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Casca de fruta vira ingrediente para cosmético desenvolvido por universidade de MS

Casca de bocaiúva vira ingrediente para cosmético.

G1 — Brasil · 2026-08-24T20:46:31.000Z

Casca de bocaiúva vira ingrediente para cosmético.

Acervo dos pesquisadores do LPPFB

Toneladas de casca de bocaiúva são descartadas após o processamento do fruto e normalmente acabam como resíduo agroindustrial. Pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), no entanto, transformaram esse material em uma formulação cosmética que reúne extrato antioxidante e partículas esfoliantes naturais.

A proposta agrega valor à matéria-prima e abre novas possibilidades para a cadeia produtiva da bocaiúva no estado.

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Segundo a professora Maria Lígia, a ideia que deu origem ao Acrodermo nasceu de uma pergunta: "por que aproveitar apenas parte da bocaiúva se o próprio fruto ainda oferece possibilidades pouco exploradas?"

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Segundo ela, durante muitos anos a atenção esteve concentrada na polpa e na amêndoa, de onde são extraídos óleos e componentes utilizados na alimentação. A casca, por outro lado, era tratada como resíduo do processamento. A partir dessa observação, a equipe passou a investigar novas formas de aproveitamento do material.

“A proposta passou a ser aproveitar praticamente toda a matéria-prima, transformando o que seria lixo em um ativo cosmético de maior valor agregado”, explica.

As pesquisas começaram no Laboratório da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, Alimentos e Nutrição (Facfan) da UFMS e avançaram à medida que a equipe ampliou o contato com pequenos produtores e cooperativas fornecedoras de bocaiúva.

A aproximação ajudou os pesquisadores a entender melhor o potencial da casca e a ampliar a proposta inicial, incluindo aspectos relacionados à sustentabilidade e à valorização da cadeia produtiva regional.

Segundo o biólogo Antolim Penha Martinez Junior, a escolha da bocaiúva também tem relação com a importância regional do fruto. A espécie está presente na alimentação, na cultura e nas paisagens do Cerrado e do Pantanal. Embora a polpa e a amêndoa já tenham sido estudadas, a casca ainda é pouco explorada pela pesquisa científica.

“Trabalhar com ela é, ao mesmo tempo, valorizar a biodiversidade regional e mostrar que espécie nativa não é sinônimo de matéria-prima limitada”, afirma.

Ao transformar um resíduo agroindustrial em matéria-prima para a indústria cosmética, a pesquisa mostra uma possibilidade de aproveitamento da biodiversidade regional para gerar novos produtos e agregar valor à cadeia produtiva da bocaiúva.

Da casca ao cosmético

Embora a bocaiúva seja conhecida pelos frutos utilizados na alimentação, a casca, que normalmente é descartada, também apresenta características que podem ser aproveitadas em aplicações cosméticas. Essa possibilidade chamou a atenção da equipe durante o desenvolvimento do Acrodermo.

Segundo Antolim, a casca permite obter dois ingredientes diferentes a partir do mesmo resíduo. “É uma matéria-prima que rende duas funções cosméticas a partir do mesmo resíduo: o extrato antioxidante e a partícula esfoliante”.

Os compostos antioxidantes presentes na casca ajudam a neutralizar o estresse oxidativo associado ao envelhecimento da pele e à perda de firmeza. Por isso, despertam interesse para formulações destinadas aos cuidados faciais e corporais.

Após a extração desses compostos, o material sólido que resta também pode ser processado para dar origem a partículas esfoliantes naturais, utilizadas na remoção de células mortas da pele.

Os testes realizados em laboratório demonstraram atividade antioxidante do extrato em diferentes ensaios, além de indicarem potencial anti-inflamatório e segurança nas concentrações avaliadas em modelos celulares.

A equipe também desenvolveu os primeiros protótipos com o extrato antioxidante e as partículas esfoliantes obtidas da casca da bocaiúva na mesma formulação.

“A aparência, a textura e a estabilidade inicial já apontam que a bocaiúva tem, sim, potencial como ingrediente natural para cosméticos”, avalia o farmacêutico Lucas Rannier Melo de Andrade.

Os resultados indicam que a casca pode ser aproveitada em diferentes etapas, permitindo a obtenção de mais de um ingrediente para uma mesma formulação.

O Acrodermo também propõe uma forma de ampliar o aproveitamento da bocaiúva. Em vez de descartar a casca após o processamento do fruto, a pesquisa utiliza o material em diferentes etapas, aumentando seu aproveitamento e reduzindo a geração de resíduos.

Segundo Maria Lígia, a proposta segue princípios da economia circular, em que um mesmo recurso é utilizado pelo maior tempo possível para gerar novos produtos e reduzir desperdícios.

“É quase um duplo aproveitamento da mesma matéria-prima, o que aproxima o projeto dos princípios da economia circular”.

No processo desenvolvido pela equipe, a casca é utilizada inicialmente para a obtenção do extrato antioxidante. Depois dessa etapa, o material sólido remanescente passa por outro processamento e se transforma em partículas esfoliantes naturais incorporadas à formulação cosmética.

Dessa forma, a proposta busca aproveitar praticamente toda a matéria-prima, reduzir resíduos e aumentar o valor agregado do fruto.

O modelo também pode contribuir para a substituição de partículas esfoliantes sintéticas por alternativas vegetais e biodegradáveis. Do ponto de vista econômico, a pesquisa transforma a casca, que não possui valor comercial após o processamento, em um possível insumo para novos produtos.

O Laboratório da Facfan mantém parcerias com pequenas comunidades extrativistas para as quais a bocaiúva representa uma fonte de renda.

“Se a casca passa a ter valor tecnológico, produtores, extrativistas, cooperativas e pequenas empresas ganham uma frente a mais de fornecimento ou beneficiamento — e isso significa renda em cima de um resíduo que hoje não tem destino”, afirma Maria Lígia.

Na avaliação da coordenadora, o Acrodermo mostra como a pesquisa pode ampliar o aproveitamento da biodiversidade regional e criar novas possibilidades para a cadeia produtiva da bocaiúva.

Desafios e próximos passos

O desenvolvimento da formulação envolveu diferentes etapas de testes e a integração de áreas como química, biologia, cosmetologia e microbiologia. O objetivo foi avaliar características como segurança, estabilidade e potencial de aplicação do produto.

Antolim lembra que um dos primeiros desafios estava relacionado à própria matéria-prima. Como ocorre com outros produtos de origem vegetal, a casca da bocaiúva apresenta variações de acordo com a procedência, o estágio de maturação dos frutos e as condições de coleta e processamento.

“Somou-se a isso o desafio de integrar áreas bem distintas, como química, biologia, cosmetologia, microbiologia e análise de formulações. Fazer esses campos conversarem exige planejamento constante”.

A equipe precisou ajustar o processo de extração, definir o tamanho das partículas esfoliantes e estabelecer concentrações que preservassem características como aparência, textura e estabilidade da formulação.

De acordo com Lucas, durante o trabalho, um dos resultados observados foi a possibilidade de reaproveitar a mesma casca como partícula esfoliante depois da extração do composto antioxidante.

“As imagens de microscopia confirmaram que o formato do material é adequado para a função esfoliante, e essa é justamente uma tendência que o mercado cosmético vem seguindo, com marcas incorporando resíduos vegetais como diferencial”, destaca.

A dupla utilização da matéria-prima reforçou a proposta de economia circular que orienta o Acrodermo.

Atualmente, o projeto está na fase de validação laboratorial e desenvolvimento dos protótipos da formulação cosmética. As etapas de processamento da matéria-prima, obtenção do extrato, preparo das partículas da casca e avaliação das atividades biológicas já foram concluídas, assim como as primeiras formulações com os derivados da bocaiúva.

Agora, o trabalho está concentrado no refinamento da tecnologia. Os pesquisadores buscam otimizar a formulação e ampliar os estudos de estabilidade, segurança e eficácia, além de realizar novas análises microbiológicas, avaliações de textura e reologia e verificar o comportamento do produto em diferentes condições de armazenamento.

Depois dessa etapa, o próximo desafio será preparar a tecnologia para uma futura escala de produção, com a padronização da matéria-prima, a estimativa de custos e a adequação às exigências regulatórias.

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