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Homem é suspeito de dopar 240 mulheres na França e faze-las urinar nas roupas
G1 — Brasil · 2026-08-19T18:38:01.000Z
Homem é suspeito de dopar 240 mulheres na França e faze-las urinar nas roupas
"Eu estava muito fraca, já não conseguia sentir direito as minhas pernas. Senti medo. Não sabia o que estava acontecendo", relata Anaïs de Vos.
Era julho de 2011 e Anaïs, então com 27 anos, estava em uma entrevista para uma vaga no Ministério da Cultura da França, em Paris.
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Ela normalmente não tomava café, mas, quando o entrevistador, um funcionário público de alto escalão chamado Christian Nègre, lhe ofereceu um, ela aceitou por educação.
Ele mesmo preparou o café, conta ela à BBC Global Women, mas "tinha um gosto ruim... então bebi metade".
A reunião tinha começado no escritório, mas, depois de alguns minutos, Nègre sugeriu que eles saíssem.
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Enquanto caminhavam pelas ruas de Paris, Anaïs começou a sentir uma necessidade inexplicável e incontrolável de urinar.
Ela se sentiu desconfortável em dizer a Nègre que queria voltar ao escritório para usar o banheiro e disse que estava com frio como desculpa para retornar ao prédio.
Mas, segundo ela, ele continuou andando, conduzindo os dois em direção às margens do rio Sena. Então ela disse que precisava encontrar um banheiro com urgência.
"Ele olhou no fundo dos meus olhos e disse: 'Ah, você precisa fazer xixi?'", lembra.
"Eu me senti como uma criança. Achei muito estranho o jeito como ele olhou para mim, quase com satisfação."
Ela afirma que ele a levou até a porta de um depósito sob uma ponte sobre o Sena e disse: "Você pode fazer aqui."
Anaïs é uma das quase 250 mulheres que acreditam que Nègre as drogou em supostos incidentes ocorridos entre 2009 e 2018, submetendo-as ao que é conhecido como submissão química — situação em que drogas são utilizadas para obter controle sobre alguém.
O conceito de submissão química ganhou destaque na França em 2024, quando o marido de Gisèle Pelicot foi condenado por sedá-la e convidar desconhecidos para estuprá-la enquanto ela estava inconsciente.
"Comecei a entrar em pânico", continua Anaïs. "Imaginei que ele me empurraria para dentro da sala e fecharia a porta atrás de mim."
Achando aquilo "estranho demais", ela insistiu para que continuassem andando.
Eles caminharam até o Louvre para usar os banheiros, mas era preciso pagar um euro para entrar, e ela havia deixado a bolsa no escritório do ministério. Nègre disse que também não tinha dinheiro em espécie.
Desesperada e sentindo dores por tentar segurar a urina, Anaïs encontrou um café que permitiu que ela usasse o banheiro.
Naquele momento, "eu me sentia fisicamente muito fraca", diz ela. Ao se aproximar do banheiro, perdeu o controle e urinou em si mesma.
Ao se lembrar do episódio, Anaïs encontra algum consolo no fato de que, quando urinou, Nègre não estava olhando.
"Pelo menos ele não me viu", diz ela.
"Fiquei muito grata por estar usando apenas um vestido", acrescenta, explicando que isso tornou mais fácil esconder o que havia acontecido.
Depois de três horas com Nègre, Anaïs conta que "se sentia tonta e exausta".
Ela não conseguiu o emprego e ficou desconfiada do servidor público, mas nunca conseguiu entender exatamente o que havia provocado aquele desconforto.
Segundo Anaïs, o caso prejudicou sua autoconfiança e, nos anos seguintes, ela acabou seguindo uma trajetória profissional menos ambiciosa.
Até que em 2019 ela recebeu uma carta da polícia.
Quando se encontrou com os investigadores, descobriu que eles suspeitavam que ela fosse uma das quase 200 mulheres que Nègre era acusado de drogar durante entrevistas de emprego, supostamente para cargos no ministério.
"Fiquei chocada", diz ela. "Mas fiquei feliz por saber que não estava louca. Algo tinha acontecido naquele dia."
Desde então, dezenas de outras supostas vítimas apareceram.
A polícia acredita que Nègre usava diuréticos — medicamentos utilizados no tratamento de várias condições médicas, incluindo pressão alta — que fazem o organismo produzir uma quantidade excessiva de urina.
Anaïs chegou a pensar, no dia em que encontrou Nègre, que ele pudesse ter colocado alguma coisa em sua bebida. Mas desconsiderou rapidamente essa ideia, dizendo a si mesma:
"É o Ministério da Cultura. Isso não é possível."
Aproximadamente 250 mulheres acusam Cristian Nègre de drogá-las entre 2009 e 2018
Anaïs diz que a polícia contou a ela que encontrou no computador de Nègre uma planilha com as supostas vítimas, intitulada "Experiments P" ("Experimentos P"), e que foi assim que localizaram seu nome.
Segundo ela, o documento registrava o horário em que as mulheres chegavam para as entrevistas, quando o diurético era administrado, quanto tempo levava até que urinassem e que tipo de roupa íntima estavam usando.
Olhando pra trás, Anaïs está convencida de que o gosto estranho do café que Nègre preparou para ela era causado pelo diurético.
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A investigação contra Nègre começou em junho de 2018, quando ele foi flagrado por um colega tirando uma foto de uma mulher por baixo de uma mesa, segundo informou o Ministério Público em um comunicado divulgado em fevereiro deste ano.
Inicialmente, ele foi suspenso do cargo de diretor regional de assuntos culturais antes de ser demitido pelo Ministério da Cultura em 2019.
Os promotores disseram que, em 2018, ele contou aos investigadores que havia "submetido mulheres a situações humilhantes" durante entrevistas de emprego.
Muitas das mulheres afirmam que só perceberam que poderiam ter sido vítimas quando a polícia entrou em contato com elas.
Algumas se apresentaram depois de verem Anaïs e outras vítimas em reportagens da imprensa.
Nègre, que está na casa dos 60 anos, encontra-se atualmente sob investigação formal por acusações que incluem drogagem, invasão de privacidade e agressão sexual. Ele aguarda julgamento.
A BBC apresentou a Nègre, por meio de seu advogado, as acusações contidas nesta reportagem, mas ele se recusou a comentar.
Outra pessoa mencionada nas anotações de Nègre era Marie-Hélène Brice. Ele a entrevistou para um emprego no Ministério da Cultura em 2016, em Estrasburgo, onde trabalhava na época.
Ela conta que ele disse que ela parecia estressada e sugeriu que os dois saíssem para caminhar para que ela pudesse "se acalmar".
Mas, enquanto caminhavam ao longo de um canal, Marie-Hélène, assim como Anaïs, sentiu uma necessidade incontrolável de urinar, que começou a provocar dor.
Ela diz que Nègre afirmou conhecer um banheiro público próximo, mas, quando chegaram ao local, não havia banheiro.
"Eu estava realmente começando a sofrer... as dores eram tão fortes que eu estava branca, pálida, com lágrimas escorrendo", diz ela.
Marie-Hélène afirma que não teve escolha a não ser urinar em público. Segundo ela, Nègre ofereceu-se para cobri-la com o próprio casaco.
"Fiquei terrivelmente constrangida", diz ela. "Ele não tirava os olhos de mim."
Marie-Hélène diz que durante anos sentiu vergonha.
Assim como Anaïs, ela também foi procurada pela polícia, que lhe informou que ela estava entre as supostas vítimas de Nègre.
"Foi um choque muito grande", acrescenta.
Marie-Hélène diz que, além do sofrimento psicológico, ficou também com problemas urinários.
Ela explica que, embora os acontecimentos possam não corresponder ao padrão que as pessoas normalmente associam a casos de agressão sexual, não tem dúvidas sobre o que aconteceu:
"Fui atacada, fui intoxicada, fui envenenada, mas, para mim, foi uma agressão sexual, claramente."
A questão da submissão química ganhou a atenção da deputada francesa Sandrine Josso. Ela se tornou uma das principais ativistas sobre o tema depois que o senador francês Joël Guerriau foi condenado este ano por colocar ecstasy na bebida dela com o objetivo de agredi-la sexualmente.
Josso argumenta que, durante muito tempo, a França não fez o suficiente para apoiar mulheres que foram drogadas e para processar os responsáveis.
Ela esteve por trás da criação, neste ano, de um programa-piloto segundo o qual mulheres que suspeitam ter sido drogadas podem levar amostras de sangue, urina ou cabelo a um laboratório para análise, sem precisar registrar formalmente uma denúncia na polícia.
"As pessoas estão se mobilizando, as vítimas estão denunciando mais, registrando mais queixas, e isso é importante", disse Josso à BBC Global Women.
Mas existem limitações.
Anaïs, Marie-Hélène e muitas outras supostas vítimas de Nègre não suspeitaram que haviam sido drogadas — e, a menos que o teste seja realizado muito pouco tempo depois da administração da droga, as substâncias não aparecerão nas amostras de sangue e urina.
As drogas podem permanecer detectáveis por mais tempo no cabelo, mas, com o passar do tempo, fica mais difícil determinar exatamente quando foram administradas.
O uso de diuréticos dessa maneira é "muito incomum", segundo o professor Jean-Claude Alvarez, responsável pelo programa-piloto no Hospital Raymond-Poincaré, ligado à AP-HP.
Ele afirma nunca ter visto algo parecido em seus 26 anos como toxicologista.
O professor Jean-Claude Alvarez analisa amostras, incluindo cabelos, em busca de drogas no laboratório de toxicologia.
O laboratório testa rotineiramente 400 substâncias e, acrescenta ele: "Agora, na França, estamos procurando diuréticos".
Já se passaram 15 anos desde o encontro de Anaïs com Nègre e sete anos desde que ela falou pela primeira vez com a polícia.
Como muitas das outras vítimas, ela está frustrada com o tempo que o caso está levando para chegar aos tribunais.
Enquanto isso, segundo a Fondation des Femmes — organização de defesa dos direitos das mulheres que apoia cerca de 30 das mulheres afetadas — o suposto autor continuou trabalhando na área de recursos humanos.
"Tudo é perturbador, e estou revoltada com a forma como somos tratadas", diz Anaïs, que hoje tem 42 anos.
Ela afirma que falou pela primeira vez com a polícia em 2019, mas depois não recebeu nenhuma notícia sobre o caso até 2023, apesar de ter enviado diversos e-mails.
"Durante quatro anos, soube que era uma vítima, mas tive que lidar sozinha com isso. Eu não sabia o que fazer", diz ela. "Estou muito revoltada com o sistema de Justiça."
Marie-Hélène descreve essa espera como "revitimização".
"Como vítima, tenho que provar o impacto, consultar um psiquiatra, escrever relatos específicos", diz ela.
A demora do processo tornou ainda mais difícil suportar o que aconteceu.
"Não sentimos necessariamente que somos levadas completamente a sério", afirma Marie-Hélène.
Kalliopi Mingeirou, da ONU Mulheres (UN Women), disse à BBC que governos, polícias e sistemas de Justiça precisam fazer mais para combater a violência sexual facilitada por drogas e que as autoridades enfrentam "desafios muito sérios". Segundo ela, atrasos em casos de suposto abuso estão "destruindo a vida das mulheres".
A BBC pediu à polícia, ao Judiciário e ao governo franceses que respondessem às críticas sobre a condução do caso, mas não recebeu resposta.
Durante muito tempo, Marie-Hélène permaneceu em silêncio, até deixar de sentir vergonha.
"Eu não preciso me esconder — sou uma vítima", diz ela.
"É importante para mim falar publicamente porque isso permitiu que algumas vítimas se reconhecessem, descobrissem que eram vítimas e, por sua vez, registrassem uma denúncia."
"Falar é necessário no mundo em que vivemos. É importante falar sobre sexismo e violência sexual."