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Odebrecht, Maceió e juros altos: Miriam Leitão explica o que levou Braskem à crise e o que pode acontecer agora

Miriam Leitão: Braskem pede recuperação extrajudicial

G1 — Brasil · 2026-08-25T15:20:50.000Z

Miriam Leitão: Braskem pede recuperação extrajudicial

A crise que levou a Braskem a pedir recuperação extrajudicial é resultado de uma combinação de problemas acumulados ao longo dos últimos anos, segundo Miriam Leitão. Para ela, entre os fatores que ajudam a explicar a situação atual estão os efeitos do envolvimento da Odebrecht em casos de corrupção, o desastre ambiental provocado pela exploração de sal-gema em Maceió e a piora do cenário internacional para o setor petroquímico.

A petroquímica tenta renegociar cerca de US$ 10,9 bilhões, o equivalente a aproximadamente R$ 56 bilhões, em dívidas. O valor total envolvido é maior quando também são consideradas as dívidas entre as próprias empresas do grupo, chamadas de obrigações intercompany.

Somadas, essas dívidas chegam a R$ 130,6 bilhões, sendo R$ 51,5 bilhões da Braskem S.A., R$ 34,5 bilhões da Braskem Netherlands B.V., R$ 44,2 bilhões da Braskem Netherlands Inc. B.V. e R$ 372 milhões da Braskem Trading & Shipping B.V.

Miriam lembrou que a Odebrecht, posteriormente rebatizada de Novonor, era a principal acionista da petroquímica e a grave crise que enfrentou após as investigações de corrupção acabou afetando a Braskem.

Outro fator apontado pela comentarista foi o afundamento do solo em Maceió, provocado pela exploração de sal-gema pela Braskem.

O problema começou a ser identificado em 2018 e provocou a desocupação de bairros inteiros da capital alagoana. Mais de 60 mil pessoas tiveram que deixar suas casas. As indenizações pagas pela companhia já somam R$4 bilhões.

Para Miriam, a dimensão do desastre agravou a situação financeira da empresa.

“Ela começou a negar no começo, achando que não era tão grave, e é gravíssimo. Bairros inteiros de Maceió afundando, um perigo enorme”, disse.

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Crise internacional do setor

Além dos problemas internos, Miriam destacou mudanças no mercado petroquímico mundial.

Segundo ela, o aumento da produção de resinas pela China contribuiu para derrubar os preços internacionais e reduzir as margens de lucro da Braskem. A companhia também enfrenta a crise em um cenário de juros elevados no Brasil.

“A China entrou na produção de resinas, isso reduziu o preço internacional, as margens da empresa caíram. E ela está atravessando agora toda essa dificuldade num ambiente hostil de juros de 14%. Tudo isso somado deu essa crise”, afirmou.

A própria Braskem já apontou a queda dos preços dos produtos petroquímicos no mercado mundial como um dos fatores de pressão sobre seus resultados.

O que acontece agora?

O pedido apresentado pela Braskem é de recuperação extrajudicial, mecanismo pelo qual a empresa busca negociar diretamente com seus credores antes de uma eventual recuperação judicial.

A negociação envolve apenas dívidas financeiras. Funcionários, fornecedores e obrigações relacionadas às indenizações pelo desastre de Maceió ficam fora do processo.

A empresa já conseguiu o apoio de cerca de 40% dos credores incluídos na renegociação e terá 90 dias para ampliar a adesão e detalhar os termos do plano. Durante esse período, as execuções das dívidas abrangidas pelo processo ficam suspensas.

Miriam explicou que a recuperação extrajudicial permite que a companhia tente construir um acordo com seus credores sem chegar a um processo de recuperação judicial.

“É um pacto entre credores e a empresa. Então, tem uma chance maior de chegar num acordo e sair”, explicou.

Entre as possibilidades para a reestruturação, segundo a comentarista, estão uma eventual emissão de ações ou até a conversão de parte das dívidas em participação na empresa, medidas que poderiam alterar sua estrutura societária.

E se não houver acordo?

Miriam afirmou que um eventual fracasso da negociação pode levar a Braskem a uma situação ainda mais grave.

“Há uma hipótese, vamos imaginar mais extrema, de quebrar a Braskem. É uma grande empresa brasileira e o mercado do Brasil mercado vai ficar sem. Vai ter um problema de abastecimento de resinas para diversos tipos de plástico que ela produz. E além disso, tem a seguinte incógnita: a maior empresa brasileira, a maior estatal, tem 47% do capital. Então, de que forma a Petrobras vai entrar? Ela vai ficar com com prejuízo", disse.

"O ideal é o cenário em que ela atravessa esses 90 dias, renegocia, se apruma e começa um novo tempo. Sem contratar impactos ambientais da sua produção e renegociando a sua dívida e pagando os seus credores", afirmou.

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