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Rua 14 de Julho lotada.
G1 — Brasil · 2026-08-26T07:00:49.000Z
Rua 14 de Julho lotada.
Símbolos da história de Campo Grande, a Rua 14 de Julho e a Esplanada Ferroviária chegam aos 127 anos da Capital de Mato Grosso do Sul no centro de uma discussão que divide opiniões. Os dois endereços descobriram uma nova vocação para a vida noturna com a abertura de bares, pubs e lanchonetes.
O movimento, no entanto, não trouxe apenas diversão e fonte de renda. Também atraiu episódios de violência, abordagens policiais controversas e a revolta de moradores.
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No fim de semana, às vésperas do aniversário de Campo Grande, policiais militares foram flagrados agredindo dois jovens com socos e chutes na Rua 14 de Julho, durante uma abordagem que, segundo frequentadores, contou ainda com balas de borracha, bombas de efeito moral e spray de pimenta.
Ainda no início deste mês um jovem, de 21 anos, morreu após ser esfaqueado durante uma briga perto de um bar na avenida 14 de Julho.
Ao mesmo tempo em que devolveram movimento a áreas históricas, os bares e eventos também geraram reclamações e discussões sobre os limites dessa ocupação. São os dilemas da vida noturna que luta para existir no Centro de Campo Grande.
O renascimento da Rua 14 de Julho
A ocupação noturna da Rua 14 de Julho começou em 2024 de forma quase despretensiosa e, em pouco tempo, ganhou proporções que o próprio campo-grandense não esperava.
Até então, a rua mais emblemática do Centro acumulava pontos comerciais fechados, em meio às queixas de empresários que apontavam a migração dos clientes para os bairros e as obras de revitalização como fatores que teriam reduzido o movimento na região.
Conforme dados da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) apontam que, a cada quatro lojas, três fecharam as portas nos últimos sete anos no centro de Campo Grande. A pandemia da covid-19 em 2020 também esteve entre os agravantes da crise no comércio.
A chegada dos bares
Em pouco tempo, porém, o cenário mudou. Novos bares abriram as portas e uma programação musical que vai do sertanejo ao funk passou a ocupar a região de segunda a segunda.
Com o fluxo intenso de frequentadores, o trecho entre as ruas Antônio Maria Coelho e Marechal Rondon chegou a ser fechado em agosto de 2024, mas a medida não prosperou. À época, o endereço virou moeda política na eleições, afirmam os empresários.
A Rua 14 de Julho foi fechada aos finais de semana como forma de agradar um público impressionado com a possibilidade de um novo ponto cultural na cidade.
Rua 14 de Julho ficou interditado para o público.
Lucas Oliver/TV Morena
A promessa era impulsionar o comércio noturno na via e aumentar o acesso à cultura. Banheiros químicos chegaram a ser instalados e o policiamento foi reforçado, mas as ações do município para dar mais conforto ao público não perduraram, conforme os empresários.
Os próprios donos dos bares admitiram que não tinham estrutura suficiente para atender à demanda, que cresceu de forma exponencial. A presença de ambulantes também gerou incômodo, enquanto as reclamações dos moradores ganharam força.
A vida noturna na 14 de de Julho ainda resiste
Em 2026, a vida noturna na Rua 14 de Julho enfrenta novos desafios. No mês de aniversário de Campo Grande, um dos pontos de samba da rua anunciou o fechamento. Desde junho, outro pub pioneiro da vida noturna no endereço também está à venda.
Apesar de não provocar o mesmo furor de quando ainda era novidade, a vida noturna na Rua 14 de Julho existe e resite por meio dos frequentadores e dos empresários locais.
O endereço continua sendo uma opção para quem quer curtir uma discotecagem em plena terça-feira, um karaokê na quinta-feira ou um samba acompanhado de sinuquinha. Opções não faltam.
Agora no g1
Para quem trabalha na Rua 14 de Julho, a expectativa é de que o endereço continue atraindo público e gerando renda.
Fabricia Rezende ajuda na administração do bar do irmão aberto há cerca de um ano na Rua 14 de Julho. O estabelecimento aposta em atrações variadas para continuar atraindo clientes e também segue à risca as regras de funcionamento para evitar problemas com o poder público. O bar funciona até as 23h durante a semana e até a meia-noite nos fins de semana.
Ela defende a Rua 14 de Julho como um ponto de entretenimento da cidade.
“É bom, não é desorganizado. Sempre tem um ou outro que não tem consciência, bebe demais e quer sair arrumando briga, mas esse não é um problema do lugar, da 14 de Julho. Tem em qualquer lugar”, comenta Fabricia.
Na opinião dela, a resistência de quem é contra a vida noturna na Rua 14 de Julho pode ter origem cultural.
“Talvez as pessoas não estivessem acostumadas com esse movimento. Antes, a Rua 14 de Julho morria durante a noite. O Centro inteiro, na verdade, não tinha ninguém”, completa.
Algumas poucas quadras à frente, ainda na Rua 14 de Julho, a vida noturna também ganhou uma sobrevida em outro endereço indissociável da história de Campo Grande: a Esplanada Ferroviária.
A redescoberta da Esplanada Ferroviária
Mas, na Esplanada assim como no trecho mais central da cidade, a badalação chegou gerando descontentamento entre moradores da região, marcada pela arquitetura singular e pelas ruas de paralelepípedos que remontam à época da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, a NOB.
Se antes o Carnaval realizado no local, uma vez por ano, já era alvo de críticas, agora as reclamações se tornaram mais recorrentes a cada fim de semana.
Maquinista aposentado da icônica ferrovia, Donizete Ferreira de Oliveira é presidente da Associação dos Moradores da Esplanada Ferroviária e vive na Rua Doutor Ferreira, uma das principais vias do complexo ferroviário. Só ali, vivem cerca de 60 famílias, em sua maioria idosos e ex-funcionários da antiga NOB.
A principal queixa dos moradores diz respeito ao mau comportamento de alguns jovens. As reclamações vão desde o consumo de drogas até pessoas urinando em frente às residências.
Bar na Esplanada Ferroviária fechado às 23h.
Diante de um movimento que se intensificou, especialmente no último ano, os moradores buscaram o poder público, que reforçou as rondas neste mês de agosto para que os empresários cumpram, à risca, os horários de funcionamento.
Agora, conforme Donizete, a situação melhorou, mas ainda exige a vigilância dos moradores.
“Não somos contra esse movimento, mas tem que ter um limite, senão os vizinhos não aguentam. Aqui só vivem idosos, pessoas de 75, 80 anos. A maioria dos moradores aqui são antigos ferroviários que trabalharam uma vida toda e agora querem descansar. Mas, de qualquer forma, já melhorou”, comenta Donizete.
A auxiliar administrativa Neuzeli da Cunha Santos também se queixa do mau comportamento de alguns frequentadores dos estabelecimentos da região.
“Eles não respeitam, vêm na frente da calçada da gente, vomitam, urinam. Já vi gente usando droga aqui na frente da minha casa. [...] Recentemente, uma vizinha que tem crianças pequenas pediu para eles saírem da janela e eles começaram a gritar com ela. Então, eu que não tenho criança já fico incomodada; imagina para quem tem”, comenta.
Rua Doutor Ferreira onde os moradores se queixam do mau comportamento de alguns dos frequentadores da Esplanada.
O jeito é se reinventar
Perto dali, mas em outro ponto da Esplanada Ferroviária, na Rua Doutor Temístocles, funciona um dos primeiros estabelecimentos a abrir as portas na região. O proprietário, Thallyson Perez, conta que tem adotado uma série de medidas para evitar reclamações dos vizinhos.
O empresário afirma que antecipou o horário de abertura do bar e passou a criar promoções para incentivar os clientes a chegarem mais cedo, justamente para distribuir melhor o fluxo ao longo da noite. A segurança também foi reforçada para evitar confusões do lado de fora do estabelecimento.
“E temos um diálogo muito próximo com os órgãos públicos e com a segurança, buscando sempre entender o que pode ser melhorado. A gente sabe que, estando em uma região histórica e com moradores no entorno, precisa existir responsabilidade. O bar tem que cuidar do seu público, do espaço e também da rua”, comenta.
Perez acredita que a resistência de parte da população à abertura dos bares na região é resultado da falta de diálogo, durante muito tempo, entre o poder público, os empresários e os moradores. Por isso, ele tenta mudar esse cenário e manter a conversa com o poder público e moradores.
“Estamos dentro da Esplanada Ferroviária, um espaço de patrimônio histórico que carrega uma memória muito importante para Campo Grande. E falar de Centro Histórico é falar também de cultura. Ações culturais e de entretenimento ajudam a manter essa memória viva e fazem com que as pessoas voltem a ocupar esses espaços”, comenta Thallyson.
Em geral, o consenso entre empresários, público e até mesmo moradores é de que os eventuais problemas provocados pela vida noturna nos dois endereços históricos não são necessariamente causados pelos estabelecimentos, mas pelo comportamento de alguns frequentadores que saem à noite não apenas para se divertir, mas acabam tensionando a relação entre moradores, empresários e poder público.
Seja provocando brigas, espalhando sujeira ou comprometendo o bem-estar da vizinhança, esses comportamentos alimentam um conflito que parece estar longe de uma solução definitiva.
Ocupar é pertencer
Frequentadora dos estabelecimentos da Esplanada Ferroviária, a psicoterapeuta Giovanna Cardoso defende a ocupação do espaço também para o lazer. Na opinião dela, os bares abertos no endereço atendem a públicos que, até então, eram carentes de opções, ao mesmo tempo em que devolveram vida a prédios que permaneceram fechados durante anos.
“Campo Grande tem pouquíssimas opções de lazer, especialmente se você procura algo diferente, uma coisa alternativa, algo voltado para o público LGBT, por exemplo. Nós certamente temos várias opções de bares sertanejos, por exemplo. Mas, quando você quer algo diferente, acaba sem saber para onde ir. [...] Eu acho que esses espaços têm que ser ocupados, porque, se a gente não ocupa esses espaços para o lazer, eles ficam abandonados”, opina Giovanna.
Quem caminha pela Esplanada Ferroviária durante o dia confirma a percepção da psicoterapeuta. Na esquina da Avenida Calógeras com a Rua Doutor Temístocles, por exemplo, três casarões históricos estão abandonados há anos, “definhando” a olhos vistos, com portas e janelas deterioradas e pouco ou nenhum cercamento, o que impede o acesso seguro ao local.
Casarão abandonado na Esplanada Ferroviária.
Giovanna também acredita que parte da resistência dos campo-grandenses à vida noturna tenha relação com preconceitos em relação a determinados públicos e estilos musicais. A psicoterapeuta considera que existe uma questão de classe envolvida e afirma perceber um comportamento que, na visão dela, se aproxima de uma tentativa de “higienização” da cidade.
“Eu percebo que Campo Grande é uma cidade muito elitista e aí, quando as pessoas de menor poder aquisitivo, quando as minorias começam a ocupar os espaços, começa toda essa questão, começa a dar polícia, começa a querer fechar, e é por isso que até hoje a vida noturna de Campo Grande é uma coisa precária. E, se continuar desse jeito, ela vai voltar a quase não existir”, critica.
Na opinião de Giovanna, é preciso encontrar formas de conciliar a ocupação dos espaços públicos com a convivência entre moradores e frequentadores. Sem esse diálogo, a vida noturna alternativa em Campo Grande pode perder cada vez mais espaço.
“Eu acho que a gente podia tentar pensar junto com esses moradores e entender como a gente poderia coexistir nesses espaços. Algum incentivo para que esses moradores até participem, tirem algum proveito daquilo, convivam naquela comunidade, façam daquele lugar um lugar ocupável mesmo para todos, para todo mundo. É uma coisa difícil de ser feita aqui em Campo Grande, mas a gente tem que continuar resistindo e continuar ocupando”, conclui.
Questionada sobre o impasse entre moradores e o movimento durante a noite na Rua 14 de Julho e na Esplanada Ferroviária, a Prefeitura de Campo Grande informou que intensificará as rondas na região para garantir a segurança dos usuários.
Confira a íntegra da nota:
“A Secretaria Especial de Segurança e Defesa Social (Sesdes) informa que a GCM intensificará as rondas na região nos próximos dias e ressalta que a segurança pública de Campo Grande é realizada em conjunto com as forças de segurança do Governo do Estado e do Governo Federal, conforme estabelece a Constituição Federal. O papel principal da Guarda Civil Metropolitana (GCM) é a realização de rondas em prédios públicos, além de oferecer apoio às forças ostensivas, como a Polícia Militar.”
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