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Um ano de ‘Rock Doido’: conheça os bastidores do filme que levou a aparelhagem para o centro do pop brasileiro

Guilherme, Gaby e Naré no Palácio dos Bares, onde Rock Doido foi gravado

G1 — Brasil · 2026-08-28T09:00:26.000Z

Guilherme, Gaby e Naré no Palácio dos Bares, onde Rock Doido foi gravado

Uma câmera atravessa a festa enquanto Belém acontece diante dela: aparelhagem, dança, gente, rua, excesso, religiosidade, moda, tecnobrega e cor. Em Rock Doido, a cidade não aparece como paisagem de apoio. Está no centro da história.

Por trás dessa sequência há uma construção criativa pensada para carregar para a imagem a mesma intensidade da música. Ao completar um ano, o filme de Gaby Amarantos, dirigido pela Altar Sonoro e convertido em um marco do audiovisual nacional, deixa também uma história de bastidores sobre como referências profundamente paraenses foram articuladas para criar um universo próprio.

A faísca veio antes das câmeras. Gaby conta que percebeu a dimensão que o projeto poderia alcançar durante uma noite na Florentina, casa de shows no Jurunas, bairro onde cresceu. Ao observar o impacto da aparelhagem sobre pessoas que visitavam Belém, enxergou ali uma experiência capaz de ultrapassar aquelas paredes. “Eu percebi ali que tinha um potencial muito grande em fazer algo global”, conta.

Gaby Amarantos vence prêmio audiovisual com o projeto 'Rock Doido'

Um ano depois, talvez esse seja um dos bastidores mais reveladores da obra. Rock Doido não precisou retirar suas referências de contexto para fazê-las viajar. Colocou aparelhagem, periferia, festa, religiosidade, moda, excesso e Belém no centro da imagem e deixou que partissem dali. Como resume Gaby: “A música do Pará veio pra ficar. Ela é uma grande força, potência e camaleoa.”

Como transformar o ‘Rock Doido’ em imagem?

Quando a ideia chegou ao audiovisual, a questão não era simplesmente encontrar imagens para acompanhar as músicas. Guilherme Takshy, que divide a Altar Sonoro com Naré, conta que a direção partiu de outra lógica. “A gente não queria simplesmente ilustrar as músicas da Gaby. A intenção era construir um universo visual para aquele trabalho, entender de onde aquela música vinha e transformar essas referências em imagem.”

É daí que entram aparelhagem, tecnobrega, rua, festa, cor, exagero, religiosidade e cultura popular. Em vez de elementos acrescentados para ambientar a obra, essas referências passaram a organizar sua linguagem. Música, imagem e espaço foram pensados juntos. “A gente não separa muito música, imagem, espaço e território. Para nós, tudo faz parte da mesma narrativa”, diz Guilherme.

O resultado acompanha a própria estrutura musical de Rock Doido. O álbum reúne 22 faixas concebidas para funcionar como um set ininterrupto, enquanto o audiovisual mergulha nessa atmosfera por meio de um plano-sequência. Gaby descreve o projeto como fruto de uma construção coletiva que mistura audiovisual, dança, aparelhagem, DJs e participação da comunidade.

Essa mistura também ajuda a explicar o excesso que toma conta da tela. Para Gaby, a escala não é gratuita: nasce de uma referência local. “Esse movimento bebe na fonte da floresta, na megalomania da floresta”, diz a cantora ao falar de uma Amazônia onde, em sua leitura, natureza, aparelhagens e criatividade compartilham uma ideia de grandeza.

Gaby Amarantos no curta 'Rock Doido - o Filme'

Uma das decisões que hoje Guilherme identifica como fundamental foi não reduzir essas referências para torná-las mais facilmente reconhecíveis fora do Pará. O caminho foi justamente assumir aquilo que poderia ser considerado periférico, regional ou exagerado como centro da imagem.

“Talvez o mais emocionante seja perceber que coisas que durante muito tempo foram vistas como periféricas, exageradas ou regionais podem ocupar o centro da imagem sem precisar ser traduzidas ou suavizadas”, afirma.

“A gente pode partir daqui, com a nossa linguagem, e ainda assim conversar com qualquer lugar.”

Um ano depois, essa escolha também alterou a trajetória da própria Altar Sonoro. Criada em Belém, em 2024, por Guilherme e Naré, a produtora ainda era muito jovem quando Rock Doido começou a circular e ser reconhecido. Em 2026, tornou-se a primeira produtora do Norte a conquistar o Prêmio BTG Pactual da Música Brasileira, na categoria Melhor Obra Audiovisual, e também recebeu o Prêmio MVF de Melhor Videoclipe.

“O Rock Doido foi um divisor de águas pro Altar Sonoro”, diz Guilherme. “Mais do que os números ou os prêmios, esse alcance abriu portas e fez com que as pessoas passassem a olhar para a Altar Sonoro e reconhecer uma linguagem.”

O que vem depois da festa

Essa porta agora leva a outros formatos. A Altar Sonoro ampliou a atuação para direção criativa, shows, exposições, performances e experiências e tem entre os projetos de 2026 FAFÁ 50, doc-show que celebra os 50 anos de carreira de Fafá de Belém. A produtora também desenvolve visuais e conteúdos audiovisuais relacionados à disputa de samba-enredo da Beija-Flor de Nilópolis para o Carnaval de 2027.

Mas o movimento que Guilherme descreve para o futuro parece repetir uma descoberta feita durante Rock Doido: chegar a outros lugares sem abandonar o ponto de partida. “O Rock Doido abriu uma porta muito grande. Agora nosso desafio é atravessar essa porta sem deixar de olhar para o lugar de onde a gente veio.”

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