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Rogério Micale relembra conquista do ouro olímpico em 2016: "Marcada na minha história"
ge — Futebol · 2026-08-24T16:48:23.000Z
Rogério Micale relembra conquista do ouro olímpico em 2016: "Marcada na minha história"
Rogério Micale tem o nome marcado na história do futebol brasileiro como o técnico da Seleção no primeiro ouro na modalidade, em 2016, no Rio de Janeiro, batendo a Alemanha na final. Agora, 10 anos depois daquela conquista, ele bateu um longo papo com o ge, recordando alguns bastidores e falando sobre dois dos principais nomes da campanha: Luan e Neymar.
Além disso, Micale repassou alguns pontos da carreira, como a passagem pelo Atlético-MG, logo após a conquista do ouro, o trabalho feito no Egito, sendo semifinalista olímpico novamente, e o desafio atual no comando do Londrina, na Série B do Brasileiro.
– É um orgulho muito grande [o ouro olímpico]. Sempre quando lembro, me traz muita felicidade e é uma marca importante. Dez anos, parece que aconteceu ontem, mas é uma coisa que vai estar sempre marcada na minha história e também do futebol brasileiro – disse Micale.
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A escolha no comando
Seleção Olímpica é convocada
Ex-goleiro, Rogério Micale foi anunciado como técnico do Brasil nas Olimpíadas 2016 em junho daquele ano, menos de dois meses antes da estreia na competição. Ele trazia na bagagem bons resultados na base e era o treinador do Brasil no Sub-20, sendo vice-campeão mundial um ano antes.
Inicialmente, Micale seria auxiliar de Dunga, então técnico da Seleção. Porém, Dunga foi demitido após a eliminação na Copa América Centenário, e a CBF escolheu Micale para comandar a seleção olímpica – ele já vinha trabalhando com o sub-23 em amistosos preparatórios.
– Eu dei uma entrevista logo no começo que o menos conhecido da seleção era o treinador. Minha história era de base, né? Apesar de ser uma seleção sub-23, todos os jogadores já estavam nas suas equipes principais e tinham um destaque até grande – contou Micale.
– Eu havia feito um trabalho com essa equipe de um ano. O Dunga ia para a principal, e eu convocava os olímpicos na mesma data da FIFA. Acho que foi uma das melhores preparações de equipe olímpica que a CBF fez – comentou.
No mesmo dia em que foi confirmado, Rogério Micale precisou fechar a pré-lista com 35 jogadores e 12 membros da comissão técnica para o torneio. A relação final, com 18 atletas, foi divulgada duas semanas depois.
– Foi tudo muito rápido e intenso, precisava tomar muitas decisões em 24 horas. É meio louco, até o meu auxiliar escolhi uma e meia da manhã, que liguei para o Odair [Hellmann, atual técnico do Athletico]. Ele estava dormindo, indo para a cama. Foi engraçado. Uma hora da manhã, você receber uma convocação para participar dos Jogos Olímpicos? Isso aconteceu com vários – relembrou Micale.
– A princípio, gera um friozinho na barriga natural, mas me sentia muito preparado para viver aquela situação. Sabia que era um peso gigantesco, uma grande responsabilidade, mas que eu tinha capacidade, com o trabalho e ajuda de muitas pessoas, tive uma comissão técnica formidável – prosseguiu.
Dez anos depois, campeões contam bastidores do 1º ouro do futebol
A Seleção não começou bem o caminho nas Olimpíadas. Estreou com um empate sem gols com a África do Sul, e depois teve mais um 0 a 0 em seguida, contra o Iraque, os dois jogos em Brasília.
– A gente estava vindo com jogadores de férias da Europa, junto com os jogadores do Brasil que estavam jogando normal. Não era um grupo homogêneo, a gente tinha que equilibrar tudo isso, e aí gera dificuldade. O encaixe não foi tão bom como esperávamos – analisou.
— Depois dos dois empates, teve momento de a gente entrar em sala e fechar tudo e acalmar o time, trazer confiança. Todo mundo estava acabando lá fora, mas ali, naquela sala, os números estavam aqui: precisamos melhorar. A questão agora é uma bola entrar para resgatar a confiança – completou.
Rogério Micale Odair Hellmann seleção olímpica ouro Rio de Janeiro Olimpíada
Ricardo Stuckert / CBF
A última rodada do grupo se tornou decisiva, e o Brasil goleou a Dinamarca por 4 a 0, na Arena Fonte Nova, em Salvador, garantindo a classificação às quartas de final.
— Os baianos nos abraçaram de uma forma assim, nos receberam sabendo da importância do jogo. Nos receberam com carinho, com energia. Esses detalhes são coisas que me marcaram também pelo carinho do povo baiano, por entender o momento que a gente estava vivendo, a necessidade de apoiar – recordou Micale.
— A gente não encontrava isso nos empates. Já vinha trazendo o peso da Copa do Mundo [de 2014] para dentro das Olimpíadas. Então a gente queria quebrar isso, e o povo baiano nos deu essa quebra. Os caras nos empurraram. Foi um momento importante para mim, para a equipe como um todo – prosseguiu.
O Brasil passou nas quartas de final pela Colômbia, vencendo por 2 a 0, na Neo Química Arena, e depois goleou Honduras, por 6 a 0, nas semifinais, até chegar à final contra a Alemanha.
– Passamos por esses momentos difíceis, mas depois a gente conseguiu encaixar e chegamos à final, chegamos bem confiantes de que poderíamos realmente ter essa conquista.
A final e o ouro
O título que faltava: campeões relembram o primeiro ouro olímpico do futebol na Rio-2016
O Brasil reencontrou na final justamente a Alemanha, com o fantasma do 7 a 1 de dois anos antes ainda bem vivo. O jogo ficou em 1 a 1 no tempo normal, o empate persistiu na prorrogação, e a decisão foi para os pênaltis.
Os mais de 63 mil torcedores presentes no Maracanã e os milhões espalhados pelo país viram Weverton defender a cobrança de Petersen, e Neymar converter o pênalti decisivo, garantindo o primeiro ouro para o Brasil no futebol masculino.
– A simbologia é muito grande. Maracanã, Copa do Mundo... A gente nem chegou a jogar no Maracanã na última Copa do Mundo em casa, traz a memória de 50, e uma final com a Alemanha. Aí vêm os medos, de que não poderia acontecer aquilo que tinha acontecido [em 2014]. Seria uma frustração muito grande para nós e para o povo. A gente se fechou muito, com muita confiança que a gente poderia fazer aquilo.
Micale e Neymar, Medalha de ouro
– Enfrentamos o adversário que, depois, quatro, cinco jogadores daquele time também estavam na seleção principal da Alemanha. Não foi fácil, foi uma trocação durante o jogo muito grande. Agora, foi um roteiro perfeito, porque terminar daquela forma. O Weverton pegando o pênalti e o Neymar fazendo um gol de pênalti, é também tem um simbolismo muito grande.
– Me lembro bem do Weverton defendendo o pênalti. Na hora que ele defendeu, eu falei, “agora...". Porque, quem era? Neymar. E o Neymar treinava muito isso, batia muito bem nos treinamentos e também na sua carreira toda. Nos trazia uma segurança que estava nos pés de alguém que estava preparado para aquilo.
Misto de emoções
– Na hora que ele faz o gol, vem um sentimento engraçado. Eu tive um alívio de “pô, conquistamos”, foi tirar um peso. A gente queria tanto aquilo, e se a gente fracassasse novamente, seria algo muito pesado para todo mundo que estava participando e também para o povo de uma forma geral – detalhou Micale.
– O primeiro sentimento foi esse, de alívio. A gente às vezes trata o futebol de uma forma séria demais. É muito uma coisa de vida ou morte. E não é, é um esporte, é algo que do outro lado também tem os méritos, está lutando pela mesma coisa que a gente. Só que muitas vezes para os brasileiros não é assim que funciona. Ou você ganha, ou nada que foi feito serve, e esse peso também a gente carregava.
– Quando eu olhei ao redor, eu vi a comemoração, vi aquele povo todo gritando, a felicidade na casa das pessoas, isso me trouxe satisfação de poder viver aquilo. Até ali eu não sabia ainda o peso que aquilo traria para minha vida, para minha carreira. No outro dia fui para casa como se fosse uma conquista de um campeonato normal de base. Depois que cheguei aos lugares, no aeroporto, supermercado, vi realmente o que aquela medalha traria para a minha vida – completou.
medalha de ouro Rogério Micale
Micale falou sobre três nomes que acabaram tendo destaque naquela conquista. Um deles é o goleiro Weverton, que defendia o Athletico e agora está no Grêmio. Ele foi o escolhido, até com certa surpresa, para substituir Fernando Prass, que estava no Palmeiras naquele momento e sofreu uma lesão, sendo cortado.
– O momento do Prass naquela época estava fantástico. Quando sofreu a lesão, perdemos essa referência, uma boa liderança. Aí busquei alguém com essa característica e com um ponto que tinha me chamado a atenção. O Weverton, há 10 anos, era um dos poucos goleiros no Brasil que tinha essa condição de fazer um jogo com o pé. Naquele momento ele não era nem um goleiro como ele é hoje, o Weverton, mas tinha uma capacidade muito boa para isso. Até então nunca tinha sido convocado, mas era a peça que encaixava, pegador de pênaltis também
Técnico do ouro olímpico em 2016, Rogério Micale analisa declínio de Luan, ex-Grêmio
Outra peça importante do ouro olímpico foi Luan. O meia-atacante então do Grêmio começou os Jogos entre os reservas, mas entrou no time contra a Dinamarca e proporcionou uma virada de chave, ajudando na reação da Seleção nos Jogos. Ele fez três gols, além de converter um dos pênaltis contra a Alemanha.
– O Luan nos treinamentos já pedia passagem. A partir do momento que a coisa não engrenou, a gente estava no 4-3-3 em um jogo mais posicional, e o Luan é um jogador mais “aposicional”, vamos dizer assim, um jogador que gosta mais de atuar perto da bola – detalhou Micale.
– O Luan foi fantástico. Ele fazia um falso nove no Grêmio com o Renato Gaúcho, foi o melhor jogador da América, e aproveitei essa ideia na Seleção. Trouxe o Luan para fazer esse falso nove, tirei o Neymar na beirada para fazer junto com ele essa bagunça organizada, que gera muita dificuldade ao adversário, e isso o Luan é mestre em fazer. Ele, entre aspas, é o brasileiro peladeiro, é essa essência do jogador brasileiro – destacou.
Luan e Wallace Treino Seleção Brasileira Olímpica
Lucas Figueiredo / MoWA Press
Micale também fez uma leitura dos motivos de Luan não ter mantido o mesmo nível e até mesmo ter deixado o futebol, ficando abaixo da expectativa criada naquele momento.
Depois do ouro, o meia-atacante ficou mais três anos no Grêmio, teve uma passagem com polêmicas pelo Corinthians e uma sem brilho pelo Santos. Voltou ao Tricolor Gaúcho, em 2023, e teve o Vitória, em 2024, como último clube. Hoje, aos 33 anos, ele está sem clube e deixou praticamente o futebol de lado.
— Entrando no assunto do porquê houve essa mudança tão grande com o Luan, acho que também tem muito a ver com as mudanças no futebol brasileiro, que se colocou essa "modernidade". Hoje 90% dos jogos no Brasil se tornaram posicionais, cada um no seu quadrado. Um cara que é solto, que é um jogador que tem liberdade, que sempre jogou dessa forma, encaixar naquela caixinha, o Luan tem dificuldade — avaliou Micale.
– Eu acho que o Luan sofreu muito com isso. Ele saiu da mão do Renato e começou a transitar em equipes em que o jogo era muito mais posicional, e aí ele teve dificuldade cada vez mais. Aí o rendimento cai, e passa a ser um jogador extremamente normal ou abaixo do normal. E as expectativas em cima do que o Luan era acabam — prosseguiu.
— Aí vem um massacre, vem o "não joga mais", o "não serve mais para nada", e isso vai abalando o cara, vai gerando um processo de tristeza, e o cara simplesmente abandona a bola porque não aguenta mais viver esse tipo de situação. Nunca conversei com o Luan sobre isso, mas eu acho que tem muito a ver com todo esse processo — completou.
Técnico do ouro olímpico em 2016, Rogério Micale exalta Neymar: "Casca grossa"
Rogério Micale também falou sobre o papel de Neymar naquele ouro olímpico. O treinador não esconde a admiração pelo meia e elogiou a postura de Neymar dentro e fora de campo, tanto naquela conquista quanto na carreira. Nas Olimpíadas, o camisa 10 fez quatro gols, incluindo o da final contra Alemanha, além de cobrar o último pênalti.
— O grande pilar. É um gênio, eu sempre falo. É um cara que vi de perto na melhor fase da vida dele, jovem, fazendo coisas incríveis, uma personalidade diferente, um ganhador nato, detesta perder. É um cara que leva os outros, porque quer a bola, quer o jogo nele. Hoje temos muitos jogadores que às vezes se escondem. Esse [o Neymar], pode ser a fase que for, chama a responsabilidade, e isso eu admiro demais — opinou Micale.
— A nossa sociedade, o mundo do futebol, é uma cobrança esmagadora, e você tem um cara que, mesmo num momento difícil, chama para si a responsabilidade da equipe, às vezes de todo um clube. Não é para qualquer um suportar esse peso. O Neymar é esse cara. O que ele suporta é algo para alguém muito forte — prosseguiu.
– O Neymar é um cara super bem-sucedido, casca-grossa. Ele vale o que ele dá de retorno em termos disso, de chamar responsabilidade, chamar o jogo para si. Isso no clube. Na seleção. É um cara extremamente casca-grossa, de perfil de não ter medo. Quanto pior a situação, mais ele chama para si a responsabilidade.
Micale e Neymar Brasil X Alemanha Final
Micale também falou sobre o uso de Neymar na Copa do Mundo de 2026. O treinador reconhece que a condição física do jogador não era a ideal, mas afirmou que o camisa 10 deveria ter sido mais aproveitado e comparou com a utilização de Mohamed Salah no Egito.
— Ele chegou machucado, entendo tudo isso, porque também sou treinador. Existe uma progressão de colocar um jogador com a idade do Neymar, pelo momento que vivia, parado e tal. Mas não abriria mão do Neymar, porque vi o que ele pode dar. Talvez tenha menos explosão, menos agilidade, mas acha espaços que às vezes o outro não acha. A visão de jogo, um passe nas costas do adversário, um lance genial, o Neymar tem essa capacidade.
— Se fosse comigo, eu nunca abriria mão dele, tendo a mínima condição. Assim como outros países não abrem mão dos seus grandes gênios. Eu vi no Egito recentemente, o time joga em função do Salah. Nessa Copa do Mundo, ele estava num momento assim, de entrar aos poucos. Mas, no momento em que teve a oportunidade, foi colocado, porque é o gênio do Egito, e a gente não pode abrir mão de gênio.
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Depois do ouro, o Atlético-MG
Técnico do ouro olímpico em 2016, Rogério Micale relembra passagem pelo Atlético-MG
Após a conquista do ouro olímpico, Rogério Micale voltou ao comando da Seleção Sub-20. Ele foi demitido em fevereiro de 2017 após não conseguir classificar o Brasil para o Mundial da categoria.
Cinco meses depois, o treinador assumiu o comando do Atlético-MG, clube onde tinha feito um trabalho na base em anos anteriores. Ele ficou no cargo por apenas dois meses, com cinco vitórias, três empates e cinco derrotas. Neste período, o time acabou eliminado pelo Jorge Wilstermann, da Bolívia, nas oitavas de final da Libertadores, e caiu também nas quartas da Copa do Brasil, para o Botafogo.
– Eu sou movido muito pelo coração, não me preocupo muito com esse negócio da carreira. Por que que assumi o Galo? Porque era uma equipe que eu tinha identidade incrível, o Galo para mim era uma casa. Eu fiz seis anos de Galo, então eu conhecia do cozinheiro ao motorista do ônibus. Quando me ligaram dizendo que precisavam de mim, eu estava na China, para fechar algo lá. Foi até ruim essa situação para mim, mas retornei porque era o Galo – recordou.
– Olhando para trás, não era para assumir. Mas assumi e não me arrependo. O meu coração falou muito mais alto, e tive a experiência de dirigir um dos maiores clubes do Brasil. A torcida é gigantesca. Não poderia dizer não ao Galo. Não me arrependo de nada. Usufrui do Galo, usufrui do Figueirense e hoje eu vivo o Londrina, clubes que abriram o mundo do futebol para mim – completou.
Micale depois teve duas passagens pelo Paraná Clube, uma pelo Figueirense, e em seguida trabalhou no Al Hilal, daArábia Saudita, e no Al Dhafra, dos Emirados Árabes Unidos. Em 2023, foi contratado pela seleção olímpica do Egito.
Ele voltou a disputar as Olimpíadas em 2024, em Paris, levando a seleção egípcia às semifinais, uma campanha histórica para o país, ainda que sem a medalha. Daquele elenco, oito jogadores foram convocados para a Copa do Mundo, onde o Egito parou nas oitavas de final, contra a Argentina.
– O futebol do Egito tem uma característica: o jogador faz três funções em campo. Então, em um jogo ele entra de lateral, em outro jogo entra de primeiro volante, em outro jogo de extremo do lado de lá. Imagina um treinador brasileiro trazer essa ideia para um clube e usar isso com frequência? Já tem o nome: Professor Pardal – disse.
– Isso me traz um orgulho, mais que título, quando você consegue deixar esse legado. Os jogadores com quem você trabalhou estão nos planos do futuro time do Egito, e você fez parte dessa construção. Aí ela é posta à prova na Copa e você vê que os caras conseguiram realizar bem, porque foi no detalhe contra a Argentina. Eu estava super orgulhoso de ver os caras jogarem bola. Eu até tinha mais quatro anos de contrato, houve um problema lá. Mas, assim, é deixar um legado – destacou.
Rogério Micale, técnico brasileiro do Egito nas Olimpíadas
"Não somos a Espanha"
Micale também fez uma análise do momento do futebol brasileiro e defendeu que o país encontre uma forma própria de jogar. Para o treinador, não é possível simplesmente importar conceitos desenvolvidos em outras culturas, como do futebol europeu, e esperar que eles funcionem da mesma maneira no Brasil.
— Hoje a Europa leva os grandes jogadores, tem um tempo de maturação das ideias de jogo muito maior do que a nossa. Lá o treinador não precisa ganhar tudo no primeiro ano para se manter no emprego. Eles conseguem trabalhar com um projeto mais extenso. Agora a gente começou a vender muita ideia no Brasil de que só o que se faz lá é moderno — analisou.
— Eu não acredito que a metodologia que se implanta na Europa seja a correta para se trabalhar em qualquer país do mundo. Muito tem a ver com a cultura local. O brasileiro gosta de pegar a bola, de pedalar, gosta de uma caneta, de dar um chapéu, tirar onda. É cultural, a gente cresceu assim. O que compete a gente é, dentro da nossa característica, da nossa essência como jogador que faz futebol, achar um meio que a gente se torne vitorioso com essa essência — prosseguiu.
Ouro em 2016, Rogério Micale avalia momento do futebol brasileiro: "Não somos a Espanha"
O treinador ressaltou, porém, que defender uma identidade brasileira não significa abrir mão de organização tática e nem de encontrar uma forma competitiva de jogar.
— Não estou falando de um jogo totalmente anárquico, sem ideia nenhuma. Não é só colocar os caras em campo e achar que eles, no individual, vão resolver o problema. Não vai. Mas nós não somos a Espanha. A gente precisa fazer uma ideia, um padrão que se encaixe dentro do país que somos.
Micale também criticou o que considera uma valorização excessiva de treinadores estrangeiros e uma percepção de que os brasileiros estariam necessariamente defasados.
— Parece que a nacionalidade determina o que você é como incompetente ou competente. Quando se fala de estrangeiro, hoje é estrangeiro, é competente. Se é nacional, é incompetente. Isso já é um estereótipo, uma marca registrada, e tomou conta da nossa sociedade — opinou.
— A gente precisa ter realmente a nossa escola, produzir aquilo que acredita que é o nosso futebol. A gente continua só querendo fazer aquilo que vê o Guardiola, o Klopp, o Ancelotti fazerem. São referências para mim, mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa — completou.
Sonho: disputar uma Copa do Mundo
Perguntado qual seria o principal sonho da carreira para quem já tem um ouro olímpico, Rogério Micale fala de forma clara: comandar uma seleção em uma Copa do Mundo.
– Acho que falta isso na minha carreira. Eu fui à Copa do Mundo Sub-20, fomos vice-campeões mundiais, em 2015. Mas eu quero ir para uma Copa do Mundo da primeira equipe. Vou trabalhar para realizar esse sonho. Eu acho que é mais outro país, lá fora eu ainda tenho muita procura, já tive para seleção olímpica e para seleção principal de alguns lugares menores, que têm que lutar muito para ir para a Copa do Mundo.
– Acredito que uma hora vai aparecer uma oportunidade de poder conduzir uma seleção e ir a uma Copa do Mundo. É um sonho para fechar todos os ciclos de participação. Fui vice-campeão da Copa Africana, cheguei a disputar as finais das Olimpíadas. Eu ainda busco. Ainda tenho muita lenha para queimar, se Deus quiser.
Enquanto isso, ele também encara a oportunidade à frente do Londrina como algo importante, já que está no clube onde começou a carreira como jogador, quando era goleiro, e também deu os primeiros passos como treinador na base.
– Estou vivendo um sonho que é trabalhar em Londrina. As pessoas às vezes não entendem, mas, para mim, é um sonho se realizando. É algo assim que só eu sei o que é, por tudo que vivi aqui. Minha família é londrinense, minha esposa, minhas filhas. Então, estou vivendo isso, passando uma dificuldade danada, mas estou vivendo, realizando sonho – disse.
Rogério Micale, técnico do Londrina
Rafael Martins/Londrina EC
No Londrina, Micale encara um desafio complicado. O time está afundado na zona de rebaixamento da Série B do Brasileiro, em 18º, com 21 pontos, oito abaixo do Avaí, primeiro fora do Z4. O Tubarão vem de oito jogos sem vencer.
– Os objetivos aqui são claros. Eu vou lutar muito para tentar conseguir o objetivo que eu tenho traçado para aqui. Nós vivemos um momento delicado. A gente teve uma estabilidade na competição. Viramos o primeiro turno fora da zona de rebaixamento, e esse era o grande objetivo – avaliou.
– A gente saiu de uma equipe que achou um equilíbrio, ganhou, fez uma goleada em casa que fazia anos que não tinha. Aí saíram três jogadores importantíssimos, chegaram nove jogadores que não tiveram tempo de trabalhar. Já tive que pôr na equipe. Existe o chavão de trocar o pneu do carro com ele rodando. A gente tem que suportar esse processo, ser resiliente e confiar que a gente vai conseguir no final da competição estar fora da zona do rebaixamento – finalizou.
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