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Opinião: a SAF da Lusa será capaz de mudar de verdade e se provar em 2027?

Portuguesa vira SAF e terá um novo Canindé

ge — Futebol · 2026-08-26T11:17:07.000Z

Portuguesa vira SAF e terá um novo Canindé

Sem competições a disputar até o fim do ano, a SAF da Portuguesa definiu um cronograma de trabalho. Até o dia 11 de setembro, quando se fecha a janela de transferências do futebol brasileiro, o elenco continuará treinando normalmente.

Os jogadores têm trabalhado de segunda a sexta-feira, com folga no fim de semana. Ao longo desse período, a Lusa vai agindo no mercado. De um lado, tentando emprestar jogadores com contratos mais longos e nos quais vê potencial de uso futuro.

De outro, antecipando o término dos vínculos e enxugando a folha salarial. Após o fechamento da janela, a Portuguesa pretende conceder férias aos remanescentes até o fim de setembro. Para, assim, todos se apresentarem já focando em 2027.

Estádio Canindé, em São Paulo

Jhony Inácio/Ag. Paulistão

Com isso, outubro foi o mês fixado pela SAF para contratar e anunciar a nova comissão técnica e dar início efetivo à montagem do elenco para o próximo Paulistão. A torcida, portanto, precisará ter paciência em relação a novidades concretas no futebol.

A Lusa ainda está na fase de empréstimos e desligamentos. Dos quase 30 jogadores que compunham o elenco da Série D, espera-se que até o recesso fiquem cerca de dez. Antes mesmo das chegadas, as saídas já podem começar a dar um início do que a SAF pensa.

Já está nítido, por exemplo, que não haverá grandes mudanças na estrutura da SAF. Não há qualquer sinal de demissões ou trocas de gestores. Até porque a mesma cadeia de comando é que está definindo as diretrizes e encabeçando as primeiras ações para 2027.

O principal alvo das críticas da torcida, o presidente Alex Bourgeois, não sairia mesmo. Ele não é apenas CEO da SAF, mas um sócio-investidor. Como já explicado aqui neste espaço, só sai se quiser ou se vender a participação dele no negócio.

Alex Bourgeois, gestor da Portuguesa

Tampouco têm parecido críveis trocas em nomes-chave do futebol luso. Os fracassos seguidos, em 2025 e em 2026, ao passar longe de atingir o principal objetivo, que era o acesso para a Série C, no entender da SAF, parecem não ter a ver com pessoal.

O que se ouve, principalmente nos bastidores, já que publicamente a SAF se encolheu em silêncio, é que as mudanças serão na condução do trabalho. Fala-se em “diagnóstico” das falhas e “correções” na preparação para a próxima temporada.

Isso, na verdade, é o mínimo que se espera de qualquer empresa séria que não atinge minimamente as metas. Como o velho e surrado ditado reza, é burrice esperar resultados diferentes agindo sempre da mesma forma, repetindo os mesmos erros.

Portuguesa foi eliminada nas oitavas de final da Série D

Esse cenário, sem mudanças estruturais, amplia a importância do “diagnóstico”. Até porque a estratégia ao final de 2025 foi a mesma. As mudanças estruturais que houve foram mais de consolidação da “equipe SAF” do que propriamente troca de gestão.

Só que essa mudança de conduta acabou não sendo suficiente em 2026. Por isso, é totalmente justificada a incredulidade da torcida. Não se trata apenas de pessimismo ou chatice, mas de uma vivência muito próxima de uma correção de rota meia-boca.

Por mais que pareça resistir em dar o braço a torcer publicamente, a SAF precisa ainda que internamente reconhecer que falhou, identificar os próprios erros e encarar de mente aberta, sem teimosias, pontos em que o trabalho não está surtindo o efeito necessário.

Fábio Matias, ex-técnico da Portuguesa

A análise de dados, tão ridicularizada em razão de exageros e divulgações tortas que a própria SAF cometeu, é incontornável. Ser contrário à análise de dados e à inteligência de mercado no futebol de hoje em dia é como defender a tese de que a Terra é plana.

O problema, sim, é não dar o devido valor a aspectos como o perfil do jogador para determinados desafios como um mata-mata e uma Série D; a observação do cenário não mapeado, mas identificado com o patamar atual da Lusa; e o próprio direcionamento mais assertivo de recursos em peças-chave que possam de fato fazer a diferença.

Não se corrige a rota da Série D de 2025, em que se montou um elenco focado demais na frieza dos números e de menos no perfil de competitividade, montando o elenco de 2026 com base prioritariamente na indicação de um treinador – no caso, Fábio Matias.

A SAF acabou rasgando uma promessa dela própria, dando um cavalo de pau na conduta, falhando miseravelmente. Até porque entre os jogadores mais contestados estavam justamente aqueles indicados única e exclusivamente pelo treinador.

Fora isso, a Portuguesa está tempo o bastante na elite do Paulistão para ainda não ter entendido que é praticamente impossível ter um elenco para disputar o estadual e uma Série D (ou, para ir mais longe, como já acontecia nos tempos de Copa Paulista).

Portuguesa acabou eliminada na Série D

É evidente que quem fizer um bom Paulistão vai sair. Não só pelo evidente interesse da SAF em fazer dinheiro, mas também pela disparidade entre a Série D e qualquer outra divisão nacional. Assim como é claro que não se consegue repor a altura.

O problema é que a Lusa, além de perder os destaques do Paulistão, ainda tem conseguido a proeza de trazer substitutos que não atendem às necessidades nem de uma Série D. A estratégia adotada na temporada 2026 claramente não deu certo.

Até mesmo o destaque que a SAF segurou, o atacante Maceió, foi uma tragédia. O jogador saiu no meio da Série D sem fazer falta alguma, sem ser ausência sentida. Afinal, a torcida percebia que não havia motivação alguma para a disputa.

O sucesso no Paulistão, voltando às quartas de final depois de quase três décadas, acabou em poucos meses virando pó com o fracasso na Série D. Lógico. O acesso à Série C é o que de fato importa não só para a torcida, mas para a Lusa mesmo.

Portanto, a SAF precisa decidir um caminho para 2027 que evite esses erros de 2026. Será montando um elenco menos caro, com menos jogadores de nível Série B, focado mais na permanência na divisão, só que já construindo uma base para a Série D?

Torcida da Portuguesa no Canindé

Ou será montando um elenco para o Paulistão e outro para a Série D, só que agora com mais competência na segunda metade do desafio? Até porque o técnico em que se confiou para contratar foi embora após um jogo e deixou a bomba-relógio ali.

Além disso, verifica-se há tempos na Série D algo que apenas se repetiu neste ano: clubes se reforçando assim que acaba a fase de grupos. A SAF, que se vende como tão organizada financeiramente, não deveria se preparar também para isso?

A sinceridade exige que digamos: até o melhor elenco montado para uma Série D terá limitações técnicas. A longa e arrastada primeira fase serve, a equipes que se propõem a brigar pelo acesso, para identificar carências e realizar correções nesse elenco.

Por que a Portuguesa, identificando essas lacunas, não pode ir ao mercado e contratar? Será que a história da Série D de 2026 não teria sido diferente se a SAF tivesse trazido uma opção de elenco para centroavante e um volante mais mordedor no meio?

A popular “economia burra” não pode se repetir. Ou algum gênio das finanças vai ser capaz de justificar que valeu a pena jogar todo o orçamento deste ano no lixo e ainda ter de disputar essa mesma competição deficitária em 2027 rasgando dinheiro?

Projeto do novo CT da Portuguesa

A Série D é, mais que qualquer outra divisão, nivelada tecnicamente por baixo. Poucas peças mais qualificadas e lúcidas fazem uma diferença enorme. A própria aposta de gasto maior, em 2026, foi errada, em um atacante, por exemplo, machucado.

Qualquer pessoa lúcida sabe e percebe que há evoluções no extracampo da Lusa desde que houve a transformação em SAF. A infraestrutura do CT, a remodelação do DM, os salários em dia, o corpo profissional, o suporte ao elenco e a própria gestão financeira.

Só que tudo isso acaba sendo arranhado, ou tendo o esforço desperdiçado, com o insucesso na Série D, com decisões repetidamente equivocadas na montagem dos elencos para a última divisão nacional, com a teimosia no que está dando errado.

Todo mundo já percebeu que haverá uma limpa no elenco e que, ainda sem comissão técnica, a SAF recomeçará quase do zero para 2027. Não haver mudança estrutural é bem contestável, mas já parece ponto pacificado internamente no CT rubro-verde.

Canindé, estádio da Portuguesa

Portanto, que haja de fato mudanças na condução do trabalho, no método. Não só discurso, mas ação. A incredulidade da arquibancada vem daquilo que houve de 2025 para 2026. Palavras que não se solidificaram em mudanças efetivas.

Com mais ou menos dinheiro, saindo do zero ou partindo de uma base, com as mesmas pessoas ou outras, o que importa é realmente mudar. Os exemplos recentes e o silêncio ensurdecedor não virarão o clima tão logo. E essa nem parece ser preocupação da SAF.

Agora, o sucesso em campo precisa ser. Até porque tem muito dinheiro em jogo. Não obter o sucesso em 2027 pode colocar em risco todo o projeto Portuguesa. E não será repetindo a mesma ladainha, seguindo a mesma cartilha, que se fará diferente.

*Luiz Nascimento, 34, é jornalista da rádio CBN, documentarista do Acervo da Bola e escreve sobre a Portuguesa há 16 anos, sendo a maior parte deles no ge. As opiniões aqui contidas não necessariamente refletem as do site.

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