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Veja como ocorreu o degelo que gerou avalanche de lama no Nepal
G1 — Brasil · 2026-08-28T03:00:51.000Z
Veja como ocorreu o degelo que gerou avalanche de lama no Nepal
O colapso de uma geleira provocou as enchentes catastróficas no Nepal, de acordo com o USGS (Serviço Geológico dos Estados Unidos). O desastre já soma mais de 300 mortes e centenas de desaparecidos no que é uma das piores tragédias do país em mais de dez anos.
A região tem uma geografia montanhosa e abriga as maiores montanhas do mundo. Entre elas está o Langtang Lirung, com 7.245 metros – onde houve o colapso.
De acordo com especialistas, a geleira que caiu tinha cerca de 600 metros de largura. O impacto de sua queda foi tamanho que o USGS chegou a sinalizar na quarta-feira (26) que a região tinha passado por um terremoto de escala 5,2. Na verdade, depois se descobriu que a que o abalo aconteceu por causa da queda do gelo e o deslizamento de rochas na encosta da montanha.
Por que tem tanto gelo na região?
Em regiões de altitude muito elevada, a precipitação não cai em forma líquida. Por causa das baixas temperaturas, a chuva se transforma em gelo antes de atingir o solo.
Para se ter uma ideia, no monte Everest, que fica na região, em algumas épocas do ano a temperatura pode chegar a -50°C.
Esse acúmulo se repete ano após ano, ao longo de milhares a milhões de anos, formando as geleiras.
Por que esse gelo se desprendeu?
Não há ainda como saber o que causou esse desprendimento de uma massa de gelo tão grande. O que os especialistas explicam é que ainda que sejam massas de água em estado sólido, as geleiras não são estáticas.
“Elas se movimentam naturalmente, seja pela queda de blocos de gelo mais antigo ou deslizamento de camadas de neve mais recente. É um ambiente bastante instável”, explica o geólogo Julio Lana, do Serviço Geológico do Brasil (SGB).
E o que aquecimento global?
Em artigo no The Conversation, Levan Tielidze - pesquisador em geomorfologia glacial na Universidade Monash - lembra que o terreno na região, formado pelo permafrost, pode ter se desestabilizado.
Pesquisas recentes mostram que o calor causado pela mudança do clima vem impactando as geleiras no mundo. E o aquecimento global pode estar fazendo com que o permafrost — solo, sedimento ou rocha que permanece congelado por longos períodos — descongele e se degrade.
O permafrost ajuda a manter algumas encostas de montanhas unidas. Quando ele perde estabilidade, esses ambientes de alta montanha podem ficar mais instáveis.
No entanto, ainda é cedo para dizer que o que houve no Nepal tem relação com a mudança do clima.
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E o que houve depois que o gelo se desprendeu?
Esse ponto ainda não está totalmente esclarecido. A hipótese mais provável, segundo o especialista, é a de que o bloco de gelo tenha caído dentro de um lago glacial — reservatórios de água formados ao longo do tempo pelo derretimento parcial das próprias geleiras, comuns nas encostas do Himalaia.
Essas regiões guardam dezenas de lagos desse tipo, alguns com milhares de litros de água acumulada.
Ao cair dentro do lago, o bloco expulsou parte da água represada ali e rompeu as barreiras naturais que a continham — formadas por rochas soltas e sedimentos, e não por rocha maciça. O fenômeno tem nome técnico: GLOF, sigla em inglês para rompimento de lago glacial.
Para se ter uma ideia de como isso funciona: é como jogar uma pedra em um copo com água que transborda quase que instantaneamente.
“Essa força da água é tanta que empurra esses blocos de rocha que represam a água desses lagos. Eles então vazam e percorrem a região, conectando a outros desses lagos, acumulando um volume alto de água. Isso explica um pouco o volume da avalanche que vimos”, explica o geólogo Julio Lana, do Serviço Geológico do Brasil (SGB).
Lago glacial em geleira no Alasca
Becky Bohrer/AP Photo
O resultado desse acúmulo apareceu na velocidade da cheia: o nível do rio Trishuli subiu até 9 metros em apenas 30 minutos. Um evento que começou a quilômetros de distância, no alto da cordilheira, chegou às áreas habitadas em questão de minutos — sem tempo hábil de reação para quem estava no caminho.
E ainda se soma ao contexto da região: o Nepal passa pela época de monções — período do ano em que a chuva é mais intensa.
Esse tipo de evento não é incomum no Himalaia. Desde 1900, a região já registrou mais de 100 rompimentos de lagos glaciais, resultando em cerca de 7 mil mortes ao longo desse período, segundo estudo publicado em 2022 na revista científica Science of the Total Environment.
O levantamento também mostra que, ao contrário do que se poderia supor, lagos pequenos — historicamente ignorados em avaliações de risco — têm protagonizado uma parcela crescente desses rompimentos desde a década de 1980.