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PF deve ouvir Daniel Vorcaro nesta quinta sobre suspeita de favorecimento ao Banco Master

Vorcaro presta novo depoimento à PF sobre relação com servidores do BC

G1 — Brasil · 2026-08-27T12:56:59.000Z

Vorcaro presta novo depoimento à PF sobre relação com servidores do BC

Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, presta depoimento à Polícia Federal (PF) por videoconferência na manhã desta quinta-feira (27).

Essa é mais uma etapa da investigação que apura sua relação com dois servidores do Banco Central (BC) suspeitos de receber vantagens indevidas e de atuar em favor da instituição financeira durante o processo que culminou na liquidação do banco, medida adotada pelo Banco Central que retirou o Master do mercado (entenda mais abaixo).

A oitiva está prevista para as 10h e ocorre após a operação da Polícia Federal que teve Vorcaro como alvo. O depoimento também acontece d.depois que não avançaram as negociações para um acordo de colaboração premiada — mecanismo pelo qual investigados fornecem informações às autoridades em troca de possíveis benefícios previstos em lei.

🔎Daniel Vorcaro está preso preventivamente desde março deste ano. Antes disso, ele já havia sido preso na primeira fase da Operação Compliance Zero, em novembro de 2025, mas foi solto dias depois por decisão do TRF-1.

Segundo pessoas ligadas à defesa, a expectativa é que o ex-banqueiro apresente sua versão sobre os fatos investigados.

Jornal Nacional/ Reprodução

O foco do inquérito é a atuação dos ex-supervisores do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza e Bellini Santana, que, segundo a investigação, mantinham relação próxima com Vorcaro quando o Banco Master enfrentava uma crise de liquidez e passava por fiscalização da autoridade monetária.

Segundo a Polícia Federal e o Banco Central, há suspeitas de que os dois servidores tenham recebido vantagens financeiras e atuado para beneficiar o então banqueiro em discussões internas sobre fiscalização, socorro financeiro e medidas que poderiam afetar o futuro da instituição.

O que está sob investigação

As suspeitas ganharam força a partir de apurações realizadas pelo próprio Banco Central e de depoimentos prestados à Polícia Federal pelo diretor de Fiscalização da instituição, Ailton de Aquino.

Segundo ele, as dúvidas sobre o Banco Master surgiram no início de 2025, quando a instituição, embora enfrentasse dificuldades de liquidez, continuava realizando operações de cessão de crédito ao Banco de Brasília (BRB) em volumes bilionários.

Aquino relatou que uma equipe do Departamento de Monitoramento concluiu posteriormente que carteiras de crédito apresentadas pelo banco não existiam.

A investigação interna levou o Banco Central a comunicar o Ministério Público Federal, que repassou o caso à Polícia Federal.

De acordo com o diretor, as suspeitas sobre as operações já haviam chegado à área de supervisão comandada por Bellini Santana e acompanhada por Paulo Sérgio.

Ainda assim, segundo o depoimento, os dois demonstravam resistência ao aprofundamento das medidas de fiscalização.

Ao ser questionado pela PF sobre essa postura, Aquino afirmou que, olhando os fatos em retrospecto, passou a se perguntar por que ambos resistiram tanto ao avanço das investigações sobre as carteiras de crédito e por que defendiam que os problemas identificados poderiam ser solucionados em uma eventual fusão entre o Master e o BRB.

A TV Globo teve acesso à íntegra deste depoimento, realizado em maio deste ano.

Suspeitas de pagamentos

Um dos focos da investigação são os supostos pagamentos feitos a servidores responsáveis pela supervisão do Banco Master.

Em depoimento à Polícia Federal, o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, afirmou que, em janeiro deste ano, foi informado pelo presidente da instituição, Gabriel Galípolo, sobre relatos recebidos sob condição de anonimato segundo os quais os servidores Bellini Santana e Paulo Sérgio teriam recebido valores ligados a Daniel Vorcaro.

Após ser comunicado das suspeitas, Aquino disse ter ouvido os dois servidores.

Segundo seu relato à PF, Bellini afirmou que foi procurado em 2023 por uma pessoa ligada ao advogado Leonardo Palhares, que lhe apresentou uma proposta relacionada a projetos sociais. Bellini declarou ter recebido duas parcelas de R$ 500 mil e, posteriormente, pagamentos mensais por meio de uma empresa criada por ele.

Já Paulo Sérgio afirmou ter vendido uma propriedade rural em Guaxupé (MG) por R$ 4,5 milhões e disse ter descoberto apenas mais tarde que o comprador tinha ligação familiar com Vorcaro.

A Polícia Federal investiga se os pagamentos e negócios relatados pelos dois servidores tiveram relação com sua atuação na supervisão do Banco Master.

Relação com o banqueiro

No depoimento, Aquino afirmou que considerava natural a relação institucional entre supervisores do Banco Central e dirigentes de bancos fiscalizados.

Segundo ele, porém, não é comum que fiscais antecipem questionamentos de fiscalização ou orientem previamente instituições supervisionadas sobre como agir diante da autoridade reguladora.

As investigações apontam que os dois servidores mantinham interlocução frequente com Vorcaro e participaram de discussões sobre temas sensíveis envolvendo o banco.

Uma das mensagens analisadas pela PF foi enviada por Paulo Sérgio a Vorcaro em abril de 2025.

Nela, o servidor escreveu: "o Ailton achou muito boa, ou seja, 5 bi pode evitar estrago de 58 bi". Segundo Aquino, a conversa tratava de uma possível linha de liquidez do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para evitar maiores impactos decorrentes de uma eventual liquidação do banco.

O diretor também relatou que Bellini e Paulo Sérgio insistiram para que ele recebesse Vorcaro em novembro de 2025, quando o então banqueiro apresentou uma proposta de aporte de investidores árabes para tentar evitar a liquidação do Master.

Temor de vazamentos

Outro ponto destacado por Aquino foi a preocupação da cúpula do Banco Central com vazamentos de informações internas relacionadas ao Banco Master.

Segundo ele, havia a percepção de que decisões, análises e discussões ainda em andamento chegavam ao conhecimento de investigados e até da imprensa antes de serem formalizadas.

Por causa desse cenário, afirmou, a decisão sobre a liquidação do Banco Master foi mantida em um círculo extremamente restrito dentro da instituição.

Aquino disse não ter elementos para afirmar que Vorcaro soubesse antecipadamente da liquidação, mas afirmou que a insistência do banqueiro em apresentar uma solução de última hora gerou desconfiança entre integrantes do Banco Central.

O que a PF quer esclarecer

A Polícia Federal busca esclarecer se servidores responsáveis pela supervisão do Banco Master receberam vantagens financeiras do ex-banqueiro e, em contrapartida, atuaram para beneficiar a instituição em processos de fiscalização, negociações sobre apoio financeiro e discussões regulatórias.

Os investigadores também tentam determinar se houve orientação estratégica a Vorcaro, repasse de informações internas ou favorecimento indevido durante a atuação do Banco Central no caso.

O depoimento de Vorcaro desta quinta deve servir para confrontar os elementos reunidos pela PF, pelo Ministério Público Federal e pelo próprio Banco Central ao longo da investigação.

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