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Estiagem e queimadas atraem ouriços a áreas urbanas no interior de SP; saiba evitar acidentes

Fatores ambientais aumentam aparições de ouriço-cacheiro no interior de SP

G1 — Brasil · 2026-08-21T10:24:51.000Z

Fatores ambientais aumentam aparições de ouriço-cacheiro no interior de SP

Espinhos, focinho alongado e hábitos noturnos: essas são algumas das características do ouriço-cacheiro, também conhecido popularmente como porco-espinho. Apesar da aparência espinhenta, o mamífero roedor não oferece riscos à saúde humana. Nos meses de agosto e setembro, o animal costuma aparecer com mais frequência em áreas urbanas.

Entre os motivos que levam esses animais a deixar seus esconderijos estão fatores ambientais, como a estiagem, a busca por alimentos na zona urbana e as queimadas, segundo o biólogo Thiago Godoi, de Cerqueira César (SP).

Thiago é especialista em manejo e preservação de fauna silvestre e exótica e também atua como secretário de Meio Ambiente de Cerqueira César. Segundo ele, o município já chegou a registrar de 20 a 30 capturas de ouriços-cacheiros no mesmo período, em anos anteriores.

As ocorrências mais recentes foram registradas na terça-feira (18) e quarta-feira (19). Um dos animais estava em uma chácara e o outro foi encontrado andando pela rua.

“Normalmente, aqui na nossa região, essa é a época que eles mais aparecem. Por estarmos entrando na época de estiagem, eles tendem a sair mais em busca de alimentos e acabam entrando em áreas urbanas. A escassez de alimentos, queimadas e diminuição de áreas de mata forçam esse comportamento”, esclareceu o especialista.

O biólogo explicou que, em Cerqueira César, a equipe responsável pelo resgate de animais silvestres costuma ser acionada com frequência nesta época do ano para retirar os animais de residências, ruas e até empresas.

“A cidade é rodeada de áreas verdes, por isso o aparecimento. Calculamos uma média de 20 a 30 resgates desse tipo por ano. É uma dos animais mais frequentes resgatados. Apesar da quantidade, na maioria das vezes, é um resgate bem simples de realizar”, apontou.

Os ouriços-cacheiros não têm uma época específica para se reproduzir e, geralmente, vivem de forma solitária. Segundo Thiago, o período de maior ocorrência de nascimentos da espécie vai de agosto a novembro, coincidindo com a transição entre a estação seca e o início da primavera.

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Em Cerqueira César, Thiago é o responsável por fazer resgate e captura de animais silvestres

Arquivo pessoal/Thiago Godoi

Contato com os pets

Ao buscar alimento e abrigo em áreas urbanas, os animais silvestres podem acabar entrando em contato com pets. Nesse momento, a curiosidade entre as espécies pode se transformar em um problema, especialmente por causa do principal mecanismo de defesa do ouriço-cacheiro: os espinhos.

“Nesse período é maior a incidência de acidentes com animais domésticos, como cães e gatos. O maior risco que ele oferece é em caso de tentativa de manuseio, onde pode ocorrer o acidente com os espinhos”, citou Thiago.

O biólogo relembrou que já atendeu ocorrências em que pets ficaram feridos após entrarem em contato com os espinhos e também casos de atropelamento de ouriços. Para evitar acidentes envolvendo os animais, o biólogo orientou sobre os cuidados que devem ser tomados.

“O maior risco que ele oferece é em caso de tentativa de manuseio, onde pode ocorrer o acidente com os espinhos. A orientação é nunca tentar manusear esse animal sem o conhecimento adequado e sempre chamar as autoridades competentes”, citou.

Por se tratar de um animal com um sistema de defesa eficiente, a orientação é acionar as autoridades competentes para o resgate, pois requer experiência e o uso de equipamentos adequados.

Os moradores que encontrarem um ouriço-cacheiro devem acionar a Defesa Civil, pelo telefone 199, ou o Corpo de Bombeiros, pelo 193. Em Cerqueira César, também é possível entrar em contato com a Secretaria de Meio Ambiente pelo número (14) 3714-2320.

“Ele [ouriço] tem uma importância grande para a nossa fauna. Por viver no topo das árvores, suas atividades afetam diretamente a saúde da flora e a sobrevivência de outras espécies” reforça o especialista.

Apesar de causar ferimento nos animais domésticos, os espinhos não são venenosos, mas é necessário buscar atendimento veterinário rapidamente após o ataque. A médica veterinária Juliana Morika Sonoda de Itapetininga (SP) indicou o que deve ser feito.

“Os espinhos podem penetrar profundamente na pele, boca, focinho, língua, patas e até em áreas mais delicadas. Os espinhos não são venenosos, mas o problema é que eles podem se deslocar ou até mesmo quebrar, provocando lesões e infecções. E é extremamente doloroso”, relatou Juliana.

ouriço cachorro uberlândia mansões aeroporto confronto

Corpo de Bombeiros/Divulgação

Os tutores não devem tentar retirar os espinhos por conta própria, especialmente quando estiverem alojados na boca, no focinho ou próximos aos olhos.

“A remoção pode ser extremamente dolorosa e alguns espinhos podem acabar se rompendo. Dependendo da quantidade da localização, pode ser necessário sedação ou até mesmo anestesia para uma retirada segura e completa”, alertou a veterinária.

De acordo com Juliana, essa aproximação costuma ser motivada pela curiosidade e pelo comportamento natural de caça e exploração dos animais.

“O cão pode tentar cheirar, brincar, perseguir ou atacar o ouriço. Gatos também podem se aproximar por curiosidade ou instinto de caça. O problema é que, quando animal silvestre se sente acuado, ele utiliza o espinho como mecanismo de defesa”, disse.

Caso o pet sofrer um acidente com os espinhos, a veterinária reforçou que o atendimento veterinário deve ser procurado

Caso a interação evolua para uma briga, Juliana orienta que o tutor não coloque as mãos entre os animais para tentar separá-los. Assim que houver uma distância segura entre os dois, o pet deve ser retirado do local e levado para atendimento veterinário.

“O mais importante é tentar manter o animal calmo e evitar que ele esfregue a região afetada. Não é recomendado cortar os espinhos, puxá-los com pinça ou tentar quebrá-los. Isso dificulta a remoção e aumenta o risco de fragmentação. Também não devem ser aplicados produtos caseiros sobre os ferimentos”, indicou.

Além de saber como agir em casos de interação ou ataques, também é importante conhecer a espécie, que integra a fauna brasileira, e contribuir para sua proteção e preservação. Segundo Thiago, o ouriço-cacheiro é encontrado em diversas regiões do Brasil e também em outros países da América do Sul.

De hábitos noturnos, os animais são ótimos nadadores e passam boa parte do dia escondidos em árvores.

“Eles passam o dia todo dormindo e ficam escondidos em ocos de árvores, emaranhados de cipós ou nas copas. Suas atividades são estritamente noturnas. Esses animais são bem interessantes, ótimos nadadores, possuem imunidade a veneno de cobras, se comunicam por ‘choros’ e ‘resmungos’. E os filhotes nascem com espinhos macios”, contou.

Ouriço-cacheiro (Coendou prehensilis) se alimenta de frutas, raízes, vegetais cultivados e insetos

Marcio Varchaki/VC no TG

Uma das suas colaborações para o meio ambiente, segundo o especialista, é a dispersão de sementes e a poda natural das árvores.

“Além do controle populacional de plantas invasoras e tem sua importância na cadeia alimentar, servindo de presa para alguns animais que possuem técnicas especiais para caçá-lo, como grandes felinos, aves de rapina e serpentes, como jiboias e sucuris”, destacou Thiago.

E ainda falando em espinhos, Godoi explica que, na realidade, eles são pelos corporais modificados que passaram por um processo evolutivo.

“Eles tornaram-se duros, oco e extremamente afiados para servir como uma armadura de defesa. Esses espinhos têm a fixação frouxa na base e quando tocados, o músculo causa o efeito de eriçar, causando a soltura”, explicou.

Conforme o biólogo, os espinhos possuem na ponta pequenas farpas viradas para trás, que atuam como um efeito de anzol.

"Quando o predador morde ou encosta, a ponta entra facilmente. No entanto, por causa das farpas, não sai com a mesma facilidade", finaliza Thiago.

Ouriço-cacheiro encontrado por moradores em Guaçuí.

*Colaborou sob a supervisão de Larissa Pandori

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