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Retaliação do Canadá às tarifas americanas testa os limites do poder de Trump

Os recentes comentários do vice-presidente americano, J.D. Vance, podem não ter ajudado nas negociações comerciais com o Canadá

G1 — Brasil · 2026-08-27T16:59:58.000Z

Os recentes comentários do vice-presidente americano, J.D. Vance, podem não ter ajudado nas negociações comerciais com o Canadá

Dois dias antes das negociações comerciais entre os Estados Unidos e o Canadá saírem dramaticamente dos trilhos, o vice-presidente americano, J.D. Vance, declarava ao público em um evento privado de levantamento de fundos que o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, é uma "pessoa muito agradável".

Em uma gravação de áudio privada que vazou para a imprensa canadense, Vance teria prosseguido, dizendo que Carney "chega, estufa o peito e diz: 'Veja, vou ser mais durão que Donald Trump'."

Ele descreveu a estratégia como "hilária", pois os canadenses, no fim das contas, "recuam em muitas questões".

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Os comentários receberam extensa cobertura jornalística no Canadá. Eles talvez não tenham sido a principal razão para que os diplomatas de Carney fizessem as malas e voltassem para casa no fim de semana passado, mas certamente também não ajudaram.

A decisão de Carney pôs fim abruptamente às negociações sobre um novo acordo comercial e gerou uma nova onda de tarifas de importação entre os dois países vizinhos. O comércio bilateral entre eles soma mais de US$ 872 bilhões (cerca de R$ 4,5 trilhões) todos os anos.

As sérias divergências que se aprofundam cada vez mais, ao lado dos comentários de Vance, oferecem mais um exemplo de como o governo Trump está disposto a exercer sua força no cenário global contra amigos e inimigos. E destaca novamente as consequências potencialmente prejudiciais das suas ações.

Além disso, se Trump pensava que os canadenses iriam ceder frente às pressões americanas (como fizeram muitos aliados dos Estados Unidos nos últimos 19 anos), ele pode ter calculado mal a situação. E as consequências deste erro podem perdurar até o fim do seu mandato na Casa Branca.

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Por que Trump está atacando o Canadá?

A recente ruptura foi surpreendente, mas os atritos entre os Estados Unidos e o Canadá datam do primeiro mandato de Donald Trump (2017-2021) e das negociações que criaram o Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA, na sigla em inglês).

Esse tratado substituiu o Acordo Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta), dos anos 1990.

Os conflitos pessoais entre Donald Trump e o então primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau (2015-2025), dificultaram as negociações.

Quando se preparava para voltar à Casa Branca, no final de 2024, Trump se referiu ironicamente a Trudeau como "governador" e ao Canadá como o "51° Estado" americano.

Por trás dos insultos, havia uma visão geopolítica que posiciona os Estados Unidos basicamente como uma potência hemisférica, destinada a exercer influência política, militar e econômica sobre seu entorno imediato, que, certamente, inclui o Canadá.

Autoridades do governo americano consideravam que o Canadá contribuía muito pouco para a defesa regional e se beneficiava desproporcionalmente do comércio com os EUA.

Na visão de mundo de Trump, a segurança econômica e a segurança nacional são indissociáveis. Com isso, o Canadá e o México, dois dos maiores parceiros comerciais dos Estados Unidos, se tornaram alvos óbvios desde o princípio.

É por este motivo que o presidente americano também declarou sua intenção de tomar posse da Groenlândia.

"Se você escutar realmente qualquer pessoa nos Departamentos de Estado, do Tesouro ou do Comércio, irá ouvir a frase 'a segurança econômica é a segurança nacional'", explica o chefe de política corporativa do centro de estudos Kearney Foresight, Drew DeLong.

No início do ano, enquanto as negociações comerciais americanas prosseguiam aos trancos e barrancos, Trump desviou sua atenção do Canadá para suas intervenções militares, primeiro na Venezuela e, depois, no Oriente Médio.

Mas em todas as regiões do planeta, a linha central da estratégia internacional do presidente americano permanece inalterada: os Estados Unidos são uma potência dominante, capaz de impor sua vontade para benefício nacional.

Canadá e Irã testam o poder de Trump

Mas o poder tem seus limites.

O segundo mandato de Trump tem sido um teste contínuo desses limites. E, às vezes, uma lição para descobrir exatamente onde eles estão.

Existem diferenças óbvias entre uma guerra aberta no Irã e uma disputa comercial com o Canadá. Mas as lições são parecidas.

Nos dois casos, os Estados Unidos enfrentam um adversário que, mesmo tendo muito menos poder, ainda detém meios de retaliação.

No Irã, este poder reside em atacar aliados americanos e interromper o comércio global, ameaçando gargalos marítimos como o Estreito de Ormuz.

Já o Canadá começa a testar sua própria capacidade de impor prejuízos econômicos.

As tarifas anunciadas em retaliação na última terça-feira (25) marcam a primeira etapa desse processo. Medidas futuras poderão incluir a restrição do acesso americano à energia e minerais críticos canadenses, além do boicote de produtos americanos por parte dos consumidores.

"À medida que o mundo como um todo se move rumo a um cenário de maior segurança econômica, vemos este jogo de gargalos e poder se espalhando pelas cadeias de abastecimento", afirma DeLong. Os países só precisam procurá-los, segundo ele.

No momento, existem poucas soluções rápidas.

O primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, respondeu Donald Trump com insultos, em meio às negociações sobre tarifas de importação entre o Canadá e os Estados Unidos

Trump elevou sua retórica, acusando repetidamente o Canadá de "saquear" os Estados Unidos. Já o primeiro-ministro da província canadense de Ontário, Doug Ford, respondeu com insultos ao presidente americano.

"Sempre que afastamos parceiros e aliados, acho que os incentivamos a procurar novas relações e novas parcerias, sem que eles tentem ceder às exigências dos Estados Unidos", afirma Imran Bayoumi, vice-diretor da Iniciativa GeoEstratégia do centro de estudos Conselho do Atlântico.

Mas ainda há tempo para que as cabeças se esfriem.

As novas tarifas do Canadá entram em vigor em duas semanas e a retaliação mais significativa dos Estados Unidos (a tarifa de 50% sobre a importação de veículos e peças automotivas de fabricação canadense) só irá começar no início de 2027.

Como ocorre em qualquer conflito, econômico ou militar, pode ser difícil interromper o ciclo da escalada. Mas o intervalo de vários meses antes da próxima onda de tarifas americanas oferece aos negociadores a oportunidade de reiniciar os diálogos.

E, até a noite da última sexta-feira (21), havia ocorrido algum progresso.

O dilema de Carney e do Canadá

Um prazo mais próximo é o das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, em novembro.

Eventuais vitórias dos democratas para o Congresso poderão reduzir significativamente a autoridade de Donald Trump. Ou o inesperado sucesso republicano poderá reforçá-la ainda mais.

No momento, o Canadá parece satisfeito em apostar na primeira possibilidade. Ottawa calcula que o temor de uma derrota no meio do mandato em importantes campos de batalha nas regiões industriais, como os Estados de Michigan e Ohio, poderá forçar Trump a ceder antes da votação.

"Não acho que haja no Canadá o tipo de divisões políticas internas que o governo Trump talvez esperasse. Acredito que Carney tenha muito espaço político para realmente conseguir um bom acordo para o Canadá, sem aceitar nada menos do que isso", explica Bayoumi.

Mas existe outra possibilidade, levada a público por Carney desde que Trump voltou à Casa Branca.

O Canadá pode continuar se afastando dos Estados Unidos, traçando um curso que amplie deliberadamente a distância entre os dois países.

"Não podemos depender das alianças tradicionais quando as regras do jogo são fundamentalmente alteradas", afirmou Carney.

Donald Trump e Mark Carney

A proximidade geográfica garante que os dois países permaneçam entrelaçados, mas a relação econômica profundamente integrada nas últimas décadas pode estar chegando ao fim.

Neste caso, em particular, o Canadá apresenta uma situação diferente do México, que parece optar por uma integração econômica ainda mais próxima com os Estados Unidos.

Paralelamente, outros parceiros comerciais globais, como os aliados americanos na Europa e na Ásia, vêm observando a determinada resistência canadense como um modelo plausível para futuras negociações com Donald Trump.

"Daqui a 10 anos, este processo será ensinado nas salas de aula", prevê DeLong.

"Você tem caminhos se bifurcando na América do Norte e a questão é: eles irão se reunir novamente ou continuarão se afastando? E, se isso acontecer, quem será o maior beneficiado a longo prazo?"

Se os supostamente pacatos canadenses conseguirem resistir ao seu poderoso e belicoso vizinho, outras nações poderão concluir que também podem fazer o mesmo.

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