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Até 13 de agosto, eles retiraram R$ 15,63 bilhões da Bolsa brasileira
G1 — Brasil · 2026-08-19T18:25:12.000Z
Até 13 de agosto, eles retiraram R$ 15,63 bilhões da Bolsa brasileira
Depois de meses renovando recordes históricos, a bolsa de valores brasileira mudou completamente de direção. Nesta terça-feira (18), o Ibovespa, principal índice da B3, fechou em queda pela 11ª sessão consecutiva, registrando a maior sequência de perdas desde 2023.
Se a tendência continuar, o índice poderá igualar — ou até superar — a marca de 13 pregões consecutivos de queda, registrada em agosto de 2023.
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Apesar da sequência negativa, o desempenho acumulado no ano ainda é positivo: o Ibovespa sobe 3,79% em 2026. No entanto, agosto praticamente eliminou boa parte dos ganhos acumulados no ano.
Somente neste mês, o índice acumula queda de 6,55%, o que coloca a bolsa brasileira como a segunda pior entre os 21 principais mercados acionários acompanhados pela consultoria Elos Ayta.
🤔 Mas o que explica essa mudança tão rápida no humor do mercado? Segundo analistas ouvidos pelo g1, não há um único fator.
A combinação entre a saída recorde de investidores estrangeiros, as dúvidas sobre o ritmo de queda dos juros, as incertezas fiscais e eleitorais, e o agravamento do cenário geopolítico levou muitos investidores a reduzir suas apostas no Brasil.
Agora no g1
Estrangeiros retiram bilhões da bolsa
O principal gatilho para essa sequência de perdas foi a retirada de recursos por investidores estrangeiros. Até 13 de agosto, investidores estrangeiros retiraram R$ 15,63 bilhões da bolsa brasileira. É a maior saída mensal desde 2022.
O recorde anterior havia sido registrado apenas três meses antes, em maio, quando o fluxo negativo somou R$ 13,28 bilhões. Com isso, 2026 já concentra as duas maiores retiradas mensais de capital estrangeiro da série histórica.
🔎 Por que isso derruba a bolsa? Quando investidores estrangeiros vendem grandes volumes de ações, a oferta desses papéis aumenta. Se há mais vendedores do que compradores, os preços caem, pressionando o Ibovespa.
O movimento contrasta com o observado no início do ano. Entre janeiro e fevereiro, investidores estrangeiros aplicaram R$ 42,56 bilhões na bolsa brasileira, um dos maiores volumes registrados na última década.
Esse fluxo ajudou o Ibovespa a renovar sucessivos recordes e a superar, pela primeira vez, os 190 mil pontos. Naquele momento, o Brasil reunia uma série de fatores considerados atrativos:
os juros elevados aumentavam a rentabilidade dos investimentos locais;
muitas ações eram vistas como baratas em comparação com outros mercados;
havia maior interesse global por países emergentes;
e havia mais dinheiro circulando no mercado financeiro internacional.
Segundo Matheus Spiess, analista da Empiricus, esse cenário começou a mudar quando os investidores perceberam que os cortes na Selic, a taxa básica de juros da economia, seriam menos intensos do que o esperado.
"O mercado esperava um ciclo mais intenso de cortes na Selic, mas essa expectativa diminuiu por causa do conflito no Oriente Médio e das incertezas em relação à inflação. Com isso, muitos investidores revisaram suas apostas e reduziram a exposição ao Brasil", afirma.
🔎 Por que isso importa para a bolsa? Quando a Selic está alta, aplicações de renda fixa, como Tesouro Direto e CDBs, passam a oferecer retornos mais atrativos, enquanto o crédito para empresas fica mais caro. Com isso, muitos investidores deixam a bolsa para aplicar nesses ativos. Quando a Selic cai, a bolsa tende a se tornar mais atrativa, já que empresas e consumidores conseguem crédito mais barato e a economia ganha impulso.
No início do ano, parte do mercado acreditava que o Banco Central do Brasil (BC) teria espaço para reduzir os juros de forma mais intensa ao longo de 2026. Afinal, a Selic estava no maior patamar em quase duas décadas.
Com a inflação demorando mais para recuar, o agravamento dos conflitos no Oriente Médio e as preocupações com as contas públicas, o mercado passou a acreditar que os juros permaneceriam elevados por mais tempo.
“A leitura predominante do mercado é que o país está precificando um prêmio de risco eleitoral, que combina a incerteza sobre a continuidade do ciclo de cortes da Selic, a competição por capital global com o setor de IA nos Estados Unidos e fatores externos, como o conflito no Oriente Médio”, afirma Beny Fard, sócio da Segundo Minuto e analista geopolítico e econômico.
🔎 Prêmio de risco é o retorno adicional que investidores exigem para aplicar recursos em um país considerado mais incerto. Quanto maior a percepção de risco, menor tende a ser o preço das ações e mais difícil fica atrair novos investimentos.
Na avaliação dos analistas, a preocupação com a eleição presidencial de outubro também passou a influenciar as expectativas do mercado. Isso porque a situação das contas públicas e o plano dos candidatos para o ano que vem interferem diretamente nas decisões do BC sobre a taxa Selic.
Além disso, o mercado acompanha as pesquisas eleitorais para tentar antecipar os rumos da política econômica a partir de 2027.
Propostas que sinalizem maior compromisso com o equilíbrio das contas públicas tendem a melhorar a percepção de risco do país e favorecer o retorno do capital estrangeiro.
O cenário internacional também mudou
Foto mostra painel em Teerã no dia 6 de agosto de 2026, em meio à guerra entre EUA e Irã.
Além dos fatores internos, a piora do cenário internacional aumentou a cautela dos investidores. A escalada das tensões no Oriente Médio intensificou a busca por ativos considerados mais seguros, como o dólar, o ouro e os títulos do Tesouro dos EUA.
🔎 No mercado financeiro, esse movimento é conhecido como "flight to quality", ou "voo para a segurança".
Como o g1 mostrou, a escalada do conflito fez o ouro disparar nos mercados internacionais, reforçando esse movimento de busca por proteção.
"Não existe um único culpado. O investidor estrangeiro está saindo do Brasil em ritmo acelerado, os juros continuam altos, a renda fixa segue mais atrativa e o aumento das tensões geopolíticas reduziu o apetite global por ativos de risco", afirma economista e consultora financeira Isabel Abreu.
Segundo ela, embora muitas empresas tenham divulgado resultados sólidos nos últimos balanços, esse fator ficou em segundo plano. "Hoje, o mercado reage muito mais às incertezas políticas, fiscais e ao cenário internacional do que aos resultados das empresas."
Vale lembrar que o tarifaço imposto pelo presidente dos EUA, Donald Trump, ao Brasil, somado ao acirramento das tensões diplomáticas entre os dois países, também contribuiu para aumentar a cautela dos investidores.
Nem todos os setores sofrem da mesma forma
A queda da bolsa não afeta todas as empresas da mesma forma. Os setores mais ligados ao consumo interno costumam sentir com mais intensidade os efeitos dos juros elevados, da desaceleração da economia e do aumento da inadimplência.
Já as empresas exportadoras, que faturam em dólar ou dependem menos da atividade econômica brasileira, tendem a enfrentar melhor os períodos de turbulência.
Segundo Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, os setores mais prejudicados neste momento são o varejo e as empresas que vendem produtos e serviços não essenciais, como roupas, eletrodomésticos, móveis e veículos, além das companhias que dependem do crédito.
"Juros elevados, inadimplência e menor poder de compra pressionam a receita e as margens dessas empresas. Os bancos também ficam mais vulneráveis, principalmente por causa do aumento do risco de crédito e das provisões [recursos reservados para cobrir possíveis calotes de clientes]", afirma.
Nesse cenário, as ações dos grandes bancos estiveram entre as principais responsáveis pelas perdas do Ibovespa nos últimos pregões. Já a Petrobras ajudou a limitar parte dessas perdas, impulsionada pelos preços do petróleo e pela repercussão da descoberta na Foz do Amazonas.
Por isso, na avaliação de Sidney, empresas ligadas à produção de commodities, como petróleo, minério de ferro e aço, tendem a oferecer maior proteção aos investidores.
"Os setores de petróleo, mineração e siderurgia conseguem atravessar melhor esse cenário porque dependem mais das commodities, do dólar e da demanda externa do que da atividade doméstica. Petrobras e Vale, por exemplo, têm funcionado como importantes amortecedores do Ibovespa", diz.
Ainda há espaço para novas quedas?
Apesar da sequência de perdas, os analistas acreditam que grande parte dos fatores que pressionaram a bolsa já foi absorvida pelo mercado e já está refletida no preço das ações.
Entretanto, a bolsa deve continuar bastante sensível aos próximos indicadores econômicos e aos desdobramentos dos cenários político e internacional.
Segundo Matheus Spiess, três fatores serão decisivos para definir o rumo do Ibovespa nos próximos meses:
os indicadores de inflação e da atividade econômica brasileira, que podem influenciar a trajetória da Selic;
o cenário político e das contas públicas, com foco nas eleições;
o noticiário geopolítico, especialmente os desdobramentos no Oriente Médio, que continuam afetando os preços da energia e os juros globais.
Esses fatores serão fundamentais para avaliar se o BC terá espaço para continuar reduzindo a taxa Selic. E, segundo Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, o mercado continua vulnerável caso o cenário econômico piore.
"Uma parte relevante dos riscos já foi precificada após a sequência recente de quedas, mas ainda há espaço para novas perdas se houver uma deterioração adicional do cenário fiscal, eleitoral, do crédito ou das expectativas para a Selic."
Por outro lado, a queda acumulada tornou algumas ações mais baratas. Para Felipe Cima, especialista em renda variável da Manchester Investimentos, esse movimento pode abrir oportunidades para investidores, desde que o cenário macroeconômico apresente melhora.
"Não é um cenário ideal, mas ficou um pouco mais estável. Se houver espaço para novos cortes na Selic, isso aumenta a atratividade da Bolsa e pode favorecer uma recuperação gradual dos ativos."
Na avaliação dos analistas, a bolsa pode estar mais próxima do fim do que do início desse movimento de correção. Ainda assim, uma retomada consistente dependerá da combinação de diversos fatores.
Até lá, a expectativa é de que o mercado continue sujeito a períodos de forte volatilidade.