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MP nega crime e arquiva apuração contra alunos da PUC que gritaram 'pobres' e 'cotistas' em jogos universitários

Vídeo mostra ofensa de estudantes da PUC-SP durante jogos jurídicos em Americana

G1 — Brasil · 2026-08-27T03:01:20.000Z

Vídeo mostra ofensa de estudantes da PUC-SP durante jogos jurídicos em Americana

O Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) negou crime e arquivou uma investigação contra alunos da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo que gritaram "pobres" e "cotistas", supostamente em direção a alunos da Universidade de São Paulo (USP), durante os Jogos Jurídicos realizados em novembro de 2024, em Americana (SP).

A defesa dos denunciantes pode pedir revisão do arquivamento. O caso teve repercussão nacional por conta de vídeos que viralizaram nas redes sociais (assista acima).

Nas imagens, é possível ver estudantes de Direito da PUC-SP, que também integram uma torcida vinculada ao curso, gritando as palavras e fazendo gestos referentes a dinheiro com as mãos.

Alunos da USP realizaram uma "força-tarefa" para identificar os envolvidos e denunciar o caso, que foi apurado pela Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), da Polícia Civil.

Segundo o promotor Fábio José Moreira dos Santos, da Promotoria de Justiça de Americana, o único xingamento que poderia ser enquadrado no art 2º-A da Lei nº 7.716/1989, que define o crime de injúria em razão de raça ou cor, é o de "cotista", já que as demais expressões possuem cunho socioeconômico.

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Alunos da USP denunciaram ofensas de estudantes da PUC durante jogos universitários em Americana

Mesmo assim, na avaliação de Fábio, não está configurado "conteúdo étnico-racial" na expressão "cotista", uma vez que as cotas da USP são destinadas tanto a egressos de escolas públicas quanto a pretos, pardos e indígenas.

"A conclusão é irrecusável: ser cotista não significa ser negro", sustentou. Em fevereiro de 2026, o promotor pediu à USP dados sobre cotas para apurar vinculação "com elementos de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional".

Também na manifestação de arquivamento da investigação, Fábio afastou a possibilidade de injúria comum porque a investigação policial não conseguiu apontar para quem os gritos seriam direcionados, o que seria necessário conforme o Código Penal.

Ele ainda citou a animosidade entre as torcidas e ressaltou que os alunos da PUC também foram alvos de xingamentos, como um estudante que teria sido chamado de "riquinho burro".

O g1 procurou o promotor, a USP e a defesa dos denunciantes para comentarem o arquivamento, mas não recebeu resposta até a última atualização desta matéria. A PUC -SP disse que não irá se manifestar.

Relembre o caso

Alunos da PUC acusados de cometer atos discriminatórios durante jogos universitários no interior de SP

O episódio ocorreu em 16 de novembro de 2024, durante uma partida de handebol entre alunos de direito das instituições, no Complexo Esportivo Milton Fenley Azenha, o Centro Cívico de Americana.

Torcedores uniformizados da PUC gritaram frases de cunho pejorativo e fizeram um gesto com as mãos referente a dinheiro. A denúncia era de que esses gritos teriam sido direcionados a estudantes cotistas da USP.

Na época, as diretorias das Faculdades de Direito e os centros acadêmicos de ambas as instituições repudiaram o que chamaram de "lamentáveis episódios" e se comprometeram a investigar o caso, visando responsabilizar os envolvidos.

Cinco estudantes foram identificados: Marina Lessi de Moraes, Matheus Antiquera Leitzke, Arthur Martins Henry, Tatiane Joseph Khoury e Cecília Sales Braga.

Relatório da Decradi sobre vídeos do caso diz que não é possível determinar a quem ofensas eram dirigidas

A investigação foi conduzida pela Decradi, da Polícia Civil, que analisou vídeos e ouviu estudantes que estavam no evento. Em um primeiro relatório, em dezembro de 2024, a delegacia especializada informou que não era possível determinar a quem eram direcionados os xingamentos e os gestos.

Em março de 2025, a delegacia especializada apresentou o relatório final do caso. Os investigados justificaram os gritos com “ânimos acirrados das torcidas” e disseram que “as provocações são costumeiras nos jogos esportivos".

Na manifestação do promotor, ocorrida na última sexta-feira (21), informou que Marina e Matheus admitiram terem gritado "pobre" e "passa o PIX para esmola", respectivamente.

Já Tatiane, ainda de acordo com o MP, confessou os gritos de "cota, cota", "cotista, cotista" e "ainda por cima é cotista".

Fábio coloca que a Arthur foi atribuído o xingamento de "cotista filho da puta". Por fim, Cecília "teria proferido aparentemente" as expressões "cotista pobre do caralho" e "cotista do caralho", embora ela teria negado o ato.

Estudantes da PUC-SP gritam 'pobres' e 'cotista' durante jogos jurídicos

Na decisão de arquivamento, o promotor considerou apenas os gritos de "cotista", já que os demais, segundo ele, teriam cunho socioeconômico e não se enquadrariam no crime previsto no art 2º-A da Lei nº 7.716/1989.

Porém, na análise de Fábio, "o termo 'cotista', no contexto em que proferido", não veicula "incontroverso conteúdo étnico-racial" devido à política de cotas da USP. Além disso, ele aponta que o xingamento teria sido usado "em meio a um campo semântico integralmente econômico".

"Arthur expôs, com clareza, que empregou o termo para evidenciar a contradição entre a superioridade intelectual arrogado pelo ofensor — que o vinha chamando reiteradamente de 'riquinho burro' — e a circunstância de haver ingressado na universidade por via de acesso supostamente facilitado", exemplificou.

O promotor ainda ressaltou que a investigação não conseguiu determinar "o destinatário das ofensas". "As provocações trocadas entre as torcidas ostentaram caráter genérico e coletivo, sem direcionamento a pessoa ou grupo específico", completou.

Crime de injúria

Após afastar a possibilidade de injúria racial, o MP avaliou se houve injúria comum, conforme definido pelo Código Penal.

Mas isso, de acordo com Fábio, também não ocorreu porque a investigação não demonstrou que as ofensas "tenham sido dirigidas a pessoas determinadas" — o que seria um requisito para configurar o crime — e que as torcidas teriam trocado xingamentos.

"É de conhecimento público e notório, mormente entre os profissionais do Direito, que os jogos universitários são permeados por animosidade recíproca entre as torcidas das diferentes faculdades, sendo corriqueira a troca de provocações e ofensas", finalizou.

Com isso, o promotor decidiu pelo arquivamento da investigação, abrindo mão de apresentar denúncia contra os investigados, o que poderia torná-los réus. É possível pedir revisão do arquivamento.

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