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Do Habib's às Casas Bahia, por que tantas empresas estão quebrando no Brasil?

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, nega que razão para a alta de recuperações judiciais seja somente as taxas de juros

G1 — Brasil · 2026-08-27T19:32:15.000Z

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, nega que razão para a alta de recuperações judiciais seja somente as taxas de juros

Habib's, Casas Bahia, Marabraz, Braskem, Raízen, Oncoclínicas, Grupo Toki (Tok&Stok e Mobly), Grupo CVLB (Casa & Vídeo e Le Biscuit), St. Marché. A lista de grandes empresas no Brasil que entraram com pedido de recuperação judicial ou extrajudicial só este ano é grande e deve aumentar, segundo especialistas ouvidos pela reportagem.

Segundo dados da consultoria RGF, especializada em reestruturação de empresas, o número de companhias em recuperação judicial saltou 66% nos últimos três anos, atingindo 6.341 casos no segundo trimestre de 2026 — desse total, 21% são do varejo, 19,6% são da indústria de transformação e 17,5% são do agronegócio, os setores mais atingidos.

Na recuperação judicial, pela qual passa a Americanas desde 2023, por exemplo, todas as dívidas do grupo (trabalhistas, com fornecedores, bancos etc.) são renegociadas na Justiça; na recuperação extrajudicial, a companhia escolhe um grupo de credores para fechar uma negociação e homologá-la depois junto ao Judiciário.

Ambas são alternativas para a empresa não entrar em falência, quando a Justiça constata que a companhia não consegue mais pagar suas dívidas e deve encerrar suas atividades, como aconteceu com a Oi na última terça-feira (25/8).

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O papel do juros e de outros fatores

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reconheceu que o varejo é pressionado pela alta taxa de juros, uma vez que depende do crédito tanto para comprar dos fornecedores quanto para revender aos consumidores, mas negou uma crise generalizada.

"Tem uma série de dados da economia brasileira que mostram pujança em vários setores", disse em entrevista à Globonews no último dia 21. Segundo ele, por se tratar de um período eleitoral, a oposição quer tratar o assunto como uma crise que atinge toda a economia.

De acordo com especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, no entanto, a atual onda de pedidos de recuperação empresarial, que atinge mais fortemente o setor de varejo, está calcada em três fatores principais:

A alta prolongada da taxa básica de juros, hoje em 14% ao ano, que aumenta de maneira exponencial o passivo das empresas e diminui a oferta de crédito ao consumidor;

Erros na gestão das empresas, que cortaram milhares de posições gerenciais na última década, a fim de reduzir custos e ganhar agilidade, mas concentraram poder nas mãos de poucos, o que torna decisões equivocadas fatais para os negócios;

As mudanças no mundo do trabalho: menos gente deseja seguir carreira em uma companhia, diante de baixos salários e perspectivas, enquanto as empresas valorizam cada vez menos as "pratas da casa" e sofrem com apagões de mão de obra.

"A causa deste fenômeno de recuperações judiciais e extrajudiciais tem uma composição híbrida e parece longe do fim", diz Fabian Salum, professor titular e pesquisador líder de estratégias competitivas da FDC, a Fundação Dom Cabral.

"De um lado, estão fatores externos à companhia, como a dificuldade de acesso ao capital, os bancos restringindo cada vez mais as linhas de financiamento e de capital de giro, a alavancagem [peso dos empréstimos] que subiu muito no pós-pandemia, quando a Selic passou de 2% para 15%."

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Os erros de gestão, como expansão e cortes mal calculados

Além disso, é preciso levar em conta o alto endividamento dos consumidores, com 39% da população inadimplente.

"O recuo no consumo faz com que as empresas não alcancem metas. Com isso, elas reduzem investimentos, incluindo qualificação de pessoal", diz Salum, doutor em administração de empresas e conselheiro de companhias de médio e grande porte.

"Diante da dificuldade de sustentar o ciclo financeiro da companhia, o que ela precisa? De gente com mais habilidade, competência e conhecimento no corpo gerencial para encontrar soluções. Mas a média gerência compõe justamente o segmento mais afetado."

Esses profissionais são responsáveis por fazer a ponte entre o nível tático, a base da companhia (supervisores, coordenadores, analistas, operadores) e o estratégico, da diretoria. No entanto, deixam de ser treinados e se tornam dispensáveis ou, diante da falta de um plano de carreira, saem da empresa para se tornarem consultores, diz.

Segundo Salum, o movimento de pressão sobre a média gerência é diferente do "downsizing" dos anos 90, quando diversos níveis hierárquicos foram cortados.

"O que se vê hoje é um acúmulo de tarefas para quem fica no topo da hierarquia: um vice-presidente ou diretor de recursos humanos, por exemplo, também responde por ESG, inovação, segurança e medicina do trabalho; ou então é diretor administrativo, financeiro, de marketing e tecnologia.

"Algumas dessas áreas podem até ser sinérgicas, mas requerem uma atenção especial, especialmente no momento em que as companhias precisam tomar decisões cada vez mais rápidas. É preciso gerente para liderar, não para supervisionar."

Durante a pandemia de coronavírus, por exemplo, a maioria das empresas aumentou o investimento em tecnologia e criou ou expandiu as operações de comércio eletrônico.

Os especialistas concordam que era uma medida necessária, mas foi tomada de forma afoita e sem levar em conta que a Selic poderia subir.

"As empresas em dificuldade hoje ainda se ressentem de decisões tomadas entre 2020 e 2021, um período de muita incerteza", diz Isabella Vasconcellos, professora do curso de administração da ESPM, a Escola Superior de Propaganda e Marketing.

Houve gente que investiu demais ou que cortou muito também. Entre 2020 e 2025, o Brasil eliminou 322 mil vagas de gerência e diretoria, segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), acrescenta Vasconcellos. O saldo de contratações para esses cargos ficou negativo em 112 mil postos.

Nos casos de recuperações empresariais, os cortes e ajustes devem ser muito bem pensados para não desmontar a capacidade da companhia de se reerguer. "É preciso tomar cuidado para não perder gente qualificada", afirma André Pimentel, sócio da consultoria Performa Partners. O varejo é uma área que demanda muito do profissional e é mais difícil encontrar gestores bem preparados neste meio, diz. "Os melhores executivos partem para outros setores, porque não querem trabalhar sete dias por semana".

Decisões envolvendo a expansão dos negócios são sempre muito críticas em momentos de instabilidade como os dos últimos anos, que envolvem não só fatores macroeconômicos, como geopolíticos. "As empresas buscam um ritmo de crescimento incompatível com a sua geração de caixa, perseguem uma realidade que não existe. E na ânsia de apresentar resultados para acionistas e investidores, vão buscar capital a um custo muito alto", diz ele. "Não só os CEOS têm se aventurado em planos de crescimento exagerado, como os próprios conselhos de administração vêm sendo pouco cuidadosos na hora de aprovar os planos".

Na Casas Bahia, por exemplo, diz, eram mais de 1.000 lojas espalhadas pelo Brasil. Com a recuperação judicial, foram fechadas 298 e demitidos 1.900 funcionários - mas a Justiça determinou a reintegração provisória das equipes."Talvez a empresa até precisasse fechar mais lojas", afirma Pimentel. "Muitos desses pontos já deviam ter sido encerrados ou, em última análise, nem deveriam ter sido abertos, porque não se sustentam. Mas o que temos visto são menos varejistas preocupadas com a rentabilidade do negócio e mais em demonstrar desempenho, se aventurando em um crescimento acelerado".

Isso porque existe um conflito de interesses por parte dos próprios executivos, que recebem bônus por atingirem metas de expansão. A maioria das empresas, no entanto, deveria reduzir de tamanho para retomar a rentabilidade, diz Pimentel. "Existe também a pressão dos investidores, que temem ver o valor das suas ações depreciado caso haja um movimento de enxugamento das lojas". Mas com o avanço do comércio eletrônico e das novas tecnologias, diz, é isso que a maioria deveria fazer.

Para a psicóloga Betania Tanure, especialista em comportamento organizacional e sócia da consultoria BTA Associados, a tecnologia tem gerado mais incertezas do que soluções no mundo corporativo e feito com que muitos gestores promovam cortes mal calculados.

"É mais fácil para as empresas cortar pessoal se os resultados não vêm, do que projetar a expansão de modo racional", afirma. "Eliminar de 10% a 20% da mão de obra, como vimos nas crises recentes, é um erro gigante, sobrecarrega quem fica e compromete a qualidade."

Vasconcellos diz que o corte de pessoal qualificado compromete o futuro das empresas, em um momento extremamente delicado para os negócios.

"A estrutura de capital das companhias vai continuar comprometida, com a previsão de juros em dois dígitos pelo menos até o final de 2028. Mesmo quando as empresas vendem mais e aumentam a receita, a despesa financeira [custos da dívida] cresce e consome o caixa. E se as vendas desaceleram, como estamos vendo agora, a situação se agrava", afirma a doutora em negócios, que não enxerga uma solução no curto prazo.

Felipe Tanus, diretor de crédito da Allianz Trade Brasil, diz que qualquer taxa de juros acima de dois dígitos eleva o risco de insolvência das empresas. Mas a má gestão é igualmente preocupante.

"Assistimos a casos de fraude, como a da Americanas, ou de uma expansão mal calculada, como a da Raízen, o que chama a atenção para a necessidade de boa governança", diz o executivo, que concede seguro de crédito a empresas.

Lojas Americanas está em recuperação judicial desde 2023.

Reuters via BBC

Neste modelo de negócio, o fornecedor de uma varejista em recuperação judicial, por exemplo, cliente da Allianz Trade Brasil, recebe entre 90% e 95% do total em até 30 dias após o deferimento do pedido pela Justiça.

Embora as vendas da companhia tenham crescido 6% no primeiro semestre deste ano, o aumento dos pedidos de recuperação judicial e extrajudicial causam reflexos para todo o mercado: o limite de crédito cai e fica mais caro, diz.

Armando Castelar, pesquisador associado do FGV IBRE, o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, reforça que a conjuntura econômica afeta não só as empresas, mas as famílias.

"Vemos trabalhadores cujo salário está sendo engolido por empréstimos consignados", diz Castelar, doutor em economia.

Segundo ele, é um cenário que pode levar a mais pedidos de recuperação judicial, o que aumenta a pressão sobre o Banco Central para reduzir a taxa de juros.

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