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Fazenda histórica que foi de barão do café dará lugar a data center de IA no interior de SP

Fazenda histórica que foi de barão do café dará lugar a data center de IA em Campinas

G1 — Brasil · 2026-08-23T06:00:18.000Z

Fazenda histórica que foi de barão do café dará lugar a data center de IA em Campinas

Uma fazenda histórica de Campinas (SP) que já foi de Manuel Carlos Aranha, o Barão de Anhumas, um dos grandes responsáveis pela expansão da produção de café no estado de São Paulo nos séculos 18 e 19, dará lugar a um data center que promete ter 40% da atual capacidade de Tecnologia de Informação (TI) comissionada do Brasil.

O anúncio foi feito na última quinta-feira (20). O complexo será construído na Fazenda Pau d'Alho, localizada às margens da Rodovia Governador Dr. Adhemar Pereira de Barros (SP-340).

Segundo o historiador Marcelo Gaudio, a fazenda teve importância destacada para o cultivo do café na região de Campinas, que, na época, concentrava boa parte da produção nacional do grão. "Começou com engenho de açúcar, mas se destacou no café, sendo que o cultivo foi feito ao menos até meados do século 20 com trabalho de colonos", disse.

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Fachada da sede da Fazenda Pau d'Alho, em Campinas (SP), no início do século 20

O local atualmente abriga um "casarão", tombado pelo município em 31 de maio de 2010 e cujo projeto teve participação do arquiteto Ramos de Azevedo. Além do imóvel, a senzala, a capela e os pátios também foram tombados.

O g1 revirou fotos e documentos históricos para contar a história da Fazenda Pau d'Alho. Nesta reportagem, você vai ler:

Avô de Francisco Glicério foi o primeiro dono

Barão de Anhumas coloca fazenda na rota do café

Imigrantes holandeses compram terras para produzir leite

Data center de IA: o futuro da fazenda

Avô de Francisco Glicério foi o primeiro dono

Extensão da Fazenda Pau d'Alho em foto dos anos 1950

A pesquisadora Julie Dutilh tem resgatado a história da Fazenda Pau d'Alho junto à historiadora Maria Alice Rosa Ribeiro, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Segundo Dutilh, a fazenda foi "fundada" em 1796, quando Antônio Benedito Cerqueira César, avô do ex-senador Francisco Glicério — que dá nome a uma das principais vias do Centro de Campinas —, inaugurou o primeiro engenho de açúcar.

A área fazia parte da sesmaria de Cerqueira César e ficava na "Estrada de Goiás", por onde passavam tropeiros e bandeirantes. Atualmente, parte da estrada se materializou na Rodovia Governador Dr. Adhemar Pereira de Barros, conhecida como "Campinas-Mogi" — porque leva até as cidades de Mogi Mirim (SP) e Mogi Guaçu (SP).

Posteriormente, a família Cerqueira César vendeu o terreno para Manuel Leite de Barros, cuja viúva Cândida da Rocha Ferraz dividiu a sesmaria em três fazendas: Anhumas, Pau d'Alho e Santa Cândida.

A Pau d'Alho já contava com uma sede e um depósito para estoque de açúcar, feitos com taipa de pilão — técnica de construção que usa mistura de argila, areia e cascalho socada firmemente dentro de fôrmas de madeira chamadas taipais.

Além disso, uma nova sede estava sendo construída, ao lado dos imóveis já existentes.

Barão de Anhumas coloca fazenda na rota do café

Fazenda Pau d'Alho no início do século 20, ainda de propriedade do Barão de Anhumas

No fim dos anos 1870, a Fazenda Pau d'Alho passa a ser uma das propriedades de Joaquim Policarpo Aranha e, depois, do comendador Manuel Carlos Aranha, que receberia posteriormente a alcunha de Barão de Anhumas.

Manuel ficou conhecido como "barão do café" por fomentar a produção do grão no interior de São Paulo, principalmente na região de Campinas.

De acordo com o livro "Campinas, Município do Império", do historiador Celso Maria de Mello Pupo, em 1885 o local reunia 300 mil pés de café e maquinários. A produção contava com o trabalho de escravizados e, após a abolição, de colonos.

Com a morte do Barão de Anhumas em 1894, a fazenda foi herdada por Blandina Augusta de Queirós Aranha, a Baronesa de Anhumas. Há registros sobre a produção em 1900, que atingiu 14 mil arrobas de café, e em 1914, com 517 mil pés de café.

Fachada da Fazenda Pau d'Alho, em Campinas (SP)

Isadora de Paiva/g1

O dinheiro ganho com o café fez com que a família Aranha concluísse a segunda sede e fizesse a última ampliação do que hoje é o "casarão". Essa etapa final contou com a participação de Ramos de Azevedo, sendo que esta seria a primeira obra do escritório do arquiteto, de acordo com Pupo.

Segundo artigo das pesquisadoras Berna Valderrama, Melissa Oliveira e Sandra Martins, Ramos de Azevedo utilizou materiais importados, painéis de pinho-de-riga, molduras de cedro, batentes de peroba, entre outras decorações e itens do estilo neoclassicista.

Imigrantes holandeses compram terras para gado

Família holandesa passou a criar gado na Fazenda Pau d'Alho. Foto de novembro de 1952

Ao longo do século 20, a Pau d'Alho virou propriedade de diversos descendentes do Barão do Anhumas até ser vendida, em 1948, à família holandesa Dutilh.

Segundo Julie, o local passou a ter criação de gado holandês e produção de leite e sêmen de gado holandês e norte-americano.

"Eles começaram a fazer melhoramento. Compravam o gado mestiço que tinha aqui, que a gente chamava de 'gado pé duro', e foram fazendo melhoramento com sêmen de touros holandeses de raça, que foram trazidos na mesma época que a cidade de Holambra [SP] foi instalada", explicou a pesquisadora.

"Depois, a Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo também teve touros que eram para os produtores melhorarem o plantel", contou.

A fazenda também chegou a ter plantações de milho, girassol, soja, sorgo e mandioca.

Data center de IA: o futuro da fazenda

Data center previsto para 2027 em Campinas promete ter 40% da atual capacidade do Brasil

A Fazenda Pau d'Alho se tornou um ponto de visitação escolar e cultural, além de patrimônio histórico de Campinas, sendo que os imóveis do local foram tombados em maio de 2010.

A família Dutilh vendeu a área para a multinacional Terranova, que na última quinta anunciou a construção de um data center que promete ter 40% da atual capacidade de TI comissionada do Brasil.

De acordo com a Associação Brasileira de Data Centers (ABDC), o país atualmente reúne, considerando todos os data centers testados e verificados ("comissionados"), 1 gigawatt (GW) destinado a processamento de dados.

🔎 A capacidade dos data centers é calculada em megawatts ou gigawatts porque a limitação física mais importante costuma ser a energia elétrica. Quanto mais a estrutura consegue fornecer de energia aos servidores e sistemas, maior é a capacidade.

Já o complexo em Campinas poderá chegar a 400 megawatts (MW) de capacidade, quando todas as etapas de construção forem concluídas, em 2029, segundo Mauricio Giusti, CEO da multinacional Terranova, responsável pelo empreendimento.

Ainda de acordo com Giusti, o data center vai ser usado por grandes empresas de tecnologia para fornecer serviços de cloud, de inteligência artificial (IA) e aplicações. A IA, inclusive, deverá ser um dos focos da estrutura. O investimento inicial será de 500 milhões de dólares.

Segundo Giusti, os imóveis tombados serão preservados e há tratativas com a Prefeitura de Campinas para serem restaurados. Ao g1, o Executivo confirmou as conversas.

A multinacional já terá de fazer, como contrapartida para aprovação do projeto, um parque público, vias públicas e uma estação de tratamento de esgoto.

"Isso em conjunto com o prédio, o casarão histórico, que foi sede dessa fazenda centenária aqui, vai fazer parte de todo um legado que vai ser importante. É importante a gente estar olhando para o futuro, mas a gente está reconhecendo as coisas do passado que nos ajudaram a chegar aqui", comentou.

Julie, que tem pesquisado a história da Pau d'Alho por conta da relação com uma das famílias que chegou a ser proprietária, comentou que a fazenda tem uma trajetória de "ciclos econômicos".

"Passou pelo ciclo da cana, passou pelo ciclo do café, passou pelo ciclo do leite e até chegou a ter eventos aqui, teve esse ciclo da cultura. Acho que agora é um outro passo, porque essa parte da digitalização e da inteligência artificial é um outro momento que está se expandindo muito e a fazenda está se inserindo nisso", disse.

Projeto do data center em Campinas (SP)

*Estagiária sob supervisão

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