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Dia do Voluntariado: empresário troca presentes de aniversário por doação de sangue e ajuda a salvar mais de mil vidas no ES

Empresário troca presentes por doação de sangue no aniversário e já ajudou a salvar mais de mil vidas no Espírito Santo Ismael Littig

G1 — Brasil · 2026-08-28T07:01:06.000Z

Empresário troca presentes por doação de sangue no aniversário e já ajudou a salvar mais de mil vidas no Espírito Santo Ismael Littig

Fernando Madeira/Rede Gazeta

Para muita gente, aniversário é dia de ganhar presentes, mas para o empresário Ismael Littig, de Santa Maria de Jetibá, na Região Serrana do Espírito Santo, a data ganhou outro significado. Há seis anos, ele decidiu trocar a festa e os presentes por um pedido aos amigos: que fossem com ele até Vitória para doar sangue.

Desde então, a mobilização reúne, familiares, amigos, motoristas, desconhecidos e voluntários que ajudam na organização. Segundo o Centro de Hematologia e Hemoterapia do estado (Hemoes), a ação já contribuiu para ajudar a salvar mais de mil vidas.

Essa história que nasceu de uma comemoração de aniversário é contada pelo g1 nesta sexta-feira (28), no Dia Nacional do Voluntariado, data dedicada a homenagear quem escolhe ajudar outras pessoas sem esperar nada em troca.

Ismael, de 34 anos, é formado em Ciências Contábeis e faz aniversário em 24 de junho. O que começou em 2021, durante a pandemia, com apenas 15 amigos, cresceu ano após ano e se transformou em uma mobilização que envolve centenas de pessoas.

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Centenas de pessoas doam sangue no HemoNíver em Vitória no Espírito Santo

De 15 amigos a uma mobilização que só cresce

Na última edição do HemoNiver, no dia 28 de junho, cinco ônibus disponibilizados pela Prefeitura de Santa Maria de Jetibá levaram parte dos participantes ao Hemoes. O primeiro grupo saiu ainda de madrugada, por volta das 4h, e percorreu cerca de 90 quilômetros até a capital.

A primeira edição foi pequena. Ismael chamou 15 amigos para acompanhá-lo na doação de sangue e, nos anos seguintes, o número de pessoas envolvidas aumentou gradativamente.

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Em 2021, 2022 e 2023, a mobilização ainda acontecia durante a semana. O crescimento fez com que o Hemoes e Ismael buscassem uma forma de organizar melhor o atendimento. A partir de 2024, o evento passou a ser realizado aos domingos, quando o movimento no hemocentro é menor.

Os números mostram o tamanho que a iniciativa alcançou. Em 2024, foram 158 atendimentos no dia do evento. Em 2025, 172. Neste ano, 139 pessoas foram atendidas no Hemoes.

Como o hemocentro continuou aberto normalmente para outros doadores, nem todos os atendimentos são exclusivamente do grupo de Ismael. A partir de 2024, porém, o Hemoes estima que cerca de 90% do movimento nesses domingos esteja relacionado à mobilização dele.

Equipe do domingo é reforçada especialmente

Equipe do Hemoes é reforçada especialmente no domingo no dia do Hemoníver no Espírito Santo

A médica do Centro de Hemoterapia e Hematologia do ES (Hemoes), Belisa Sossai, acompanha o crescimento da iniciativa desde as primeiras edições. Para ela, o HemoNiver se tornou uma mobilização fora do comum.

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"Considerando que é um aniversário de uma pessoa, a gente não vê uma mobilização tão grande assim para nenhum outro aniversariante. A gente vê algumas pessoas juntando um grupo, dez, 12 pessoas. Com mais de 100 pessoas, às vezes, até 150 pessoas doando, é muito difícil. O Ismael é o único que faz nessa proporção", disse.

A médica explicou que o Hemoes se prepara com antecedência para receber o grupo. A data é combinada meses antes e a equipe é reforçada para que o atendimento consiga ser feito sem prejudicar os demais doadores.

"Como é um evento que a gente já sabe que vai acontecer e já espera um número grande de doadores, a gente reforça a equipe desde o cadastro até a sala de coleta. Neste ano, tivemos nove pessoas a mais do que seria o normal na equipe para atender esse grupo", contou.

Doadores saem de madrugada de Santa Maria de Jetibá para doar sangue na capital do Espírito Santo

🩸Mais de mil vidas ajudadas

Para o Hemoes, o impacto da mobilização não pode ser medido apenas pelo número de pessoas que chegam à unidade.

Uma bolsa de sangue pode ser separada em diferentes componentes e beneficiar mais de um paciente. Segundo Belisa, considerando as doações relacionadas à mobilização nos últimos anos, a estimativa é de que o trabalho de Ismael já tenha ajudado a salvar mais de mil vidas.

"Se você pensar que em 2025 tivemos 172 atendimentos e considerar que parte deles se transformou em bolsas, já temos centenas de possíveis beneficiados. Somando os outros anos, podemos falar em mais de mil vidas ajudadas pela mobilização", disse a médica.

Belissa destaca que o resultado é consequência de um trabalho que vai muito além de fazer um convite nas redes sociais.

"É uma solidariedade gigantesca, mas mais do que isso, é uma dedicação muito grande. O Ismael tem muito trabalho para isso acontecer. Ele mobiliza pessoas, faz vídeo, pede apoio e busca patrocinadores. A gente admira não só a vontade dele de fazer o bem, mas também a dedicação e o esforço para o evento acontecer".

🩸 O sangue não pode faltar

Apesar da grande mobilização, o Hemoes reforçou que a necessidade de doadores não termina depois de um grande evento. O estoque precisa ser reposto continuamente porque os componentes do sangue têm prazo de validade.

"Os estoques não são uma coisa que ficam garantidos por muito tempo. Quando a gente tem um estoque cheio, ele está cheio hoje, no máximo, até o final dessa semana. Precisamos continuar recebendo boas quantidades de doações para que ele não caia", explicou.

A médica destaca que existe uma solidariedade muito grande quando acontece um chamado, mas isso ainda não faz parte do dia a dia. É necessário além das mobilizações pontuais, é precisa de pessoas que tenham o hábito de doar duas, três e, às vezes, até quatro vezes por ano.

É justamente nesse ponto que, para ela, a história de Ismael ganha importância. A mobilização não apenas leva pessoas ao hemocentro, mas também apresenta a doação a quem nunca havia tomado a iniciativa.

"O trabalho do Ismael é exatamente esse, evidenciar, trazer à tona um tema tão importante, conscientizar e incentivar. Nosso sonho é que mais pessoas se inspirem nessa atitude e também escolham comemorar o aniversário de uma forma diferente, doando sangue".

Um aniversário que virou propósito

Para Ismael, a ideia de transformar o aniversário em uma oportunidade de ajudar outras pessoas tem relação com a educação que recebeu dentro de casa.

"Acho que isso vem muito dos meus pais. Desde pequeno, eles sempre me ensinaram, mais pelo exemplo do que pelas palavras, que a gente precisa olhar para o próximo e ajudar quando puder. Eu cresci vendo eles se preocuparem com as outras pessoas, ajudando de alguma forma, sem esperar nada em troca".

A irmã, Izabel Littig Westphal, de 39 anos, também participa das doações de sangue

Foi durante a pandemia, em 2021, que ele decidiu colocar esse ensinamento em prática. Na época, os estoques de sangue estavam baixos e ele resolveu comemorar o aniversário de uma maneira diferente.

"Quando comecei a trabalhar com a doação de sangue, percebi que esse ensinamento que recebi dentro de casa estava muito presente em mim. Talvez por isso eu tenha enxergado a doação não apenas como um gesto de solidariedade, mas como uma forma de fazer algo concreto por alguém que eu nem conheço, mas que precisa da minha ajuda", contou.

A irmã, Izabel Littig Westphal, de 39 anos, acompanhou de perto essa transformação. Para ela, o irmão conseguiu fazer com que uma ideia pessoal se tornasse uma causa coletiva.

"Hoje, quando vejo centenas de pessoas participando, penso que o Ismael conseguiu fazer com que uma ideia dele deixasse de ser dele e passasse a ser de todo mundo. E acho que esse é o mais bonito do HemoNiver: ele começou como uma comemoração de aniversário, mas acabou se transformando em um movimento de solidariedade", destacou Izabel.

O convite que venceu o medo

Juberlaine Baldotto sempre teve vontade de doar sangue e venceu o medo de agulha

Entre as pessoas que foram mobilizadas pelo HemoNiver está Juberlaine Baldotto. Ela sempre teve vontade de doar sangue, mas o medo de agulha e o histórico de desmaios durante exames faziam com que adiasse a decisão.

"Eu sempre tive essa vontade, sempre falei que ia doar, mas nunca cheguei a ir. Quando ele falou que eu conseguiria e que teria uma equipe preparada para me atender, eu pensei que dessa vez eu iria. Acho que o que faltou para eu doar antes foi incentivo".

Mesmo com medo, Juberlaine foi até o Hemoes. Antes da coleta, contou à equipe que costumava passar mal. Os profissionais adaptaram o atendimento e acompanharam todo o procedimento.

"Cheguei lá, vi aquele monte de gente e comecei a ficar gelada e a tremer. Pensei que não ia conseguir. Mas, quando entrei, foi outra coisa. Fiquei muito tranquila, não senti absolutamente nada, nem senti a agulha entrando. Quando terminou, fiquei tão feliz por ter conseguido".

A experiência fez com que ela mudasse de perspectiva. A primeira doação, que poderia ter sido apenas um desafio pessoal, acabou se transformando em uma decisão de continuar ajudando.

"Foi uma sensação de dever cumprido, de ter superado aquilo que me bloqueava e de ter feito uma boa ação. A partir daquele momento, pensei que queria voltar outras vezes. Hoje estou contando os dias para poder doar de novo. Essa ação não é para um momento, é para a vida inteira", disse.

Juberlaine acredita que o efeito da mobilização vai além do dia do aniversário de Ismael. Para ela, quem vence o medo e doa pela primeira vez pode se tornar um doador regular.

"Para quem nunca doou, eu digo que tem que ir e tentar. Eu era uma das pessoas mais medrosas e consegui superar meus limites. A sensação de poder ajudar o próximo é inexplicável. Tem uma equipe preparada para ajudar e, pelo menos, você vai tentar".

'É algo tão pequeno que eu posso fazer'

Professora Fátima Marquardt Rodrigues também começou a doar por causa do HemoNiver

A professora Fátima Marquardt Rodrigues também começou a doar por causa do HemoNiver. No primeiro convite, recusou. Na segunda edição, depois de muita insistência de Ismael, decidiu participar.

Foi a primeira vez que doou sangue e ela passou mal depois da coleta. Mesmo assim, voltou nos anos seguintes.

"Eu conto para as pessoas que na primeira vez passei mal, desmaiei e minha pressão caiu. Mas, da segunda vez em diante, a equipe já teve todo um cuidado porque conhecia meu histórico, e não aconteceu mais. Eu incentivo porque eles cuidam da gente com muito carinho".

Hoje, Fátima não participa mais apenas por causa do aniversário do amigo. A doação passou a fazer parte de um compromisso pessoal.

"Na primeira vez, fui por incentivo do Ismael. Hoje, eu nem vou mais por ele. Tomei como propósito para a minha vida que, pelo menos uma vez por ano, vou fazer o esforço necessário para estar lá e doar sangue. Se puder ir mais vezes, melhor ainda".

Para Fátima, a experiência também mudou a forma como enxerga quem está do outro lado da doação.

"É algo tão pequeno que eu posso fazer, mas que é tão importante e tão grandioso na vida de outra pessoa que está precisando. É transformador. É uma sensação muito gostosa de poder estar ajudando alguém que você nem conhece".

Uma festa com café colonial e tradição pomerana

HemoNíver tem festa com café colonial e tradição pomerana no Espírito Santo

Depois da doação, a comemoração continua. O aniversário de Ismael ganhou elementos da cultura pomerana, tradição forte em Santa Maria de Jetibá.

Os participantes são recebidos com música, decoração e um café colonial que reúne alimentos típicos, como brot, pão de banana, pães, biscoitos, bolo de ladrão, linguiça e ovos cozidos.

O brot é um dos alimentos mais tradicionais da culinária pomerana e acabou se tornando uma espécie de marca do evento.

Para Ismael, levar a cultura da cidade para a capital também é uma forma de agradecer às pessoas que participam.

"Sou descendente de pomeranos e sempre quis trazer a minha cultura. O povo pomerano abraça muito esses momentos. Então, é uma festa muito bonita e, no fim, todo mundo sai ganhando. Se diverte, compartilha um café da manhã colonial e ainda tem a oportunidade de salvar vidas".

A irmã Izabel diz que a festa é apenas uma parte de toda a estrutura montada para que a mobilização aconteça.

"É muito bonito ver as pessoas chegando. Tem gente que acorda cedo, pega ônibus e vai até Vitória simplesmente porque decidiu ajudar alguém que nem conhece. Quando a gente lembra que cada bolsa de sangue pode representar uma oportunidade de vida para alguém, percebe que tudo aquilo realmente vale a pena".

Cinco ônibus saíram de Santa Maria de Jetibá no Espírito Santo

Hemoes também leva a coleta até grupos de doadores

Quem mora longe de um ponto fixo de coleta não precisa necessariamente viajar até Vitória para doar. O Hemoes também realiza campanhas de coleta externa, levando uma equipe até municípios e instituições que conseguem reunir grupos de voluntários.

Segundo Belisa, Santa Maria de Jetibá já recebeu esse tipo de ação diversas vezes.

"Santa Maria é um dos municípios que a gente atende com bastante frequência. Já fizemos campanhas de coleta externa em parceria com a prefeitura e também com a Igreja Luterana, que é muito forte na comunidade. Todas foram muito boas".

A coleta externa também pode ser uma alternativa para empresas, instituições, igrejas e grupos que desejam mobilizar um número maior de pessoas. É necessário fazer o agendamento prévio com o serviço responsável.

O maior presente

Ao longo dos seis anos, o que começou com 15 amigos ganhou ônibus, voluntários, patrocinadores, café colonial, música, divulgação e centenas de pessoas envolvidas. Mas, para Ismael, o sentido continua sendo o mesmo da primeira edição.

A irmã acredita que o maior resultado da iniciativa talvez seja justamente ter inspirado outras pessoas a continuar a corrente.

"Ele é alguém que acredita que a melhor forma de comemorar a própria vida é ajudando a preservar a vida de alguém que ele nem conhece".

Para Ismael, o desejo para os próximos aniversários é simples: que cada vez mais pessoas descubram que não é preciso conhecer quem está do outro lado para ajudar.

"Se pudesse pedir um presente hoje, seria que mais pessoas se tornassem doadoras regulares e que nunca faltasse sangue para quem precisa. Esse é, sem dúvida, o maior presente que Deus poderia me dar", disse Ismael.

Empresário troca presentes por doação de sangue e mobiliza desconhecidos

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