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Superlotação e pulo do Gato: como foi o confronto Gre-Nal pela Copa do Brasil de 1992

A partir de hoje, o Rio Grande do Sul começa a viver uma espécie de hipnose. Não é todo dia, afinal de contas, que Inter e Grêmio se enfrentam por um mata-mata que vai além dos limites estaduais. No caso da Copa do Brasil, a última vez…

ge — Futebol · 2026-08-27T10:00:15.000Z

A partir de hoje, o Rio Grande do Sul começa a viver uma espécie de hipnose. Não é todo dia, afinal de contas, que Inter e Grêmio se enfrentam por um mata-mata que vai além dos limites estaduais. No caso da Copa do Brasil, a última vez aconteceu há 36 anos. Época em que a primeira mensagem SMS foi enviada, Fernando Collor (ainda) era o presidente e a Seleção sequer havia conquistado o tetracampeonato.

Em 1992, embalado por Raça Negra e Daniela Mercury, um país cheio de manias entoava o canto das cidades e passaria boa parte do tempo nas ruas, protestando ou comemorando. No extremo sul do Brasil, as multidões também se mobilizariam, pela mais nobre e infame das causas. Depois que o Inter passou por Muniz Freire e Corinthians e o time gremista deixou Ji-Paraná e Paraná pelo caminho, os confrontos pelas quartas de final tomaram proporções assombrosas: estava anunciado nada menos que um duelo Gre-Nal.

Pouco mais de três anos após o Gre-Nal do Século, os rivais gaúchos voltavam a se encontrar em um mata-mata por competição nacional. A rivalidade severa e outros ingredientes específicos transformaram o embate em um evento que paralisou o estado e, somados os jogos, recebeu um público presente de cerca de 110 mil torcedores.

Nas noites de 6 e 17 de novembro de 1992, Porto Alegre enfrentou congestionamentos monstruosos. No entorno dos estádios, filas quilométricas formavam-se durante o dia inteiro. Provavelmente, os supermercados tiveram recorde de vendas de carne, carvão e cerveja -- o número de churrasqueiras acesas só não era maior que o de rádios ligados, pois os jogos não passariam na TV.

Confira os melhores momentos de Grêmio 1x1 Inter pela Copa do Brasil de 1992

Na primeira partida, no Olímpico, milhares de colorados não conseguiram entrar no estádio, e os que tiveram sucesso amontoaram-se como sardinha nas arquibancadas. Seguiram-se confrontos com a Polícia Militar, na arquibancada e nos portões de acesso, e dezenas acabaram feridos. O cenário repetiu-se com os tricolores no Beira-Rio, que recebeu cerca de 55 mil torcedores, o maior público daquela Copa do Brasil. Cerca de cinco mil pessoas só foram convencidas a deixar as cercanias do estádio quando souberam que a transmissão da partida havia sido liberada para a capital pela Rede OM – para o Interior, a TVE transmitiu.

A superlotação provavelmente tem uma responsável: a Raspa Gigante. Na época, era muito comum que os clubes tivessem sorteios e loterias. A raspadinha colorada oferecia prêmios como carros, motos e os também cobiçados videocassetes, através dos quais as famílias poderiam educar os filhos assistindo clássicos como Rambo ou Desejo de Matar. O prêmio mais frequente, no entanto, era o ingresso para os jogos. O próprio cupom premiado dava direito a entrar no estádio – às vezes se comprava um ingresso de última hora com um cambista que, ressabiado, olhando para os lados para se proteger de algum policial atento, entregava uma raspadinha premiada.

O fenômeno da raspadinha levou muitos torcedores a guardarem, durante muito tempo, o bilhete que valia como ingresso, na expectativa de alguma partida importante. Portanto, a discrepância entre o espaço no Beira-Rio para o segundo jogo e a multidão que não conseguiu entrar na arquibancada estava relacionada à importância do confronto, mas também ao número de raspadinhas premiadas que aguardavam na carteira dos torcedores que gostavam de fazer uma fezinha e não eram bobos de gastar seu ingresso em um jogo da primeira fase do Gauchão.

Os maiores destaques do Inter nos clássicos, ambos terminados com placar de 1 a 1, foram justamente os protagonistas da campanha, em especial Gérson, responsável pelos gols colorados. Desde os tempos de Atlético-MG, o centroavante era cobrado por não comparecer às redes em clássicos (no caso, contra o Cruzeiro). Depois que chegou ao Inter, ele havia jogado seis vezes contra o Grêmio e também não marcara nenhum gol.

Confira os melhores momentos de Inter 1(3)x(0)1 Grêmio pela Copa do Brasil de 1992

A história se reverteria completamente após aqueles confrontos, a ponto de o camisa 9 passar a ser lembrado muitas vezes justamente pelo seu desempenho contra o Grêmio. Afinal de contas, escolheu apurar seu faro artilheiro em clássicos justamente em um momento crítico. O Grêmio não apenas havia aberto o placar com Alcindo, em uma bela cobrança de falta, como jogava melhor e havia perdido outras chances. Por volta dos trinta do segundo tempo, Gérson empatou com um foguete no ângulo de Émerson.

O Grêmio pretendia usar os clássicos para protagonizar uma reviravolta anímica. Afinal de contas, os tricolores haviam disputado a segunda divisão no primeiro semestre daquele ano, após a queda em 1991. A equipe gremista, treinada por Cláudio Garcia (que já havia passado por Flamengo, Fluminense e Vasco), carregava vários nomes que fazem parte do imaginário noventista, como o arqueiro Émerson, o meio-campista Carlos Miguel, ainda muito jovem, e o atacante Alcindo, provavelmente o melhor jogador daquele time, que um ano depois iria se transferir, a convite de Zico, para o Kashima Antlers, onde virou ídolo.

No time gremista, havia ainda o excelente centroavante Lima, que também teve passagem pelo Beira-Rio, apesar de ter sido mais identificado com a camisa tricolor. Basicamente, um ícone técnico e estético do futebol gaúcho naquela época, como comprova a clássica foto com seu Escort XR3 de cor amarela.

O centroavante Lima

O primeiro clássico havia sido equilibrado, mas no Beira-Rio os colorados, comandados pelo delegado Antônio Lopes, tentaram tomar as rédeas. No começo do segundo tempo, Maurício, o melhor em campo, avançou até quase o limite da linha de fundo para alçar um cruzamento perfeito, na cabeça de Gérson, que concluiu com extrema categoria, encobrindo Émerson.

O centroavante que não marcava em clássicos novamente se mostrava decisivo e deixava a vantagem do Inter ainda mais larga. Gérson, aliás, carregava o mundo nas costas: soropositivo, teve um segundo semestre brilhante, mas sequer jogaria a decisão. Ele faleceu em 1994, de complicações decorrentes de sua luta contra HIV.

“Era tanta tensão e tanta entrega que não lembro bem do jogo. Muita guerra, muita disputa em cada milímetro do campo. O que lembro é da festa da torcida colorada, que é uma loucura. A energia estava absurda”, lembra o lateral-esquerdo Daniel Franco, mesmo sem lembrar muito. Com o Beira-Rio pegando fogo e as águas do Guaíba em ponto de ebulição, parecia uma questão de tempo para o Inter confirmar a vaga às semifinais.

No Gre-Nal, no entanto, o último toco de brasa ainda queima: faltando quinze minutos para o fim, o ponteiro gremista Carlinhos recebeu um lançamento entre os zagueiros colorados e concluiu forte, no ângulo, marcando um golaço. A decisão aconteceria na marca de cal, naquele momento em que ninguém é ateu, com a torcida gremista acesa pelo empate conquistado na reta final do jogo.

Como já se aproximava da meia-noite, estava na hora do Gato Fernández entrar em evidência. E é verdade a lenda de que o arqueiro paraguaio, na hora dos pênaltis, sempre dizia, em bom portunhol: “Yo pego”. “Naquela reunião entre os jogadores antes das cobranças, falei para os companheiros: façam as de vocês porque um ou dois eu defendo.” O drama anunciado não se confirmou justamente pela felina presença sob as traves.

Autor dos gols colorados no confronto, Gérson converteu a primeira cobrança. Marquinhos e Célio Silva também fizeram. Pelo lado gremista, após Alcindo chutar por cima, Fernández usou toda sua cancha e envergadura para defender as cobranças de Jandir e Vilson. “O que mais me marcou naquele Gre-Nal foi o Fernández. Ele transmitia muita confiança e segurança. O Gato se multiplicava”, conta Daniel Franco.

Inter campeão Copa do Brasil 1992 taça volta olímpica

Arquivo / Agência RBS

Forjado no êxtase e na dor, cada qual do seu lado, aquele Gre-Nal entrou para os alfarrábios da história. E deixaria ecos. Apesar da derrota, o Grêmio pavimentava o caminho para viver uma época dourada poucos anos depois. E o Inter, embalado por derrubar o rival, partiu em cancha reta para o título, vencendo o Palmeiras (que já estampava a Parmalat na camisa) nas semifinais e, depois, conquistando o título sobre o Fluminense, com direito ao primeiro jogo acontecendo nas Laranjeiras -- eram tempos mais simples, percebam.

A ficha técnica do segundo Gre-Nal pelas quartas da Copa do Brasil de 1992

Estádio Beira-Rio. Público: 58.000

Juiz: Renato Marsiglia (RJ)

Internacional: Fernández, Célio Lino, Célio Silva, Pinga e Daniel; Márcio (Simão), Élson e Marquinhos; Maurício, Gérson e Luciano (Silas). Técnico: Antônio Lopes

Grêmio: Émerson, Leandro Silva, Paulão, Vílson e Xará; Jandir, Alaércio e Carlos Miguel; Alcindo, Lima (Pichetti) e Carlinhos. Técnico: Cláudio Garcia

Gols: 2º tempo: Gérson (8) e Carlinhos (30). Decisão por pênaltis: Inter 3x0 Grêmio (Gérson, Marquinhos e Célio Silva)

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