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Julius Cezar Carvalho Silva, de 66 anos, está hospitalizado em estado grave e aguarda um transplante de fígado no Espírito Santo
G1 — Brasil · 2026-08-19T21:38:11.000Z
Julius Cezar Carvalho Silva, de 66 anos, está hospitalizado em estado grave e aguarda um transplante de fígado no Espírito Santo
Acervo de família
"A nossa vida está em compasso de espera. Quando alguém que a gente ama entra em um quadro crítico como esse, a vida de toda a família fica em pausa". Foi assim que a médica Julia Pitangui definiu a rotina da família desde que o pai, Julius Cezar Carvalho, de 66 anos, entrou na fila para um transplante de fígado.
O jornalista aposentado é uma das 2.841 pessoas que aguardam por um transplante de órgão no Espírito Santo. Diagnosticado com cirrose há mais de 6 anos, ele passou a integrar a lista de espera no último dia 30 de julho e, há cerca de um mês, está hospitalizado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) enquanto aguarda o transplante.
“Primeiro, [os médicos] tentaram todas as medidas medicamentosas para tirar ele dessa complicação, mas não tivemos melhoras. Nesse caso, a única alternativa é o transplante. Nossos dias são divididos em escalas de acompanhamento na UTI, noites mal dormidas e o telefone sempre por perto, esperando a notícia de que o órgão apareceu.”, disse a filha do paciente.
A esperança por uma doação, no entanto, esbarra em um cenário desafiador. Segundo dados da Secretaria da Saúde do Espírito Santo, houve um aumento no número de famílias que se recusam a autorizar o procedimento — no primeiro semestre de 2026, as negativas representaram 55,9% do total de entrevistas realizadas.
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A porcentagem significa que, entre janeiro e junho deste ano, 57 famílias disseram "não" num total de 102 entrevistas realizadas. No mesmo período do ano passado, foram realizadas 88 entrevistas, com 49 negativas.
Mais de 2.800 na fila de transplante
De acordo com Maria Machado, coordenadora da Central Estadual de Transplantes (CET-ES), os números indicam que houve um aumento no número de possíveis doações, mas a quantidade de negativas também cresceu.
Até esta quarta (19), 2.841 pessoas aguardavam por um órgão no estado, sendo 1.040 para rim, 1.726 para córnea, 66 para fígado e nove à espera de um coração. No primeiro semestre de 2026, foram realizadas 38 doações no Espírito Santo, três a mais que no mesmo período do ano passado.
No primeiro semestre de 2026, foram realizadas 38 doações de órgãos no Espírito Santo
Segundo Maria Machado, o número de recusas segue um padrão, se mantendo na faixa dos 50% nos últimos anos. Entre os motivos para a negativa, ainda de acordo com a coordenadora, estão o mito sobre a violação do corpo durante o procedimento.
“Quando a família opta pela doação, só são captados os órgãos que vão ser transplantados. O corpo é entregue dignamente, está previsto em lei, não há nenhum impacto no velório. Quando as córneas são retiradas, por exemplo, são colocadas próteses. E no caso de outros órgãos, é feito uma sutura. É como se a pessoa tivesse feito uma cirurgia”, explicou.
A especialista citou, ainda, o tempo maior para a liberação do corpo e a falta de conhecimento do desejo do doador por parte da família. Por isso, para ela, o diálogo é essencial.
"Ninguém está preparado para a perda de um ente querido. Ainda assim, é justamente nesse momento que uma conversa anterior pode fazer toda a diferença. Falar sobre a doação de órgãos com a família, em vida, é essencial para garantir que a vontade do doador seja respeitada, uma vez que no Brasil, a doação só acontece após a autorização expressa dos familiares de até segundo grau de parentesco, como pais, filhos, irmãos e cônjuge", explicou a coordenadora.
"A espera da dor é muito grande"
Para quem aguarda uma doação, cada dia importa. Julius Cezar Carvalho Silva, de 66 anos, está hospitalizado na UTI enquanto espera por um transplante e, segundo a família, é um dos primeiros na lista de espera no Espírito Santo.
“Sabemos que, para ter a doação, alguma família está em sofrimento. É uma dor imensa, mas a doação é a única forma de transformar essa despedida em recomeço. É a chance de fazer a memória de quem partiu continuar viva através de outra pessoa, salvando um pai, uma mãe ou um filho”, disse a filha dele, Julia Pitangui Silva.
Julia Pitangui Silva, de 32 anos, faz campanha para doação de órgãos enquanto o pai, Julius Cezar, aguarda por um transplante de fígado no Espírito Santo
Acervo de família
Ao g1, a médica relatou que o pai foi diagnosticado com cirrose há pouco mais de 6 anos e que, agora, sofre com complicações da doença.
"Recentemente, o quadro dele se agravou e exigiu internação em UTI para suporte intensivo e monitoramento contínuo. Hoje, após todas as tentativas da equipe médica, o quadro dele não teve melhora e ele se manteve sendo um paciente muito grave. A única chance para que ele possa sair dessa situação é recebendo um novo fígado".
Diante da situação, familiares e amigos do aposentado se reuniram em uma corrente de conscientização sobre a doação de órgãos através das redes sociais.
"O impacto da internação nas pessoas que conhecem o meu pai é um reflexo de quem ele é. Centenas de amigos, conhecidos e colegas unidos em uma corrente do bem, de preocupação e clamor para que ele saia o quanto antes desse cenário", explicou o gestor de criação Lucas Pitangui, filho do jornalista e irmão de Julia.
“No meio de tanta tristeza, escolher doar é o maior ato de amor e generosidade que existe. Por isso, peço de coração: conversem sobre isso em casa, avisem seus familiares que vocês desejam ser doadores. Um único ‘sim’ tem o poder de devolver a esperança para famílias inteiras que estão nessa mesma espera”, completou a médica.
Especialistas alertam: doação de órgãos só é possível com autorização da família
Saiba como se tornar um doador
Para ser um doador de órgãos, é preciso avisar os familiares próximos como pais, filhos, irmãos e cônjuge. A legislação brasileira exige o consentimento da família para a doação de órgãos, mesmo que a pessoa tenha expressado o desejo de doar.
A doação só pode ocorrer em casos de morte encefálica ou parada cardiorrespiratória, com a autorização de um familiar.
Quem pode doar?
Há dois tipos de doadores, os falecidos e os vivos. Os primeiros são pacientes que foram diagnosticados em morte encefálica, o que ocorre normalmente em decorrência de traumatismos/doenças neurológicas graves. Após a confirmação da morte e havendo autorização familiar é realizada a doação.
Além disso, qualquer pessoa saudável pode ser doadora em vida de um dos seus rins, parte do pulmão ou parte do fígado para um familiar próximo, de até 4ª grau consanguíneo. No entanto, quando a doação for para uma pessoa não aparentada é necessário autorização judicial.
Quais órgãos e tecidos podem ser doados?
De um único doador é possível obter os rins, fígado, coração, pulmões, pâncreas, intestino, córneas, valvas cardíacas, pele, ossos e tendões. Com isso, inúmeras pessoas podem ser beneficiadas com os órgãos e tecidos provenientes de um mesmo doador.
Como fica o corpo após a doação?
Os órgãos doados são removidos cirurgicamente e o corpo é cuidadosamente reconstituído, preservando sua aparência. Isso permite que o velório ocorra de forma digna, sem deformidades visíveis.
Quem recebe os órgãos doados?
Os órgãos doados são destinados a pacientes que necessitam de transplante e estão aguardando em uma lista única de espera, fiscalizada pelo Sistema Nacional de Transplantes do Ministério da Saúde (SNT/MS) e Centrais Estaduais de Transplantes.
A seleção de um paciente que aguarda por um transplante ocorre com base na gravidade de sua doença, tempo de espera em lista, tipo sanguíneo, compatibilidade genética e anatômica com o órgão doado e outras informações médicas importantes.
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