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Alex detalha drama pessoal na Copa de 2002 e alerta para vício em apostas no futebol: "É perigoso"

De bermuda e camisa pretas, mãos no bolso, Alex chega às 10h em ponto para o Abre Aspas no hotel da delegação do Athletic, horas antes de vencer o América-MG pela Série B. Instantes antes de começar a entrevista, o ex-jogador que virou…

ge — Futebol · 2026-08-28T14:00:17.000Z

De bermuda e camisa pretas, mãos no bolso, Alex chega às 10h em ponto para o Abre Aspas no hotel da delegação do Athletic, horas antes de vencer o América-MG pela Série B. Instantes antes de começar a entrevista, o ex-jogador que virou treinador em 2021 reflete sobre o fim da carreira.

Lembra da cobrança que recebeu, no fim da carreira, de torcedores numa simples fila de cinema quando estava com a esposa e os três filhos. Ele era jogador do Coritiba e ali se perguntou se ainda suportaria esse tipo de ambiente. Alex parou em 2015. É técnico desde 2021.

Com impressionante memória, lembra números, locais, datas e valores. Percorre as origens, as transferências que marcaram a carreira de um craque habilidoso e artilheiro. Também conta os sabores e dissabores com a Seleção e deixa alertas para as jovens promessas. Da exposição precoce, dos cuidados com vícios de apostas, dos mitos da carreira de técnico, Alex exibe visão de jogo 360º que o eternizou nos corações de três grandes torcidas brasileiras e o fez semideus na Turquia, onde foi comandado pelo seu ídolo: Zico.

Nome: Alexsandro de Souza

Nascimento: Colombo (PR), em 14/9/1977 (48 anos)

Clubes como jogador: Coritiba, Palmeiras, Parma, Flamengo, Cruzeiro e Fenerbahçe (Turquia).

Clubes como treinador: São Paulo (sub-20), Avaí, Antalyaspor (Turquia), Operário e Athletic.

Títulos como jogador: Seleção: Copa América (1999 e 2004) e Pré-Olímpico (2000). Palmeiras: Copa do Brasil, Mercosul (todos em 1998), Libertadores (1999). Rio São-Paulo (2000). Cruzeiro: Mineiro (2003 e 2004), Copa do Brasil e Brasileiro (2003). Fenerbahçe: liga turca (2004/2005, 2006/2007 e 2010/2011), Copa da Turquia (2011/2012) e Supercopa (2007 e 2009). Coritiba: Paranaense (2013).

Pela Seleção, 49 jogos, 12 gols e 11 assistências. Na carreira, 1.034 jogos, 422 gols e 356 assistências.

Alex Abre Aspas

Abre Aspas: Alex

ge: Você contava do caso no cinema ainda quando jogava. A relação dos jogadores com o ambiente do futebol mudou muito com as redes sociais?

– (Hoje é) pior, bem pior. Porque (tudo) reverbera, tem exposição na rede social. Eu sempre brinco com os jogadores: para eu ver um gol meu, eu tinha três opções. Você tinha os gols do Fantástico à noite ou um programa qualquer de discussão de futebol. Se você perdesse aquilo, tinha os telejornais pela manhã, 6h30, 7h, e provavelmente você não via, porque estava dormindo. E tinha o horário de almoço para os programas esportivos, e acabou. Hoje, não. Acabou o jogo, você pega o celular, 10 minutos depois o jogo já está baixado no canal de YouTube e você consegue ver, e se perder, você vai ver de novo e vai ver de novo. Hoje chega numa velocidade absurda, seja elogio, seja crítica, então pega, porque é automático. Então assim, por exemplo, eu era criticado no domingo, eu ia saber na segunda; eu era elogiado no domingo e ia saber na segunda. Hoje não, hoje chega numa velocidade absurda, seja elogio, seja crítica.

"Se ganhássemos, era por nossa causa. Se perdêssemos, era por nossa causa também. Aí eu falei: ‘não tenho mais saúde para isso para suportar esse tipo de coisa’. "

O jogador chega no vestiário e pega o telefone.

– É automático, você está acostumado. O telefone está na sua mão, e você cria um vício, um hábito. Então, a velocidade das notícias, sejam elas positivas ou negativas, elas chegam muito mais rápido e com uma força muito maior. Antigamente, quem criticava alguém do futebol, seja treinador, jogador ou qualquer outra área, era alguém específico, um jornalista que você sabia quem era. Hoje, não. Hoje, o cara abre um celular, ele monta um canal dele e fala aquilo que ele sente. O sentimento é a expectativa dele.

"Atinge, claro que atinge... porque são pessoas. E ,aí, tem um treinador, tem um jogador, as famílias. Mas tudo mudou. Ou nos adaptamos a isso ou a gente enlouquece"

Alex em entrevista ao Abre Aspas há duas semanas

Como acha que seria sua vida se jogasse nesses tempos?

– Se tivessem redes sociais, provavelmente eu não jogaria. Eu estreio no time principal do Coritiba em 95, chego no Palmeiras em 97. Então, de 95 até 1998, eu fui super irregular, mas muito irregular, de fazer jogos maravilhosos e de fazer jogos horrorosos. E aí começaram essas críticas em cima dessa irregularidade, que era normal, era natural. Se fosse hoje, era 15 vezes maior. Mas eu era um menino de 17 anos em 95 e de 20 para 21 anos em 98. Eu fui pulando etapas. De repente, quando eu tinha que estar no sub-20 aprendendo, evoluindo, estava no time de cima, dando a cara a tapa, aprendendo e fui me virando. Assim, vários que tinham talvez até mais qualidade do que eu, mas não tiveram esse suporte familiar, mental, de amizade, de uma rede mesmo de apoio, sucumbiram no meio do caminho. Hoje seria bem pior, né? Porque, como a gente conversou há pouco, a velocidade e a massificação da coisa são muito maiores.

Acha que o futebol já deve ter perdido vários talentos?

– Vários, milhões... Antigamente se dizia que era frescura, que não existia. Esse tema de parte mental ninguém discutia. Era ou você aguenta ou você aguenta. Ou você aguenta ou você sucumbe e acaba indo para um outro caminho. Não tenho dúvida nenhuma que muita gente fica pelo caminho.

Se o menino não consegue render ali (da base para o profissional), a paixão do torcedor acaba matando aquele talento.

O seu início no Coritiba você usava cabelo black. Tinha inspiração?

– Usei black até o Palmeiras. Eu nasci em 77, era um menino que cresci na periferia de Curitiba. Cortar o cabelo custava dinheiro, não tinha dinheiro e o cabelo ia crescer. Então, o dinheiro da minha família era usado para outras coisas antes de uma barbearia num corte. Aí eu lembro que eu cortei assim de verdade num trote. Eu sou convocado para a Seleção Brasileira Sub-17 em 92, e eu estudava num colégio em Curitiba, que tinham outros atletas de outras modalidades também convocados, e o cabelo foi raspado. Aí deixei o cabelo crescer de novo.

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– Quando eu chego no Palmeiras, tinha um pessoal que levava barbeiro para dentro do hotel. Aí eu começo a cortar o cabelo. Anos depois, quando eu chego no Cruzeiro, eu sento com o Cris e com o Paulo Miranda e falo: "como é que é esse negócio aí, o que que vocês fazem?" "Ah, tem essa maquininha, a gente corta no vestiário." E eu começo a raspar e fica mais fácil. E de lá pra cá, eu deixei crescer na Turquia, mas aí foi pelo frio. Sofri muito no frio da Turquia. Fiquei black ali dois anos e depois voltei a ficar carequinha como eu estou.

Alex com o cabelo raspado no Palmeiras

Os seus pais trabalhavam quando você era criança?

– Minha mãe era cozinheira, tinha um banco do Estado na época, o Banestado, que tinha um conglomerado grande num bairro próximo ao meu lá em Colombo, do lado de Curitiba. Tinha uma cozinha para servir todos aqueles funcionários e todas as pessoas que frequentavam. Depois, ela seguiu sendo cozinheira em hotel, empresas que serviam a muitos funcionários. E o meu pai, que já faleceu, foi pintor de parede a vida inteira, até o momento que ele se aposentou.

Quem mais, além de você, jogou futebol na família?

– Meu irmão do meio, Alexandre, jogou, mas parou ali com 20, 21 anos. Jogou na base do Coritiba, em alguns clubes, mas resolver parar e seguir outra coisa. O meu irmão mais novo, enquanto criança, joga muito pouco, mas eu convivi pouco com ele, porque a diferença são 10 anos. Então, quando eu saio para o Palmeiras, que eu tenho 19, ele tem 9. Então esse período ali dele saindo da infância para a adolescência eu convivi pouco, porque eu estava em São Paulo, batia as peladas dele.

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O futebol para você era uma necessidade dar certo?

– Não... Para mim era desejo mesmo, era o que eu gostava de fazer. Desde criancinha, comecei a seguir meu pai. Ele jogava com o pessoal do bar, e eu estava sempre com ele. Nos caminhões abertos, era uma festa. Eu jogava com meu pai. Minha mãe, ela tem cinco irmãs e um irmão. Esse irmão, meu tio, jogava junto com o meu pai. E das cinco irmãs, mais a minha mãe, jogavam. Tinha um time de futebol feminino numa época que era difícil de jogar.

Era proibido futebol feminino até, não era?

– Então, eu tenho casos maravilhosos que vi. De jogos serem parados pela Polícia com a minha mãe no gol. Ela era goleira desse time dentro do meu bairro. A Polícia chegava e mandava parar o jogo. Isso eu tinha uns 11, 12 anos, era 88, 89. Juntava a mulherada do bairro para jogar.

Pai de Alex, de braço cruzado, em pé, à direita. Ele está agachado com a bola. No time feminino, a mãe de Alex é a goleira

E sua história no Coritiba?

–O futebol começa a sorrir para mim desde o primeiro dia, porque eu vou para Curitiba para fazer uma peneira, levado por um amigo chamado Sílvio, que era dois, três anos mais velho do que eu. Eu tinha nove para 10 anos. Isso é março de 87, e o treinador do Coritiba era um senhor muito famoso em Curitiba, chamado Professor Miro. Ele me vê treinando e, em 10 minutinhos, me tira do treino e fala: "Espera aí que eu vou te levar pra AABB (Associação Atlética do Banco do Brasil), porque não tem competição para a tua idade de nove anos. Mas eu acho que o futebol de salão pode te ajudar." Para eu fazer esse teste, meu pai ficou enrolando tipo um mês, 40 dias para conseguir o dinheiro que era para pagar o ônibus. Hoje em dia, dificilmente vai acontecer isso: uma criança de nove anos pegar três ônibus com um amigo mais velho, chegar lá, bater na porta de um clube tradicional, como o Coritiba, e fazer o teste. Eu fiz e falo para o treinador: "Cara, eu preciso voltar, meus pais estão esperando." Ele falou: "Não se preocupe, vou te levar no futebol de salão, você vai treinar com o pessoal e, acabado o treino, eu levo você para casa e converso com os seus pais."

– E ali eu fico jogando futebol de salão, com o ex-treinador do Coritiba me observando. Eu começo a ganhar dinheiro com 10 anos. As memórias são muito grandes na minha cabeça. Eu lembro de um período ali quando começa o governo Collor, que começa a ter aquele problema, teve uma crise do leite enorme no Brasil, que eu lembro que você tinha que ir em vários bares e em várias padarias diferentes. E, num dado momento, quem sustentava, a minha ajuda para o meu pai e para a minha mãe, era o dinheiro vindo do futebol de salão. Nos dias de hoje, seria o quê? Um terço de um salário mínimo ou alguma coisa. Então completava o dinheiro que o meu pai ganhava na construção civil e oque a minha mãe ganhava na cozinha.

Alex, quando menino, atuando no futsal

– Quando eu assino o meu primeiro contrato com o Coritiba (R$ 700), era menos do que eu ganhava no futebol de salão (R$ 900), por exemplo, porque o pessoal da AABB realmente cuidou de mim e me deu o caminho que eu consegui seguir depois.

"Não era uma necessidade virar jogador, era prazeroso. Eu era um menino que jogava bola com a rapaziada e ainda ganhava um dinheirinho para ter as minhas coisinhas e ainda ajudar meu pai e minha mãe"

Seus ídolos quem eram?

– Zico... Zico e Sócrates, na verdade, mas assim, se eu for escalonar, o Zico primeiro. Passavam muitos jogos de Rio e São Paulo, eu não tinha televisão na minha casa. Era um bar que tinha do lado para ver futebol, o pessoal lá jogando sinuca, jogando carta e o jogo passando na televisão. Normalmente era Flamengo, normalmente era Vasco, normalmente era Fluminense, era os quatro do Rio e era os quatro de São Paulo. E o que me chamava a atenção ali era o Zico no Flamengo, era o Assis no Fluminense, era o Roberto e o Geovanni no Vasco, era no Corinthians o Sócrates.

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Como foi quando você conheceu o Zico?

– O Zico apareceu um dia na Gávea. Eu estava no Flamengo. Era um treino, e ele apareceu lá. Fui lá, me apresentei, batemos uma foto, e ele desejou boa sorte no Flamengo, isso em 2000. Eu vou embora, ele vai fazer as coisas dele e eu vou seguir o treino.

– Seis anos depois, ele se torna meu treinador na Turquia. O calafrio maior foi na Turquia, porque ele se tornou meu treinador. Então ele chega, ele me chama, a gente começa a conversar e era difícil. Ao me transformar em jogador dele na Turquia, ele me transforma em capitão do time, aí é uma loucura, aí causa sentimentos maiores. Eu falei para ele (da minha idolatria), foram seis meses bem difíceis de lidar, porque o cara era meu treinador e me transformou no capitão do time, mas ao mesmo tempo ele era o meu ídolo, ele era o cara que eu queria ser, ele era o exemplo maior que eu e a minha geração seguíamos. Aí depois ele se mostrou que era o que todo mundo conhece, da simplicidade e do dia a dia dele. A gente se torna jogador e treinador, e isso se torna uma amizade que talvez seja uma das maiores alegrias que eu tenho como ex-jogador de futebol: é de poder ter relação com o Zico, né? De pegar o telefone, ligar para ele, conversar com ele a respeito de qualquer coisa. Então isso, as satisfações que o futebol me deu, uma delas, com certeza, é essa.

Alex e Zico no Fenerbahçe

Lembro que antes do Palmeiras, muitos clubes te queriam.

– Eu fui (vendido) para todos os lugares (risos). Fui para os quatro do Rio, para os quatro de São Paulo.

Como todo jogador promissor, tinha uma coisa de ser paparicado no Coritiba?

– Eu era muito mimado no Coritiba. Isso talvez tenha me atrapalhado. Era aquela coisa de "você é um belíssimo jogador de futebol, tem uma canhota muito boa e vai lá jogar bola". Eu fui aprender a ter comportamentos de time quando eu chego no time principal, porque a exigência era maior, né? Até porque eu queimo etapas. Quando é para eu subir para o sub-20, eu vou para o principal. Três meses depois, eu me torno titular e cheio de defeito, cheio de comportamentos que eu não tinha, porque eu nunca tinha sido exigido. Então, assim, era um menino que, "pô, ele é bom jogador, deixa ele tocar..."

Alex é um dos nomes do mural da história do Coritiba

Você estudou sua carreira quando deixou de jogar? O treinador Alex teria aproveitado o meia Alex de outra maneira?

– Não, não, eu fui bem aproveitado. Mas defeitos do meu jogo, eu tive vários. Eu sem a bola ajudava pouco, o meu nível de composição defensiva era baixo, meu nível físico era baixo perto dos outros, e eu fui insistindo, fui tentando, fui buscando melhorar, mas naturalmente era ruim, não era bom. E aí, no meio do caminho, quando eu era exposto, essa parte física, ela ficava evidente; essa parte defensiva, ela ficava evidente; essa parte de jogar sem a bola, ela ficava evidente. Alguns treinadores me protegiam um pouquinho, fazia uma composição com outros jogadores, para fazer um balanço e a coisa ia acontecendo. Mas meu jogo tinha vários defeitos.

Você acha que faltou paciência na Seleção para ter mais chances? Você fazia bons jogos, mas quando jogava mal, sumia da lista, sumia do time. Como acontecia com o Djalminha, por exemplo.

– A seleção brasileira passa muito por confiança do treinador. Uma vez eu falei que não iam os melhores e sim que iam aqueles que o treinador escolhia, porque é um fato, e não estou dizendo de que quem foi não merecia ir, não é nada disso. Vai quem o treinador confia mais. Então você deu o exemplo do Djalma. Talvez o Djalma não tenha tido cinco jogos diretos na seleção, talvez ele não tenha tido 50, 70 minutos... Estou dizendo 70 porque sairia substituído. Posso estar falando besteira, mas talvez não tenha. Tem outros jogadores que tiveram, por quê? Porque o treinador confiava na característica dele. Então isso acontece. E Seleção você não tem muito tempo, né? Você vai, treina dois, três dias e joga, aí o teu rendimento te define. E tem muito a questão de um quesito sorte, porque muitas vezes você entra no jogo, toca uma vez na bola, a coisa é encantada, a mágica acontece. Outras vezes você joga 60, 70 minutos, a coisa acaba não acontecendo. Então eu vejo isso com naturalidade, mas é muito mais da confiança de quem comanda de dar essa sequência para o cara.

Momentos de Alex na Seleção

Você era um jogador de tirar um coelho da cartola, mesmo que não fosse fisicamente tão forte.

– Tirava, tirava. Eu fui um jogador de média de 22, 23, 30 gols por ano, fui um jogador ao longo da minha vida que a minha participação no final do ano era de 30 assistências direto, e as críticas sobre mim eram baseadas em alguns jogos. Vou dar o exemplo no Coritiba: eu jogo os meus dois primeiros anos, eu sou o principal artilheiro ou eu sou o segundo artilheiro, e eu sou o melhor passador. Eu vou para o Palmeiras, no meu início eu fico atrás de Oséas e Paulo Nunes e estou ali como o terceiro goleador e estou junto com o Arce e com o Zinho como melhores passadores, e vou embora, e vou seguindo assim. Inclusive na própria Seleção os números mostram isso, eu fiz gols, eu tenho as participações. Então assim...

– Tive jogos ruins? Pô, tive jogos horrorosos, jogos que eu falei: "Meu Deus do céu, que jogo horroroso!", mas nos números, numa contagem detalhada, minha participação sempre foi efetiva, eu sempre ajudei os times em que eu participei. Isso aí a pós-carreira, ela fica bem evidenciada.

Cruzeiro e Coritiba: Dois times que estão no coração do eterno craque Alex

Você teve fase de noite, de deslumbramento?

– Eu era muito tranquilo. Eu estreio em 95, eu ando de ônibus em Curitiba em 95, em 96, como titular do Coritiba, mas numa época em que você só conhecia jogador de futebol se você lesse jornal ou se visse programa esportivo toda hora. Estava sempre com o fone de ouvido, ouvindo minha música, pegando os meus ônibus na cidade... Nesse momento eu ainda estudava. Saía de manhã, ia para a escola ou depois já no profissional, de casa para o Coritiba, para a AABB, depois o profissional do Coritiba para casa.

"Eu nunca fui o cara de buscar muita diversão fora, porque a minha diversão era jogar bola"

– Nunca gostei da noite, nunca... Deu 11 horas da noite, estou dormindo. À noite, eu participo de algumas coisas e tal. Estou com 49, mas com 19 era igual. Esse desvio que alguns têm porque gostam, porque tem paixão, não era o meu caso. Amo música, amo samba e tal, mas eu sempre brinco que eu preferia um samba mais vespertino, que acabasse ali por volta de 10:30, 11 da noite, do que esse noturno que começa às 10 da noite.

Alex e família ao lado da sua estátua, em Istambul

O que você ouvia?

– Do samba, era Fundo de Quintal, Reinaldo, Roberto Ribeiro, Beth Carvalho... Vou falar aqui, vou esquecer de muita gente: Zeca, Arlindo Cruz, Leci Brandão, Jovelina... Estava falando aqui, vou lembrando e, ao mesmo tempo, você ainda vai esquecer alguém.

Você casou cedo, né? Como foi a decisão de casar cedo?

– Eu caso com 22 para 23 anos, a Daiane tinha 16 para 17. O casamento foi muito natural. Eu comecei a namorar, acabei indo para São Paulo. Namoro à distância, eu no Palmeiras, ela em Curitiba, e o Palmeiras começa a criar uma situação de transferência, né? Meu contrato acabaria em 2000, e eu, fatalmente, seria transferido, porque a minha carreira estava seguindo, estava jogando bem no Palmeiras, eu tinha chegado na Seleção. Era um caminho natural ir para o futebol europeu. E, paralelo a isso, a gente começou a falar sobre formação de família. Então, quando eu saio negociado para o Parma em 2000, o casamento já está agendado.

O seu sogro foi presidente do Coritiba. Como era esse convívio?

– O Edson, meu sogro, foi presidente do clube. Mas não foi meu presidente por uma situação que aconteceu em 95. Quando eu subo, o presidente do Coritiba, Evangelino da Costa Neves, acaba tendo uns problemas financeiros, ele é destituído e assumem três empresários de Curitiba: o Joel Malucelli, o Sérgio Pires e o Edson, meu sogro. Na divisão, o Edson ficava com com o futebol. Então eram três pessoas ali que comandavam o clube. Ele foi presidente na década de 80, acho que no primeiro mandato dele, e depois, quando eu já estava na Turquia, também teve um outro cargo importante, mas como presidente, não, não aconteceu, aconteceu como diretor de futebol.

Alex, o filho Felipe e Edison Mauad, sogro e ex-dirigente do Coritiba

O Palmeiras foi o momento que você ganhou primeiro dinheiro importante na vida?

– No Palmeiras, eu ganhei menos dinheiro do que no Coritiba. Minha história com dinheiro é a seguinte: eu assino meu primeiro contrato com o Coritiba em 95, por R$ 700. Eu ganhava no futebol de salão R$ 900. Eu estreio contra o Irati, e eu vou para a AABB, porque tinha um jogo do Metropolitano adulto. Eu era jogador de futebol profissional no Coritiba, mas jogava futebol de salão. E quando eu chego na AABB, tinha um senhor chamado Zé de Oliveira, um diretor no Coritiba. Estavam juntos com o Cláudio Marques e o Paulo César Carpegiani (treinador do profissional), que falou: "Não, você não pode jogar, você tem que escolher." Falei: "Cara, então nós temos que fazer um contrato, porque é o que me sustenta para ir e vir de Colombo, o dinheiro das minhas passagens do ônibus..." "Não, então nós vamos fazer um contrato com você." O Coritiba pode te pagar R$ 700. Aí eu acerto os R$ 700, é o ano que a gente sobe para a primeira divisão, vem 96 e aí a primeira vez que eu converso com o meu sogro e ele: "Vamos renovar o contrato."

– Eu começo a pesquisar com os caras quanto cada um ganha. O craque do nosso time era o Pachequinho. Eu lembro que eu liguei para ele e falei: "Pacheco, quanto você ganha e, para mim, assim, quanto você acha?" Eu não tinha procurador, não tinha nada. "Entre R$ 5 e R$ 10 mil tá ótimo", ele me fala. Aí eu sento com o meu pai. Meu pai falou: "Pô, eu ganho R$ 500, trabalho o mês todo, acordo 4h30 da manhã, volto 6 horas da tarde. Qualquer R$ 3 ou R$ 4 mil tá ótimo." Eu chego no Coritiba pensando: "se me oferecerem R$ 3 mil, está maravilhoso." Aí o Edson senta comigo e fala, contou aquelas lorotas de clube, né? "É, o clube está com dificuldade...", achando que eu fosse dificultar alguma coisa, porque eu era um atleta da seleção sub-20 e estava com moral. "Então aqui, nas nossas contas e tal, eu posso te pagar R$ 7 mil." "É, tá bom, dá aqui o contrato para eu assinar."

Assinei o contrato, fui para um bar que tinha na Mauá, no Coritiba, dentro do campo do Coritiba, e fiquei feliz pra caramba com a molecada, que era molecada da minha idade que eles estavam se preparando para jogar as competições deles ali. Fiquei ali, joguei sinuca a tarde inteira, cheguei em casa, contei para meu pai: "Eu vou ganhar R$ 7 mil reais." Todo mundo ficou feliz.

– Acabo o ano ganhando R$ 7 mil reais. No ano seguinte, eu já bem na Seleção, vou renovar, pula para R$ 22 mil reais. E aí vem o Palmeiras me contratar, me oferece R$ 13 mil, eu aceito e vou para dar sequência na minha carreira, porque eu achava que era o próximo passo a ser dado.

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Mala no estacionamento

– O Coritiba me vendeu por R$ 3 milhões, eu tinha direito a 15%. Aí foi a primeira vez que eu vi dinheiro de verdade, porque o Brunoro, diretor da Parmalat, foi para Curitiba e leva o dinheiro numa mala. Meus 15% vêm numa mala. Nós abrimos a mala no estacionamento do Couto Pereira, de frente para a Igreja do Perpétuo Socorro, numa sexta-feira à tarde. Eu abro o dinheiro, abro, vejo aquele tantão de dinheiro. Eu falei: "Agora, como é que eu faço? Vou para casa com esse dinheiro?" E aí o Edson entra para mim e fala: "Não, deixa o dinheiro comigo, coloco aqui no cofre do Couto Pereira, segunda-feira você vem aqui no primeiro horário, a gente coloca o dinheiro no banco e fica assim." Essa foi a minha primeira relação com o dinheiro, e eu termino o meu ano de 97 a 2000 no Palmeiras ganhando R$ 13 mil. E aí vou para a Itália, aí realmente os contratos passam a ser, a ser maiores, a ter outros valores.

Alex pelo Palmeiras em 2000: "o Palmeiras me oferece R$ 13 mil, e eu aceito porque eu achava que era o próximo passo"

O que que o dinheiro proporcionou para você?

– Conforto. Só. O restante não mudou nada. Eu acho que você não tem preocupação com os boletos, com o preço das coisas. Isso o dinheiro te traz. Mas eu entendi. ao longo da vida. que uma coisa é preço, outra coisa é valor. Então eu dou muito valor ao dinheiro que foi conquistado através do futebol, porque eu sei que vai me dar conforto para aquelas coisas que têm preço no dia a dia. Mas eu sou muito mais dos valores do que propriamente do dinheiro.

A gente vê, infelizmente, muitos jogadores com dificuldade depois que param...

– Eu não... sempre fui muito tranquilo com isso, acho que ganhei bom dinheiro jogando futebol e sempre olhei para a minha vida da seguinte forma: "Pô, eu quero viver velhinho e eu não vou jogar bola sempre, eu não vou conseguir jogar bola depois dos 35." Acho que quando eu cheguei em 37, eu falei: "Cara, eu já estou na hora extra." Então assim, eu sempre me imaginei velho, sempre me imaginei avô, então para eu me imaginar avô, ter a mesma condição que eu tenho hoje, eu tenho que ter controle financeiro, foi o que eu sempre procurei fazer.

A vida de treinador

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Você anota muitas coisas. O que já escreveu desse teu início de vida aí de treinador?

– Várias coisas, várias coisas. Primeiro que ser jogador é uma coisa totalmente diferente de ser treinador, essa é uma coisa... Quem quiser um dia ser treinador achando que só jogou e vai virar treinador, vai quebrar a cara. É uma outra realidade, você tem que se relacionar diferente com os atletas, você tem que se relacionar com a tua comissão técnica, que hoje é uma comissão técnica robusta, com muita gente. Você tem que ter o mínimo de entendimento do que aquelas pessoas são formadas, tem que ter o mínimo para poder discutir com eles, porque eu não tenho formação. Eu não fui para a faculdade. Minha formação é a de vida de ex-atleta, que eu fui fazer em cursos de treinador. Nós estamos falando aí de quatro, cinco anos... Agora nós estamos falando de profissionais que estudaram a vida inteira, que vivem hoje a força da ciência no futebol e no esporte, e você tem que se relacionar com isso. Tem que se relacionar com diretores, às vezes diretores que entendem muito do que está acontecendo, às vezes os diretores que são só paixão, que só são o coração, que estão ali por alguma razão e talvez nem entendam o que está acontecendo, mas estão ali. Tem que lidar com a imprensa, tem que lidar com a realidade das redes sociais hoje. Então tem muita coisa para você ir anotando no dia a dia.

Você teve que aprender a ser treinador?

– Total, 100%, com uma outra diferença: eu tinha o poder de execução, eu executava. Como treinador, eu não executo, então eu posso ter ideias, eu posso dar caminhos, eu posso dar rotas, mas a execução é de outro. Eu sempre costumo brincar que o treinador é meio que um instrutor de autoescola: "Olha, nesse momento você dá seta, nesse momento você direciona para cá, nesse momento o volante vem aqui, nesse momento pode..." Beleza, é um instrutor, está ali, está tranquilo. E você larga para o jogo, o jogo é o trânsito, o jogo é um jovem que acabou de ir para o trânsito, e aí ,nisso, vai passar um cachorro, uma pessoa, um velhinho, um cadeirante, entrar um carro com velocidade, vai vir um ônibus, vai ver uma bicicleta. Tem muita coisa que é o caos do jogo. Então assim, com certeza, como treinador, você tem que, no meu caso, ir aprendendo todo dia, porque todo dia vai acontecer algo novo.

– E no meio disso são pessoas, eu tenho 32 jogadores, então são 32 educações diferentes, 32 pessoas diferentes, 32 realidades diferentes. Então não é algo simples e com certeza eu sou um aprendiz nessa situação.

Antigamente, se falava que o craque não virava um bom treinador. Outro dia eu vi uma crítica, quando você estava no Avaí, do tipo: "o Alex não consegue aguentar, porque o cara não consegue fazer o que ele fazia." Você já ouviu esse tipo de coisa?

– Mas é besteira, porque eu não olho para o jogador dentro daquilo que eu fazia, porque o que eu fazia era meu, era nato meu. O que eu reflito é como eu posso ajudar aquele cara ali, e talvez essa realidade é muito mais de quem fala (sobre mim) do que minha. "Ah, o Alex faria isso, mas o Alex treinador não faz." É óbvio, o Alex treinador está lá no banco. Eu nunca olhei para um jogador, um número 10 como eu: "Porra, eu faria tal coisa." Eu, dentro do treino, falo: "Cara, perceba nesse momento..." Hoje, com essa realidade de vídeo, eu falo para o cara: "Nós vamos sentar na sala e vamos ver o vídeo, e você vai ver outras perspectivas que talvez eu já tenha visto dentro do campo." Mas eu nunca me coloquei nesse lugar. Quando o Zico era meu treinador, o Edu (Coimbra, irmão e ex-auxiliar) falava: "Você era o Zico, para você é fácil." Só que era o Edu falando da perspectiva dele. Então, quando alguém fala usando o meu nome: "Ah, o Alex não aguenta". Você nunca me perguntou isso e, sinceramente, nunca passou isso pela minha cabeça.

"Uma coisa que faço sempre, desde quando começo no São Paulo, é respeitar a história das pessoas, porque acho que, em vários momentos da minha carreira, eu fui respeitado dentro das minhas características, mas em outros eu fui desrespeitado nas minhas características. Então, o que procuro fazer sempre é respeitar a história e as características do atleta"

Hoje, você acha que você teria feito alguma coisa diferente em relação aos treinadores que passaram, tendo essa visão de como é estar no outro lado, que antes você não tinha?

– Antes de ser treinador, eu sempre aceitei a decisão do treinador. Aceitar não quer dizer que eu concorde, mas eu aceitava e está tudo bem. Hoje, como treinador, acontecem algumas coisas, eu olho para trás e falo assim: "Pô, eu acho que o cara agiu dessa forma por isso", e está tudo bem, porque, como eu falei aqui em um dado momento, quando acabou a minha carreira, eu olhei para trás e falei: "Pô, foi legal pra caramba, as decisões que foram tomadas, foram tomadas, serviu como aprendizado e vamos tocar em frente." Então assim, eu sempre procuro respeitar quem está do outro lado. Antes era eu, o atleta, respeitando o treinador; hoje sou eu, o treinador, respeitando.

Gestão de grupo é um desafio muito grande para o treinador?

– Esse talvez seja um dos maiores mistérios do futebol, porque as pessoas imputam a gestão de grupo ao treinador, e o treinador é parte disso. Nessa robustez que existe hoje de comissão técnica, de gerência e de gestão, se o treinador tem uma ideia, mas o meu gestor acima não tem essa ideia, quem vai gerir esse grupo? O treinador está no meio, o jogador está no meio do negócio. É como um pai e uma mãe: o filho vai pedir para o pai uma coisa, o pai fala A, a mãe fala B, o menino no meio do caminho vai começar a manipular os dois. O jogador, inteligentíssimo nessa gestão de grupo, ele tem essa percepção: o treinador está no caminho da esquerda, a gestão está no caminho da direita, porque no meio disso nós encontramos o clube que não paga, o clube que o cara é mentiroso, o cara fala e faz diferente. Existe uma outra coisa: você faz um acordo com o clube e na hora H o clube age de outra forma.

"Quem fica exposto é o treinador, que está no meio do caminho. Então, gestão de grupo, o treinador é peça, ele não é a parte principal, é uma parte que tem outras partes que, se não caminhar junto... Eu sempre uso um termo que é o seguinte, que é discurso versus ação. Se o teu discurso for um e a atuação for outra, em algum momento isso vai te trazer problema"

Alex de Souza, técnico do Athletic

Isso vale, por exemplo, para o caso de você ter estilo ofensivo, mas o seu gestor querer ser conservador?

– Vou te dar um exemplo do que aconteceu no Avaí: nós começamos o Brasileiro (Série B) e perdemos de 4 a 1 para o Guarani, em Campinas. No minuto 30 do segundo tempo, estava 1 a 1. Nesse dia era a estreia do Wellington, ex-São Paulo, Athletico, Fluminense. Tinha dois, três meses que não jogava, ele encosta e fala: "Alex, morri, não aguento mais." Eu faço a troca do Wellington por um outro volante da mesma posição, e a gente toma o 2 a 1 num lance em que o menino do Guarani faz uma jogada bonita. A gente sai para tentar empatar o 2 a 2, tomamos mais dois gols no final, e o jogo acaba 4 a 1. No dia seguinte, tem uma reunião, e a discussão era essa: "Nesse momento (da troca), você tinha que fechar o time." Falei: "Mas eu não abri o time." E aí é uma discussão de visão, aí é perspectiva. Então, nessa, a perspectiva dos caras é que a gente sustentasse o 1 a 1 e, dentro disso, talvez pôr um zagueiro. Só que é o seguinte: se eu coloco o zagueiro e esse zagueiro falha, a perspectiva se altera de acordo com o resultado. Então, assim, se você não tiver ali com o discurso e a ação bem definida, você acaba se perdendo, e a coisa tende a não funcionar.

Todos os gols de Guarani x Avaí

A gente falou de redes sociais, mas hoje existe uma série de informações que chegam aos atletas. Como orientar o jogador a lidar com tudo que existe nesse universo?

– É preciso peneirar e ficar com as (coisas) mais importantes. Hoje jogador de futebol tem analista particular de performance. Se o analista estiver passando coisas diferentes do modelo que o treinador está pedindo , já dá problema. Eu tive jogadores nesse período, como treinador, que eles se preocupavam em chutar no gol, porque dava número para ele na plataforma, e é uma realidade.

– Então, a gente tem que dar uma peneirada e ficar com os dados importantes dentro daquilo que a gente acredita, dentro daquilo que está fazendo no dia a dia, porque, de novo, olhar e perspectiva são diferentes. Eu vou para um jogo com uma expectativa, você vai com outra. Qual é a que vale? Aí o clube é que determina qual é a que vale, se vale do externo ou do interno. Essa peneirada, eu acho que é o principal.

Você é adepto de cartilha de comportamento? Você acha que funciona?

– Funciona, mas depende do clube. Se é... sei lá, "celular só em determinada hora"... é difícil, por exemplo: como é que eu vou controlar o celular se o cara tem música, se o cara tem a oração dele ali, se o cara tem vídeos que ele gosta? Então assim, tem muita coisa. Aí eu chego e falo assim: "Ó, no departamento médico, na sala de fisioterapia, eu não quero que ninguém use." Mas o fisioterapeuta usa: "Ok, deixa." Então assim, de novo, num contexto onde tem muita gente, as regras, elas existem, mas elas são aplicadas ou não por pessoas, e aí é difícil de você conseguir controlar isso.

Alex foi treinador do sub-20 do São Paulo

Você tem um jeito bem enfático de falar, mas é mais tranquilo. Muitas vezes se acha que o treinador tem que ser um sargentão. Você já teve os dois tipos na carreira...

– Eu acho que treinador é o que ele tem de visão do mundo. O treinador não vai conseguir passar o que ele não conhece. Vou dar o exemplo de dois supercampeões: eu pego o Felipão no auge e pego o Vanderlei (Luxemburgo) no auge. Um é um cara do subúrbio carioca e o outro é um cara do interior do Rio Grande do Sul. São pessoas diferentes, eles enxergam o mundo de maneira diferente, eles vivenciaram coisas diferentes. Então, se você pegar nos dias de hoje qualquer treinador, aí você tem que ver que cada um fala em cima daquilo que ele tem de visão de mundo: às vezes mais explosivo, às vezes menos explosivo; às vezes mais expansivo, às vezes menos; às vezes o que fala muito, às vezes falando menos. Eu dependo do dia, dependo do contexto, dependo do treino, dependo do jogo. Durante o jogo, eu sou um cara mais de ficar vendo o que está acontecendo.

"Dificilmente você vai me ver gritando com alguém, dando um showzinho na beira do campo. Por quê? Porque eu não sou assim. Agora, no treino você pode me pegar em um treino, um dia em que eu fique uma hora gritando"

Seleção, Turquia e Cruzeiro

Você teve seus momentos na Seleção. Mas não teve a Copa. O que mais você guarda?

– Cara, eu vivi a Seleção. Foi mágico (viver). Eu chego na Seleção em 98, no primeiro jogo do Luxemburgo. O Zagallo acaba saindo pós-Copa da França, e o Vanderlei assume. O Vanderlei assume com a missão de montar o time para 2002 e, no meio disso, tinha a Olimpíada de Sydney. Então ele trabalhava com duas frentes: a de trazer jogadores que pudessem dar um suporte, mas começar a colocar os novos que tinham idade para jogar a Olimpíada.

– Entre 98, no primeiro jogo do Vanderlei, e 2006, Pré-Copa do Mundo da Alemanha, eu participei de 80% das coisas. E aí fui feliz, saí chateado, fui triste, fui elogiado, fui criticado... Algo normal e natural para quem está dentro da Seleção. Tivemos uma Copa América do Paraguai espetacular, ganhamos bem, foi a minha primeira competição na Seleção principal. Na sequência, pouco se fala, mas a gente fez uma Copa das Confederações boa e perdemos a final para o México num jogo cheio de ida e volta, num estádio na Cidade do México com mais de 100 mil pessoas (em 1999). Uma das festas mais bonitas que eu vi na vida de futebol.

Copa América - 1999

E tem o Pré-Olímpico depois...

– Talvez tenha sido uma das melhores preparações de time que eu vi. Ganhamos bem o Pré-Olímpico com resultados maravilhosos: ganhamos de 9 a 0 da Colômbia, de 4 a 2 da Argentina numa noite maravilhosa no Estádio do Café. Depois, nos preparamos mal para a Olimpíada. E aí entra essa coisa que a gente está falando da gestão: como a CBF olhou para aquela Olimpíada naquele momento? Estava bagunçado. Nós, por exemplo, entre janeiro (que foi o Pré-Olímpico) e setembro (que foi a Olimpíada), a gente se encontrou uma vez para enfrentar o Chile, que a gente já conhecia. Jogamos lá no Chile e jogamos em Florianópolis, se não estou enganado. Começaram a acontecer os problemas com o que se tornou a CPI do Vanderlei.

Brasil vence a Argentina por 4 a 2 pelo Pré-Olímpico de 2000

"A gente chega na Olimpíada sem treinar, sem estar preparado. Fizemos uma Olimpíada muito ruim. A minha maior frustração enquanto atleta é ter tido a chance de ser medalhista e não conseguir. Realmente o nosso nível foi abaixo".

Em 2000, Camarões elimina Brasil nas quartas-de-final dos Jogos de Sydney

- Depois vêm todas as mudanças na Seleção: sai o Vanderlei, o Candinho dirige um jogo contra a Venezuela e vem o Leão, na Copa das Confederações. O Leão faz todas aquelas mudanças, acaba não acontecendo, acaba perdendo o emprego e vem o Felipão. Aí vem essa Copa América da Colômbia. De novo, o time não se prepara, porque existia a dúvida se iria ou não por causa da guerra civil que estava tendo lá. A Argentina acaba não indo, o Mauro Silva, no aeroporto de Guarulhos, decide não ir... Tem uma conversa grande com a gente lá, o time vai capengando e acaba não acontecendo. A gente cai para Honduras, volta todo mundo criticado. Tem a sequência e vem a Copa. Eu não participo da Copa e volto no ano seguinte.

Em 2001, Brasil perde de Honduras por 2 a 0 na Copa América

Você ainda é convocado depois da Copa de 2002.

– Vamos para a Copa das Confederações em 2003, na França. Eu achei que seria titular absoluto, pois estava jogando muito no Cruzeiro. Quando eu chego lá, o Parreira senta comigo e fala: "Alex, você está vivendo um momento maravilhoso, mas eu tenho o melhor lado esquerdo do mundo, que é Gilberto Silva, Ricardinho e Kléber, e vou começar com esse pessoal". Aquilo foi quando eu pensei: "Caramba, não vou conseguir jogar mesmo na Seleção. Talvez seja o meu melhor momento de carreira e não tem ninguém da minha posição, e o Parreira vai jogar de um jeito diferente". E eu participo da Copa das Confederações, mas jogo menos do que eu imaginava.

– Vem a Copa América de 2004, que aí vem outra surpresa com o Parreira, de maneira contrária, positiva. Ele reúne comigo na Granja e fala: "Você vai ser o capitão do time pela tua história aqui dentro". A gente faz uma Copa América muito boa. Ela é deixada em segundo plano, porque a Copa América do Adriano foi um escândalo, um absurdo, mas a minha Copa América é boa. Eu sempre brinco: o momento do Adriano apaga a Copa América que a gente fez. Até esses dias eu estava vendo números de participações, e eu era um dos principais em Copa América.

Em 2004, Brasil comemora título da Copa América após derrotar a Argentina

Lesão antes da Copa

– Aí entra o ano seguinte, eu continuo sendo convocado. Teve um jogo aqui no Mineirão em que o Ronaldo faz três na Argentina, eu entro e participo. Aí vem a Copa das Confederações de 2005, que o Brasil é campeão. Eu estava no grupo, estou na primeira convocação, mas me lesiono no último jogo do Campeonato Turco e sou cortado. O Brasil vai e é campeão. A partir daí, monta-se uma base que é a base que vai para a Copa da Alemanha. Então, nesse período todo eu participei. Joguei amistoso, joguei competições oficiais, ganhei, perdi, chorei, dei risada... Dentro daquilo que é a vida de um atleta, principalmente nesse nível de Seleção Brasileira.

O que foi pior: não ir à Copa de 2002 ou não vencer a Olimpíada?

– Não ir à Copa de 2002 é uma decisão do Felipão, isso aí eu não poderia fazer nada. O que eu poderia fazer pelo Felipão, eu fiz e fiz muito bem-feito: trabalhei muito bem no Palmeiras com ele como meu treinador. Às vezes que eu estive com ele, fiz aquilo que ele tinha pedido e exigido. Convocar ou não convocar era uma decisão dele. Na Olimpíada, não: na Olimpíada eu estava lá, eu podia ter feito algo diferente. Eu podia ter acertado um chute, poderia ter feito um gol, e eu queria muito ser medalhista. Eu respeito demais os atletas olímpicos, mas respeito muito mais os atletas olímpicos medalhistas, porque acho que é muito difícil, é um caminho de vida, uma história longa para você poder chegar ali. Então eu me sinto lisonjeado de ter sido um atleta olímpico, mas que, infelizmente, fracassei, não conseguimos a medalha. Então essa, quando eu olho para trás para a minha carreira, é algo para deixar de lamentar: com certeza, a Olimpíada.

Seleção olimpica 2000

O Felipão te fez promessa de convocação?

– Não, não existe promessa. O que existia era uma relação de confiança. Foi meu treinador por três anos. Existiam conversas diárias. Sempre que a gente estava no Palmeiras, isso acontecia todo dia. Depois, na seleção brasileira, aconteceram conversas boas, mas ele tinha que fazer as opções dele. Acabou, infelizmente, eu ficando de fora.

– Eu só olho para aquilo que posso controlar. Quando a decisão é de um outro, é a perspectiva do outro. Na perspectiva do Felipão, naquele momento, ele preferiu outros jogadores. Então é algo que... É óbvio que eu fiquei chateado, porque acreditava que poderia ter ido, mas não é algo que eu fique olhando para trás e lamentando.

Quando você não é convocado, a sua mulher tem um aborto espontâneo. Como foi esse momento?

– Obviamente muito dolorido, mas a decepção já foi para uma coisa muito pessoal. O que acontece: na convocação eu não estou, eu sou atleta do Palmeiras na época ainda. Quando eu chego, ela fala: "Cara, tem uma notícia horrorosa, mas tem uma notícia boa: estou grávida". Aí você tira a não convocação e começa a olhar para o lado pessoal. Nesse momento, eu tinha mais um mês de contrato e ligo para o Luxemburgo. E falei:

"Vanderlei, perdeu o sentido. Eu não vou para a Copa, tem mais um mês, então acho que você já pode começar a preparar o seu time para a frente, porque você não vai contar comigo, pois eu tenho que voltar para a Itália". Rescindo com o Palmeiras.

Alex pelo Parma

– A gente fez um exame, viu que estava tudo bem e aí combinamos: "Ó, vamos para a Bahia, passamos uma semana na Bahia e na volta tocamos a nossa vida. Vamos para a Itália". Todo mundo feliz com a gravidez, e a Copa do Mundo se apresentando, seguindo...

"Voltando para Curitiba, no meio da Copa do Mundo, acontece o aborto espontâneo. Tanto que eu não vi os jogos do Brasil ao vivo. Eu vi os jogos do Brasil depois, mas durante a Copa, ao vivo, eu não vi".

– Ela tem o aborto acho que no dia do jogo da Inglaterra. Tem que ir para o hospital fazer uma curetagem. A curetagem não corre tudo bem, tem que fazer uma segunda curetagem 48h depois. O dia do jogo Brasil e Inglaterra foi uma pancada forte, principalmente porque era algo que a gente tratou como uma coisa muito boa, muito positiva, mas que, naquele momento, infelizmente, não aconteceu.

Você é religioso. Pensou que talvez não ter ido para a Copa tenha sido para você estar com ela?

"Várias vezes. Se eu vou à Copa, não participo desse momento, não vou para o Cruzeiro, não tenho 2003 na minha biografia, provavelmente não iria para a Turquia... "

- Porque se eu vou à Copa, provavelmente o Parma, quando eu retornasse, me trataria de uma outra forma. Alteraria tudo. Para mim é claro e evidente. Então, quando eu olho para trás, eu só olho e agradeço, não tenho nada para reclamar. Daquele menino que nasceu lá em Colombo, nas dificuldades que existiam no final da década de 70, que cresceu como eu cresci na década de 80 vendo tudo acontecer ao redor, e ver o caminho que eu trilhei... Eu só olho para trás e agradeço. Não tenho nada, nada para reclamar; muito ao contrário, só agradecimento.

Quando você chega no Cruzeiro, você imaginava que poderia acontecer o que aconteceu?

– A história do Cruzeiro é meio picotada. Lembrando: vou vendido para o Parma em 2000. O Parma não me utiliza, me empresta para o Flamengo. O Flamengo tem dificuldade, não me paga nada, nenhum real. No primeiro semestre de 2001, eu volto para o Palmeiras. Nesse momento de 2001, o Parma tinha que me pagar e não me paga. Eu vou para a Justiça e ganho uma liminar para assinar com quem eu quisesse. Procuro o Palmeiras. O Palmeiras fala para mim: "Não vou assinar com a liminar para não ter problema", pois eles tinham uma boa relação com o Parma. Falei: "Tá ok". O Carpegiani, que tinha me lançado no Coritiba, era o treinador do Cruzeiro. O Cruzeiro me contrata.

Alex é homenageado pelo Cruzeiro, no Mineirão

Washington Alves/Light Press/Cruzeiro

– Então eu vou para a Copa América da Colômbia como atleta do Cruzeiro, volto e começo a jogar. Só que nesse período, que é o segundo semestre de 2001, o Parma e a Parmalat, através do pessoal da empresa em Jundiaí, cassavam a minha liminar.

"Eu perdi dois jogos do Cruzeiro em que estava pronto para entrar. Chegava o oficial: "Não pode jogar". Eu pronto para jogar, e o seu Benecy Queiroz falava: "Alex, a tua liminar está cassada, você não pode jogar". Aquela loucura"

– Nesse período teve, por exemplo, um Atlético e Cruzeiro em que faço dois gols. Mas quando chego, o Carpegiani cai. O Cruzeiro contrata o Ivo Wortmann, que estava no Coritiba. Os resultados não acontecem, ele sai. Contratam o Marco Aurélio. O Marco Aurélio tinha sido meu treinador no Palmeiras um ano antes. Quando o Marco Aurélio sai do Palmeiras, sai com um papo de que quem tinha pedido a cabeça dele eu e mais alguns jogadores — uma história que nunca existiu, mas que o Marco acreditou. Chegando no Cruzeiro, o Marco carregou essa história.

Em 2001, Cruzeiro empata com o Atlético-MG em 2 a 2 no Mineirão

– E era aquele time do Cruzeiro que ficou famoso, que tinha eu, Rincón e Edmundo. Tem um episódio contra o Vasco em que o Edmundo acaba perdendo o pênalti. O Zezé Perrella fica maluco e dispensa o Edmundo. O Rincón passa a não jogar. Quem sobra nessa história sou eu, e eu vou jogando. Chega no último jogo do Brasileiro de 2001, era Internacional e Cruzeiro no Beira-Rio. O Marco, o treinador, me chama e fala: "Alex, eu não vou te levar para o jogo do Beira-Rio, você pode sair de férias. A única coisa é o seguinte: se apresente aqui no meio de dezembro para fazer os exames médicos, porque a gente conta contigo para o ano que vem". Falei: "Maravilha". Saí de férias.

No dia 4 de janeiro, estou indo para o aeroporto e toca o meu telefone. Era o Eduardo Maluf, diretor do Cruzeiro, falando assim: "Ó, teve uma reunião aqui e o Marco Aurélio não te quer no time". Falei: "Então tá bom, estou pegando o meu voo, vou rescindir o meu contrato". Ele falou: "Não. As pessoas não querem te ver aqui. Manda um advogado, manda um procurador, mas não apareça aqui". Falei: "Tá bom". Desligamos o telefone, eu não volto para Belo Horizonte, vem o meu procurador, rescinde o contrato e eu fico à deriva, sem solução com o Cruzeiro.

Em 2003, Alex se destaca pelo belos dribles e gols pelo Cruzeiro

– Assim. Nisso, a FIFA me suspende por ter contrato duplo: um com o Parma e um com o Cruzeiro. Aí me dá desespero: acabou minha carreira, né? Eu procuro um advogado em Curitiba chamado Augusto Mafuz, e ele fala assim: "Alex, o melhor para resolver essa história é um cara do Rio de Janeiro chamado Marcos Motta". O Motta fala assim: "Alex, fica tranquilo. A FIFA está causando isso para criar um encontro entre você e o Parma na FIFA, em Zurique, para vocês resolverem essa pendência". E o Parma me devia, não pagava.

– Vem a data do encontro: 20 de janeiro de 2002. Eu vou para a FIFA. O Arrigo Sacchi era o diretor do Parma, famosíssimo como treinador do Milan. Nesse momento, era diretor do Parma. Chegamos na reunião, em Zurique, o Parma reconhece a dívida e fala que não pode pagar naquele momento, mas poderia pagar em agosto, oito meses depois. Só que, naquele momento, tinha que dar solução ao meu problema, que era arranjar um clube para jogar. Eu aceito o acordo com o Parma e peço para ele dois dias para resolver onde eu vou jogar.

Alex com Luxemburgo no Palmeiras, em 2002: técnico foi fundamental na carreira do craque

– Ligo para o Felipão. Falei: "Felipão, está acontecendo isso comigo. Para a briga na Copa do Mundo, onde é melhor eu estar?". Ele falou: "Alex, no Brasil. Você vai pegar o início do ano aqui e não vai pegar essa janela de inverno". O Parma queria que eu fosse jogar na Udinese. Eu volto para o Palmeiras, jogo no Palmeiras. Nesse período vem a Copa, eu não vou para a Copa, rescindo com o Palmeiras e volto para a Itália para fazer a pré-temporada. Lá, o Arrigo Sacchi me chama: "Nós queremos te pagar, só que a gente quer rescindir o contrato".

– Quando volto para o Brasil, sento com o seu Juan Figer, a pessoa que cuidava das minhas coisas. Ele falou: "Alex, eu tenho um contrato muito bom para você com o São Caetano". Aí o Marcel Figer, filho do seu Juan Figer, falou: "Cara, tenho uma ideia aqui: vamos ligar para o Mário Sérgio". Mário Sérgio Pontes de Paiva era o treinador do São Caetano. Ligo para o Mário, e o Mário fala assim: "Alex, é o seguinte: eu jogo com quatro volantes e dois caras altos e fortes na frente, não tem vaga para meia. Quem quer te contratar é o dono do time". Aí eu falei: "Mário, obrigado pela transparência, pela sinceridade, mas eu não vou para o São Caetano".

– Aí me liga o Grêmio e me liga o Vanderlei. Eu converso com o Tite e converso com o Vanderlei. O Luxemburgo fala: "Alex, é o seguinte: ninguém quer você aqui no Cruzeiro, ninguém. Mas eu quero você aqui. Eu e as lideranças do time achamos que você pode nos ajudar". A proposta do Grêmio e a proposta do Cruzeiro eram exatamente iguais.

Esposa foi decisiva...

- A família da minha esposa, pelo lado da mãe, é de Porto Alegre. Falei: "Cara, vamos para o Grêmio. Porto Alegre, tua família está lá, nós estamos mal para adaptação, é melhor". Ela falou assim: "Alex, é o seguinte: você não vai jogar com a minha família, vai jogar futebol. O treinador é o Tite, você não conhece o Grêmio. O outro treinador é o Vanderlei, você confia no que ele está falando?". Falei: "Confio". "Então vamos atrás do Vanderlei". Liguei para o Vanderlei, dei ok, voltei para o Cruzeiro em setembro de 2002.

Lembro que a chegada não era unanimidade...

– Quando eu volto tem pesquisa na televisão: "Um desastre essa contratação, não pode contratar um cara desse". E tem uma história que é maravilhosa, inclusive de um amigo meu hoje, que era motorista do Cruzeiro, fazia os serviços de levar e buscar. Ele vai me buscar no aeroporto da Pampulha e, no telefone, está falando com o seu Benecy Queiroz, que era o nosso supervisor: "Ah, o Alex está aqui. Vamos ver se ele joga agora, né? Se ele não rouba o Cruzeiro...". Assim começa a minha história.

Campeonato Brasileiro 2003: Alex, o destaque do Brasileirão (2003)

– Aí eu jogo o Brasileiro de 2002 com um contrato baixinho e vou renovar para 2003. Vou falar com os Perrellas, o Zezé e o Alvimar: "É isso aí. Se você quiser, é isso aí, não tem um real a mais nem um real a menos". E eu falando para o Vanderlei: "Pô, Vanderlei, o contrato é muito baixo". O Vanderlei me deu uma baita empurrada, falou: "Cara, esquece dinheiro. Você já ganhou dinheiro com o Parma. Aposta numa boa pré-temporada, aposta numa boa preparação. Vamos te trabalhar bem, é um Brasileiro diferente. Você tem a chance de recuperar o espaço que está ficando congelado para trás, vamos embora". Aí eu construo a minha história de Cruzeiro até o final de 2003.

Alex e Felipão na Seleção Brasileira: jogador se decepcionou com escolha de treinador para a Copa de 2002

– Toda a minha relação com os Perrellas era muito ruim. No início, eles não queriam falar comigo porque eu estava lá só pelo Vanderlei. Quando eu me torno capitão do time, me torno a referência técnica do time, aí eles querem falar comigo. Aí sou eu que não quero falar com eles. Então a gente vai se acertar lá na frente. Na verdade, era orgulho dele ferido, e era orgulho meu ferido. No final, a gente se tratou, entramos num acordo ali: "Ó, é bom para vocês, é bom para mim, vamos nos tratar aqui como homens, com respeito", mas não tinha relação.

– Um dos maiores desrespeitos que tive na minha carreira foi a forma como eles me mandaram embora em janeiro de 2002. Eu estava ali por causa do Vanderlei. O Vanderlei, inclusive, usa uma frase que era quase um mantra: "Se o Alex não funcionar aqui, vocês não precisam pagar para ele. Eu mesmo pago do meu bolso". Então eu vim para o Cruzeiro e me transformei no Alex do Cruzeiro pela insistência do treinador, que confiava muito em mim e eu confiava muito nele.

Você acha estava pagando por aquela coisa do "Alexotan"?

– Isso começou no Palmeiras. Começou ali com o Dalmo Pessoa, com o José Simão. O Simão, com esse humor dele, fazendo as brincadeiras na rádio e tal, e o Dalmo Pessoa levou para a televisão, e pegou. Ligaram o meu nome com o nome do ansiolítico ,e a coisa ficou. Realmente eu era muito irregular, só que naquele período que te falei lá no início, entre 95 e 98. Porque quando entrou 99, de 99 para frente, a minha carreira foi regular. E mesmo ali entre 95 e 98 eu era um jogador importante, só que a crítica vinha nesse sentido.

Alex, em ação pelo Cruzeiro

– Nessa época do Cruzeiro, não tinha nada a ver com isso (apelido de Alexotan). Chegava a ter programa dessas rodas de discussão de manhã, na hora do almoço, à noite... Rádio pra caramba. No Palmeiras devia ter sete, oito setoristas. Quando eu subo no Coritiba, tinham sete setoristas. Só que era uma relação direta. O que eu tive que falar para o Dalmo Pessoa, eu falei para ele. O que o Dalmo tinha que falar, ele falou para mim. O que algum repórter com quem tive problema falou para mim, eu falava para ele. Hoje em dia, não: essa relação humana se perdeu um pouquinho, seja ela de elogio, seja ela de crítica.

– Eu sou de um período em que, por exemplo, vi o seu Armando Nogueira e agradeci pelo que ele tinha escrito. Eu vi o Tostão e agradeci. Lembro de uma época... Hoje o PVC está de novo, mas na época o PVC escrevia uma coluna gigantesca, só que o PVC escrevia e estava no clube, na beirada do campo. Hoje o cara não entra mais no treino, não acessa mais o treino. Então as relações mudaram bem. Mas eu nunca tive problema com isso (Alexotan).

Cruzeiro 2 x 1 Palmeiras: Alex marca gol e é vaiado em despedida do Cruzeiro

E a família?

– A família sofreu, mas fazia parte. Eu lidava porque sempre pensei: "Aquele cara está me criticando; se eu der uma bola para ele, talvez ele não saiba o que fazer com a bola". Porque eu sempre tive isso comigo: jogar futebol é muito difícil e é para pouca gente.

Em 2002, Palmeiras vence o São Paulo por 4 a 2 no Morumbi com gol de placa de Alex

– Eu tinha um amigo que foi jogador de futebol, foi treinador e depois foi cronista esportivo em Curitiba, chamado Dionísio Filho. Era um negrão gigante, devia ter uns 1,90 m, ex-lateral-esquerdo que jogou nos clubes de Curitiba, jogou no Internacional, no Atlético-MG... Ele tinha tido uma carreira legal, importante. Eu, criancinha ali com 12, 13 anos, ouvia — era apaixonado pelos caras que tinham jogado —, ficava ouvindo e ele falava assim:

"Se fosse fácil, 50 mil jogavam e 22 batiam palma. É o contrário: isso aqui é para pouca gente, pouca gente aguenta isso". E eu cresci ouvindo isso.

– É óbvio que você não gosta de ser criticado, ainda mais de maneira pejorativa, mas eu pensava comigo: quarta-feira tem de novo, domingo tem de novo, quarta de novo, e vamos embora. E as coisas iam acontecendo.

Uma coisa que você revelou no livro foi aquela crítica do Galvão, em que seu pai se sentiu mal. Você tirou a limpo isso com ele?

– O Galvão era um canhão. Hoje em dia não mais, porque as coisas proliferaram, são diferentes do que eram na década de 90 e 2000. Mas o que o Galvão falava numa transmissão de jogo da Seleção Brasileira tinha uma força muito grande. Já falei com o Galvão, sim, foi tranquilo. Tive com o Galvão num jogo de Champions League e num prêmio de Fórmula 1 que fui assistir a um treino em Istambul, e ele estava lá para transmitir a Fórmula 1.

Alex na Turquia

Marcos Eduardo Neves

– Eu não culpo o Galvão. A força do Galvão causou aquela situação, mas provavelmente meu pai teria tido qualquer problema em outra situação. Eu relato isso, mas nunca apontei para o Galvão porque, particularmente, não acredito nisso. Mas a força que ele tinha das críticas e também dos elogios era fortíssima, porque ele era um ícone da imprensa nacional e tinha muita força.

Em 2003, quais são as melhores lembranças que você tem? Foi o maior ano da carreira?

– Acho que do brilhantismo, de coisas plásticas, com certeza. Porque foi um ano todinho, né? Não lembro de um jogo em que eu tenha jogado mal.

E ali, pelo que passou antes no Cruzeiro, você foi movido a...

– Pela raiva, pela raiva. Tem uma história maravilhosa no meu primeiro dia de Cruzeiro, já em 2002, quando tem essa pesquisa na TV em que dá mais de 80% de reprovação. Eu passo o dia na Toca da Raposa fazendo os exames e volto para o hotel em que a gente se hospedou no início, até achar o apartamento. A minha mulher me entrega uma lista: "Fulano da TV Bandeirantes...". Não sei como é hoje, mas na época Belo Horizonte tinha esses programas esportivos no horário do almoço um seguidinho do outro. Ela falou assim: "Fulano da TV Bandeirantes falou isso, isso e isso; esse aqui, vagabundo, falou isso, isso e isso; esse aqui não vale nada, falou isso e isso. Guarda para você. Toda vez que você for treinar, você lê o nome desses caras, porque você vai ter 15, 20 chances no Mineirão de calar a boca deles". Então, eu sei quem são todos.

"Eu aprendi uma coisa com o Zico, que é uma frase que carrego para sempre: "Tenha memória e tenha paciência". Então eu não tenho raiva de ninguém, mas a minha memória funciona muito bem"

Eu lembro quem era quem, quem falava o quê, por que falava aquilo. Então fui, com certeza, impulsionado pela raiva dos Perrellas, por essa raiva... Porque eu sabia que era bom jogador. Aquilo que os caras estavam pintando era uma merda de um jogador, ninguém fazia questão de entender o que tinha acontecido. Quando eu vim para o Cruzeiro, vim com um problema com a Justiça. Eu me comportei bem no Cruzeiro. Quando dava para treinar, eu treinava; quando dava para jogar, eu jogava. Eu só não treinava e não jogava quando era proibido pela Justiça, o que o Cruzeiro e os Perrellas sabiam, os treinadores sabiam. Só que ninguém fazia questão de discutir aquilo, e eu fui levando. Com certeza 2003 tem essa marca.

Nesse ponto ter vencido o Flamengo na final teve um gosto diferente por ter passado muito rápido por lá?

– Não, porque o Flamengo foi sincero. O Flamengo fez um acordo comigo e cumpriu. Eu não recebi no período em que estive no Flamengo, e aí o problema do Flamengo não era comigo: naquele momento, o Flamengo estava uma bagunça. Não era comigo, eu era mais um dentro daquela bagunça. Quando enfrento o Flamengo em 2003, olho para o Flamengo e agradeço por ter jogado lá, para mim foi um prazer. Infelizmente foi num momento delicado, ruim do clube. Eu fiquei 46 dias no Flamengo, não é que joguei um tempão. Fiquei 46 dias, o que para mim foi prazeroso, mas infelizmente em termos de resultado e rendimento as coisas não foram boas.

Baú do Esporte relembra show de Alex, pelo Flamengo, contra o Corinthians

– Mas dos momentos, eu faço um gol em Nova Lima contra o Villa Nova, no Campeonato Mineiro, antes da final. Faço um gol bonito e subo no alambrado. É a primeira vez que comemoro com o torcedor, porque antes eu comemorava o gol ali dentro do campo, com os jogadores. Nesse dia, eu vou para o alambrado, subo no alambrado — coisa que poucas vezes fiz na minha carreira.

Tinha um diretor chamado seu Fausto, que cuidava dos meninos da base e vivia ali sempre com o time principal, porque o Vanderlei se utilizava muito dos meninos. Eu lembro que, no dia seguinte, ele falou: "Cara, talvez agora tenha quebrado essa barreira entre a relação passada para a relação que vai surgir agora. Talvez crie uma relação entre o Alex, o 10, o capitão do time, com o torcedor, porque você fez um gol bonito, subiu no alambrado, fez festa, tomou o cartão amarelo". E realmente ele tinha razão, a coisa seguiu.

Em 2003, Cruzeiro vence o Villa Nova pelo Campeonato Mineiro

– Aí teve um Atlético e Cruzeiro em que faço dois gols... Aí vem a Copa do Brasil, faço gol na final da Copa do Brasil no Maracanã. Três dias depois, dou o passe para os três gols do nosso time: a gente ganha com três passes meus, uma festa lindíssima no Mineirão. E depois veio o Campeonato Brasileiro. Mas esse dia do Villa Nova, para mim, é marcante, porque um senhor mais velho falou: "Alex, abra o teu coração, deixa qualquer coisa de lado, porque você tem a chance de criar uma relação muito boa com esse torcedor". O que, ainda bem, acabou acontecendo.

Alex faz de letra no empate entre Cruzeiro e Flamengo, no primeiro jogo da decisão de 2003

Qual foi o gol mais bonito?

– O gol mais bonito em 2003 foi Cruzeiro e Fluminense, no penúltimo jogo do Campeonato Brasileiro — já éramos campeões. Era um jogo festivo, a gente sai perdendo para o Fluminense, mas a gente vira. Em termos de dificuldade de execução, foi o gol mais difícil que fiz na minha carreira. Mas foi um ano de gols muito bonitos: teve o gol contra o São Caetano na estreia, o gol no Flamengo, o gol no Villa Nova, o gol no Tupi... Tiveram vários, foi um ano de gols muito bonitos.

Cruzeiro vence o Fluminense por 5 a 2 no jogo da entrega da taça em 2003

Você era um jogador de grandes passes. Dener tinha frase famosa de que drible bonito podia ser mais bonito que um gol. Você tinha isso com o passe?

– Gol é gol, é muito difícil fazer gol. Por exemplo, nesse ano no Cruzeiro, dou uma assistência para o Marcelo Ramos que, quando fecho o olho, ainda lembro dela. Foi o quarto gol, estava 3 a 2 para nós. O Atlético-MG faz 2 a 1, eu empato em 2 a 2. A bola sai no meio-campo, entro pelo lado esquerdo, acho o Deivid e o Deivid faz o gol — que, se fosse nos dias de hoje, provavelmente não valeria, acho que o Deivid estava um pouquinho na frente, impedido. O lance segue, o Atlético tenta nos empurrar para trás para tentar o empate, e a gente entra num contra-ataque e me posiciono de costas, só que o Atlético estava todo exposto. Faço um movimento de ameaçar devolver de quem veio e toco de letra para trás. O Neguette, que está marcando, não consegue ter a mesma velocidade de raciocínio e vem para o meu pé esquerdo. Quando ele vem para o meu pé esquerdo, a bola entrou no direito do Marcelo Ramos que, como não perdia, entra e faz o gol da vitória. Então é um ano em que as coisas aconteciam como num conto de fadas.

Cruzeiro vence o Atlético-MG, por 4 a 2, no Campeonato Mineiro de 2003

Trabalho no Athletic e planos da carreira

Na vida breve ainda de treinador, você está o quarto time profissional. Pensa que vive em fases nessa nova etapa?

– Penso que tudo é fase. Comecei no sub-20, pego uma equipe de Série B que me deu a chance, que foi o Avaí, ao qual agradeço muito. Depois acabo indo para a Turquia, para um time menor, o que foi uma experiência muito boa. Depois volto para o Operário e cumpro bem aquilo que combinei com os caras — porque esse, para mim, é o principal, aquilo que falei aqui: discurso versus ação. Aquilo que combinei com o presidente, o Batata e o Júnior no primeiro dia, cumpri à risca. Aí acabo saindo, venho para o Athletic e estou conseguindo cumprir bem aquilo que foi o acordo com quem me contratou. Vamos seguindo passo a passo.

E qual é o combinado no Athletic: subir ou não cair?

"O combinado é permanecer e colocar os jovens jogadores para ter minutagem, para que se mostrem e, quanto mais o clube puder fazer negócio. Este ano já fizeram dois negócios. A gente está conseguindo competir bem com todos os times, então está tudo dentro daquilo que foi combinado"

Mas isso acaba provocando que você perca jogador ao longo do percurso, não?

– Mas como treinador, para mim, tem sido muito bom. Eu começo um time com dois gigantescos: Ronaldo e Braga. A diretoria me fala: "O Braga você só pode usar na Copa do Brasil, porque o contrato dele vai vencer e nós não vamos entrar num acordo". Eu sento com o Braga, e o Braga também me fala: "Alex, vai chegar o meu momento de sair. Mas, se você quiser me utilizar, estou à disposição". Falei: "Não, eu preciso de você". Vou sempre agradecer: o Braga tem um profissionalismo absurdo, nos ajuda muito. Só que tinha uma característica única: 1,90 m de altura, 90 kg, sustentava muito a bola. Ele sai, tenho que reconstruir com outro. Aí o Ronaldo, centroavante, mesma coisa: 1,90m, fortíssimo, uma explosão absurda. Começa a Copa do Brasil e a Série B fazendo bem, tendo coisas boas. Infelizmente, tem uma lesão de joelho e não contamos mais com ele. Aí tira o Ian daqui, põe o Ian um pouquinho mais para a frente, põe o Ian de centroavante... A coisa se ajeita.

– Na hora em que a coisa está ajeitadinha, que a gente consegue trazer um atacante para o lugar do Ronaldo (porque a janela se abriu) para construir aqui de novo de outra forma, o Ian acaba indo para a Europa. Vamos de novo. Mas o mais legal é o seguinte: de novo, o discurso versus as nossas ações e a gente está sendo competitivo. Acredito que vamos acabar o ano sendo bem competitivos, até o final do Brasileiro.

Você faz planos? Essa nova vida também te mostrou como é o sabor da demissão.

"Minha projeção é olhar a semana que vem, no futebol não existe isso: é o jogo de hoje e o próximo jogo, e assim por diante. A minha vida esportiva mostra que não dá... Eu nunca imaginei ir para a Turquia, por exemplo, nunca passou pela minha cabeça. E fiquei lá nove anos. Então não dá, eu particularmente não projeto nada"

– Mas, por exemplo, no Avaí, eu sabia que ia cair (ser demitido). Eu estava em banho-maria: se vai ser amanhã ou depois, eu sabia que ia cair porque os resultados não eram bons e o time não conseguia render. Existe uma pressão natural, e vamos entender: não era eu, era o contexto do clube. Mas troca a figura do treinador e vamos embora. Depois trocaram mais vários, que é o que acontece no cotidiano do futebol. Então eu já sabia mais ou menos: era questão de em que momento vai acontecer, mas vai acontecer.

Alex no Avaí: "Sabia que ia cair (ser demitido). Eu estava em banho-maria"

Fabiano Rateke / Avaí F.C.

– Na Turquia, eu achava que não, mas caí, não tinha nem imaginação. Por quê? Porque os resultados estavam dentro daquilo que todo mundo imaginava, era uma relação tranquila. Mas os caras se reuniram e acabei saindo.

Você tinha uma diretoria partida lá, né?

– Sim, eram três presidentes... Particularmente, nunca vi. E o mais louco é o seguinte: as realidades vão te mostrando depois o que acontece. O Antalyaspor acabou caindo. Aquele meu período no Antalyaspor talvez nos últimos anos tenha sido o melhor período. Os gestores, as coisas foram seguindo, acabou acontecendo a queda e hoje estão jogando na segunda divisão.

– No Operário, eu caio por causa de uma semana. No ano passado, a gente fez aquilo que era para fazer, o combinado. Aí a gente vai discutir de novo a perspectiva: "Ah, poderia ganhar mais, poderia perder menos", aquela coisa toda, mas é uma perspectiva individual. O que foi combinado foi cumprido. Quando começa o campeonato, qual era a ideia do Operário? É dito no primeiro dia pelo presidente: no mínimo, semifinalista do Campeonato Paranaense, ir aonde conseguir na Copa do Brasil e montar um time para o acesso. Em uma semana ,eu perco para o Londrina, empato com o Maringá, perco para o Athletico e perco para o São Joseense. Caio em uma semana — dez dias, na verdade, do dia 7 ao dia 17. Aí o Operário se reúne e fala: "Cara, temos que mudar a rota aqui", e acabo sendo demitido. Então depende: uns eu esperava, outros não esperava. Outros é uma decisão... Essa do Cruzeiro (quando jogador), da dispensa de atleta, eu não esperava, mas fui dispensado.

Mas é uma situação diferente de jogador e treinador?

– A vida de jogador é diferente da vida de um treinador: os contratos são montados de maneira diferente. O jogador, muitas vezes você tem uma expectativa com ele e leva mais tempo; treinador não precisa, o treinador precisa ter resultado. Se não tiver resultado, acaba trocando, isso é inevitável. É uma cultura nossa que dificilmente vai mudar.

"Se o resultado não acontecer, você acaba sendo demitido. Como treinador, você começa a entender e encarar com naturalidade"

A formação na base

Você passou pela base do São Paulo. Como vê a formação de base e como acha que isso tem influenciado nos maus resultados, até da Seleção?

– Esse tema merece um programa de discussões maravilhosas. Primeiro ponto é entender o que a gente quer da nossa base. Segundo, a gente está formando para quê? Para o nosso time principal ou para o mercado? Porque, na base, você tem que olhar o momento da base. Falar de um menino de 20 anos é diferente de falar de um menino de 13. E, às vezes, o menino de 20 que é bom talvez fosse a quarta opção quando tinha 14. Então é um caso bem difícil de discutir. E aí depende muito, de novo, dos gestores: o que os gestores querem? Só que os gestores mudam a todo momento, treinadores de base mudam a todo momento. Como é que esses meninos vão absorver, que tipo de atletas vão chegar em cima? Esse é um tema bem delicado que, na ponta final (que são as equipes principais e a Seleção Brasileira), faz falta.

– A gente também não pode generalizar. Por exemplo, o Palmeiras: no meu período, para o Palmeiras pôr um menino do sub-20 era uma briga; hoje é natural, os meninos sobem e vão jogando. Por quê? Porque o Palmeiras atual, quando começa lá com o Paulo Nobre, depois vem o Maurício (Galliote) e agora a Leila (Pereira), e depois começa com o Luxemburgo e vem com o Abel... Com a chegada do João Paulo na base, eles começam a ter uma relação, se torna um só. O sub-11 do Palmeiras e o principal têm uma linha ali.

"Tem clubes em que o treinador do principal não conversa com o treinador do 20; tem clubes em que o gestor do principal não conversa com o gestor da base; tem gente do principal que não sabe que teve jogo do 20. É uma série de situações, e colocar isso no mesmo pacote, todo mundo na mesma panela, acho errado. Mas é um tema que merece nossa atenção e nosso cuidado"

– Para mim, o principal é isso: a gente está formando para quê? Para jogar nas equipes principais ou para poder vender? E uma outra coisa que a gente discute pouco é a transição no momento em que o menino sai da base para jogar no principal, porque são dois esportes diferentes: futebol de base e futebol de equipe principal. Essa transição, que tipo de cuidado a gente vai ter? Porque hoje entra no gestor: às vezes o gestor prefere um jogador sul-americano mais barato do que um jogador de base com quem você vai precisar ter um pouquinho mais de tempo. Já peguei gestores que falavam "não quero menino no meu time, só quero o cara mais velho", e outros "prefiro o menino do que os mais velhos". Depende muito de quem dirige, por isso a gente tem que pegar clube a clube para não colocar todos na mesma discussão.

E como é a sua relação com os gestores?

– Eu não tive problema, mas sempre coloco o que penso. Às vezes você não consegue executar o que pensa, mas coloco aquilo que penso, com certeza, porque acho que é o meu papel. Mas, de novo: acima de mim existe um cara que gere o clube, que manda no clube, e as decisões são tomadas pelo clube. O Athletic, por exemplo: é evidente, eu falei no início do ano: "cara, nós temos dificuldades com os zagueiros, a gente precisa de zagueiro". Eles falaram: "Não, tem o Índio, tem 18 anos, pode pôr para jogar. Vai errar, vai fazer um monte de coisa, mas pode pôr para jogar, que é o que a gente precisa". Se o Índio estivesse em outro clube, talvez não jogasse. Procuramos jogadores jovens de outros clubes e os outros clubes não nos emprestaram: "Ah, não, nós vamos utilizar aqui". Aí você continua olhando o outro clube: o menino não joga, o menino não participa do banco. Mas o clube lá tomou essa decisão, não nos ajudou e ainda atrasou o lado do menino. Mas é quem manda, né? Quem manda toma as decisões.

Como treinador, você sofre? A cabeça ferve muito, dorme bem?

– Não, eu durmo bem, durmo bem. Até porque criei uma rotina: treino para cuidar da minha saúde, procuro me alimentar bem e procuro dormir bem. Porque vai queimar a cabeça. Vai queimar a cabeça porque você precisa ter soluções, precisa achar soluções dentro do teu time. Se o teu time estiver ganhando, você vai manter o time, mas tem que manter a rapaziada que está fora num nível alto, porque eles têm que brigar para ter espaço no time. Se não está bem, que tipo de mudança você vai causar? Eu queimo a cabeça, tem a equipe lá da comissão técnica com quem a gente discute muito futebol. Procuro manter um nível de sanidade para ter tranquilidade para dar soluções nas coisas que vão acontecer. Porque o problema é uma pergunta que está atrás de resposta, e são diárias, acontecem todos os dias.

Você já deu inúmeras entrevistas, já falou sobre muita coisa. Existe algum tema que você sempre teve vontade de falar e nunca foi perguntado?

– Acho que só bebendo cerveja no bar para a gente saber. Mas não sei, cara, eu respondo, não tenho muita preocupação. Acho o seguinte: o repórter, um torcedor ou alguém curioso quer saber alguma coisa. Se eu tiver uma opinião definida sobre aquilo, eu passo; se não tiver, falo "cara, desculpa, mas não". No meio em que nós vivemos, nessa bolinha do futebol, as coisas são muito parecidas, muito semelhantes. Tem aquela brincadeira: "Pô, o cara só responde a mesma coisa", mas também só vem a mesma pergunta. Se você for pesquisar, for buscar, as perguntas e as respostas sempre são semelhantes, se parecem.

Você falou de beber uma cerveja... Você bebia quando atleta?

– De vez em quando. Perto de alguns que conheço, eu não bebia nada (risos). São seres humanos, cara. Tem cara que adora festa, tem cara que adora uma bebida, tem cara que bebe menos, tem cara que se cuida na alimentação, tem cara que é mais solto, tem cara que é mais preso. A grande dificuldade que a gente tem quando olha para um jogador de futebol é enxergar nele algo que ele não é. Ele é um ser humano que, por enquanto, está jogador de futebol, está dentro do futebol. Mas ele poderia ser repórter, poderia ser delegado, poderia ser qualquer outra coisa que quisesse ser. Só que sonhou quando criança em ser jogador de futebol, está realizando o sonho dele. Mas, no meio disso, ele tem namorada, tem mulher, tem família, tem a família da esposa, tem amigos, tem inimigos, tem os haters dele... Então são seres humanos com problemas, alegrias e tristezas como todo ser humano.

Todo jogador começa muito cedo. Tem um monte de carência: carência de se divertir, carência de família... Você vê isso hoje?

– Mudaram os estímulos, porque hoje a velocidade da tecnologia te traz sensações que no meu período não tinha. Eu, por exemplo, nunca joguei videogame na vida, preferia jogar carta e jogar sinuca. Eu era um moleque que acabava o treino e ia para a rua jogar vôlei; se tivesse alguém brincando de outra coisa, ia brincar de outra coisa. Hoje, não: hoje tem vários joguinhos no celular. Para ouvir uma música, você tinha que ir ao aparelho, ajustar, escolher uma rádio, pôr uma fita cassete ou pôr um CD, um DVD. Hoje você baixa o aplicativo de música, tecla o nome de quem quer — às vezes grátis, às vezes pago — e vai embora.

– Se eu quisesse uma chuteira, precisava ir a uma loja, precisava saber se tinha o meu número, se tinha a chuteira que eu gostava para poder comprar. Hoje você tecla no celular, escolhe a loja e a loja te entrega em 24 horas na tua casa. A velocidade dos acontecimentos parece um facilitador, mas, se você não controlar, fica preso a isso. Mas ainda tem gente hoje que guarda o celular e vai pescar, tem jogador que adora fazer isso, membros de comissão técnica que adoram fazer isso. Outros adoram ficar no computador o dia inteiro. Acho que é uma realidade individual e cada um leva da maneira como acha melhor.

A profissionalização da base tem pontos positivos, mas quando a gente vê meninos muito novos tendo jogos transmitidos, muita foto, vídeos... Você acha que acabam se perdendo pela vaidade?

– Acho. Por exemplo, vejo gols de meninos de 9, 10 anos que criam uma repercussão absurda. Eu fiz vários desses quando criança e não está gravado, não lembro, ninguém falou. Não lembro de ninguém me elogiando porque fiz um gol no sub-12, não lembro do meu pai faltando ao emprego para ver um jogo meu no sub-12. Hoje tem. Jogo dos meninos quarta-feira, às 15h, e os pais estão lá vendo o jogo. Está cheio de agente do lado de fora, tem o cara que filma para fazer o vídeo dele... É uma maneira precoce de colocar algo para um menino que, talvez aos 18 anos, tenha uma lesão, uma dispensa ou faça uma escolha que atrapalhe uma possível carreira. Ele vive uma ideia profissional desde os 12, 13 anos.

– Mas, de novo, é a velocidade da tecnologia: o menino faz um gol lá no Pará ou no Rio Grande do Sul e em poucos minutos vai cair no algoritmo de alguma rede social e você vai enxergar. Esse menino vira o famosinho do momento e talvez daqui a um ano ele não exista mais, porque é uma criança que está crescendo. É algo que a lei brasileira de alguma forma tinha que proteger, porque envolve muita coisa: exposição, parte financeira... Essa velocidade tecnológica acredito que atrapalha bastante.

Alex hoje comanda o quinto clube na carreira, que começou em 2021 na base do São Paulo

– Sempre digo para os jogadores: a alegria do jogador é o sentimento do jogo, e pouco importa se é positivo ou negativo. Você tem que viver o jogo no dia em que deu um passe, no dia em que fez um gol ou no dia em que o teu passe entrou errado e você tomou o gol, no dia em que chegou um pouquinho tarde e foi expulso. Mas isso é um sentimento teu, você está vivendo aquilo. Você ganhou ou perdeu: está feliz porque ganhou hoje, está muito chateado porque perdeu... Essa coisa que existe por trás é enganosa. Para raridades, exceções das exceções, vai ter isso durante a vida toda profissional; para outros, talvez seja um momento único que crie uma ilusão absurda.

– E não tem nada a ver com o esporte, tem a ver com o ser humano de novo. Tem gente aí que vive de um assistencialismo do governo, não consegue ter o seu emprego formal ou uma renda, e esse dinheiro do assistencialismo ele próprio coloca em aposta... O mundo vai adoecendo. É algo em que a gente tem que ter controle para que não fique pior, porque hoje a gente vê muito dessa loucura: se torna um vício pesado, muitas vezes doentio, e é algo sobre o qual a gente tem que ter muito controle dos envolvidos. Porque, de novo, o jogador é um ser humano.

Você já viu jogadores apostando?

– Já vi jogando e já vi como treinador. É perigoso. A gente conversa, a gente alerta. Como treinador, vi um jogador com problema com agiota devido a jogos — não eram jogos de bets, mas jogos em que ele precisava de dinheiro emprestado nessa agiotagem, e passa a ter problema com esse agiota. De novo: "Ah, é o jogador de futebol". Não, é o ser humano. Problemas iguais a esse deve ter em várias outras áreas e funções.

– A gente vai descobrindo porque vai convivendo com o cara. Quando você convive muito no futebol, começa a vivenciar o dia a dia do cara: o casamento, as relações com pai e mãe, relação com amizades, relação financeira... Em um dado momento, chega até você. E aí você tem que ter uma tranquilidade — até porque sou mais velho que os jogadores — de sentar, discutir e ter um melhor encaminhamento para aquilo.

Atendimento psicológico hoje é mais importante hoje do que antigamente?

– Acho que já era importante antes e hoje muito mais. Hoje tem profissionais efetivos para a área esportiva. O meu clube tem. É importantíssimo que o jogador acredite nisso, porque esse é o primeiro ponto: o jogador tem que acreditar nesse potencial de trabalho. Mas, para mim, é vital. Acredito bastante nessa área.

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