ITATIBA1
Os gastos de Julio Casares, ex-presidente do São Paulo, no cartão corporativo do clube
ge — Futebol · 2026-07-23T15:02:43.000Z
Os gastos de Julio Casares, ex-presidente do São Paulo, no cartão corporativo do clube
Julio Casares gastou mais de R$ 1 milhão com o cartão corporativo do São Paulo durante seu mandato, de janeiro de 2021 a dezembro de 2025, como mostram faturas obtidas com exclusividade pelo ge.
O ex-presidente devolveu R$ 560.401,74 ao São Paulo, que seriam referentes a gastos pessoais. A devolução ocorreu apenas em novembro do ano passado. Agora, ele pode ser expulso do clube por gestão temerária ou irregular.
+ Siga o canal ge São Paulo no WhatsApp
As contas revelam que Casares usou o cartão corporativo do São Paulo 71 vezes na casa de charutos Esch Café; 53 vezes no restaurante Gero, um dos mais badalados da capital paulista; em lojas de grife, como a Prada; durante viagem com a seleção brasileira para os Estados Unidos; e até com cuidados pessoais, como consultas num endocrinologista e idas a um salão de beleza.
As faturas também mostram como Casares multiplicou o uso do cartão com o passar dos anos. Em 2021, quando assumiu o cargo, o ex-presidente gastou cerca de R$ 20 mil. Em 2024, as faturas somadas chegaram a R$ 428.568,52. Em 2025, o último ano à frente do clube, foram R$ R$ 342.352,43, de janeiro a novembro.
Julio Casares é investigado pelo São Paulo
Nestes valores estão incluídos gastos que se enquadravam na função exercida pelo ex-dirigente, como R$ 70.376,42 no hotel em que o time ficou hospedado para enfrentar o Cuiabá, em julho de 2023, e outras ocasiões em que Casares estava a serviço do São Paulo, como encontros com empresários e reuniões. Por isso, ele não precisou devolver o valor total.
O São Paulo não possuía, até dezembro do ano passado, uma política de uso do cartão corporativo, criada ainda na gestão de Julio Casares. Um documento distribuído a todos os funcionários no fim de 2025 diz que "o cartão corporativo é de uso exclusivamente institucional, sendo vedada qualquer utilização para fins pessoais".
Luxo fora do Brasil
Em janeiro de 2025, o São Paulo realizou sua pré-temporada nos Estados Unidos. Julio Casares gastou R$ 51.013,33 no cartão corporativo do clube durante o período. Entre os gastos está uma compra de R$ 26.241,22 na Prada, uma das marcas mais luxuosas do mundo. Há também despesas em restaurantes e até R$ 2.272,11 numa farmácia.
No ano anterior, Casares havia usado o cartão corporativo em outras duas viagens para fora do Brasil. Foram R$ 160.024,50 de gastos com o dinheiro do clube entre Londres e Las Vegas.
+ Leia mais notícias do São Paulo
Principalmente na Europa, Casares registrou em seu perfil no Instagram idas a locais que também aparecem em cobranças nas faturas do cartão corporativo do São Paulo nas mesmas datas ou em datas próximas às publicações.
No dia 4 de junho de 2024, por exemplo, há uma cobrança de R$ 11.710,22 do "C London". No mesmo dia, o ex-presidente publicou uma foto no "Cipriani London", como aponta a própria localização da imagem.
Casares comemora aniversário da filha em Londres
Três dias antes, em 1º de junho, Casares havia publicado em seu perfil no Instagram uma foto jantando no The Ivy Chelsea Garden, como mostram os detalhes da imagem (veja abaixo).
O mesmo restaurante aparece na fatura do cartão corporativo do São Paulo em uma cobrança de R$ 2.888,73 no dia 31 de maio, um dia antes da publicação e da final da Champions League, entre Real Madrid e Borussia Dortmund, disputada em Londres. Na legenda, Casares faz menção à partida.
Casares em restaurante com filha, amiga e namorada
Mais do São Paulo:
+ Calleri, atraso nos salários, saídas e reforços: Rafinha planeja futuro do São Paulo em nova função
No dia 2 de junho, ao lado da namorada, a atriz Mara Carvalho, Julio Casares registrou um momento de descontração fumando charuto no Berkeley Hotel, também em Londres, horas depois da vitória do São Paulo sobre Cruzeiro por 2 a 0. Três dias depois, em 5 de junho, o ex-presidente usou o dinheiro do clube para pagar R$ 1.408,57 no mesmo estabelecimento.
Ex-presidente do São Paulo fuma charuto com namorada em Londres
Esta viagem para a Inglaterra custou R$ 80.084,14 aos cofres do São Paulo, incluindo também R$ 14.147,76 gastos numa loja de departamento, a Selfridges London, R$ 11.603,92 num restaurante de ostras e frutos do mar, o Bentleys Oyster Bar, e outras diversas compras que ultrapassaram os milhares de reais.
Las Vegas com a CBF
Também em 2024, Julio Casares foi o dirigente escolhido pela CBF para ser o chefe da delegação da seleção brasileira na Copa América, nos Estados Unidos. O São Paulo, inclusive, anunciou isso em seu site. A serviço da Confederação Brasileira de Futebol, o então presidente gastou R$ 79.940,36 no cartão corporativo do clube, de 26 de junho a 8 de julho.
Julio Casares em viagem pela Seleção nos EUA
Os gastos, mais uma vez, foram variados. Só na loja de roupas Zara foram R$ 4.140,66, divididos em três compras diferentes. Outros R$ 10.124,41 na luxuosa churrascaria SW Steakhouse. Lojas de produtos de beleza também aparecem na fatura daquele mês: R$ 1.628,35 na Victoria Secret e R$ 2.840,47 na Sephora. Na Prada de Las Vegas, mais R$ 6.276,52.
Julio Casares em viagem pela Seleção nos EUA
Julio Casares e namorada na Copa América
Entre outros gastos no cartão corporativo do São Paulo no período em que Casares era o presidente estão consultas com o endocrinologista Mauricio Hirata. Também há registro nas redes sociais. No dia 7 de novembro de 2024, o dirigente publicou uma foto ao lado do médico e escreveu:
— Hoje deu tempo de fazer uma revisão completa na ótima clínica do @mauricio.hirata, amigo e grande são-paulino. Recomendo quem busca cada vez mais qualidade de vida! Saúde, equilíbrio e bem-estar!
Julio Casares ao lado de médico
Em 10 de junho, Casares pagou R$ 2.100,00 ao "Dr Mauricio Hirata", como aparecem as cobranças nas faturas do cartão corporativo do São Paulo. Meses depois, em 23 de outubro, outros dois registros de pagamentos ao endocrinologista: R$ 1.700,00 e R$ 1.900,00.
Os gastos pessoais de Casares com o cartão corporativo também incluíram idas ao salão Jardim América. Foram sete cobranças só em 2025, que chegaram a R$ 3.666,00. Em 2024, haviam sido apenas duas idas ao local. Antes, nenhuma.
Em 2024, Julio Casares multiplicou suas idas ao Gero, do Grupo Fasano, especialista em culinária italiana. Há 19 cobranças no local no cartão corporativo do São Paulo. No ano seguinte, em 2025, este número aumentou ainda mais. Foram 25 cobranças e R$ 37.427,33 gastos.
Ao todo, de janeiro de 2021 a dezembro de 2025, há 53 cobranças diferentes do Gero no cartão corporativo do São Paulo, somando R$ 71.797,12.
No dia 12 de agosto de 2024, uma segunda-feira, o então presidente publicou uma foto com um texto sobre o Dia dos Pais, que havia sido comemorado no domingo, dia 11, quando o São Paulo venceu o Atlético-GO por 1 a 0, no Morumbis.
Nesta imagem, Julio Casares não apontou a localização, mas é possível ler o nome do restaurante no prato à mesa. A fatura do mês de setembro do cartão corporativo do clube mostra uma cobrança de R$ 2.751,46 no Gero também no dia 12 de agosto.
Julio Casares e filha no restaurante Gero
Em 2024, o dirigente também passou o cartão corporativo do clube 12 vezes no restaurante Café Empório Ibérico e gastou R$ 11.939,71.
Café Empório Ibérico, de acordo com sua ficha cadastral completa na Jucesp (Junca Comercial do Estado de São Paulo), tinha como sócia Mara Carvalho, namorada de Julio Casares desde o fim de 2023. Ela deixou a sociedade do restaurante em 16 de maio de 2025.
Em 31 de julho de 2024, o ex-presidente usou as redes sociais para publicar elogios e recomendar o Café Empório Ibérico, que anunciou seu fechamento no dia 13 de novembro do ano passado.
Julio Casares ao lado da namorada
Há, também, um outro registro no Café Empório Ibérico, que coincide com uma cobrança no cartão corporativo do São Paulo. Em 29 de setembro de 2024, Julio Casares publicou uma foto com outras três pessoas no local. Houve o pagamento de R$ 1.505,16 ao restaurante com o cartão do clube no mesmo dia.
Julio Casares e amigos no restaurante da namorada
Outro destino comum de Julio Casares enquanto presidente do São Paulo era o Esch Café, uma sofisticada casa de charutos, com restaurante, bar e tabacaria. De 2021 a 2025, o ex-dirigente multiplicou suas idas ao local.
As faturas mostram que o cartão corporativo do clube foi utilizado 71 vezes para pagamentos no Esch Café. No primeiro ano do mandato, só uma vez. No último, 34. Em 2024, foram 22; antes, nove e cinco, em 2023 e 2022, respectivamente.
Com o cartão corporativo do São Paulo, Casares gastou R$ 77.140,97 só no Esch Café de 2021 a 2025.
As faturas do ex-presidente do clube também mostram gastos elevados em outros restaurantes, como o Rancho Português Leitão, no qual foram gastos R$ 12.687,62 em 2025. O valor é referente a apenas quatro idas de Casares.
Durante quase todo o mandato de Julio Casares não houve solicitação de prestação de contas ou devolução dos valores ao São Paulo. Não havia, até o fim do ano passado, uma política específica de uso do cartão corporativo. Ela foi criada apenas após o então presidente reembolsar os gastos que não tinham relação com sua função.
As devoluções de gastos pessoais de cinco anos de mandato, porém, foram feitas apenas a partir de 18 de novembro de 2025. No fim de outubro, Casares havia se tornado investigado num inquérito conduzido pela Polícia Civil por possível lavagem de capitais e outras possíveis irregularidades em sua gestão.
Os R$ 560.401,74 foram pagos ao São Paulo em seis depósitos diferentes, entre 18 e 25 de novembro de 2025. O então presidente enviou ao departamento financeiro os comprovantes das transferências.
Julio Casares em Flamengo x São Paulo
As regras internas
Depois de Casares devolver os valores ao São Paulo, o clube criou uma "Política de Uso de Cartão Corporativo", que " se aplica a todos os(as) colaboradores(as), gestores(as), diretores(as), conselheiros(as) e demais representantes do São Paulo Futebol Clube".
O documento aponta situações em que o cartão corporativo pode ou não ser utilizado. Entre as permissões estão compras de passagens aéreas, hospedagens e alimentações em viagens corporativas; reuniões com parceiros e patrocinadores; e custos relacionados a eventos oficiais.
Não é permitido, porém, "qualquer despesa de natureza pessoal", mesmo que haja o ressarcimento posterior; saques em espécie; despesas com bebidas alcoólicas; pagamento de multas, encargos ou juros pessoais; e assinaturas ou compras online não relacionadas ao clube.
O que diz o São Paulo
Em nota enviada ao ge, o São Paulo afirmou que o valor devolvido ao clube foi estabelecido por Júlio Casares e informou que todas as faturas anteriores estão sendo analisadas. Segundo o clube, caso seja comprovado o uso do cartão corporativo para fins pessoais, será buscado o ressarcimento dos valores.
Leia a nota na íntegra
"O valor devolvido ao São Paulo Futebol Clube foi estabelecido por Júlio Casares, presidente do clube à época. Ao assumir o clube em janeiro deste ano, Harry Massis determinou a criação de uma política para o uso do cartão corporativo do clube. Desde então, todas as faturas anteriores estão sendo analisadas. Caso seja comprovado que o cartão corporativo foi utilizado para fins pessoais, a instituição buscará o ressarcimento."
O que diz Julio Casares
A reportagem procurou Júlio Casares para comentar o caso, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto, e o texto será atualizado caso o ex-presidente se manifeste.
A renúncia de Casares
O ex-presidente do São Paulo sofreu impeachment no Conselho Deliberativo em janeiro deste ano. Semanas depois, antes de o caso ser votado em Assembleia Geral, Julio Casares renunciou ao cargo.
Em abril, a Comissão de Ética do São Paulo recebeu um pedido de expulsão do ex-presidente. O caso ainda está em aberto, e Julio Casares pode ser expulso do clube. O documento acusa o ex-dirigente de gestão temerária ou irregular. O artigo 34 do Estatuto Social prevê expulsão em casos como este.
Enquanto isso, Julio Casares também é investigado pela Polícia Civil e pelo Ministério Público, principalmente por causa dos saques de quase R$ 7 milhões feitos pela presidência do São Paulo nos últimos anos, sob seu comando, sem justificativa.
Outro inquérito apura a exploração clandestina de camarotes do Morumbis, também sob a gestão do ex-presidente Julio Casares, revelada pelo ge em dezembro do ano passado. Não há nenhuma relação entre as faturas do cartão corporativo e as investigações policiais.
🎧 Ouça o podcast ge São Paulo🎧