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Seringa e frasco de medicamento em imagem ilustrativa; vacinas personalizadas de mRNA são pesquisadas como tratamento contra diferentes tipos de câncer.
G1 — Brasil · 2026-08-20T03:00:31.000Z
Seringa e frasco de medicamento em imagem ilustrativa; vacinas personalizadas de mRNA são pesquisadas como tratamento contra diferentes tipos de câncer.
As vacinas personalizadas de RNA mensageiro contra o câncer deram nesta quarta-feira (19) o passo mais importante até agora desde que começaram a ser testadas em pacientes.
Um estudo com 1.137 pessoas com melanoma mostrou que uma dessas vacinas, chamada intismeran, conseguiu reduzir o risco de o câncer voltar ou se espalhar quando usada junto com a imunoterapia pembrolizumabe.
Foi a primeira vez que uma terapia personalizada contra o câncer baseada em mRNA apresentou resultado positivo em um estudo de Fase 3, etapa em que um tratamento é testado em um grande número de pacientes antes de uma possível aprovação.
Há estudos com estratégias semelhantes em câncer de pâncreas, mama triplo-negativo, pulmão, rim, bexiga e outros tumores.
O nível de evidência, porém, varia bastante: em alguns casos há apenas poucos pacientes acompanhados em estudos iniciais; em outros, ensaios de Fase 3 já estão em andamento.
De forma prática, isso significa que não existe hoje uma “vacina contra o câncer” capaz de tratar diferentes tumores.
O que existe é uma tecnologia que começa a mostrar que pode funcionar em determinados contextos e que, pela primeira vez, conseguiu chegar a um resultado positivo em um grande estudo clínico.
“É um ponto de virada importante, só que com uma ressalva também importante. É um ponto de virada para o campo das vacinas personalizadas contra o câncer, mas ainda não o ponto final da validação desse tipo de tecnologia”, afirma ao g1 Walter da Costa, gerente médico do A.C.Camargo Cancer Center.
Agora no g1
O que são essas vacinas e por que o melanoma virou o caso mais avançado?
Apesar do nome, elas não funcionam como as vacinas usadas para prevenir gripe, Covid-19 ou outras infecções.
⚠️ São vacinas terapêuticas, aplicadas depois do diagnóstico do câncer e produzidas a partir das características do tumor de cada paciente.
O processo começa com uma amostra retirada por cirurgia ou biópsia.
O material é sequenciado para identificar mutações específicas das células cancerígenas e os chamados neoantígenos, que podem funcionar como alvos para o sistema imunológico.
Essas informações são então codificadas em RNA mensageiro para estimular células de defesa, principalmente os linfócitos T, a reconhecer e atacar o tumor.
☝️ Por isso, duas pessoas com o mesmo tipo de câncer podem receber vacinas diferentes. No caso do intismeran, testado contra o melanoma, cada fórmula pode carregar informações de até 34 neoantígenos do tumor daquele paciente.
O melanoma se tornou um dos principais modelos para esse tipo de pesquisa porque costuma apresentar muitas mutações, o que aumenta a quantidade de possíveis alvos para uma vacina personalizada.
Foi justamente nesse tipo de tumor que a estratégia chegou mais longe até agora. No estudo de Fase 3 INTerpath-001, 1.137 pacientes com melanoma de alto risco, já operados para retirada completa do tumor, receberam intismeran com pembrolizumabe ou apenas pembrolizumabe.
A combinação conseguiu melhorar dois dos principais resultados acompanhados pelo estudo: aumentou o tempo sem que o câncer voltasse e também sem o surgimento de metástases à distância.
Ainda assim, há uma limitação importante: os números detalhados da Fase 3 não foram divulgados, e o estudo continua acompanhando os pacientes para saber se haverá ganho de sobrevida global.
Mesmo com essa ressalva, o resultado é considerado um avanço porque supera um obstáculo antigo dessa área.
Até agora, muitas vacinas contra o câncer conseguiam provocar uma resposta do sistema imunológico, mas isso nem sempre se traduzia em benefício para o paciente.
“Durante muitos anos, essas vacinas terapêuticas contra o câncer, de uma maneira geral, conseguiram demonstrar que eram capazes de induzir resposta imunológica [...] mas nem sempre isso se traduzia em benefício clínico para o paciente”, afirma Walter da Costa, que também é urologista no A.C.Camargo Cancer Center.
Quando descoberto no início, o câncer de pele tem maior chance de responder bem ao tratamento, inclusive o melanoma, considerado o tipo mais agressivo da doença.
E no câncer de pâncreas?
O câncer de pâncreas é uma das áreas em que os resultados iniciais chamaram mais atenção, embora as evidências ainda sejam pequenas.
Em um estudo de Fase 1, 16 pacientes receberam uma vacina personalizada contra neoantígenos depois da cirurgia.
Oito deles desenvolveram uma resposta robusta de células T contra os alvos presentes na vacina.
Essas células continuaram detectáveis durante anos, e os pacientes que responderam à vacina apresentaram períodos mais longos sem recorrência do câncer.
O problema é o tamanho do estudo.
👉 Com apenas 16 pessoas e sem um grupo comparador randomizado, NÃO é possível saber ainda quanto da diferença observada foi realmente causada pela vacina.
Além disso, nem todos os testes de vacinas contra câncer de pâncreas deram certo.
Um estudo randomizado de Fase 2 com outra estratégia, chamada ELI-002 7P, não atingiu seu principal objetivo de aumentar o tempo sem doença quando todos os participantes foram analisados conforme o planejamento original, um tipo de resultado que ajuda a mostrar por que a área ainda exige cautela.
O câncer de pâncreas tem uma das mais altas taxas de mortalidade entre todos os tipos da doença.
O que já apareceu no câncer de mama?
No câncer de mama triplo-negativo, um tipo da doença em que alguns dos tratamentos usados em outros tumores de mama não funcionam, os resultados também são iniciais.
Um estudo de Fase 1 publicado na Nature acompanhou 14 pacientes que receberam vacinas personalizadas de mRNA.
A maioria apresentou uma resposta das células de defesa contra características do próprio tumor, e 11 das 14 permaneceram sem recorrência durante o acompanhamento.
“Tumor de mama, tumor de rim, tumor de pulmão, são alguns dos exemplos que, realmente, podem levar a resultados muito bons”, afirma Igor Morbeck, oncologista e membro do Comitê Científico do Instituto Lado a Lado pela Vida e diretor Nacional de Oncologia da Kora Saúde.
Os resultados, porém, vêm de um estudo pequeno e sem comparação randomizada com o tratamento padrão.
Por isso, ainda não é possível afirmar que a vacina foi responsável por evitar a volta da doença.
E no câncer de pulmão, bexiga e rim?
No câncer de pulmão de células não pequenas, o tipo mais comum da doença, a pesquisa já chegou a estudos maiores.
As farmacêuticas Moderna, que desenvolve medicamentos e vacinas baseados em RNA mensageiro, e Merck, uma das maiores empresas do setor de medicamentos contra o câncer, têm dois ensaios de Fase 3 em andamento com a mesma estratégia testada no melanoma.
A diferença é que, no pulmão, esses estudos ainda não deram uma resposta definitiva. Até agora, não há resultado positivo de Fase 3 que comprove benefício para os pacientes.
Ainda não temos um resultado de Fase 3 positivo que permita afirmar que essa estratégia beneficia pacientes com câncer de pulmão. É possível, talvez até provável que sim, dado as respostas observadas nos estudos de Fase 1 e 2, mas ainda falta a validação de estudos mais robustos, randomizados, de Fase 3.
Além dessas vacinas feitas sob medida, outros grupos pesquisam versões de mRNA com alvos presentes em vários pacientes, o que poderia tornar a produção menos individualizada.
É o caso do BNT116, da BioNTech, também testado em câncer de pulmão, que usa alvos comuns a esse tipo de tumor em vez de uma fórmula individual.
Em fase inicial, ela controlou a doença em 80% dos pacientes tratados. A promessa é reduzir custo e tempo de produção — mas esse caminho ainda não chegou a um resultado de Fase 3 como o do melanoma.
“Sem dúvida, é uma linha de pesquisa extremamente promissora e acredito que, em graus não necessariamente iguais ao que aconteceu no melanoma, podemos ver benefício clínico dessa estratégia em outros tipos de tumor”, acrescenta Walter da Costa.
Em câncer de rim e de bexiga, os sinais também são positivos, mas também ainda em estágio inicial.
Um estudo de Fase 1 do Dana-Farber Cancer Institute testou uma vacina personalizada em nove pacientes com câncer de rim operados, e todos desenvolveram resposta imunológica contra o tumor, sem recidiva no período acompanhado.
O resultado chamou atenção porque o rim tem menos mutações que o melanoma — o que, a princípio, reduziria as opções de alvo para esse tipo de vacina. Uma versão do intismeran já é testada nesse tumor em Fase 2, com resultado esperado só em 2028.
Em bexiga, a mesma dupla de empresas por trás do estudo de melanoma testa o intismeran em pacientes com câncer músculo-invasivo, mas o programa segue em fase inicial, sem dados de eficácia divulgados ainda.
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Por que a vacina costuma ser combinada com imunoterapia?
Uma das principais apostas para melhorar esses resultados é combinar a vacina com imunoterapia
A lógica é que os dois tratamentos se completem: a vacina ajuda o sistema imunológico a reconhecer melhor o tumor, e a imunoterapia reduz os mecanismos usados pelo câncer para escapar desse ataque.
Nesse cenário, a vacina funciona mais como um reforço à ação da imunoterapia do que como um tratamento isolado.
“Devemos enxergar essa terapia como um amplificador para a resposta à imunoterapia”, afirma Olavo Feher, oncologista clínico da Oncologia D’Or de São Paulo.
⚠️ No caso do intismeran, porém, ainda não é possível saber como a vacina funcionaria sozinha.
O estudo comparou intismeran mais pembrolizumabe com pembrolizumabe isolado e não teve um grupo tratado apenas com a vacina.
Por que o resultado pode variar de um câncer para outro?
Outro ponto ainda em aberto é por que a estratégia parece funcionar melhor em alguns tumores do que em outros.
Entre as possíveis explicações estão:
quantidade de mutações: alguns cânceres oferecem mais alvos para a vacina;
diferenças dentro do próprio tumor: nem todas as células cancerígenas são iguais;
capacidade de escapar do sistema imunológico: alguns tumores conseguem dificultar mais a ação das células de defesa.
☝️ Por isso, ativar o sistema imunológico não significa necessariamente controlar a doença.
Estudos anteriores já conseguiram provocar respostas das células de defesa sem mostrar um benefício claro para os pacientes.
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O que ainda falta provar?
O resultado no melanoma mostrou que a estratégia pode trazer benefício em um grande estudo de Fase 3. Agora, é preciso saber se esse efeito também aparece em outros tipos de câncer.
📝 Entre as principais perguntas ainda em aberto estão:
se os pacientes vivem mais;
quais cânceres respondem melhor;
quais pacientes têm maior chance de benefício;
por quanto tempo o efeito se mantém.
Contudo, mesmo que essas respostas sejam positivas, há outro desafio: transformar uma vacina feita para cada paciente em um tratamento que possa ser produzido em maior escala.
Cada fórmula depende da análise do tumor, da escolha dos alvos e da fabricação do mRNA. Fora isso, a qualidade da amostra retirada do paciente e o transporte desse material até o local de produção também entram nessa conta.
⏳ Por isso, tempo e custo ainda pesam bastante.
“Os desafios mais prementes estão relacionados ao custo e, principalmente, ao tempo de produção, que pode levar em média de 60 a 120 dias”, afirma Feher.
Ainda assim, oncologista diz que essa logística não precisa ficar restrita a grandes centros. Segundo ele, o envio do material tumoral e a produção da vacina são viáveis mesmo quando o paciente é atendido em serviços menores.