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Cientistas descobrem estrela capaz de 'sentir' a rotação do buraco negro da Via Láctea; entenda

Sequência mostra a S301 em órbita ao redor de Sagitário A*, no centro da Via Láctea, entre 2021 e 2025.

G1 — Brasil · 2026-08-19T15:00:13.000Z

Sequência mostra a S301 em órbita ao redor de Sagitário A*, no centro da Via Láctea, entre 2021 e 2025.

Uma equipe internacional de astrônomos identificou uma estrela tão próxima do buraco negro no centro da Via Láctea que o seu movimento pode, dentro dos próximos anos, revelar algo que a ciência nunca conseguiu medir de forma direta: a velocidade de rotação — o chamado "spin" — de um buraco negro supermassivo.

A descoberta, publicada nesta quarta-feira (19) na revista científica "Nature", foi feita com um dos telescópios do Observatório Europeu do Sul (ESO), no Chile. A nova estrela recebeu o nome de S301.

Ela gira ao redor de Sagitário A*, o buraco negro supermassivo que ocupa o centro da nossa galáxia, e completa uma volta em apenas 8,7 anos.

Nesse momento, a S301 chega a uma velocidade de cerca de 25 mil km/s, ou pouco mais de 8% da velocidade da luz.

E é justamente essa proximidade com um dos objetos mais extremos da Via Láctea que torna a descoberta especial.

Quanto mais perto uma estrela passa de um buraco negro, mais seu movimento sofre os efeitos da enorme gravidade ao redor dele.

“Quando verificamos se ela poderia realmente estar em uma região onde fosse capaz de sentir a rotação de Sagitário A*, a resposta foi ‘sim’. Era aquilo com que sonhávamos e, para nossa surpresa, encontramos uma estrela assim”, disse ao g1 Stefan Gillessen, astrônomo do Instituto Max Planck de Física Extraterrestre, na Alemanha, e um dos autores do estudo.

No caso da S301, a distância é pequena o suficiente para que os cientistas esperem enxergar também uma influência muito mais sutil: aquela provocada pela própria rotação de Sagitário A*.

Buraco negro Sagitário A*, no centro da Via Láctea

NASA/CXC/MIT/F. Baganoff, R. Shcherbakov et al.

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Como uma estrela pode "sentir" a rotação de um buraco negro?

Segundo a teoria da relatividade geral de Albert Einstein, um objeto extremamente massivo que gira também altera o espaço ao seu redor.

No caso de um buraco negro, esse giro pode “arrastar” o próprio espaço-tempo nas proximidades.

Esse arrasto é chamado tecnicamente pelos cientistas de efeito Lense-Thirring, mas ele só produz um efeito perceptível bem perto do buraco negro — e é exatamente aí que mora o problema: até agora, nenhuma estrela conhecida passava perto o suficiente de Sagitário A* para que esse efeito pudesse ser medido.

A S301 muda esse cenário. Em seu ponto de maior aproximação, ela passa a cerca de 1,7 bilhão de quilômetros do buraco negro — uma distância dez vezes menor do que a de qualquer outra estrela usada até hoje para estudar esse objeto.

Isso a torna cerca de cem vezes mais sensível ao campo gravitacional de Sagitário A* do que a estrela que, até então, era a principal referência nesse tipo de pesquisa.

Veja localização do buraco negro

Até hoje, o giro de buracos negros só pôde ser estimado de forma indireta, por meio de raios X emitidos por material ao seu redor ou a partir de fusões detectadas como ondas gravitacionais.

Nenhum desses métodos permite uma medição direta como a que a órbita da S301 promete oferecer.

Segundo Gillessen, se as observações continuarem no ritmo atual, a equipe já deve conseguir chegar a essa medição.

O futuro Telescópio Extremamente Grande (ELT), em construção pelo ESO, pode acelerar esse trabalho ao permitir medir a velocidade da S301 em direção à Terra e detalhar melhor sua órbita.

No estudo, os pesquisadores também repararam em outro detalhe intrigante: a órbita da S301 é extremamente alongada, quase esticada ao máximo.

Esse formato dificilmente aconteceria se a estrela tivesse se formado sozinha perto do buraco negro.

A explicação mais provável, segundo a pesquisa, é que a S301 fazia parte de um par de estrelas que passou perto demais de Sagitário A* e acabou sendo despedaçado pela força gravitacional do buraco negro — um fenômeno batizado de mecanismo de Hills.

Nesses casos, uma das estrelas pode ficar presa em uma órbita muito próxima do buraco negro, enquanto a outra é lançada para longe em alta velocidade.

O efeito funciona mais ou menos como um estilingue cósmico: uma estrela é arremessada para fora e a outra permanece girando ao redor do buraco negro.

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Apesar disso, por enquanto, os cientistas não conseguiram medir a velocidade da S301 em direção à Terra — um dado que ajudaria a confirmar detalhes da órbita — porque a estrela é fraca demais para os telescópios disponíveis hoje.

A expectativa é que a próxima geração de telescópios gigantes, já em construção, consiga captar essa informação nos próximos anos.

Os próprios autores do estudo reforçam que ainda é preciso continuar observando a estrela por mais tempo para transformar essa possibilidade em uma medição concreta.

Mas, se confirmada, a descoberta abre caminho para testar, pela primeira vez de forma direta, previsões da teoria da relatividade geral de Einstein sobre como buracos negros giram e distorcem o espaço ao seu redor.

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