícia Federal (PF) e um procurador da República em 24 de junho de 2025, no âmbito da investigação que, naquele momento, tramitava no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

O caso subiu para o STF em outubro passado, e o ministro Flávio Dino foi sorteado para ser o relator.

Os trechos do depoimento estão transcritos em uma decisão sigilosa de Dino, de novembro de 2025, a que o g1 teve acesso e que fixou a competência do STF para acompanhar as investigações do caso.

Gilbson Júnior contou no depoimento à PF que era aliado de Carlos Brandão, com quem teve várias reuniões a partir de 2021, quando ele ainda era vice-governador.

Brandão assumiu o governo do estado em abril de 2022, com a saída do então governador Flávio Dino para concorrer ao Senado. Ele foi reeleito em outubro daquele ano.

Já nas reuniões iniciais, Carlos Brandão teria colocado Gilbson Júnior em contato com Daniel Brandão, que viria a ser nomeado conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA) em 2023.

Nesta segunda-feira (17), ele foi afastado do cargo por 180 dias por decisão de Dino, que atendeu a um pedido da PF (veja mais no vídeo acima).

Segundo o depoimento de Gilbson Júnior, as reuniões iniciais com Carlos e Daniel Brandão eram para tratar da venda de terras no estado.

'Pô, o tio disse que era pra mim [sic] resolver algumas coisas contigo aí de interesse total dele, e nosso também, porque eu tenho uma área lá nessas terras também'", teria dito Daniel a Gilbson Júnior.

O negócio com as terras acabou não se concretizando, mas marcou o início da aproximação entre Gilbson Júnior e o grupo político de Brandão.

"Eu tinha uma vaga no Palácio dos Leões. Eu chegava, entrava, a vaga número 6, aí sempre era registrado em ata a minha visita, mas, geralmente eu falava pro Daniel, e eu entrava pela área de vivência do governador, aí subia a escada, aí tinha um salão", disse.

"No Palácio eu registrei umas três vezes [a entrada], porque depois eles me deram uma vaga lá, vaga seis. E disseram: 'Oh, tu pode chegar que eu dei uma ordem lá pra oficial pra tu entrar'", contou.

"Aí foi se passando, Brandão, Carlos Brandão, governador, aí começava a me chamar direto lá no Palácio dos Leões, aí Daniel começou já falar em outras coisas comigo", relatou Gilbson Júnior.

No depoimento à PF, ele narrou o que teria acontecido no dia do assassinato de João Bosco Sobrinho no centro comercial Tech Office, em agosto de 2022, em São Luís.

Inicialmente, a Polícia Civil do Maranhão concluiu que Gilbson Júnior baleou João Bosco Sobrinho por causa de uma desavença pessoal. Gilbson Júnior respondeu sozinho pelo crime e foi condenado pela Justiça maranhense, em 2024, a 13 anos de prisão.

Em 2025, com Gilbson Júnior cumprindo pena em um presídio do Maranhão, o que contrariou a expectativa da família de que ele seria solto rapidamente, seus pais e sua esposa decidiram procurar a Polícia Federal e revelar sua versão sobre o contexto do homicídio.

A PF, então, reuniu indícios de que o crime tinha ocorrido, na verdade, por causa de uma briga pela divisão de propina.

Gilbson Júnior contou ao STJ que uma empresa envolvida no suposto esquema de desvios de dinheiro público tinha recebido um pagamento do governo estadual. Pelo acordo, uma parte desse pagamento tinha que ser repassada de volta ao grupo de Brandão.

Daniel Brandão, presidente afastado do Tribunal de Contas do Maranhão

No entanto, segundo Gilbson Júnior, a empresa tinha dívidas trabalhistas e o dinheiro acabou sendo bloqueado pela Justiça. Com isso, não havia sobrado o suficiente para o repasse combinado.

"Aí quando houve o pagamento começou uma pressão muito grande pra dar um jeito de pagar, porque eu disse: 'Rapaz tem a dívida trabalhista.' Aí eu fui conversar com Daniel pra resolver, só que ele saiu, lá no escritório, no Palácio, saiu, aí o Beto [outro investigado] ligando: 'Rapaz, oh, a gente vai pagar o outro, mas a gente quer logo a metade desse aí. A gente pagou setecentos e poucos mil reais, (...) trezentos e cinquenta mil tem que pagar.' (...) Eu: 'Rapaz, eu te expliquei que isso aí tinha dívida trabalhista'", relatou Gilbson Júnior.

Ele disse que o grupo procurou seu pai para fazer ameaças por causa da falta de pagamento, e que ele próprio continuou a ser procurado por Daniel Brandão.

"Aí eu liguei: 'Qual foi, Daniel?' Ele: 'Não, rapaz, eu quero saber cadê o dinheiro?' Eu: 'Que dinheiro?' 'O dinheiro que o Beto Castro fez o pagamento pra você e você não passou o dinheiro'", disse.

De acordo com Gilbson Júnior, Daniel o chamou para uma conversa no Tech Office, da qual participaram os dois e mais duas pessoas: João Bosco, o homem que viria a ser assassinado, e um outro identificado como Beto.

"Oh, as imagens [das câmeras do prédio] mostram Daniel ligando, falando comigo, assim lá do Tech Office. O [João] Bosco e o Beto sentado, aí eu chego. Eu fui armado, porque eles já tavam me ameaçando de todo jeito. Botei uma arma dentro da bolsa."

Na conversa, Daniel teria dito: "'Cadê o dinheiro, a gente tá em plena campanha, gastando muito...' [...] Oh quero esse dinheiro até à noite, quero até à noite, não quero saber.' [Daniel] Levantou e saiu, e me deixou lá sozinho com os caras. Aí o cara [João Bosco]: 'Bora, bora, tu vai ver, na hora que eu botar a pistola na boca do teu filho'", narrou Gilbson Júnior.

Ele disse que se levantou para ir embora, mas João Bosco e Beto se aproximaram e continuaram a fazer ameaças, tentando colocá-lo dentro de um carro que estava estacionado no local.

"Eu já tava totalmente transtornado. Aí eu viro, aí eu abro a bolsa, e ele tipo faz sinal que vai botar a mão na cintura [para pegar uma arma]. Eu dei três tiros nele", disse Gilbson Júnior.

Em seguida, o assassino disse que recebeu uma ligação de Beto, que teria dito: "'Não te apresenta [à polícia], não te apresenta não, porque senão vai sujar tudo, pô, vai pegar pra Brandão, pô, a campanha.'"

"Passou doze dias, eles entraram em contato comigo, já o Raimundo Cutrim", disse Gilbson Júnior. Raimundo Cutrim é ex-secretário de Segurança Pública do Maranhão e aliado do governador.

"Ele disse: 'Oh, tu vai te apresentar, eu sou muito amigo da família Brandão, a gente vai garantir toda... já falei com eles, garantiram tudo, que vão resolver tudo, vão vender até tuas terras, mas tu não pode aparecer pra nada, só vai te aparecer pra te apresentar. Tu vai ser preso, e a prisão é temporária, porque o delegado pediu, e depois de trinta dias tu tá solto.' Aí eu me apresentei", contou.

A partir dali, segundo Gilbson Júnior, sua família começou a receber pagamentos em dinheiro vivo para que ele ficasse em silêncio.

"No começo era quarenta mil [reais], pra mim nem sair de casa. Depois que o Brandão se elegeu aí caiu pra trinta, por último só tava quinze mil por mês", disse.

Os pagamentos, de acordo com o depoimento, eram intermediados por Raimundo Cutrim, por um homem identificado como Júnior Cabeção e por um advogado, Flávio Costa — que, em 2026, viria a ser nomeado desembargador do Tribunal de Justiça do Maranhão pelo governador Carlos Brandão, em vaga destinada à advocacia.

"Levava em espécie. Era o Cutrim, entregava em espécie, e o Júnior Cabeção, porque o Júnior Cabeção mais o Flávio é que faz toda a operação, inclusive têm as gravações de áudio, não sei se vocês já tiveram acesso", disse Gilbson Júnior.

Gilbson Júnior também afirmou que, durante a prisão no Maranhão, foi retirado informalmente da cela para conversar por telefone com o empresário Marcus Brandão, um dos irmãos do governador.

"Me ligaram, pra dentro do presídio. O Marcus ligou pra administração, lá me tiraram [da cela], levaram pra mim falar com ele [pelo telefone da administração]. Ele disse: 'Oh, vai dar tudo certo, não bota o nome da gente, nem de Daniel, nem de ninguém, que vai dar certo'", relatou.

A delegada da PF que tomou o depoimento perguntou, então, se Gilbson chegou a mencionar o nome dos Brandão em algum momento quando foi ouvido pela Polícia Civil. Ele respondeu que o depoimento foi uma "armação".

"Quando eu fui me apresentar na delegacia, que eu cheguei lá, já tava tudo armado. O delegado, todo mundo. O delegado até escreveu um nome no papel assim em branco [...] ele escreveu assim: Não bota o nome, não fale Daniel. Aí botou em cima da mesa, assim, virado", relatou.

A Polícia Federal apontou posteriormente que, apesar de haver imagens de câmeras do local do assassinato, a Polícia Civil maranhense deixou de identificar a presença de Daniel Brandão na reunião que culminou no assassinato.

Hoje, o caso está sendo investigado no Supremo porque, segundo as apurações, há indícios de que o senador Weverton Rocha (PDT-MA) tentou interferir no processo enquanto ele estava no STJ, com o objetivo de proteger os Brandão. Como senador, Weverton tem foro especial perante o Supremo. Ele nega irregularidades e sugere ser alvo de perseguição política.

O que dizem os investigados

Questionado sobre o teor do depoimento, o governador Carlos Brandão reenviou nota divulgada na segunda-feira (17).

A defesa afirmou que as citações ao nome do governador são inconsistentes e criticou a atuação do STF no caso.

Os advogados sustentam que a condução e a supervisão de investigações sigilosas pela Corte neste caso configuram usurpação da competência constitucional do Superior Tribunal de Justiça (STJ), gerando nulidade absoluta por violação ao princípio do juiz natural.

Também em nota nesta segunda, Daniel Brandão, afastado do TCE-MA, afirmou sua "absoluta inocência" e disse estar "à disposição das autoridades e do Poder Judiciário para prestar quaisquer esclarecimentos que se façam necessários".

A reportagem também questionou o Tribunal de Justiça do Maranhão sobre a menção ao desembargador Flávio Costa. Não houve posicionamento até a publicação desta reportagem.

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