ITATIBA1
Mercado de previsão Polymarket
G1 — Brasil · 2026-08-20T11:12:54.000Z
Mercado de previsão Polymarket
AP Photo/Wyatte Grantham-Philips
Mais de 150 carteiras na casa de apostas Polymarket International podem ter op com base em informações internas das Forças Armadas dos EUA, segundo uma pesquisa publicada nesta quinta-feira (20).
✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp
atraindo novas apostas e levantando preocupações de que o mercado poderia transmitir sinais exploráveis por adversários estrangeiros dos EUA.
A análise realizada pelo grupo de pesquisa sem fins lucrativos Anti-Corruption Data Collective (ACDC), noticiada inicialmente pela Reuters, lança nova luz sobre prováveis casos de uso de informações privilegiadas de origem militar no mercado de previsões e sobre os riscos mais amplos que tal atividade pode representar.
O estudo surge em um momento em que autoridades intensificam a fiscalização sobre esse setor em rápida expansão, após apostas realizadas antes de ações militares dos EUA — incluindo o caso de um soldado americano acusado, em abril, de usar informações sigilosas para apostar na deposição do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, algo que legisladores afirmaram poder comprometer a segurança nacional.
Porta-vozes da Polymarket, fundada em 2020, não responderam aos pedidos de comentário. A Polymarket afirma possuir controles rigorosos, monitorar atentamente atividades suspeitas e ter encaminhado dezenas de carteiras de negociadores às autoridades, incluindo o caso relacionado a Maduro.
A plataforma internacional da Polymarket liquida negociações em blockchain, o que significa que as apostas são públicas, embora os negociadores permaneçam anônimos. O ACDC analisou todos os mercados liquidados até 5 de maio para identificar apostas de "baixa probabilidade" (*long-shot*), definidas como apostas de pelo menos US$ 2.500 feitas cumulativamente em uma hora ou menos em um resultado com probabilidade de 35% ou menos.
Dentro desse universo, o ACDC identificou 556 carteiras que apelidou de "Orcas", uma referência às táticas de caça precisas e seletivas da orca. Esses negociadores geralmente abriam uma conta e rapidamente faziam uma aposta de baixa probabilidade altamente bem-sucedida em mercados de nicho — onde pessoas com acesso a informações internas poderiam ter vantagem —, antes de, em muitos casos, realizarem o lucro e desaparecerem.
Desse grupo, 152 carteiras apresentaram sucesso excepcional ao apostar em mercados militares e de defesa, acumulando US$ 8 milhões em ganhos, com uma taxa média de acerto de 97,2%.
As características das "Orcas" podem ter outras explicações, incluindo pura sorte, afirmou o ACDC. Da mesma forma, nem todos os indivíduos com acesso a informações privilegiadas são "Orcas". Gannon Ken Van Dyke, o soldado que, segundo os promotores, lucrou US$ 400 mil apostando na deposição de Maduro, construiu sua posição de forma mais gradual e, portanto, não figura entre as 152 "Orcas" militares identificadas. Van Dyke declarou-se inocente.
Ainda assim, essas carteiras são as mais propensas a negociar com base em segredos militares, segundo o relatório. Embora algumas dessas 152 carteiras já tenham sido identificadas anteriormente por outros pesquisadores e pela mídia, a ACDC afirma ter descoberto dezenas de outras carteiras não relatadas anteriormente.
O Departamento de Defesa não comenta questões relacionadas à inteligência ou conclusões de pesquisas de terceiros, disse um porta-voz.
**IMITADORES PODEM AMPLIFICAR SINAIS DE INSIDERS**
Lucrar com informações confidenciais do governo é, em geral, ilegal; no entanto, uma preocupação maior reside nas evidências de que as negociações militares do tipo "Orca" parecem atrair apostas de imitação feitas por "Baleias" (investidores de grande porte) e robôs de negociação automatizada, afirmou a ACDC.
Embora a prática de imitar negociações seja legal e já tenha sido documentada em mercados de previsão, a ACDC encontrou indícios de que ela pode amplificar os sinais das "Orcas" e propagá-los de forma mais ampla.
Quando uma "Orca" apostou em uma ação militar dos EUA no Irã, horas antes dos ataques de junho de 2025, por exemplo, um robô e uma "Baleia" fizeram apostas de imitação nos valores de US$ 200.000 e US$ 100.000, respectivamente.
Apostas semelhantes de "Orcas" antes dos ataques aéreos conjuntos dos EUA e de Israel contra Teerã, em fevereiro, também pareceram desencadear uma onda de apostas iniciais de alto risco (em resultados menos prováveis) por parte de robôs e "Baleias" que apostavam no mesmo desfecho, segundo a pesquisa.
"A maioria das pessoas subestima enormemente o grau de visibilidade da atividade de apostas incomum na Polymarket. Tudo está disponível na internet, e podemos ver sinais claros de que grandes operadores e robôs estão copiando possíveis negociações baseadas em informações privilegiadas", disse David Szakonyi, cofundador da ACDC. "Seria ingenuidade pensar que agências de inteligência estrangeiras não estão monitorando esses mercados."
A Polymarket afirmou que seu registro público permite um escrutínio maior. Um porta-voz da Commodity Futures Trading Commission (CFTC) — agência que busca exercer jurisdição sobre os mercados de previsão — não comentou as conclusões. O órgão regulador declarou que fiscalizará rigorosamente condutas ilícitas nesse setor e já apresentou acusações em pelo menos três casos até o momento.
A ACDC é composta por acadêmicos e investigadores especializados em finanças ilícitas e tem como objetivo promover reformas anticorrupção.
O grupo defende que todos os operadores sejam obrigados a comprovar sua identidade e que os pagamentos de negociações suspeitas sejam retidos até a conclusão das investigações. No entanto, o texto argumenta que, para realmente mitigar os riscos de *insider trading*, deveriam ser proibidos os mercados nos quais o uso de informações não públicas possa ser mais rentável e passível de exploração.
"Limitar o perfil de quem pode apostar em mercados de previsão ou depender de investigações das autoridades... não será suficiente", afirmou.