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Macaco Uacari, símbolo da Reserva
G1 — Campinas e Região · 2026-08-19T12:49:13.000Z
Macaco Uacari, símbolo da Reserva
Luiz Claudio Marigo
A Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá, no Amazonas, completou 30 anos como a primeira unidade de conservação do Brasil a adotar um modelo em que comunidades tradicionais permanecem em seus territórios e participam ativamente da proteção dos recursos naturais.
Com mais de um milhão de hectares de florestas alagáveis, a reserva protege um dos mais importantes ecossistemas de várzea do planeta e integra o Complexo de Conservação da Amazônia Central, reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial Natural, além de constar na lista de Áreas Úmidas de Importância Internacional da Convenção de Ramsar.
Ao longo de três décadas, o modelo criado em Mamirauá — baseado na integração entre pesquisa científica, conhecimentos tradicionais e indígenas e gestão participativa — se espalhou pelo país e hoje está presente em 46 Reservas de Desenvolvimento Sustentável em diferentes regiões do Brasil.
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Um modelo pioneiro
O sistema de gestão de Mamirauá começou a ser desenvolvido a partir de iniciativas iniciadas na década de 1980, em um período em que predominavam modelos de conservação baseados na exclusão da presença humana das áreas protegidas.
"Naquele momento, a criação de uma unidade de conservação ainda era frequentemente associada à retirada das populações que viviam no território", explica João Valsecchi do Amaral, diretor geral do Instituto Mamirauá.
Um dos principais idealizadores dessa mudança foi o biólogo José Márcio Ayres (1954–2003), cuja atuação foi decisiva para a criação da reserva e para a consolidação de um novo paradigma de conservação da natureza. Ayres morreu aos 49 anos, mas seu trabalho segue sendo referência para iniciativas de conservação em diferentes partes do mundo.
"Mamirauá mostrou que era possível seguir outro caminho: reconhecer as comunidades tradicionais como protagonistas da conservação, assegurando sua permanência no território e valorizando seus modos de vida", afirma Valsecchi.
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'Nosso território foi a nossa escola'
Para quem cresceu na reserva, o convívio diário com a floresta moldou a relação com a conservação. É o caso de Carlos de Carvalho Gonçalves, morador da RDS Mamirauá e diretor-presidente da AMURMAM (Associação de Usuários dos Recursos Naturais da Reserva Mamirauá).
"A minha infância na RDS Mamirauá foi de muito aprendizado. A gente morava numa comunidade tradicional, onde tudo era comum: o convívio com a natureza, com os bichos, com a comunidade, foi muito valioso para o que eu sou hoje. Eu acredito que o mais precioso de morar dentro de uma unidade de conservação é saber que onde você mora está protegido, e que as futuras gerações vão poder usufruir de tudo aquilo, sentir a mesma natureza que eu senti. Mamirauá é onde tudo começou. Nós, como moradores, temos muito orgulho de dizer que o nosso território foi a nossa escola de aprendizado para o futuro", relata Carlos
Parte do território da Reserva Mamirauá
Drone da Amazôniza
Para ele, a permanência das famílias no território também depende de condições dignas de vida, e não apenas da preservação ambiental.
"Não adianta ter a natureza intacta se não houver dignidade para o povo ribeirinho, como por exemplo, o acesso a renda, moradia, transporte de qualidade e políticas públicas, para que as famílias não precisem abandonar o território em busca de algo melhor. Quem fica não faz isso por dinheiro, mas por amor à Mamirauá, lutando para manter a floresta em pé porque esta é a nossa casa. O grande legado é reconhecer que o bioma, a natureza e o ser humano caminham juntos", complementa.
Desafios para os próximos 30 anos
Para o diretor geral do Instituto Mamirauá, completar três décadas é um marco de continuidade, mas também impõe o desafio de adaptar o modelo aos novos cenários enfrentados pela Amazônia.
Comunidade ribeirinha pescando no Instituto Mamirauá
"Chegar nesses 30 anos é realmente um marco de continuidade", destaca Valsecchi, ao apontar a necessidade de seguir fortalecendo o modelo diante das mudanças climáticas, sociais e econômicas na região — "sem perder de vista o que sustentou a Reserva Mamirauá até aqui: a permanência das comunidades em seus territórios e o compromisso com a pesquisa de ponta, na ponta, com impactos positivos reais", relata.
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