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Mesmo com alta de imposto, Brasil tem cigarro mais caro da América Latina
G1 — Brasil · 2026-08-23T07:01:52.000Z
Mesmo com alta de imposto, Brasil tem cigarro mais caro da América Latina
Dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) mostram que o risco de morrer por câncer de pulmão pode ser até 30 vezes maior entre fumantes do que entre quem nunca fumou.
A doença é o tipo de câncer que mais mata no Brasil, são mais de 30 mil mortes por ano. É também um dos mais silenciosos: cerca de 8 em cada 10 pacientes só descobrem a doença quando ela já está em estágio avançado.
Segundo especialistas, o maior fator de risco para a doença e morte em decorrência é o tabagismo. E o país vive um cenário alarmante: depois de quase 20 anos em queda, o número de fumantes no Brasil voltou a crescer. Em 2024, 11,7% da população adulta fumava, segundo o Vigitel — ante 9,3% em 2023.
O levantamento, feito por pesquisadores do Inca, comparou a mortalidade por câncer de pulmão entre pessoas que fumam e pessoas que nunca fumaram. O resultado mostra que o risco não é fixo: ele varia por idade e sexo, e cresce de forma acentuada a partir dos 45 anos. Entre fumantes de 65 a 74 anos, chega a ser mais de 30 vezes maior do que entre quem nunca fumou.
Risco de morte por câncer de pulmão
De “fumante de festinha” a um vício de 12 anos
Bryan Dutra, hoje com 32 anos, começou a fumar em 2014, no início da faculdade. No começo, era um cigarro social — em festas, junto com colegas, longe dos olhos dos pais, com quem ainda morava.
🚬 Aqui, vale um alerta: por definição, é considerado tabagista quem usa qualquer produto derivado do tabaco por um período de pelo menos 12 meses — não importa a frequência. Ou seja, mesmo quem fuma apenas nos fins de semana já se enquadra como tabagista.
Foi mais ou menos esse o caminho de Bryan. Em pouco tempo, o cigarro de festa virou hábito diário.
“Eu precisava sair escondido à noite para fumar porque não aguentava ficar sem o cigarro. Quando eu vi, eu já fumava todos os dias, mais de uma vez ao dia”, conta.
Bryan Dutra, hoje com 32 anos, começou a fumar em 2014
Foram 12 anos de vício. Durante esse período, ele tentou parar de fumar, mas não buscou ajuda profissional e não conseguiu.
Bryan trabalha com turismo e ano passado foi conhecer alguns resorts de retiro no Himalaia e teve que parar de fumar enquanto estava lá. Para ter forças, ele se juntou a uma amiga, que estava em São Paulo, e por aplicativo, eles iam atualizando as conquistas diárias sem o cigarro.
“Ter a ajuda dela foi super importante porque o processo é muito difícil. Eu tinha dores de cabeça horríveis, eu fiquei de mau humor, instável. Eu não imaginava a força que a nicotina tinha em mim”, conta.
Hoje, ele está há quase dez meses sem fumar. Porém, conta que é uma luta diária, principalmente socialmente, como em festas e bares, em que vê outras pessoas fumando.
“Eu luto todos os dias porque eu sei que isso vai pesar na minha saúde lá na frente. Precisei fazer uma escolha por mim”, conta.
Busca por ajuda para parar de fumar cresce no país
Nas redes sociais, pessoas viciadas em nicotina têm usado as plataformas para compartilhar sua rotina tentando parar de fumar.
Os vídeos funcionam como um diário em que a pessoa conta há quanto tempo, quais são os sintomas e como tem sido o tratamento.
Bryan conta que também se sentiu estimulado por esse tipo de movimento, em pensar que era possível e ter com quem se identificar.
🚬 A trend se reflete em um movimento mais amplo. Segundo o Ministério da Saúde, o número de pessoas que buscaram atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS) para parar de fumar saltou de 351.832 em 2015 para 2.510.509 em 2025 — um aumento de mais de sete vezes em uma década.
A melhor estratégia que a gente tem contra o câncer de pulmão no país é parar de fumar. O tabagismo é a maior causa da doença e causa de morte de outras várias doenças.
Fumar aumenta em até 30 vezes o risco de morrer por cãncer de pulmã
O tratamento é oferecido gratuitamente na rede pública e inclui acompanhamento individual ou em grupo, orientações para lidar com a dependência e, quando indicado pelos profissionais de saúde, medicamentos para reduzir os sintomas da abstinência, como adesivos e gomas de nicotina e bupropiona.
Nesta semana, o Ministério da Saúde lançou uma campanha para adesão ao tratamento contra o tabagismo. Quem quiser ajuda, pode procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima.
Influenciador viciado em vape conta que fuma desde os 14 anos
O custo do tabaco x ter o 3° cigarro mais barato da América do Sul
O Sistema Único de Saúde (SUS) gasta R$ 98 bilhões por ano com doenças relacionadas ao uso de cigarro, de acordo com dados do Inca. Ao mesmo tempo, a arrecadação de impostos sobre a indústria do fumo cobre apenas 5% dessas perdas.
💸 De forma prática: para cada R$ 1 arrecadado, o governo precisa gastar R$ 5 para tratar doenças e cobrir perdas de produtividade por incapacidade ou morte prematura causadas pelo tabagismo.
Para além disso, há perda de vidas: o tabagismo mata 477 pessoas por dia no país, segundo o Ministério da Saúde.
No câncer de pulmão, que tem como principal causa o tabagismo, são 31 mil mortes por ano.
Em contrapartida, os cigarros no Brasil estão entre os mais baratos da América do Sul.
Mesmo com alta, Brasil tem 3° cigarro mais barato da América do Sul
Neste ano, o governo federal anunciou novo aumento no preço mínimo do cigarro no país, que passa de R$ 6,50 para R$ 7,50. Para especialistas, porém, o valor ainda é insuficiente diante do cenário atual: pela primeira vez em duas décadas, o número de fumantes voltou a crescer no Brasil.
O Brasil tinha uma política de reajuste anual do preço mínimo do cigarro acima da inflação, criada justamente para reduzir o número de fumantes. Mas os reajustes ficaram parados entre 2017 e 2023, com o valor congelado em R$ 5 — só em 2024 o governo alterou para R$ 6,50.
Especialistas afirmam que, se a política de reajustes anuais tivesse sido mantida ao longo de todo o período, o valor mínimo do produto já estaria em torno de R$ 10. Hoje, o Brasil tem o terceiro menor preço de cigarro de toda a América do Sul.