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Em busca do eleitor pendular: série mostra quem são os brasileiros que mudam de voto
G1 — Brasil · 2026-08-25T16:27:43.000Z
Em busca do eleitor pendular: série mostra quem são os brasileiros que mudam de voto
Eles trabalham por conta própria, valorizam a liberdade de fazer o próprio horário e acreditam que podem aumentar a renda com mais trabalho. Ao mesmo tempo, convivem com risco de acidentes, custos da atividade e falta de uma rede de proteção quando não conseguem trabalhar.
Esse é o perfil de parte dos entregadores ouvidos pelo Jornal da Globo em São Paulo na primeira reportagem da série Voto Pendular, sobre os chamados eleitores independentes.
Segundo a Quaest, os chamados eleitores independentes representam 32% do eleitorado brasileiro. São pessoas que mudaram de voto nas duas últimas eleições e que podem ter peso na disputa presidencial de 2026.
A jornalista Renata Lo Prete e Felipe Nunes, diretor da Quaest e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), passam por São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador ao longo de quatro episódios.
A jornada começa por São Paulo, cidade que tem 9,3 milhões de eleitores e um histórico de alternância entre diferentes campos políticos. Na capital, a reportagem foi até a Zona Leste, região com o maior número de votos e que se tornou um celeiro de empreendedores, como define Felipe Nunes.
A reportagem falou com três grupos de trabalhadores autônomos de SP:
entregadores de moto,
profissionais da beleza e
empreendedores da Zona Oeste.
O primeiro grupo é cada vez mais numeroso. A Prefeitura de São Paulo estima que cerca de 350 mil pessoas ganham a vida fazendo entregas de moto na capital. Grande parte trabalha de forma autônoma.
Entregadores são parte desses autônomos cuja preocupações com seguridade estão entre as mais citadas.
‘Uma possibilidade de empreender’
A trajetória do entregador Micaías Alves do Amor Divino , um dos entregadores entrevistados, começou muito antes dos aplicativos. Aos 11 anos, ele já trabalhava para ajudar a sustentar a família. “Eu ia para o farol, dormia na rua, fazia malabares, vendia bala, sempre ajudando a minha família”, contou.
Em 2017, começou a fazer entregas de moto para uma pizzaria. Depois, passou a trabalhar com aplicativos, primeiro de bicicleta e, mais tarde, com a moto. Foi nesse modelo de trabalho que ele encontrou uma possibilidade de ganhar mais e ter maior controle sobre a própria rotina.
“Vi que tinha uma liberdade, uma possibilidade de empreender e de sustentar minha família com mais qualidade”, afirmou.
A autonomia também aparece na forma como os entregadores encaram as dificuldades do trabalho.
Infográfico - Voto pendular: série do JG mostra quem são os eleitores independentes em São Paulo.
Micaías reconhece que ser o próprio responsável significa ter de resolver problemas sozinho, mas diz que não pretende abandonar esse modelo.
“Eu prefiro ser assim também. Porque, querendo ou não, incentiva a gente a trabalhar mais, montar um plano na cabeça, juntar um dinheiro. Porque qualquer coisa que acontecer, você não precisa estar ligando para ninguém, pedindo ajuda.”
O entregador Cícero José Cordeiro da Silva, outro entrevistado, tem rotina semelhante. Ele trabalha diariamente, das 8h às 22h, e aumenta a jornada nos fins de semana, quando, segundo ele, consegue ganhar mais.
“Não tem descanso, porque é quando entra mais. No sábado a gente tira quinhentos, no domingo tira seiscentos, na sexta quatrocentos. Você faz mil e quinhentos em três dias.”
Para ele, a autonomia compensa as dificuldades. “Eu mesmo nunca mais vou trabalhar para ninguém, só para mim, na fé de Deus.” Segundo Felipe Nunes, esse desejo não é restrito aos entregadores.
“Oitenta por cento dos brasileiros dizem que não querem ter patrão, não querem trabalhar para mais ninguém. Isso que ele acabou de falar é cada vez mais forte no Brasil”, afirmou.
O motoboy Cícero defende políticas que garantam seguridade para autônomos.
Liberdade tem um preço
A independência, porém, também significa assumir os custos e os riscos da atividade. Alef Johnny Bastos resumiu parte desses desafios ao explicar o que está por trás da rotina de quem trabalha com moto.
“As pessoas olham e dizem: ‘Vou trabalhar de motoboy’. Mas quem chega agora não conhece o investimento e os cálculos que a gente faz na rua.”
Ele citou gastos com combustível, alimentação e financiamento da moto. “Eu mesmo tenho uma parcela de moto para pagar de R$ 325.” Questionado sobre como aprendeu a lidar com esses custos, respondeu: “É tipo uma obrigatoriedade da liberdade.”
O maior receio, porém, está nos acidentes. Para quem depende da própria força de trabalho para ganhar dinheiro, ficar afastado significa também ficar sem renda.
Cícero apontou a falta de amparo como uma das principais preocupações.
“Muito motoboy aí, se toma um acidente, já era. Vai ficar de cama um bom tempo. Vai ter um apoio do governo? Eu tenho MEI, né? Eu pago tudo certinho. E quem não tem?”
Micaías já passou por essa situação. Depois de sofrer um acidente, contou que precisou da ajuda de outros entregadores. “Quando eu sofri um acidente aqui, graças a Deus os meninos me ajudaram. Se você não tiver umas pessoas para te ajudarem, fica difícil.”
Para Nunes, as conversas revelam uma combinação de valores que ajuda a entender esse grupo de trabalhadores.
“Me chama muito a atenção como, o tempo todo, as palavras liberdade, flexibilidade e um certo sonho de uma conquista, de uma renda melhor aparecem nessas conversas.” A autonomia, no entanto, não significa que os entregadores rejeitem completamente a atuação do Estado.
Renata Lo Prete destacou que eles também enxergam um papel para o governo, principalmente na melhoria das condições de trabalho.
“Não é que os nossos entrevistados não enxerguem um papel para o governo. Eles enxergam, no sentido de melhorar as condições em que eles trabalham, desde que não seja um papel que venha a tolher a liberdade que eles acreditam que conquistaram trabalhando nesse ramo e desse jeito.”
São Paulo tem 350 mil motoboys, a grande maioria trabalha de maneira autônoma
Um eleitorado dividido entre votar e desistir
A relação dos entregadores com a política também é marcada por diferenças. Cícero afirma que nunca deixou de votar, apesar da frustração com os governos.
“Eu sempre votei. Nunca deixei de votar, esperando um dia, um ano, uma melhora deles. É o que não acontece. Só que eu não dependo deles, graças a Deus. Do governo eu não espero muita coisa, sendo sincero.”
Micaías está no extremo oposto. Embora tenha título de eleitor, nunca foi a uma urna. “Não vai mudar para mim. Não vai mudar nada. Todo mundo que entra lá não olha para nós. Só quer saber deles.”
O relato mostra uma das questões centrais da série: parte dos eleitores independentes pode simplesmente deixar de participar da eleição por não se sentir representada ou por acreditar que o voto não produz mudanças.