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Leito do Hospital Regional Alfredo Mesquita Filho, em Macaíba
G1 — Brasil · 2026-08-19T18:51:21.000Z
Leito do Hospital Regional Alfredo Mesquita Filho, em Macaíba
Kleber Teixeira/Inter TV Cabugi
Um relatório do Hospital Regional Alfredo Mesquita Filho, em Macaíba, na Grande Natal, aponta a ocorrência de um surto de bactérias multirresistentes entre maio e julho deste ano. Nesse período, oito pacientes, que tiveram esses microrganismos identificados durante a internação, morreram na unidade.
Um documento pós-incidente foi elaborado, no último dia 11 de agosto, pela Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) e pelo Núcleo de Segurança do Paciente (NSP) da unidade. No texto, o hospital classifica o caso como “surto de infecção relacionada à assistência à saúde por microrganismos multirresistentes”.
Segundo a Secretaria de Estado da Saúde Pública do Rio Grande do Norte (Sesap), porém, o documento não permite afirmar que as bactérias tenham sido a causa direta dos óbitos.
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Ao todo, a planilha anexa ao relatório reúne 16 registros de infecção ou colonização por bactérias multirresistentes, envolvendo 15 pacientes. A diferença ocorre porque um dos pacientes aparece mais de uma vez na tabela, em datas diferentes de coleta.
🔎 Infecção ou colonização: qual a diferença? Segundo o infectologista Kleber Luz, colonização ocorre quando o microrganismo está presente no corpo, mas não provoca sinais ou sintomas. Já a infecção acontece quando a bactéria provoca alterações, como sintomas ou mudanças em exames.
Segundo o documento, quatro desses registros envolvem pacientes que chegaram ao hospital vindos de outras unidades de saúde já com identificação dessas bactérias. Os outros 12 foram associados, no relatório, à assistência prestada no próprio Hospital Alfredo Mesquita Filho.
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Os primeiros casos foram identificados em pacientes transferidos de outras unidades em maio. Nos meses seguintes, novos registros passaram a ser identificados entre pacientes do próprio Alfredo Mesquita. De acordo com a investigação, a evolução foi “compatível com a ocorrência de transmissão cruzada”.
Em entrevista ao g1, a secretária adjunta de Saúde do RN, Leidiane Queiroz, afirmou que houve transmissão cruzada entre pacientes dentro da unidade. Ela fez, no entanto, uma ressalva sobre os óbitos.
“Tive o cuidado de perguntar à equipe do hospital, e a equipe não atestou que os óbitos foram pelas bactérias”, disse. Segundo ela, a presença dos microrganismos pode agravar o quadro de pacientes já fragilizados, mas isso não permite concluir, por si só, que tenha sido a causa das mortes.
A reportagem do g1 também fez contato diretora-geral do Hospital Regional Alfredo Mesquita Filho, Patrícia Emannuely. Ela informou que não irá se pronunciar sobre o caso e que a direção do hospital adota o posicionamento apresentado pela Sesap.
🔎 Foram identificadas três principais bactérias multirresistentes entre os pacientes relacionados ao surto: Acinetobacter baumannii, Pseudomonas aeruginosa e Klebsiella pneumoniae (veja abaixo a explicação do médico infectologista).
Klebsiella pneumoniae foi uma das bactérias detectadas no surto
Além de descrever a cronologia dos casos, o relatório pós-incidente atribui o avanço do surto a uma combinação de fatores estruturais, operacionais e assistenciais.
Segundo o documento, as rondas feitas pela Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) e pelo Núcleo de Segurança do Paciente (NSP) identificaram “severa fragilidade operacional e processual” nos setores afetados, inicialmente a UTI e, depois, a Clínica Médica.
Entre os problemas citados no relatório estão:
déficit crônico de recursos humanos;
ausência de leitos específicos para isolamento;
enfermarias com mobiliário danificado e compartilhado;
sobrecarga de trabalho;
falhas na sustentação das barreiras de isolamento;
dificuldades na comunicação entre equipes;
demora na visualização de exames e culturas;
problemas na rotina de limpeza terminal e na limpeza concorrente;
compartilhamento de materiais assistenciais entre pacientes;
resistência de parte dos profissionais à adesão completa aos protocolos de EPI;
circulação inadequada de acompanhantes entre diferentes leitos.
O documento também relata a presença de umidade e mofo em enfermarias, desconformidades em áreas de expurgo, escassez de alguns insumos e falhas na identificação e no manejo de dispositivos invasivos, como sondas e acessos.
A Sesap afirmou que adotou medidas para conter o episódio e que a situação é considerada controlada.
Cronologia dos casos
Um dos registros iniciais envolve uma paciente admitida em 10 de maio, vinda do Hospital Belarmina Monte, em São Gonçalo do Amarante, também na Grande Natal, com identificação de Pseudomonas aeruginosa.
Outro caso citado é o de uma paciente transferida do Hospital Lindolfo Gomes Vidal, na cidade de Santo Antônio, em 27 de maio, com Acinetobacter baumannii. O relatório também menciona um paciente vindo da UPA de Macaíba.
Depois desses casos iniciais, novos registros passaram a aparecer entre pacientes internados na própria unidade. Em documento interno anterior, a CCIH avaliou que o surgimento de novos casos indicava falha na contenção.
🗓️Maio: O hospital identifica os primeiros casos entre pacientes vindos de outras unidades de saúde já com identificação dessas bactérias
🗓️Junho: Relatório passa a registrar casos associados à assistência prestada no próprio Alfredo Mesquita, envolvendo diferentes bactérias multirresistentes.
🗓️Julho: A maior parte das coletas listadas no relatório se concentra em julho. Sete dos oito óbitos mencionados no documento ocorreram nesse mês, entre os dias 6 e 28.
Diante do aumento dos casos, o hospital elaborou um plano de ação para interromper a transmissão. O objetivo geral estabelecido pela equipe foi conter o surto e zerar a incidência de novos casos de transmissão interna.
Entre as medidas descritas no relatório estão:
notificação do caso à Suvisa, Anvisa e outros órgãos;
restrição de transferências entre setores;
tentativa de evitar novas admissões em áreas afetadas até a contenção do quadro;
rastreamento diário de resultados laboratoriais;
sinalização de isolamento em prontuário;
reforço no abastecimento de EPIs e insumos para higiene das mãos;
intensificação da limpeza e desinfecção ambiental;
orientação a profissionais, pacientes e acompanhantes;
coorte de equipes para reduzir circulação entre áreas com e sem casos.
A Sesap considera que a situação está controlada. Segundo a secretária, dois pacientes relacionados ao episódio ainda estão internados.
Um deles estava na Clínica Médica e, segundo a secretaria, já não apresentava sinais de transmissão ou colonização e não estava mais em uso de antibióticos. O outro seguia na UTI, com tratamento prolongado por decisão do infectologista responsável.
“O paciente da UTI já fez o primeiro ciclo de antibioticoterapia e o infectologista que acompanha o caso prorrogou por mais tempo o antibiótico para garantir que a resposta seja ainda mais efetiva”, afirmou.
As bactérias identificadas no Hospital Alfredo Mesquita são gram-negativas e podem sobreviver no ambiente hospitalar. O médico infectologista e professor da UFRN Kleber Giovanni Luz explica as características de cada uma e por que elas representam um risco maior para pacientes internados.
Médico infectologista Kleber Luz
Inter TV Cabugi/Reprodução
“A Pseudomonas tem uma grande capacidade de sobreviver em áreas úmidas. Então onde tem água, a Pseudomonas tem capacidade de sobreviver.”
Segundo o médico, a bactéria pode colonizar pacientes debilitados e provocar infecções graves, como pneumonia e infecção da corrente sanguínea. A transmissão entre pacientes pode ocorrer, por exemplo, pelas mãos de profissionais que não fazem adequadamente a higiene.
“A Pseudomonas é muito agressiva, então ela vai agredir quem tem defesa baixa, mas também pode afetar uma pessoa com as defesas normais.”
A Klebsiella pneumoniae é uma bactéria que normalmente está presente no intestino humano. O problema ocorre quando ela alcança outras partes do organismo, especialmente em pessoas debilitadas.
“O grande perigo dela é que ela vai pegar a pessoa debilitada e vai produzir doença grave também. Uma infecção de corrente sanguínea, uma infecção do trato urinário, uma infecção pulmonar, até mesmo a meningite.”
O médico destaca ainda a capacidade da bactéria de adquirir mecanismos de resistência. “Ela vai adquirindo resistência. Se ela se encontrar com uma bactéria resistente, como ela é promíscua, ela adquire a resistência dessa bactéria”, explica.
O Acinetobacter baumannii, segundo o infectologista, é menos agressiva que as outras duas bactérias, mas pode ser especialmente difícil de tratar por causa do alto grau de resistência aos antibióticos.
“O Acinetobacter, ele é menos agressiva. Ela não é da gravidade da Pseudomonas ou da Klebsiella, mas ele é muito oportunista.”
E completa: “Se a Pseudomonas é resistente e a Klebsiella é resistente, o Acinetobacter é muito mais. Porque aí realmente é um desafio terapêutico. E para tratar o acineto, a gente tem pouquíssimas opções terapêuticas.”
Como evitar a transmissão
Kleber Luz reforça que a prevenção depende principalmente do isolamento dos pacientes que carregam bactérias resistentes e do cumprimento rigoroso dos protocolos de higiene.
“Se está tendo surto por essas bactérias, é melhor combater. Ou seja, isolar quem tem a bactéria resistente para não transmitir para outras pessoas. E reeducar os profissionais de saúde no sentido de lavar as mãos.”
O que diz a Sesap
Em entrevista ao g1, a secretária adjunta Leidiane Queiroz respondeu aos principais pontos do caso.
As bactérias foram responsáveis pelas oito mortes?
“Esses óbitos são pelas mais diversas causas. [...] não dá para dizer, nós não temos [a confirmação], porque isso eu tive o cuidado de perguntar à equipe do hospital, ela não atestou que os óbitos foram pelas bactérias”.
Houve transmissão entre pacientes dentro do hospital?
“Teve o que a gente chama de infecção cruzada, que é quando um paciente passa para outro paciente do hospital.”
A Sesap vai investigar se as bactérias foram as causadoras das mortes?
Os hospitais têm o que a gente chama de equipes de revisão de óbito. O médico atesta o óbito conforme foi identificado e as equipes de revisão de óbito fazem justamente essa discussão de caso para validar essas declarações de óbito. Se houver qualquer alteração, qualquer mudança em cima da declaração inicial, a própria equipe faz parte dessa discussão, desse acompanhamento.
Como está a situação atualmente?
“A realidade hoje está, depois de todas as medidas adotadas na unidade, está controlada.
As medidas de contenção foram implementadas? Houve bloqueio de leitos?
“Segundo a gestão do hospital, todas elas foram implementadas e continuam intensificadas no hospital. Eu soube de bloqueios parciais, ou seja, o paciente sai, é feita a higienização terminal e aí depois volta a admitir.”
Há acompanhamento de infectologista?
“A Secretaria de Saúde tem feito um esforço para garantir a assistência desse profissional, ainda que seja por telemedicina em alguns lugares.”
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