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Campus sede da Universidade Federal de Viçosa (UFV)
G1 — Brasil · 2026-08-28T09:00:52.000Z
Campus sede da Universidade Federal de Viçosa (UFV)
“A UFV era meu quintal”. A frase de Rosana Coelho de Alvarenga e Melo, de 62 anos, resume uma relação que começou antes mesmo de ela se tornar estudante da Universidade Federal de Viçosa (UFV).
A mãe dela, Sônia Coelho de Alvarenga, estudou na primeira turma de Economia Doméstica da instituição, tornou-se professora e, por causa do trabalho, a família chegou a morar dentro do campus. Foi ali que Rosana cresceu.
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No dia em que a UFV completa 100 anos, o g1 conta a história de três gerações que cresceram com a universidade. Avó, mãe e filha passaram pela instituição em diferentes momentos e guardam memórias de décadas de transformações.
Rosana Coelho de Alvarenga e Melo, formada na UFV
Sônia, a pioneira; Rosana, filha de Sônia; e Anna Coelho, filha de Rosa e neta de Sônia, têm estreita relação com a universidade, com formações técnicas e também do chamado 'caráter ufeviano', como os alunos que passaram pela instituição têm orgulho em dizer.
A matriarca que escolheu a carreira científica
A história começou com Sônia. Ela fez parte da primeira turma de Economia Doméstica da UFV e se formou em 1956. No mesmo ano, começou a dar aulas na universidade.
Mais tarde, em 1969, fez mestrado em Economia Rural e passou a atuar no Departamento de Economia Rural, onde também cursou doutorado. Entre as atividades que desenvolveu na universidade, dava aulas de projetos e coordenava trabalhos de extensão rural em diferentes regiões do Brasil.
Ela se aposentou na década de 1990 e morreu anos depois.
Rosana lembra que não chegou a acompanhar a mãe dando aulas, mas esteve perto de outras atividades desenvolvidas por ela na universidade.
“Eu nunca cheguei a acompanhar a minha mãe dando aula. Mas acompanhei ela em outras tarefas.”
Para Anna, neta de Sônia, a trajetória da avó representa a história de uma mulher que escolheu a carreira científica em uma época em que esse caminho ainda era pouco comum para mulheres. “Dona Sônia sempre foi à frente de seu tempo.”
Ela considera que a matriarca da família é uma referência de perseverança e destaca a forma como ela enfrentava as limitações impostas às mulheres naquele período.
“Ela é o maior exemplo de perseverança que eu conheço. Impôs seu lugar como mulher numa época que não existia esse espaço, correu atrás dos seus sonhos e nunca deixou de estudar.”
A neta também guarda histórias sobre a postura firme de Sônia diante do machismo. Uma delas aconteceu quando a avó estava grávida e participava de uma reunião com professores. Incomodada com a fumaça de um charuto em um ambiente fechado, teria respondido ao colega:
“Se você não se importar caso eu vomite em você.”
A história ficou na memória da família como exemplo do jeito direto de Sônia lidar com situações daquele período.
A mãe de Rosana com a filha mais velha entregando flores para esposa do embaixador dos EUA
'A UFV era nosso quintal'
Quando Sônia começou a trabalhar na universidade, a família passou a morar dentro do campus. A casa ficava perto da horta, em uma área que hoje tem outras construções da UFV.
Foi nesse ambiente que Rosana, filha de Sônia, passou parte da infância.
Rosana Coelho de Alvarenga e Melo quando criança, e a UFV aos fundos
A casa acabou sendo demolida, e a família foi transferida para a Vila Gianetti. Mas a relação com o campus permaneceu. Ela diz que conhecia cada canto e cada árvore da universidade.
“Eu posso dizer que acompanhei todo o crescimento da UFV. Que, como muitos, considero minha casa, meu quintal! Conhecia cada canto, cada árvore da UFV.”
A relação com o espaço também deixou uma marca concreta. Anos depois, já estudante, Rosana plantou a árvore da turma no Recanto das Cigarras.
A menina que cresceu no campus acabou construindo ali também a própria trajetória acadêmica, ao ser aprovada para o curso de Zootecnia.
Da Zootecnia à História
Rosana cursou Zootecnia na UFV. Depois da graduação, deixou Viçosa e foi para São Paulo trabalhar com cavalos. Em 1993, voltou à universidade para fazer mestrado.
O vínculo com a UFV, porém, não terminou com a pós-graduação. Após se aposentar, decidiu voltar a estudar. Prestou vestibular para História e se formou em dezembro de 2017. A vontade de continuar na universidade permaneceu.
A filha de Rosana Coelho de Alvarenga e Melo também é formada na UFV
Ela chegou a prestar o vestibular 60+ para Direito. Havia apenas uma vaga, e Rosana ficou em quarto lugar. Em 2024, iniciou uma especialização em Patrimônio. Agora, está na reta final.
Segundo ela, são diferentes retornos a uma instituição que também mudou ao longo da vida dela.
Uma família inteira ligada à UFV
A relação com a universidade não ficou restrita às três gerações de mulheres.
Os irmãos de Rosana também estudaram na UFV. Ronaldo fez Engenharia Civil; Roberto, Educação Física; Rita de Cássia, já falecida, cursou Economia Doméstica e História, sendo também professora do Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Viçosa (Coluni). Por fim, Rosilene, também falecida, estudou Educação Física.
Outro que teve vínculo com a universidade foi Evandro, o marido de Rosana, formado em Engenharia Agrícola pela instituição, e depois professor titular — hoj está aposentado.
Na geração seguinte, Anna escolheu o Jornalismo. Ela se formou na UFV em 2021 e, atualmente, mora no exterior.
Sônia chegou à universidade em 1956, como estudante. Depois, construiu ali uma carreira como professora e pesquisadora.
Rosana conheceu a instituição primeiro como filha de uma professora que morava no campus. Depois, tornou-se estudante de Zootecnia, voltou para fazer mestrado e, anos mais tarde, cursou História. Agora, aos 62 anos, está novamente em uma sala de aula para concluir uma especialização.
Rosana com a mãe
Anna chegou à UFV já no século XXI, para estudar Jornalismo.
São três gerações de mulheres ligadas à mesma instituição em momentos diferentes dos 100 anos de história da UFV.
Para Rosana, a relação da família com a universidade vai além dos diplomas e dos cursos.
“Nós, três gerações, temos certeza de que ajudamos na construção dessa instituição centenária. E ela nos formou e moldou nosso caráter ufeviano.”
Para ela, essa identidade acompanha quem passa pela universidade mesmo depois de deixar Viçosa.
“Quem estuda aqui se reconhece em qualquer lugar do mundo. Todos levam no coração a marca da UFV.”
Rosana ainda tem uma árvore plantada no campus, lembrança de uma das turmas que frequentou a universidade.
Mas a marca também está na própria família: uma avó que entrou na primeira turma de Economia Doméstica, uma filha que cresceu dentro do campus e voltou inúmeras vezes para estudar e uma neta que também construiu ali a própria formação.
Ao falar sobre essa ligação de décadas, Rosana resume:
“Tem coisas que não se explicam. Só se sentem.”
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