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Filha ajuda fotojornalista a reconstruir a própria história após ter memórias apagadas
G1 — Brasil · 2026-08-23T07:00:31.000Z
Filha ajuda fotojornalista a reconstruir a própria história após ter memórias apagadas
Após perder toda a memória em um grave acidente, o fotojornalista gaúcho Antônio Gaudério precisou reconstruir a própria identidade. Anos depois, a tarefa de ajudá-lo nesse processo acabou nas mãos da filha mais velha, Aurora Borges, que encontrou uma ferramenta para apresentar ao pai a história que ele já não conseguia lembrar: as fotografias que produziu ao longo da vida.
Quando abriu as gavetas que guardavam o acervo fotográfico, Aurora esperava encontrar registros antigos de uma carreira interrompida por um acidente. O que não imaginava era que aquelas imagens se tornariam uma espécie de mapa para ajudá-lo a descobrir quem tinha sido.
Antônio Gaudério nasceu em Ijuí e cresceu em Santo Ângelo, no Noroeste do Rio Grande do Sul. Formado inicialmente em arquitetura, abandonou a profissão para seguir a fotografia e construiu uma trajetória reconhecida no fotojornalismo brasileiro. Seu trabalho era voltado principalmente para temas sociais. Segundo Aurora, ele costumava buscar histórias de pessoas invisibilizadas.
"O meu pai sempre teve uma característica muito importante que foi olhar para aquilo que ninguém queria olhar. Ou seja, para todos aqueles temas que não estavam no centro das discussões, que estavam nas margens das discussões, das marginalidades do país", relata.
Antônio Gaudério e a filha Aurora
Ao longo da carreira, registrou situações de miséria, exploração sexual infantil, trabalho exploratório e falta de acesso à educação. O trabalho lhe rendeu reconhecimento e prêmios, além de espaço em um veículo jornalístico. Por isso, mudou-se para São Paulo.
No entanto, tudo mudou aos 49 anos.
Em 2008, durante uma viagem em família ao litoral do Rio de Janeiro, ele visitava uma casa que estava projetando para a irmã em Itacuruçá, já que era arquiteto. Ao subir no segundo andar da construção, sofreu uma queda e bateu a cabeça.
Levado para a capital fluminense, foi diagnosticado com traumatismo cranioencefálico. Segundo Aurora, além do crânio, houve comprometimento da própria massa encefálica.
Aurora tinha 13 anos. A irmã, cinco.
Os médicos prepararam a família para o pior cenário: as chances de sobrevivência eram reduzidas. E, mesmo se sobrevivesse, a expectativa era de que carregasse sequelas severas.
"Os médicos disseram que era raro ele pudesse sobreviver. E que, se sobrevivesse, provavelmente teria uma vida muito limitada", lembra.
O fotógrafo permaneceu quase um mês em coma. Enquanto familiares acompanhavam a internação, Aurora não compreendia totalmente a gravidade da situação. Para protegê-la, a família evitou compartilhar detalhes do estado do pai. Ela soube apenas que ele havia sofrido um acidente.
"Ninguém me dizia exatamente o que estava acontecendo", relembra.
A dimensão do quadro só começou a ficar clara quando uma conhecida do fotógrafo entrou em contato perguntando sobre o acidente. Foi naquele momento que percebeu que a realidade era muito mais grave do que imaginava.
Quando finalmente conseguiu visitar o pai no hospital, os familiares prepararam Aurora para o que encontraria. Disseram que ele estava muito debilitado, respirando com ajuda de aparelhos e cercado por equipamentos. Pediram que mantivesse a calma. Nada de choro ou movimentos bruscos.
A preocupação era não produzir qualquer estímulo imprevisível em um paciente cujo nível de compreensão ainda era uma incógnita.
Mas a reação veio dele. Assim que a filha entrou no quarto, o fotógrafo sorriu.
Aurora lembra que médicos, enfermeiros e familiares se emocionaram imediatamente.
"A minha mãe me explicou: 'Aurora, a gente achava que seu pai tinha perdido 100% da memória, mas ele sorriu pra você. De alguma maneira ele lembra de você'", conta.
A casa virou hospital
Após a alta, o fotógrafo retornou para São Paulo. A recuperação estava apenas começando.
Ele precisou reaprender atividades básicas: andar, falar, comer, ler, escrever. Segundo Aurora, a casa passou a funcionar como uma extensão do hospital. Enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e outros profissionais passaram a fazer parte da rotina da família.
Nesse período, ela e a irmã assumiram o papel de ensinar ao pai aquilo que ele havia ensinado a elas durante a infância.
"Tudo o que ele tinha nos dado voltou para ele pelas nossas mãos", diz.
A recuperação foi lenta, mas contínua. Enquanto isso, a fotografia ficou para trás. O acervo acumulado ao longo de décadas acabou guardado e praticamente esquecido.
Anos depois, já formada em Letras, Aurora se viu estudando crônicas de denúncia. Gostava de textos que abordavam problemas sociais e injustiças. Foi então que decidiu abrir o acervo do pai.
Ela recorda a sensação de encontrar caixas, gavetas e fotografias que haviam permanecido anos sem receber atenção. Ao começar a observar as imagens, ficou impressionada.
"Me apaixonei pelo que eu vi. Me apaixonei perdidamente por aquele senso estético, aquele senso de sensibilidade mesmo do meu pai", relata Aurora.
Ao mesmo tempo, sentiu indignação: "Eu estava diante da obra de um fotógrafo extraordinário e ele tinha precisado reaprender o alfabeto".
A experiência provocou uma reflexão ainda mais profunda. O pai havia perdido a memória por causa do acidente. Mas ela também havia esquecido parte da história dele.
"Eu não lembrava da dimensão daquele trabalho", diz.
Apresentar o artista à própria obra
Antônio Gaudério e a filha Aurora
Foi a partir desse sentimento que surgiu a ideia que mudaria a rotina dos dois. Aurora decidiu sentar com o pai e mostrar as fotografias uma a uma. Começou a contar a ele as histórias por trás dos registros: explicava quem eram as pessoas retratadas, descrevia os lugares, contextualizava os acontecimentos e reconstruía situações que o próprio fotógrafo havia vivido décadas antes.
Em muitos momentos, era ela quem apresentava ao pai episódios de sua própria trajetória profissional.
"Eu pegava uma fotografia e dizia: olha, você estava aqui por causa disso", conta Aurora.
Com o passar do tempo, ela percebeu mudanças. Segundo Aurora, a atividade despertou interesse, curiosidade e vontade de viver. O pai passou a se envolver cada vez mais na redescoberta do próprio trabalho.
"O cognitivo dele começou a evoluir muito. A fala, a leitura, a vontade de descobrir quem ele tinha sido", relata.
Da memória individual à memória coletiva
Durante o mergulho no acervo, Aurora chegou à conclusão de que a história não dizia respeito apenas a um homem. Ela passou a enxergar uma relação entre a perda de memória do pai e o apagamento de histórias coletivas.
Foi essa percepção que motivou a criação de uma página nas redes sociais para divulgar o material.
Inicialmente, o objetivo era apenas tornar o acervo público. Mais tarde, os vídeos passaram a ganhar protagonismo nas plataformas digitais.
No entanto, o fotógrafo ainda convive com sequelas cognitivas importantes, incluindo dificuldades relacionadas à linguagem. Então, para evitar expô-lo em situações desconfortáveis, Aurora assumiu o papel de narradora das histórias.
Hoje, é ela quem apresenta ao público os bastidores das imagens produzidas pelo pai. Ao mesmo tempo, continua contando aquelas mesmas histórias para ele.
"Em um país que a maioria das pessoas não tem nenhum pai, eu tenho o privilégio de ter tido dois na mesma pessoa", ressalta.
O que ficou
Antônio Gaudério e a filha Aurora
Embora tenha perdido praticamente todas as referências sobre a própria trajetória, algumas marcas resistiram ao acidente: o sotaque gaúcho continua presente, o hábito de tomar chimarrão segue intacto, assim como a paixão pelo Grêmio.
"Esses dias eu levei ele no jogo do Corinthians e falei: 'Agora você virou corintiano?' Ele: 'Não, nem brinca com isso, eu sou gremista'", relembra Aurora.
Hoje, aos 68 anos, o fotógrafo segue envolvido com a preservação do próprio legado. A família administra uma galeria online e trabalha na digitalização do acervo
Ao olhar para a trajetória dos últimos anos, Aurora diz que a experiência transformou completamente a relação dos dois. Se antes convivia com um pai constantemente viajando pelo país em busca de pautas, agora trabalha ao lado dele diariamente.
"Eu tive um pai antes do acidente e tenho outro depois dele. São pessoas diferentes, mas igualmente geniais", diz.
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