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Imagem de arquivo mostra pacientes do Hospital Colônia de Barbacena
G1 — Brasil · 2026-08-20T08:30:27.000Z
Imagem de arquivo mostra pacientes do Hospital Colônia de Barbacena
O Ministério Público Federal (MPF) entrou na Justiça para que instituições públicas de Minas Gerais e a União sejam responsabilizadas pela venda de corpos de pacientes do antigo Hospital Colônia de Barbacena, no Campo das Vertentes.
A ação civil pública foi movida contra a Fundação Educacional Lucas Machado (Feluma), mantenedora da Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais (FCMMG), a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), o Estado de Minas Gerais e a União.
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Em nota, a FCMMG e a Feluma informaram que sempre estiveram em estrita cooperação com o Ministério Público Federal no âmbito das apurações, que não têm conhecimento de nenhuma demanda advinda do MPF e que todas as teses de defesa serão juntadas no suposto processo no momento oportuno. Leia a nota completa mais abaixo.
Hospital Colônia fecha definitivamente após 115 anos de atividade
A Fhemig, por meio da Advocacia-Geral do Estado (AGE), informou que não foi notificada e, quando intimada, se manifestará nos autos. O g1 também tentou contato com a União, mas não teve retorno até a última atualização desta reportagem.
Segundo o órgão, ao menos 105 corpos de pessoas internadas na unidade foram comercializados entre 1971 e 1975 e usados em aulas de anatomia na então Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, em Belo Horizonte.
Conforme o MPF, as violações não perdem a validade com o tempo, por serem consideradas crimes contra a humanidade.
A ação pede que a Justiça condene as instituições a adotarem medidas concretas, como o pagamento de R$ 13,7 milhões por danos morais coletivos, além de publicação de declarações oficiais e realização de cerimônias públicas em reconhecimento aos fatos. Outras medidas sugeridas:
criação de um memorial em Belo Horizonte e digitalização de documentos históricos;
inclusão obrigatória de conteúdos sobre violência manicomial, direitos humanos e bioética nos cursos da faculdade;
criação, pelo Ministério da Educação (MEC), de regras nacionais sobre o uso de cadáveres em instituições de ensino;
repasse de R$ 1,1 milhão pela Feluma para pesquisas independentes sobre o tema;
proibição de cortes de recursos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) por 15 anos, como forma de evitar a repetição de práticas semelhantes.
De acordo com as investigações do MPF, documentos históricos mostram que os corpos dos pacientes eram vendidos por 50 cruzeiros novos cada. O valor, segundo os registros, teria sido destinado a despesas de conservação e transporte.
Os procuradores da República Angelo Giardini de Oliveira e Edmundo Antonio Dias Netto Junior afirmam que a ação busca não apenas responsabilizar os envolvidos, mas também promover medidas de reparação histórica para as vítimas e seus familiares
O que foi o Hospital Colônia
Criado em 1903, o espaço nasceu como uma instituição destinada ao tratamento de pessoas com transtornos mentais, que eram encaminhadas ao local muitas vezes sem diagnóstico médico adequado.
Na prática, isso significava que não apenas pessoas com doenças mentais eram enviadas para lá, mas também aquelas consideradas indesejadas pela sociedade da época, como homossexuais, militantes políticos, grávidas, pessoas com deficiências, transtornos ou distúrbios, além de mulheres rejeitadas pelos maridos ou que haviam perdido a virgindade antes do casamento.
Durante as décadas de funcionamento, cerca de 60 mil pacientes morreram no local. Pelo menos 1.800 corpos foram vendidos e usados no ensino de anatomia nos cursos de saúde de universidades.
O Colônia também ficou conhecido como "Holocausto Brasileiro", já que ficou marcado por graves violações de direitos humanos. O fechamento simbólico do hospital aconteceu no dia 25 de maio, com a transferência dos 14 últimos moradores para uma residência terapêutica.
UFMG e UFJF se desculparam publicamente
Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais.
Centro Cultural do Ministério da Saúde
Em abril de 2026, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) fez um pedido público de desculpas após admitir o recebimento de corpos de pacientes do Hospital Colônia.
Já a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) firmou compromissos em maio, após reconhecer que recebeu 169 corpos para atividades acadêmicas.
No caso da Faculdade de Ciências Médicas, segundo o Ministério Público Federal, não houve acordo durante as negociações administrativas, o que levou ao ajuizamento da ação.
Nota da Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais
"A Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais (FCMMG) e sua mantenedora, a Fundação Educacional Lucas Machado (FELUMA), informam que sempre estiveram em estrita cooperação com o Ministério Público Federal no âmbito das apurações em curso relacionadas a fatos históricos noticiados no contexto da política de saúde mental no país.
A instituição reforça que não antecipa conclusões sobre eventos históricos que se encontram sob análise dos órgãos competentes, mantendo postura de respeito às instâncias institucionais responsáveis pela apuração.
Paralelamente, a FCMMG destaca que suas atividades acadêmicas e assistenciais são atualmente desenvolvidas em conformidade com os marcos legais e éticos vigentes.
Salienta que não tem conhecimento e não foi citada de nenhuma demanda advinda do MPF e que todas as teses de defesa serão juntadas no suposto processo no momento oportuno.
A instituição permanece à disposição das autoridades e da sociedade para contribuir com o esclarecimento dos fatos, reiterando seu compromisso com a ética, a formação em saúde e o interesse público".
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