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Lobo-guará e lobisomem
G1 — Brasil · 2026-08-22T14:09:09.000Z
Lobo-guará e lobisomem
Flavia Tasso / Anderson Aurélio Dal Gallo
Uma das lendas mais conhecidas do folclore brasileiro é a do lobisomem, criatura metade lobo e metade humana, que aparece em noites de lua cheia. O mito, que atravessa gerações, pode guardar semelhanças com um animal que existe na vida real: o lobo-guará.
Este animal é conhecido pelas pernas longas, comportamento solitário e hábitos predominantemente noturnos, características que batem perfeitamente com as da figura do folclore brasileiro. Na região de Ribeirão Preto (SP), ele já foi flagrado por diversas vezes.
"Ele é bem famoso no cerrado e já teve registro na nossa área, aqui de Ribeirão Preto. As pernas grandes são uma evolução. Como ele é do cerrado e tem aquela vegetação mais alta, elas servem para poder caminhar em cima da vegetação. Além disso, ele é solitário e costuma sair somente de tarde para a noite", diz o biólogo Samuel Maria.
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Segundo a escritora e folclorista Eliana Manzan, o lobo-guará pode estar associado à popularização da lenda do lobisomem, principalmente nas cidades do interior do Brasil.
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"A lenda, em si, busca essas raízes, porque eles precisavam de ferramentas para colocar esse medo nas crianças e também fazer eles acreditarem, então o lobo teve a sua participação representando a figura do lobisomem".
A lenda do lobisomem
Apesar de muito popular no folclore brasileiro, a lenda do lobisomem tem raízes na Europa. De acordo com Eliana, histórias sobre pessoas que desenvolviam uma grande quantidade de pelos ajudaram a alimentar o imaginário em torno da figura.
"A base da lenda vem de uma doença genética, onde os homens desenvolviam muito pelos e aí as famílias, naquela época, queriam esconder e só deixavam eles saírem à noite. Aí que você tem que o lobisomem é só à noite, que ele é o sétimo filho de uma família e tem de ser homem".
No Brasil, a história chegou com os portugueses e se misturou à cultura local. A tradição oral também contribuiu para que a lenda fosse transmitida de geração para geração.
"Ele veio com as histórias dos europeus e aí foi combinando com o interesse daquela época e se adaptando com a nossa cultura, porque ele é uma das figuras mais importantes e conhecidas do imaginário popular que a gente tem".
Ainda segundo Eliana, a popularidade do lobisomem também cresceu com a presença da figura em programas de televisão, filmes e documentários, despertando a curiosidade das crianças mesmo diante do medo.
"É uma cultura muito boa, porque depois foi colocando em programas de TV, em filmes e até em outros países, a criança fica naquela entre o medo e 'eu quero saber a história completa'".
Moradores da cidade de Itu contam que o lobisomem fez um passeio por lá
O lobisomem da natureza
O lobo-guará pode ser associado à imagem do lobisomem por algumas características físicas e comportamentais, mas nem lobo ele é.
Segundo Samuel, o animal pertence à família dos canídeos, que não é considerada nem lobo e nem cachorro, e está em risco de extinção.
"O lobo guará é de uma família específica dele mesmo. Nós temos [algumas espécies] aqui na região, apesar de que é um animal que está correndo sério risco de extinção".
Aparições de lobo-guará na região de Ribeirão Preto (SP)
Com cerca de um metro de altura, o lobo-guará é um animal onívoro, ou seja, como tanto alimentos de origem vegetal quanto animal. O macho também ajuda na proteção do território e no cuidado com os filhotes.
"Ele é onívoro, ou seja, come de tudo, até pequenos roedores, frutas, galinhas. Nesse cenário do mundo animal, o macho é o que fica cuidando do território. Ele, inclusive, ajuda a fêmea e leva alimento para os filhotes".
O lobo-guará é conhecido pela pelagem avermelhada e pelo hábito de viver sozinho
Chrístofer Silva Oliveira
Importância do folclore
Para Eliana, a tradição oral é uma das principais formas de preservar histórias e costumes entre diferentes gerações. Segundo ela, o folclore ajuda a manter viva a memória e a identidade cultural.
"O folclore representa a história do nosso passado, porque traz, por exemplo, as lembranças da minha mãe de 80 anos para a minha sobrinha de 5 e isso é uma riqueza muito grande, porque através dele que surgiram novas histórias e era a forma que, antigamente, os povos tinham de estar se reunindo".
A folclorista também destaca a importância da imaginação na construção e na transmissão das histórias populares.
"Essa parte oral, de ser contada, isso mexe com a imaginação da criança. A cultura popular muitas vezes nasce do encontro entre aquilo que as pessoas veem, aquilo que acreditam, aquilo que a imaginação transforma".
*Sob a supervisão de Flávia Santucci
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