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Apesar de o ano da Portuguesa ter acabado dentro de campo em pleno mês de agosto, com a eliminação na Série D do Campeonato Brasileiro, fora dele ainda há decisões cruciais em andamento. Entre elas, o projeto do novo Canindé e a recuperação judicial.
ge — Futebol · 2026-08-18T21:04:59.000Z
Apesar de o ano da Portuguesa ter acabado dentro de campo em pleno mês de agosto, com a eliminação na Série D do Campeonato Brasileiro, fora dele ainda há decisões cruciais em andamento. Entre elas, o projeto do novo Canindé e a recuperação judicial.
A recuperação judicial acaba tendo um peso maior porque, se a homologação for rejeitada pela Justiça, não há mais Lusa. Uma reprovação significaria a falência formal e institucional do clube, o que implodiria automaticamente a SAF rubro-verde.
A homologação não só reduz a dívida com os credores de pouco mais de R$ 550 milhões para pouco menos de R$ 200 milhões como reorganiza em um parcelamento de uma década, livrando a associação de penhoras e bloqueios, viabilizando a Portuguesa.
Houve duas novidades recentes neste caso. Uma é que a Lusa conseguiu derrubar as liminares que haviam suspendido o processo, obtidas por dois ex-jogadores, que têm débitos a receber e discordam do plano de pagamento aprovado pela maioria.
Além de o processo ter sido retomado, ainda houve uma mudança no comando. A juíza Tainá Maria Leonardo de Oliveira assumiu o processo. E aí vem a pergunta: o que falta para que a magistrada enfim decida sobre a homologação da recuperação judicial?
Um dos pontos fundamentais é a apresentação, por parte da Portuguesa, de uma certidão negativa de débitos federal. O clube enfrenta dificuldades em razão de renegociações de débitos do passado não cumpridas. Em palavras simples, ficha suja na praça.
Foi necessário esperar essa inadimplência caducar para dar entrada no pedido. Neste momento, o clube está aguardando. O processo para emissão está em andamento, nas mãos de um procurador. Assim que a certidão sair, a expectativa é pela homologação.
Só que, a partir daí, a juíza vai determinar o cronograma de pagamento. Ou seja, a Lusa pode ser obrigada a começar a pagar o parcelamento dos débitos imediatamente. Para tanto, é preciso que a engrenagem do novo Canindé comece a girar o quanto antes.
Não é novidade para a torcida da Portuguesa que o projeto da SAF depende do novo Canindé. Do tripé formado por futebol, recuperação judicial e arena, a arena é que realmente trará o retorno financeiro para as outras duas frentes caminharem.
Neste caso, SAF e Lusa estão há meses tratando da regularização do terreno e da aprovação do projeto na prefeitura de São Paulo. Mesmo porque quase metade do terreno do Canindé, onde está uma parcela do atual estádio, é concessão municipal.
Estádio do Canindé, em São Paulo
O plano é comprar o terreno da prefeitura. Só a Portuguesa pode fazer isso. A SAF, portanto, entraria com os recursos. Só que a área passaria a ser da associação. Tal qual no terreno próprio, haveria uma concessão temporária para exploração da SAF.
O investimento seria coberto, ao longo do tempo, abatendo dos royalties da sonhada arena. Ou seja, o patrimônio do clube aumentaria e haveria mais flexibilidade para explorar a área, já não sendo mais uma concessão da prefeitura de São Paulo.
Para tanto, depende-se da tramitação de um projeto de lei. A própria administração municipal tem prometido equacionar essa questão neste ano. Já se passou por várias etapas burocráticas, como aval de órgãos de fiscalização e valoração do terreno.
A partir da compra seria possível, enfim, dar início ao projeto do novo Canindé. Trocando em miúdos, demolir o atual estádio e começar a construir outro. O presidente da SAF, Alex Bourgeois, já disse publicamente que a engenharia financeira está pronta.
É bem nítido que tudo seria feito por meio de financiamento. Linhas de crédito que seriam quitadas, mais adiante, com o retorno financeiro que a arena trará. Ou seja, tudo depende da realização e concretização desse projeto do novo estádio do Canindé.
A SAF também já confirmou publicamente algumas vezes que quem tocará o projeto será a IN, empresa de Luís Davantel, o mesmo que participou da concepção e execução da arena do Palmeiras, e que esteve no comando da Revee até o escândalo da REAG.
A parceria dos investidores da SAF da Portuguesa com a Revee, vale lembrar, foi desfeita após aquela operação da Polícia Federal. A Revee era um braço da REAG. O impacto não foi só na gestão do projeto Canindé, mas no financiamento da SAF.
Afinal, como eram parceiras no projeto, SAF e Revee tinham facilidade na obtenção de linhas de crédito junto à REAG. Uma parceria que, em um exemplo hipotético, poderia permitir o pagamento mais adiante, em participação nos royalties do novo Canindé.
O impacto, como já noticiado tempos atrás por aqui, ficou visível no próprio balanço financeiro de 2025 da SAF lusitana. Além do aporte direto de R$ 30 milhões feito pelos investidores, houve pouco mais de R$ 17 milhões em empréstimos contraídos.
Esses empréstimos tinham como origem linhas de crédito da REAG, até a operação da Polícia Federal. Depois, passaram a vir de outras financeiras. Empréstimos que muito provavelmente não surgem com condições tão favoráveis como as de um parceiro.
A informação dada inicialmente pela Sodate News na última semana, de que a SAF antecipou a cota do Paulistão de 2027, de pouco mais de R$ 6 milhões, para arcar com custos urgentes relativos à regularização da RJ e do terreno, é um reflexo disso.
Segundo a SAF, foi apenas uma forma de obter esse montante mais rapidamente, em maio, já que esse valor todo só estaria disponível em caixa agora em setembro, como estará, alegando que não haverá impacto no investimento para o futebol para 2027.
Todo esse cenário só reforça o quanto decisões importantes ainda estão em jogo neste 2026 e o quanto o ano só acabou mesmo no futebol. Aliás, é um cenário que dá uma dimensão ainda mais clara do quanto o insucesso na Série D foi catastrófico.
Afinal, a SAF vai encarar em 2027 mais um ano de Série D. Empurra mais para frente a possibilidade de, ao subir os degraus, a Lusa ir disputando campeonatos que se paguem minimamente. Mais uma temporada de ostracismo, dificuldade de patrocínios, etc.
Tudo fica mais difícil na última divisão do futebol nacional. A temporada 2026, porém, pode terminar menos ruim. Menos ruim, claro, se a recuperação judicial for homologada e se houver sinal verde para o início do projeto do novo Canindé.
Só assim essa engrenagem poderá começar a girar. Afinal, tudo depende do último ativo que as incompetentes e obscuras gestões da Portuguesa ainda deixaram: o patrimônio. Não é um caminho simples. São muitas as variáveis. Mas é onde o clube se meteu.
Um clube que, por décadas, foi dilapidado e muito mal administrado. Esses processos, de tentativa de recuperação judicial e de regularização do terreno do Canindé, são puro reflexo dos desmandos, da bagunça, do amadorismo e da irresponsabilidade de anos.
Esse projeto, intrincado e dependente de uma costura entre diversos fatores, é complexo. Ainda mais na Lusa, em que tudo parece mais difícil. Em que para cada problema resolvido surgem 500 novos a resolver. Em que os insucessos são constantes.
As dúvidas e as preocupações da torcida da Portuguesa são várias. Quase todas bem justificadas. Será que sai a RJ? Será que conseguem comprar o terreno da prefeitura? Será que vão ter dinheiro para construir a nova arena? Será que tudo isso vai rolar?
Quando não se vê nem o mais básico rolando, que é o acesso para a Série C, a incredulidade cresce mesmo. Por outro lado, muito do que já aconteceu nesses processos da RJ e do terreno do Canindé jamais aconteceria só com a associação.
Os caminhos são mesmo tortuosos, muito graças ao que a própria Portuguesa fez (ou deixou de fazer) por décadas. E, com esse ou qualquer outro projeto de SAF rubro-verde, o caminho seria o mesmo. O projeto Canindé seria o centro. É o que sobrou.
A única chance de resolver a questão dos débitos, salvar e potencializar o patrimônio, ter um investimento de fato relevante no futebol, passar a ter sustentabilidade financeira, é saber usar o Canindé como ativo. Voltamos ao início: RJ e novo Canindé.
Para que as próximas gerações rubro-verdes ainda tenham para quem torcer é preciso não apenas que o time saia do inferno do futebol brasileiro (a Série D), mas que ainda haja clube (o que permite a RJ) e alguma viabilidade financeira (novo Canindé). Que os próximos meses deem alguma perspectiva de amanhã para a Portuguesa.
*Luiz Nascimento, 34, é jornalista da rádio CBN, documentarista do Acervo da Bola e escreve sobre a Portuguesa há 16 anos, sendo a maior parte deles no ge. As opiniões aqui contidas não necessariamente refletem as do site.