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COP17: experiência de família no Sertão de PE mostra como agricultura familiar pode ajudar no combate à desertificação
G1 — Brasil · 2026-08-21T15:23:40.000Z
COP17: experiência de família no Sertão de PE mostra como agricultura familiar pode ajudar no combate à desertificação
A agricultura familiar e as práticas de convivência com o Semiárido estão entre os temas presentes nos debates sobre desertificação acompanhados pela reportagem durante a COP17. No Pavilhão Brasil, em Ulaanbaatar, Mongólia, discussões realizadas ao longo da conferência abordam a conservação de biomas, a recuperação de áreas degradadas e o papel das comunidades que vivem e produzem em territórios de terras secas. No Sertão de Pernambuco, uma família de agricultores mostra como essas práticas podem fazer parte do cotidiano de uma propriedade, conciliando produção de alimentos, recuperação do solo e geração de renda.
Na programação da COP17, um dos painéis realizados no Pavilhão Brasil foi “Biomas invisibilizados, soluções essenciais: Cerrado e Caatinga no enfrentamento à desertificação”. A discussão, mediada por Ingrid Silveira, representante da Rede Cerrado, trouxe para o debate a realidade do Cerrado e da Caatinga, dois biomas fundamentais para o equilíbrio ecológico e hídrico da América do Sul e que sofrem com um histórico e sistemático processo de invisibilização, tanto no cenário nacional quanto nas arenas internacionais.
Outro painel acompanhado durante a programação da COP17 tratou do “Manejo e Restauração de Florestas em Terras Secas: Propostas para Mitigar e Reverter a Degradação da Terra na América Latina”. A discussão abordou propostas relacionadas ao manejo e à restauração de áreas de terras secas, tema que também se relaciona com experiências desenvolvidas por agricultores no Semiárido brasileiro.
(A repórter Diana Silva viajou para o evento a convite do Instituto ClimaInfo)
Em Ouricuri, no Sertão de Pernambuco, a família de Guilherme Delmondes mudou a forma de trabalhar a terra a partir do contato com organizações, intercâmbios e processos de formação voltados à agroecologia e à convivência com o Semiárido.A experiência reúne tecnologias de armazenamento e reuso da água, além de técnicas de conservação e recuperação do solo. A propriedade está em uma região com índice pluviométrico de cerca de 500 milímetros por ano, segundo Guilherme.
De acordo com ele, as gerações anteriores da família trabalhavam com a abertura de novas áreas para o cultivo, com retirada da vegetação e sem práticas de manejo voltadas à conservação do solo. Com o passar do tempo, a produtividade começou a diminuir.
No Sertão de PE, família recupera solo e amplia produção com agroecologia
“A nossa propriedade começou a ficar improdutiva e essa era mesmo a realidade de muitos agricultores dentro da comunidade.”
A experiência da família dialoga com uma das discussões acompanhadas durante a COP17: o papel das comunidades locais e da agricultura familiar na preservação e recuperação dos territórios.
Presente na conferência em Ulaanbaatar, Luis Almeida, coordenador de projetos sociais do IRPAA e do Grupo de Trabalho de Combate à Desertificação da ASA, destaca a importância dos conhecimentos acumulados por esses grupos e das práticas de preservação e restauração ambiental desenvolvidas por eles.
Segundo Luis, durante a COP17 tem sido discutida a relevância dos territórios tradicionais no enfrentamento à degradação das terras, com atenção às experiências de povos e comunidades tradicionais e da agricultura familiar e camponesa. Para ele, reconhecer esse trabalho também é necessário para criar caminhos de financiamento que façam com que recursos e políticas públicas cheguem às comunidades locais, especialmente nas florestas secas, como a Caatinga.
“Ao aliarmos a tecnologia ao saber tradicional, promovemos uma relação mais harmoniosa com o ambiente.”
A mudança na propriedade de Guilherme começou por volta de 2010, quando a família passou a participar de intercâmbios e formações promovidos por organizações que atuam com a convivência com o Semiárido. A partir desse processo, foram incorporadas práticas como curva de nível, plantio consorciado, sistemas agroflorestais, rotação de culturas, uso de biofertilizantes e compostagem.
As práticas adotadas na propriedade também se aproximam de estratégias de convivência com o Semiárido citadas por Luis durante a COP17. Entre elas estão a implementação de cisternas, o manejo adequado do solo, a agroecologia e sistemas produtivos adaptados às características climáticas da região.
Também foram adotadas tecnologias para melhorar o aproveitamento da água. Uma delas é a cisterna de enxurrada, com capacidade para armazenar 52 mil litros. A família também utiliza o Bioágua, sistema que permite o tratamento e o reuso de águas provenientes de atividades domésticas, e um biodigestor que utiliza esterco dos animais para a produção de gás.
Tecnologias de aproveitamento de água ajudam na produção no campo
Durante a conferência, Luis também destacou que o acesso à água pode contribuir para o desenvolvimento da produção de alimentos e para a segurança nutricional das comunidades.
A disponibilidade hídrica, segundo ele, permite a criação de ciclos produtivos sustentáveis, com práticas como o reúso de águas residuais na agricultura, a produção de mudas, o manejo do extrativismo e o pastoreio consciente.
Segundo Guilherme, as mudanças permitiram recuperar áreas que haviam sido degradadas e, ao mesmo tempo, ampliar a produção. Atualmente, a propriedade produz milho, feijão, gergelim, amendoim, hortaliças e frutas, além de leite e carne. Para ele, houve aumento tanto na quantidade quanto na diversidade dos alimentos produzidos.
“A gente tem o ganho ambiental totalmente atrelado ao ganho, digamos assim, produtivo, de geração de renda, de alimento para família e também para a comercialização.”
Os resultados também são percebidos no solo e na paisagem. Guilherme afirma que, ao longo dos anos, houve melhora da fertilidade e da produtividade das áreas. Ele também relata o retorno de pássaros e animais silvestres que não eram vistos havia décadas na propriedade.
“A gente vê alguns pássaros, alguns animais silvestres na Caatinga mesmo voltando e a gente consegue ver eles no dia a dia, o canto dos pássaros.”
A experiência de Ouricuri é um exemplo das estratégias de convivência com o Semiárido que aparecem nos debates da COP17 e mostra como a recuperação ambiental pode estar associada à produção de alimentos e à geração de renda.
Para Paulo Pedro de Carvalho, engenheiro agrônomo, militante da agroecologia e integrante do Grupo de Trabalho de Combate à Desertificação e Justiça Climática da ASA, a agricultura familiar de base agroecológica pode associar a produção de alimentos à recuperação dos solos, das águas e das florestas. Entre as práticas estão sistemas agroflorestais, quintais produtivos, criação sustentável de animais, conservação da Caatinga, armazenamento de água, alimentos e sementes, além de técnicas de retenção de água no solo e prevenção da erosão.
“Certamente, nós vemos que é através da agricultura familiar de base agroecológica que a gente vai conseguir, de fato, implantar uma estratégia, uma cultura de convivência digna e sustentável com a região semiárida brasileira.”
COP17 em Ulaanbaatar, Mongólia
Diana Silva/ g1
A fala de Paulo se relaciona com uma das questões presentes nos debates da conferência: como fortalecer estratégias de produção e conservação capazes de enfrentar a degradação das terras secas. Paulo destaca ainda que a ampliação dessas experiências depende de assistência técnica, financiamento e de uma maior aproximação entre agricultores, universidades e instituições de pesquisa.
No Sertão pernambucano, onde está o Núcleo de Desertificação de Cabrobó, experiências como a de Ouricuri mostram uma das possibilidades discutidas no contexto da COP17: produzir alimentos e gerar renda enquanto práticas de conservação e recuperação são incorporadas ao manejo das propriedades.
Para Guilherme, a transformação da propriedade ocorreu ao longo de anos e mudou não apenas a produtividade, mas também as condições ambientais do local.
“A gente recuperou, ao decorrer dos anos, não foi algo que foi instantâneo, mas ao longo do trabalho de 12 anos, a gente foi melhorando a qualidade do solo.”
Para Luis, a presença das comunidades em seus territórios também é parte da resposta à desertificação. Segundo ele, combater o processo de degradação não significa apenas proteger elementos naturais, mas valorizar a presença humana integrada ao ambiente, com tecnologias sociais e políticas capazes de reduzir vulnerabilidades e ampliar a autonomia das comunidades.
A experiência de Ouricuri, nesse sentido, ajuda a mostrar como uma discussão que acontece em escala internacional, dentro da COP17, se relaciona com práticas já desenvolvidas por agricultores no Sertão de Pernambuco.
Esta é a segunda reportagem da série especial do g1 Petrolina sobre a COP17 e a relação entre o debate internacional sobre desertificação e a realidade do Sertão de Pernambuco.
Jornalista Diana Silva, do g1 Petrolina, vai cobrir a COP 17, na Mongólia
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