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Eduardo Barroca elogia legado de Abel Ferreira, alerta sobre redes sociais e rejeita "resultadismo"

Entrevista com Eduardo Barroca, ex-técnico do Botafogo e CRB

ge — Futebol · 2026-08-28T20:10:01.000Z

Entrevista com Eduardo Barroca, ex-técnico do Botafogo e CRB

Eduardo Barroca é daqueles treinadores que se recusam a sacrificar convicções em nome do "resultadismo". Ele tenta priorizar a qualidade de jogo em seus trabalhos, mesmo sob pressão por vitórias. Após deixar o CRB, onde teve a passagem mais longeva da carreira - por volta de um ano e três meses -, Barroca concedeu entrevista exclusiva ao ge e mergulhou nos bastidores do mercado de treinadores no Brasil.

Ele elogiou o trabalho de Abel Ferreira à frente do Palmeiras como referência de estabilidade e classificou o peso das redes sociais na escolha de comandantes como um risco para o futebol. Barroca também disse recusar propostas que priorizam o resultado imediato já na primeira conversa com dirigentes e citou o trabalho de Guanaes no Mirassol como exemplo de um projeto bem desenvolvido.

O ex-técnico do CRB admitiu certa preocupação com os efeitos do aumento do limite de jogadores estrangeiros no futebol brasileiro, e diz ter ouvido de um presidente de clube que a medida, mais do que uma decisão esportiva, é uma resposta à concentração do poder dos empresários sobre o mercado de atletas.

Eduarod Barroca em entrevista ao ge

- Nesse debate que eles tiveram, entre os presidentes, entenderam que o mercado tinha um domínio dos empresários sobre uma quantidade pequena de jogadores brasileiros disponíveis. Isso fazia com que os empresários inflacionassem os salários.

A decisão de abrir espaço para o mercado externo pode ter funcionado como forma de reduzir essa dependência. Mas o efeito colateral, segundo Barroca, é o menor espaço para jogadores da base.

- Eu não tenho 100% de convicção se isso tem um efeito mais positivo do que o prejuízo que se tem da falta de espaço para os jovens jogadores, mas algum efeito colateral a gente vai ter.

Barroca explica aumento do limite de jogadores estrangeiros e consequências da decisão

Legado de Abel no Palmeiras

Para Eduardo Barroca, a chegada das SAFs e a globalização de conhecimento explicam casos raros de continuidade no futebol brasileiro, como o do Palmeiras, que mantém Abel Ferreira no cargo há quase seis anos. Segundo ele, essa estabilidade vai além do comando técnico. Isso envolve também o corpo funcional e jogadores-referência, caso do goleiro Marcelo Lomba, que mesmo sem tantos minutos de jogo segue relevante para transmitir a cultura do clube a jovens da base e a reforços que chegam. Para o treinador, isso reflete inteligência esportiva e um trabalho de sequência que ele espera ver se espalhar por outros clubes do país.

- Eu cito o Palmeiras que tem um treinador estrangeiro e que faz um trabalho espetacular. Não tenho a menor dúvida de que é o melhor trabalho do futebol brasileiro em todos os sentidos: pelas conquistas, pelo legado, pela continuidade, pela oportunidade que dá aos jovens jogadores, pela integração que se tem do futebol profissional com o futebol de base, por ser um clube tão gigante e claramente ter uma blindagem política muito clara. Eu acho que o projeto de futebol do Palmeiras deve ser debatido com uma profundidade muito grande para o bem do futebol brasileiro.

Barroca elogia Abel e pede debate profundo do projeto do Palmeiras para o bem do futebol

Barroca também destaca o cuidado de Abel Ferreira em documentar sua trajetória em um livro, onde detalha a análise de cada jogo, os problemas enfrentados e a gestão da comissão técnica. Para ele, essa é uma referência rara em uma categoria profissional que, em sua visão, costuma desperdiçar as oportunidades em grandes clubes ao não deixar um legado escrito às próximas gerações.

- O livro dele é uma grande referência para todos nós, porque ali ele compartilha detalhadamente como pensou cada jogo, cada problema que teve, cada decisão que teve que tomar, e como geria a comissão técnica dele.

Abel Ferreira autografa o seu livro para funcionários do Palmeiras

Mercado interno e troca de informações entre treinadores

Para Eduardo Barroca, o principal obstáculo do mercado de treinadores no Brasil é a porta de entrada. Ele defende que dirigentes deveriam explicar publicamente os critérios usados para contratar cada profissional. Segundo ele, isso tornaria o processo mais transparente, já que, na prática, contratações costumam ocorrer por vias distintas: ação pessoal de um dirigente que admira seu trabalho, um pedido dos próprios jogadores ou, por vezes, um processo seletivo mais criterioso. Para o treinador, falta coragem de quem contrata para sustentar escolhas de nomes jovens à frente de clubes grandes.

Barroca lembra que Rafael Guanaes já fazia um trabalho de qualidade no Operário-PR um ano antes de chegar ao Mirassol, mas não era cogitado por grandes clubes naquele momento. Para ele, sinal de que a repercussão de um treinador nas redes, e não sua capacidade técnica ou de gestão de equipe, tem se tornado um critério determinante e perigoso.

O técnico também afirmou já ter recusado propostas de clubes do exterior para seguir no futebol brasileiro. Ele credita a decisão ao aumento de investimento no país nos últimos anos, o que estruturou os clubes e passou a atrair treinadores estrangeiros. Na avaliação de Barroca, este cenário também se reflete nos escassos exemplos de técnicos brasileiros no restante do continente.

- O futebol brasileiro, nos últimos anos, teve um aumento substancial de investimento. Os clubes se estruturaram cada vez mais e isso, inclusive, teve como consequência o interesse de treinadores estrangeiros, que não viam o mercado brasileiro como uma alternativa, e passaram a ver como uma alternativa pelo momento do futebol brasileiro.

Barroca faz reflexão sobre o mercado de treinadores e pede mais encontros entre a classe

Outro ponto levantado por ele é a falta de encontros sistemáticos entre treinadores. Desde 2019, cita apenas duas ou três reuniões relevantes: uma antes da Copa América daquele ano, no Maracanã, e outra no ano passado, na CBF.

Questionado sobre o clima entre os treinadores após a polêmica que marcou o encontro do ano passado na CBF, envolvendo Oswaldo e Leão, Barroca pondera que o episódio acabou ofuscando dois dias de debates sobre temas relevantes do futebol brasileiro, como formação de jovens, arbitragem e combate ao antijogo. Para ele, a saída não é evitar esse tipo de encontro, mas realizá-lo com mais frequência e profundidade, para que produza soluções concretas em vez de ficar marcado apenas pelo desentendimento pontual.

Eduardo Barroca em entrevista ao ge

Outros tópicos da entrevista

Trabalho no CRB

- Foi um trabalho muito especial para mim. O meu trabalho mais longevo. Um trabalho muito legal em todos os aspectos, porque foi um trabalho de construção, que teve bons resultados esportivos e uma conexão muito forte com o torcedor. Acho que a gente conseguiu, dos dois lados, ser feliz nesse período que eu estive lá. Eu fui muito feliz trabalhando no CRB. Fui muito feliz em Maceió. Eu tive uma conexão muito forte com a direção do clube, especial com o presidente do clube. Do primeiro dia ao último, a gente teve uma relação muito profissional, de muita construção e de conexão. E a própria saída do clube, que foi uma ruptura em comum acordo. A gente entendia, tanto eu como a direção do clube, que ali era o momento de oxigenar o trabalho.

- Agora me resta aqui ficar torcendo muito pelo CRB para que brigue até o final pelo tão sonhado acesso à Série A. Vejo o clube em um crescimento muito grande na parte estrutural, investimento em capital humano, investimento em tecnologia, um clube com uma saúde financeira muito boa, um clube que honra os seus compromissos. Para esse tipo de projeto, a gente sempre torce para que tenha sucesso e é um clube que merece muito esse sucesso.

Eduardo Barroca comemora gol de Douglas Baggio contra o Figueirense no CRB

Francisco Cedrim/ASCOM CRB

O que mudou do Barroca de 2019, quando surgiu, para a versão de 2026? Mudaram as concepções de futebol?

- Eu luto muito pelo processo contra o "resultadismo" de qualquer forma. Quando trabalhava em categorias de base ou quando sonhava ser um treinador de futebol de alto nível, sempre entendi que a gente deveria, quando estivesse na cadeira que a gente se encontra hoje, praticar um trabalho que deixasse valor agregado. Obviamente, o treinador de alto nível no Brasil vive dos resultados para que o treinador tenha tempo no clube e para que ele tenha oportunidades em sequência. Mas, eu sou muito preocupado com a qualidade do jogo e o desenvolvimento do jogador dentro do trabalho, mesmo no futebol profissional.

- Sou um treinador que vem das categorias de base e isso a gente tem muito forte, mas continuo entendendo que a nossa missão, mesmo no profissional, é continuar ajudando os jogadores a se desenvolver, continuar buscando um jogo de mais qualidade e sou um treinador que acabo tendo esse rótulo na Série B.

Eduardo Barroca em entrevista ao ge

- Então, é um combate que eu costumo ter. Já tinha lá em 2019, muito pelo idealismo de estar tendo a primeira oportunidade, mas continuo com isso muito vivo dentro de mim, mesmo ao longo desses anos todos. De lá até agora, escutando muitas coisas contrárias a isso. "Você precisa ser mais "resultadista", você precisa jogar de uma forma mais pragmática para conseguir resultados a curto prazo." E eu entendo que dá para se conseguir resultados da forma que eu entendo ser a correta.

Quanto desse idealismo ainda sobrevive?

- Eu tenho que lutar contra isso todos os dias, inclusive comigo mesmo, né? Porque o sistema me empurra para um outro lado. O sistema naturalmente te empurra para o "resultadismo" a qualquer custo. E eu entendo que devo lutar contra isso. Nas oportunidades que tenho, procuro fazer com que as minhas equipes mostrem isso na prática. Em alguns dos trabalhos, isso fica mais evidente. Eu acho que esse último trabalho fica muito evidente com o nível de investimento que tínhamos e com a qualidade do jogo que a gente conseguia entregar dentro daquela realidade.

- Uma outra missão é convencer o jogador que ele é capaz disso, porque nos momentos de dificuldade pela cultura geral, o jogador tende a fazer o mais fácil, o mais simples e o que o exponha menos. Talvez o nosso papel seja protegê-lo para fora, protegê-lo do erro. O Fernando Diniz é um treinador que fala muito sobre isso publicamente: encorajar o jogador a fazer o que é o melhor e não o que é o mais fácil. E eu acho que é um pedaço do nosso trabalho: dar esse encorajamento aos jogadores e assumir todas as responsabilidades necessárias para a órbita externa, que obviamente vai cobrar sempre os melhores resultados.

Eduardo Barroca em entrevista ao ge

Qual a sua análise do mercado de treinadores no Brasil?

- Se debate muito a questão dos treinadores estrangeiros contra os treinadores brasileiros, e eu sou completamente contrário a esse tipo de debate, porque eu entendo que o debate deva ser outro. O debate deva ser que tipo de treinador eu quero pra minha equipe? Que tipo de treinador um dirigente tem interesse de contratar independente da sua nacionalidade. E eu acho que o debate está aí.

- O que me preocupa na questão do mercado é muito mais o motivo das escolhas do que propriamente a questão da competição entre treinadores brasileiros e estrangeiros. Na minha visão, a chegada de muitos treinadores de fora é extremamente enriquecedora para a nossa cultura. A gente consegue observar formas de jogar e de treinar completamente diferentes. É extremamente produtivo quando você consegue criar uma conexão com esses treinadores de fora e eu tenho com alguns deles. Isso traz um enriquecimento cultural do futebol muito boa.

Eles procuram ter esse contato?

- É uma ação muito mais personalista. Eu tenho por hábito procurar consumir aqueles profissionais que eu me identifico, que eu gosto da forma de jogar. Então, eu acho muito positivo que isso aconteça, mas me preocupa, eu recentemente dei esse exemplo. O trabalho espetacular que o Rafael Guanaes faz hoje no Mirassol, ele já tinha feito um ano antes no Operário. O Rafael Guanaes não seria uma opção naquela ocasião para grandes equipes do futebol brasileiro com o trabalho que ele tinha feito no Operário porque, de uma forma geral, os clubes não escolhem os profissionais pela capacidade de jogo que ele desenvolve nas suas equipes ou pela capacitação da sua equipe de trabalho. Muitas das vezes, (é pela) órbita que está nas redes sociais. Isso está sendo bastante determinante e perigoso para o futebol brasileiro.

Qual a maior dificuldade hoje para um jovem técnico brasileiro ascender?

- Eu acho que o maior obstáculo é a porta de entrada. São as pessoas que escolhem terem convicção. Deveriam falar isso publicamente quando contratam os treinadores, o porquê escolheu aquele profissional. Eu acho que isso seria sempre muito elucidativo para todo mundo quando um profissional fosse contratado por um clube, o profissional que contratou falasse publicamente quais competências ele viu naquele treinador e naquela equipe de trabalho para que ele fosse escolhido.

- Já aconteceu comigo de ser escolhido por um clube, por uma ação personalista de uma pessoa que gostava do meu trabalho. Eu já passei por um processo seletivo extremamente minucioso para conseguir chegar no clube. Já fui escolhido por decisão dos jogadores que gostavam do meu trabalho e pediram a minha volta. De uma forma geral, é muito importante a gente atacar esse cenário. Eu acho que esse é o principal ponto.

- Em alguns momentos, a gente percebe que algumas escolhas estão muito mais pautadas na preocupação externa do que propriamente na competência e capacidade do profissional.

Eduardo Barroca em entrevista ao ge

Longevidade no futebol brasileiro

- A gente tem equipes que têm manutenção de treinadores no futebol brasileiro por sete anos. O Palmeiras é um grande exemplo disso. Não só a manutenção do seu treinador, mas de todo o seu corpo funcional, de base de jogadores, jogadores que são referências. Marcelo Lomba é um jogador que está no Palmeiras há muitos anos. Talvez não tenha uma minutagem tão alta recente, mas eu não tenho a menor dúvida que é extremamente importante para estabelecer a cultura do Palmeiras aos jovens que chegam e aos que são contratados.

- Você vê claramente que ali existe inteligência esportiva, ali existe uma sequência de trabalho e a gente percebe que isso está acontecendo em alguns clubes de futebol brasileiro. A gente espera muito que isso se alastre de uma forma exponencial, porque acho que a gente vai ter um ganho muito grande com isso.

Você acha que o poderio econômico do futebol brasileiro, pagando bons salários aos seus treinadores de ponta, fez com que a ida para clubes menores de fora, para abrir terreno, não fosse atrativo para o treinador brasileiro?

- Não tenho a menor sombra de dúvida e falo isso na prática, porque ao longo dessa minha trajetória eu recebi alguns convites de clubes de fora do país e optei por ficar pelo mercado brasileiro. Onde há aumento de investimento, há globalização em qualquer segmento do mundo. O futebol brasileiro, nos últimos anos, teve um aumento substancial de investimento. Os clubes se estruturaram cada vez mais e isso teve como consequência o interesse de treinadores estrangeiros, que não viam o mercado brasileiro como uma alternativa, passassem a ver como uma alternativa.

- Se a gente for comparar, por exemplo, com o futebol sul-americano são poucos clubes na América do Sul que dão as mesmas condições de trabalho que os clubes brasileiros e que dão, de uma forma geral, as mesmas condições financeiras para o treinador e seu staff de trabalho. Então, se você tem a possibilidade de mercado interno, você vai optar por esse mercado.

Eduardo Barroca em Botafogo x Sport

- Então, é muito importante a gente estar atento no que acontece no mercado. Mas isso não é necessariamente uma opção de escolha de buscar o mercado externo. É muito importante a gente debater o porquê. Os porquês do mercado lá fora, os porquês dos treinadores brasileiros ocuparem menos espaço no topo do futebol europeu, como a gente tem se preparado, como são os nossos cursos, como é a nossa preparação sistêmica.

O que você acha que falta?

- Educação de preparação para competir em igualdade lá. Eu acho que o futebol lá é mais globalizado do que o nosso. A cultura do mercado, a forma que se escolhe jogadores é muito mais global do que se faz aqui. Em determinados clubes aqui, muitas vezes essas escolhas são até personalistas dos treinadores. Quando você vai montar um elenco muitas vezes é a sua decisão particular da escolha por um jogador, o que não acontece nos grandes clubes de fora.

Legado do Abel Ferreira

- É importantíssimo falar que ele se preocupou em deixar um legado escrito. O livro dele é uma grande referência para todos nós, porque ali ele compartilha como ele pensou cada jogo, cada problema, cada decisão que ele teve que tomar, como ele geria a comissão técnica dele. Então, assim, também se fala muito da nossa classe, a falta de legado que a gente acaba deixando, tendo as nossas oportunidades em grandes clubes e acabar não deixando tanto esse legado escrito para as gerações que vêm abaixo, eu acho que até nisso ele foi muito feliz em deixar para o mercado. Deixar uma literatura de altíssima qualidade.

Técnico do CRB, Eduardo Barroca lança livro em Maceió

Aumento do limite de jogadores estrangeiros no futebol brasileiro

- Eu tive uma conversa recente com o presidente do CRB e perguntei para ele por que os presidentes tinham permitido essa quantidade de estrangeiros no futebol brasileiro fosse aumentada da forma que foi. E ele me deu uma resposta que eu não tinha pensado, porque eu sempre pensei pelo lado desportivo: aumento de estrangeiros no futebol profissional, menos espaço para jovens jogadores. Isso gera um efeito colateral que, não tenho a menor dúvida, a gente vai pagar um preço em algum momento do lado desportivo.

Eduardo Barroca e Mário Marroquim na coletiva do CRB

Francisco Cedrim/ASCOM CRB

- O próprio sistema de contratação e as críticas externas na porta de entrada inibem esse tipo de ação (aposta em contratações). Sempre foi uma característica do futebol brasileiro, captar jogadores em clubes menores, dar espaço para jovens jogadores. O Grêmio acabou de ter uma iniciativa que é totalmente fora da curva e foi extremamente bem-sucedido. O Grêmio contratou um jovem jogador do CRB, o Wallace, zagueiro, que naquele momento não estava nem jogando de titular. Um jovem jogador que a gente estava promovendo do sub-20 para o profissional. Ele não era nem o protagonista no CRB e o Grêmio fez um investimento nesse jogador. Identificaram que é um jogador que tinha característica do clube e colocou no elenco profissional, deu espaço e esse jogador hoje é titular absoluto da equipe do Grêmio.

- A gente precisa colocar uma lupa nesse tipo de cenário: investimento mais baixo, inteligência esportiva, provavelmente do departamento de mercado do clube, acredito que tenha passado por esse caminho. Coragem em quem escolheu e um treinador casca grossa, que tem coragem e personalidade pra colocar o jogador.

Wallace em campo contra o Mirassol

Lucas Uebel/Divulgação Grêmio

Muitas ligas europeias, que têm uma grande quantidade de estrangeiros, têm ao mesmo tempo regras de obrigatoriedade de inscrição de jogadores formados na base. Você acha que o nosso caminho fosse acrescentar esse tipo de regulamentação?

- Eu acho que esse é um caminho extremamente interessante para reoxigenar o processo, principalmente com relação aos jovens jogadores. Você estabelecer filtros de quantitativo em elenco e de quantitativo dentro de campo. Eu acho que isso seria extremamente positivo, mas eu acho que o debate tem que ser profundo em todas as esferas, de quem escolhe, de quem está na cadeira de treinador e também, muitas vezes, não coloca o jovem jogador porque quer defender o seu resultado, quer apostar num jogador mais maduro, que dá o resultado a curto prazo no limite de segurança. Todo mundo tem responsabilidade nessa história.

Como é a troca de informações entre os treinadores?

- De 2019 até hoje, eu me recordo de duas ou três oportunidades que os treinadores brasileiros se encontraram com intenção. Em 2019 foi antes da Copa América. Todos os treinadores de Série A se reuniram no Maracanã. Ano passado a gente teve um encontro sediado na CBF também com debates sobre a classe. Mas, eu sinto muita falta desse tipo de encontro de forma sistêmica, com pautas pré-definidas para que a gente debata uma série de questões, inclusive da nossa classe, do nosso comportamento na beira do campo, de ações que possam fazer com que a gente tenha ganho na nossa troca de informações.

- A gente deveria fazer isso de uma forma sistêmica, com recorrência e deveria trocar mais informações. Eu, como treinador, tenho muita vontade de acompanhar treinamentos e clubes de perto e que eu não tenho a abertura necessária, porque sistematicamente isso não acontece. Então, vai depender de uma ação personalista minha e do treinador que está do outro lado também receber isso de uma forma positiva e estar aberto a esse tipo de troca de informação.

Como ficou o clima entre os treinadores depois do polêmico encontro do ano passado com as falas do Oswaldo de Oliveira e do Emerson Leão? (relembre aqui)

- Eu acho que muita gente se apegou àquele fato que acabou acontecendo, mas o dia todo se passou debatendo temas extremamente importantes no futebol brasileiro e acabou que a gente não conseguiu dar foco ao que realmente importava. Eu acho que a gente precisa fazer mais encontros como esse, debater o futebol de uma forma profunda para que as consequências desses encontros sejam soluções que elevem o nível do futebol brasileiro. A gente precisa debater isso de uma forma muito direta. Eu acho que esse tipo de encontro é uma grande oportunidade para a gente colocar isso em prática.

O que te afasta de aceitar um projeto?

- Uma conversa na porta de entrada "resultadista" com o dirigente. Se na porta de entrada a conversa caminhar única e exclusivamente para um caminho "resultadista", eu não pego um trabalho. Eu não acredito em vencer de qualquer forma. Eu acredito que os resultados devam vir através de outras coisas e que eu não abro mão de valores, de cultura, de construção.

Trabalho no Mirassol

- Eu acho que o Mirassol conseguiu uma coisa que é muito difícil no futebol brasileiro. Ele conseguiu ter uma cultura própria de trabalho. Ele tem um corpo de trabalho muito capacitado e identificado com o clube. Ele tem uma gestão que sabe muito bem o caminho que quer seguir. E ele encontrou um treinador, que teve uma conexão instantânea. Não é só o resultado do Mirassol. É a forma, o jeito que joga, a intensidade, a conexão dos jogadores com a cidade. Então, acho que isso tem um valor muito grande. Quando o clube consegue esse tipo de cenário, esse tipo de conexão, nunca é uma pessoa, nunca é uma ação personalista. Então, ali existe um conjunto de fatores partindo da sua gestão, passando pelo investimento em capital humano, infraestrutura, a escolha de um treinador extremamente competente, jogadores conectados com o clube e com a cidade.

- Eu acho que para o projeto esportivo ter sustentabilidade é muito importante ter ali uma base de jogadores que representem o clube de verdade. É muito claro que quando você participa de um projeto bem-sucedido, aqueles jogadores que são matrizes, que fortalecem a cultura do clube, ajudam muito. Eu acho que o Mirassol conseguiu isso de uma forma muito exitosa. Então, a gente fica feliz em ver esse tipo de projeto prosperar.

Eduardo Barroca quando era técnico do Mirassol

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