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'Ópera do malandro' de Chico Buarque se renova com cores vivas em montagem que mistura umbanda, Anitta e teatro clown

José Loreto encarna o malandro da ópera de Chico Buarque na encenação de Jorge Farjalla

G1 — Brasil · 2026-08-20T19:10:14.000Z

José Loreto encarna o malandro da ópera de Chico Buarque na encenação de Jorge Farjalla

Adriano Dória / Divulgação

♫ CRÍTICA DE MUSICAL DE TEATRO

Título: Ópera do malandro

Dramaturgia: Chico Buarque

Direção: Jorge Farjalla

Cotação: ★ ★ ★ ★

♬ Encenador de tintas fortes, Jorge Farjalla imprime cores vivas a um dos textos mais revisitados de Chico Buarque, “Ópera do malandro” (1978), em montagem em cartaz de quinta-feira a domingo no Teatro Multiplan, no Rio de Janeiro (RJ), até 30 de agosto, após cumprir vitoriosa temporada em São Paulo (SP).

Inspirado na narrativa de “A ópera do três vinténs” (1928), escrita pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898 – 1956) com música de Kurt Weill (1900 – 1950) e com base na “Ópera dos mendigos” (1728), criação original do dramaturgo inglês John Gay (1685 – 1732), o texto de Chico Buarque está todo lá.

No entanto, o texto reaparece renovado por subtextos e por referências do teatro clown, das religiões de matriz afro-brasileira – precisamente a umbanda dos exus evocados na cena de Farjalla – e até de Anitta, cujo emblemático funk “Vai malandra” (2017) é embutido no pot-pourri da abertura em que o elenco mixa “O malandro” (1978) – versão de Chico para “Mack the knife” (1928), tema da ópera original de Brecht e Weill – e “A volta do malandro” (1985), tema do filme adaptado do musical de teatro.

Situada por Chico na Lapa, bairro de alta concentração dos malandros cariocas, a trama da “Ópera do malandro” ressurge em cena sem um tempo definido, mas sempre atual por retratar a bandidagem vigente no Brasil desde que o samba é samba.

Na cena povoada por cafetões e policiais corruptos, algozes de prostitutas (símbolos do povo oprimido na narrativa de Chico), a bandidagem é representada tanto pelo casal de cafetões Fernandes de Duran (Edgar Bustamante) e Vitória (Totia Meirelles) quanto – em linhagem mais popular – pelo protagonista Max Overseas Navalha, personagem confiado a José Loreto (na temporada carioca, o ator Tiago Barbosa se alterna com Loreto no papel-título da ópera).

A escalação de Loreto se revela acertada. Solar, carismático e sedutor, José Loreto tem a verve de Max e torna crível a malandragem aliciante do personagem em atuação tão cativante que o redime da inabilidade vocal para entoar uma canção tão dilacerante como “Pedaço de mim” (1978), música confiada ao ator nos momentos finais da peça.

A propósito, a trilha sonora da “Ópera do malandro” é a melhor já produzida para um musical no teatro brasileiro. O fenomenal conjunto de canções da trilha atravessa gerações com poder para atrair ouvintes dentro e fora da cena.

No todo, o elenco honra esse cancioneiro, a começar pelas duas atrizes e (ótimas) cantoras que interpretam Terezinha e Lúcia, rivais na luta pelo coração e o corpo de Max. Terezinha é Carol Costa, intérprete da canção intitulada justamente “Terezinha” (1977) – e apresentada na voz de Maria Bethânia um ano antes da encenação original da “Ópera do malandro” em gravação feita para o álbum “Pássaro da manhã” (1977) – e de “Tatuagem” (1973), canção anterior da trilha da peça “Calabar – O elogio da loucura” (1973), de Chico Buarque e Ruy Guerra.

“Tatuagem” aparece em cena colada com “Atrás da porta” (Francis Hime e Chico Buarque, 1972), outra canção anterior à ópera e incorporada por Farjalla à trilha da encenação, em número ouvido na voz de Marya Bravo. Atriz e cantora de fartos dotes vocais, Bravo também é a intérprete de “Palavra de mulher” (1985), canção posterior feita para o filme “Ópera do malandro” e desde então associada à personagem Lúcia no teatro.

O dueto de Carol Costa e Marya Bravo no bolero “O meu amor” – standard que extrapolou os limites da cena ao ser gravado pela recorrente Maria Bethânia com Alcione no álbum “Álibi” (1978) – soa igualmente arrepiante.

Alguns números antes, Totia Meirelles confirmara a notória categoria vocal ao dar voz à “Uma canção desnaturada” (1978) em número arrebatador.

Contudo, nada marca mais na ópera atualizada por Farjalla – com figurinos exuberantes em que predominam o vermelho na paleta de cores vivas – do que o canto de “Geni e o Zepelim” por Valéria Barcellos, atriz trans que dá vida, voz, alma e lágrimas a Geni, a travesti humilhada por todos no jogo de poder da peça.

Simbolizando a resistência da população LGBTQIA+ marginalizada pela sociedade, o canto de “Geni e o Zepelim” por Barcellos, terminando com a atriz aos prantos, é número que vem sendo aplaudido de pé em todas as sessões da “Ópera do malandro” desde a estreia da encenação em São Paulo (SP). A ovação já é esperada e cada plateia corresponde à expectativa já criada em torno do solo da atriz, ápice de espetáculo repleto de números coletivos calcados na força do elenco, a exemplo da rumba “Las muchachas de Copacabana” (1978).

Brado de uma tribo que cansou de levar cuspe na cara, “Geni e o Zepelim” é o emblema de montagem que se nutre da linguagem e da expressão corporal dos clowns – nítida na pintura dos rostos do elenco e na composição dos personagens, sobretudo do delegado Chaves, o Tigrão representado pelo ator Amaury Lorenzo – e do movimento da catira, dança do folclore nacional em que o ritmo é marcado pela batida sincronizada dos pés e das palmas das mãos.

Enfim, sem medo de profanar no melhor dos sentidos um texto já (con)sagrado do teatro musical brasileiro, Jorge Farjalla revigora a “Ópera do malandro” com a mão forte de um encenador que tem feito diferença na cena nacional.

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