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Gratidão aumenta satisfação com a vida e reduz sentimento de inveja, mostra estudo global

Escrever e enviar uma mensagem para alguém a quem se é grato foi ação de gratidão que apresentou maior efeito positivo.

G1 — Brasil · 2026-08-19T06:00:13.000Z

Escrever e enviar uma mensagem para alguém a quem se é grato foi ação de gratidão que apresentou maior efeito positivo.

Se a frase "gentileza gera gentileza" é um lema clássico entre aqueles que defendem uma vida com mais gratidão, seus efeitos práticos vão muito além do simples respeito ao próximo.

Segundo Paulo Sérgio Boggio, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, entre os principais efeitos positivos observados estão o aumento do otimismo e da satisfação com a vida e a redução do sentimento de inveja.

"Isso é interessante porque sugere que uma intervenção que leva poucos minutos pode alterar não apenas como a pessoa se sente naquele momento, mas também como ela avalia sua vida e suas relações", comenta Boggio, que é um dos coautores brasileiros do estudo.

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👉Para analisar as consequências na saúde, a pesquisa testou seis diferentes maneiras de estimular o sentimento de gratidão:

Escrever e enviar uma mensagem para alguém a quem a pessoa é grata;

Fazer uma lista de cinco coisas pelas quais se é grato;

Escrever uma carta a uma pessoa a quem se é grato, mas não enviar;

Fazer a chamada reflexão de Naikan (escrever sobre três coisas ocorridas na semana anterior, refletindo sobre o que você recebeu, o que você deu e o que mais você poderia fazer para ajudar);

Pensar e escrever sobre cinco coisas ocorridas no dia anterior sobre as quais se é grato e, em seguida, imaginar como seria a sua vida sem isso;

Escrever uma carta a Deus, a uma força superior ou a algum tipo de entidade espiritual reconhecendo o que lhe foi dado.

Entre as estratégias avaliadas, escrever e enviar uma mensagem para alguém a quem se é grato foi a que apresentou maior efeito. Já a prática mais conhecida — listar cinco coisas pelas quais a pessoa é grata — foi a que teve menor impacto entre as seis intervenções.

Na avaliação de Boggio, uma possível explicação para esse resultado é que identificar as coisas pelas quais somos gratos é um exercício positivo, mas não necessariamente faz com que se reflita sobre por que isso tem valor para nós, como chegou até nós ou quem contribuiu para isso.

"As outras práticas exigem algum passo adicional. Na mensagem de agradecimento, por exemplo, precisamos pensar em uma pessoa e no que ela fez por nós; em outra intervenção, precisamos imaginar como seria nossa vida sem algo que valorizamos. Isso pode tornar mais saliente o valor daquilo que normalmente tomamos como dado", analisa.

De acordo com o autor, essas ações vão ao encontro de uma ideia mais ampla de gratidão, que envolve não apenas reconhecer o que há de positivo, mas apreciar outras pessoas, o presente e até perceber que aquilo que valorizamos poderia não estar disponível para nós.

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Efeitos mudam conforme o país

Ainda que a gratidão pareça ser um sentimento universal e seus benefícios se traduzam para a saúde e em prol das relações sociais, os efeitos positivos variam de maneira significativa a depender do país de origem da pessoa.

Segundo os autores, pode haver uma relação entre os resultados e características culturais das sociedades – especialmente rigidez ou flexibilidade cultural, distância do poder (o quanto uma sociedade aceita e naturaliza a desigualdade social) e religiosidade da população.

"A gratidão é uma emoção profundamente social. Ela envolve reconhecer que recebemos algo de valor e, muitas vezes, reconhecer também a pessoa responsável por esse benefício. Mas o significado desse reconhecimento depende do contexto cultural", comenta Boggio.

O pesquisador ainda ressalta que os resultados são exploratórios, isto é, não permitem explicar em detalhes o porquê das diferenças observadas entre os países.

Apesar disso, as distinções mostram que não é possível presumir que uma prática psicológica desenvolvida e testada em determinado contexto cultural vai ter o mesmo efeito em qualquer sociedade.

'Espiral de ajuda' e os limites da gratidão

Mesmo que os efeitos dependam das particularidades de cada cultura, os autores reforçam o caráter social da gratidão e até seu papel do ponto de vista evolutivo.

"Nossa espécie dependeu fortemente da cooperação para sobreviver. Mas cooperar envolve um problema: ajudar outra pessoa frequentemente tem um custo imediato para quem ajuda", reflete o pesquisador brasileiro.

Para ele, as emoções sociais, como é o caso da gratidão, podem ter contribuído para sustentar essas relações porque funcionam como mecanismos que identificam parceiros que cooperam e motivam a manter relações com eles.

🔄️De forma mais simplificada, seria criada o que os pesquisadores nomearam de "espiral de ajuda": uma pessoa que recebe uma atitude positiva pode se sentir motivada a ajudar não apenas quem a beneficiou, mas também outras pessoas.

Apesar dos resultados promissores, os autores reforçam que é importante separar a teoria do que foi demonstrado diretamente.

"Não medimos comportamento de ajuda após a intervenção e, portanto, não mostramos experimentalmente essa espiral de ajuda neste estudo em particular. O que mostramos é que práticas muito breves de gratidão alteram estados psicológicos relacionados às relações sociais e à reciprocidade", afirma Boggio.

Os participantes foram avaliados imediatamente após uma única prática de gratidão. Portanto, o que se sabe é que uma intervenção muito breve é capaz de produzir mudanças imediatas, mas não é possível afirmar quanto tempo essas mudanças duram.

"Não podemos afirmar, com base neste estudo, que alguém deveria escrever uma mensagem de gratidão todos os dias ou fazer uma determinada prática três vezes por semana. Inclusive, é possível que uma prática repetida de maneira muito automática perca parte de seu significado", comenta o pesquisador.

Para estudos futuros, os autores entendem que o objetivo não deva ser apenas quantas vezes se deve praticar gratidão, mas como transformar experiências pontuais de gratidão em formas mais duradouras de perceber e se relacionar com outras pessoas.

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